AS AULAS NO CINEMA

XIMENES BELO, UM NOBEL DA PAZ LUSÓFONO



A nossa língua internacional tem presença em todos os continentes do planeta Terra. Está, por sorte, presente em mais de doze países e é oficial em oito. Dentro da série lusófona que estou a dedicar a grandes personalidades da Lusofonia dedico o presente depoimento, que faz o número 117 da série geral, ao Premio Nobel da Paz do ano 1996, natural de Timor-Leste, Carlos Filipe Ximenes Belo, atualmente radicado na cidade do Porto. O presente é o depoimento número cinco da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

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1976. Ximenes Belo, que foi bispo de Díli, capital de Timor, nasceu em Uailacama, concelho de Baucau, perto de Vemasse, no dia 3 de fevereiro de 1948, sendo o quinto filho de Domingos Vaz Filipe e Ermelinda Baptista Filipe. Ingressou no Colégio dos Salesianos de Santa Teresinha em Ossu, concelho de Videqueque a 2 de outubro de 1962, onde completou o ensino básico. Fez os estudos preparatórios no Seminário Diocesano de Díli, e no Instituto de S. João de Bosco em Mogofortes (Anadia). Concluiu o ensino liceal na escola Salesiana de Manique de Baixo de Estoril, onde deu entrada no noviciado a 6 de outubro de 1972 e professou pela primeira vez na congregação Salesiana de Lisboa. Foi ordenado definitivamente a 7 de dezembro de 1976. Frequentou, também, o 1º e 2º anos do Propedêutico no ISET (Instituto Superior de Ensinos Teológicos) no curso de Filosofia. Fez o estágio no Colégio Salesiano de Fatumaca em Timor, em agosto de 1974. A guerra surpreendeu-o em Díli e impediu-o de regressar ao seu colégio, passando para o colégio Dom Bosco de Macau. Em 1980 veio a Lisboa e foi ordenado presbítero por D. José da Cruz Policarpo, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa.

A 25 de julho de 1981 regressou a Timor e em setembro desse mesmo ano foi escolhido para mestre de noviços salesianos. Em 1982 é nomeado diretor do colégio Salesiano em Fatumaca. Em maio de 1983, foi nomeado pelo papa João Paulo II administrador apostólico da diocese de Díli, trabalho que desempenhou de 1983 a 2002, sucedendo ao monsenhor Martinho da Costa. Em 1988, é elevado a bispo de Loreum, continuando como administrador apostólico desta diocese. Vendo que os massacres e o genocídio não paravam, conhecendo bem o pensar da população, apelou em 1989 para o Secretário-Geral da ONU, a sugerir como solução um referendo a todo o povo de Timor-Leste, para conhecer a sua opinião. A partir desta data, Ximenes Belo tornou-se num porta-voz do povo timorense, assim como o seu protetor, dando apoio à causa da guerrilha e continuando a apelar interna e externamente à manutenção da Paz. Estes esforços foram recompensados em 1996, ano em que, juntamente com Ramos Horta, recebeu o Prémio Nobel da Paz, pelo seu trabalho “em prol de uma solução justa e pacífica para o conflito em Timor-Leste”.

O ter sido laureado galvanizou o povo de Díli, numa calorosa receção à sua chegada a Timor. Sempre cuidadoso nas suas opiniões, sobre a questão de Timor-Leste, Ximenes Belo não deixou nunca, no entanto, de expor as arbitrariedades das autoridades indonésias. Em maio de 1998 foi nomeado doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora, e em agosto do mesmo ano o presidente Jorge Sampaio condecorou-o com a Grã-Cruz da ordem da Liberdade. Após a independência de Timor-Leste, a 20 de maio de 2002, a saúde do bispo começou a esmorecer perante a pressão dos acontecimentos que tinha vivido. O papa João Paulo II aceitou a sua demissão como administrador apostólico de Díli em 26 de novembro de 2002. Após se ter retirado, Ximenes Belo viajou para Portugal para receber tratamento médico.

No início de 2004, houve numerosos pedidos para que se candidatasse à presidência da república de Timor-Leste. No entanto, em maio de 2004 declarou à televisão estatal portuguesa RTP que não autorizaria que o seu nome fosse considerado para nomeação. “Decidi deixar a política para os políticos”, afirmou. Com a saúde restabelecida, em meados de 2004 Ximenes Belo aceitou a ordem da Santa Sé para fazer trabalho de missionação na diocese de Maputo, como membro da congregação dos Salesianos em Moçambique. Ximenes Belo é também doutor “Honoris Causa” pela Universidade do Porto, por proposta da respetiva Faculdade de Letras, investido em outubro de 2000, juntamente com Xanana Gusmão e José Ramos-Horta. Atualmente mora na residência dos Padres Salesianos da cidade do Porto e ajuda a dinamizar as publicações Salesianas. Eu tive a sorte de estar com ele em três edições dos b nos Açores (ilha Graciosa), e nas localidades de Montalegre e Belmonte. Ele é um assíduo participante nestes Colóquios, com que amostra o seu decidido apoio à Lusofonia. Ximenes Belo é um perito em línguas, dominando o tétum, português, inglês, italiano e o bahasa indonésio.

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Ademais de ser doutor Honoris Causa pelas universidades de Évora e do Porto (anos 1998 e 2000, respetivamente), também o é pelas de Yale (EUA), Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Católica de Brasília, Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Providence University da Formosa-Taiwan. Pelos seus grandes méritos, ademais do Nobel da Paz tantas vezes citado, recebeu numerosos prémios e condecorações, entre os que podemos destacar os seguintes: Prémio Óscar Romero (Roma, 1996), Prémio John Humphrey (Montreal, 1995), Prémio Della Pace (em Taranto, 1997, e Bari, 1998), Prémio Internazionalle della Testimonnianzia (Calábria, 1998), Prémio Personalidade Lusófona do ano 2010, concedido pelo MIL (Movimento Internacional Lusófono), Grã Cruz da Ordem da Liberdade (Lisboa, 1998) e Grau Colar da Ordem de Timor-Leste (Díli, 2016).

Entre as suas publicações temos que resenhar os livros intitulados Demi Perdamaian da Keadilan, escrito em idioma tétum, publicado em Jacarta em 1997; The Voice of the Voices, publicado na mesma cidade e no mesmo ano; Paz, editado pelas edições Salesianas do Porto em 1998; Díli a cidade que não era, publicado em 2014 pela Porto Editora; Os antigos reinos de Timor-Leste, publicado pela mesma editora em 2013; Missionários Transmontanos em Timor-Leste, editado por Exoterra em 2018; Missionários açorianos em Timor-Leste, publicado no mesmo ano pela AICL, e Cartas Pastorais Anuais de 1993 a 2000.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Biografia de Carlos Filipe Ximenes Belo.

     Duração: 31 minutos. Ano 2018.

     

  1. Bispo Belo em Ermera 1994.

     Duração: 37 minutos. Ano 2013.

     

  1. Intervenção de Ximenes Belo pelo Prémio Nobel da Paz 1996, comemorando os 20 anos.

     Duração: 8 minutos. Ano 2016. Produtora: Universidade de Coimbra.

     

  1. Solidariedade de Ximenes Belo com os prisioneiros de Timor-Leste.

     Duração: 3 minutos. Ano 2019.

     

  1. Ximenes Belo: Conversa sobre a Liberdade.

     Duração: 95 minutos. Ano 2015.

     

  1. A saga do Prêmio Nobel.

     Duração: 27 minutos. Ano 2016.

     Ver aqui.

  1. Timor-Leste independente: Discurso de Ximenes Belo.

     Duração: 4 minutos. Ano 2018.

     

INTERESSANTE DEPOIMENTO SOBRE XIMENES BELO

Em 16 de agosto de 2013 foi publicado no digital “Jornal i” de Portugal um interessante depoimento dedicado a Carlos Filipe Ximenes Belo, que pelo seu interesse tenho por bem reproduzir:

“Depois de Ximenes Belo resignar à diocese de Díli, em 2002, D. Basílio Nascimento, bispo de Baucau, telefonou a um padre de Évora. “Acolhe-o aí, porque ele vai arrasado”, pediu. O Nobel da Paz chegou a Portugal e refugiou-se no colégio dos Salesianos da cidade alentejana. Exausto e doente. “Dizia-se que não dormia e que estaria com um esgotamento”, recorda um outro sacerdote de Évora. O cansaço físico e psicológico foram as razões invocadas por Ximenes Belo quando pediu ao Vaticano para ser afastado da diocese de Díli. Tinha apenas 54 anos e João Paulo II demorou menos de 24 horas a aceitar o pedido.

Nas semanas seguintes, os meios religiosos e políticos de Timor mostraram surpresa, nos jornais do mundo inteiro, com a decisão do bispo – apesar de o seu estado de saúde ser amplamente comentado em Díli. No Verão de 2002, quatro meses antes da resignação, o Nobel da Paz quase desmaiou no meio de uma reunião com D. Basílio Nascimento e o então presidente, Xanana Gusmão. “Tiveram de o segurar porque ele estava a cair como uma folha seca. Disse que não se sentia bem há algum tempo e que tinha dificuldade em dormir”, contou o bispo de Baucau à Lusa em Novembro desse ano. Depois de passar uma temporada em Évora, Ximenes Belo partiu para Moçambique como missionário dos Salesianos. Só mais tarde regressou a Portugal, instalando-se definitivamente numa casa da congregação, no Porto, onde ainda vive.

Aos 65 anos, o bispo e Nobel da Paz – que privou com figuras como Bill Clinton ou Nelson Mandela e cuja voz teve repercussões mundiais – evita o contacto com jornalistas e poucas vezes é visto em público. Segundo o porta-voz dos Salesianos, Ximenes tem-se dedicado à investigação e à escrita e está a trabalhar num livro sobre a história eclesiástica de Timor, pouco documentada por culpa das pilhagens e dos incêndios em Díli – que destruíram quase todo o arquivo histórico. “Tem estado a recolher testemunhos e tem consultado a Torre do Tombo”, adianta o padre João de Brito. Já em Maio deste ano, lançou um outro livro, Dom Frei Manuel de Santo António, que reconstitui a história de um monge dominicano do século XVII com responsabilidades em Timor. Os livros do Nobel foram publicados sem qualquer pompa e circunstância. Provavelmente por vontade do autor – que evita a exposição a todo o custo. No último mês, o i tentou falar com o bispo emérito de Díli por diversas vezes. Ximenes Belo recusou todas as investidas. Mas se há quem estranhe o seu desaparecimento, também há quem recorde que sempre teve um temperamento difícil e reservado. “Nunca procurou a exposição e não estava preparado para aparecer. Talvez nem soubesse lidar com o mediatismo em alguns momentos”, diz um padre da diocese de Évora.

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Ximenes Belo nas ruas do Porto.

Cansaço ou desilusão? Dias antes de pedir a resignação, Ximenes Belo esteve em Portugal. De passagem: tinha viagem marcada para Roma, onde foi recebido por João Paulo II. Antes de partir almoçou com o então bispo do Porto, D. Armindo Coelho. À mesa falou apaixonadamente da situação política e eclesiástica de Timor. Na altura discutia-se a criação de uma conferência episcopal local e o Vaticano queria levar a cabo uma grande reforma das estruturas da Igreja timorense.

A relação do bispo de Díli com Roma já não era a melhor. Foram públicas as discordâncias de Ximenes Belo em assuntos como a representação diplomática da Santa Sé em Timor-Leste. O Nobel aceitava que o cargo fosse entregue ao núncio de Singapura, da Nova Zelândia, da Austrália ou mesmo da Papua-Nova Guiné. Mas nunca ao de Jacarta. Timor, entretanto, tornou-se um Estado laico e o Vaticano – onde a influência diplomática da Indonésia sempre teve grande peso – preparava-se para reestruturar as dioceses e dotá-las de bispos titulares, acabando com a figura de administrador apostólico. Estava prevista a criação de uma nova diocese: Munafai, sedeada em Same.

Culpa das discordâncias públicas e do eco político que Ximenes Belo tinha no mundo inteiro – sobretudo depois de ter recebido o Nobel, em 1996 -, muitos membros da Cúria não o queriam à frente de Díli. “Não o desejavam naquele papel, talvez pela forte intervenção política e social que tinha à data. Era o interlocutor mais fiável e mais à mão da imprensa mundial e isso caía mal em Roma. Talvez se tenha cansado de tantas pressões”, supõe António Marujo, ex-jornalista do Público que entrevistou o Nobel várias vezes e para quem o Vaticano demorou demasiado tempo a compreender a situação timorense.

Logo a seguir ao massacre de Santa Cruz – o tiroteio sobre manifestantes pró–independência no cemitério de Díli, em 1991 -, António Marujo foi a Roma encontrar-se com um monsenhor da secretaria de Estado da Santa Sé. “E ele não sabia o que tinha acontecido em Timor, porque as televisões italianas não passaram as imagens do massacre. A informação não circulava”, recorda. De tal forma que o massacre ocorre a 12 de Novembro e o Vaticano só se pronuncia pela primeira vez sobre o caso três meses depois, em Janeiro de 1992 e depois de um diplomata da Santa Sé ter visitado o território. O principal problema na altura era o peso da “fortíssima” ação diplomática da Indonésia em Roma.

Tudo isto terá contribuído, segundo as várias fontes ouvidas pelo “Jornal i”, para o exílio de Ximenes Belo em Portugal. E além da falta de apoio do Vaticano e de alguma desilusão com o rumo do país a seguir à independência, o Nobel tornara-se uma figura indesejada em alguns sectores da sociedade timorense. No início de 2004, já em Portugal, Ximenes Belo é desafiado para se candidatar à presidência de Timor-Leste. Em maio desse ano, numa entrevista à RTP, o bispo emérito arrumou o assunto. Não aceitaria que o seu nome fosse considerado para nomeação: “Decidi deixar a política para os políticos”. Meses depois, e já com a saúde restabelecida, partiu para Moçambique como missionário dos Salesianos. Só depois é que se estabeleceu definitivamente no Porto.

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O Nobel tímido: Temperamento difícil, carácter reservado e até melancólico. A descrição de Ximenes Belo, feita pelos que se cruzaram com ele, repete-se – mesmo em diferentes fases do seu percurso. Fugiu sempre dos jornalistas e das entrevistas – mesmo na época de maior mediatismo e a seguir ao Nobel. O jornalista Adelino Gomes sofreu na pele as dificuldades em lidar com a personalidade esquiva do Nobel da Paz. Na década de 1990, o bispo de Díli era a figura mais requisitada pela imprensa – olhado como independente, apesar de ser contra a ocupação indonésia. “Tinha uma relação dificílima connosco. Nunca estava disponível, era preciso insistir, fazer um cerco, e quando se conseguiam uns minutos de atenção era como uma vitória pessoal”, recorda. Nas entrevistas, apesar de duro e direto – chegou a dizer que o povo timorense tinha o direito de usar a violência para se defender -, era reservado e cuidadoso. “Era tudo arrancado a ferros”, concorda António Marujo. Um dos padres de Évora com quem o “Jornal i” conversou atribui essa timidez – talvez excessiva e que às vezes parecia “uma espécie bloqueio” – ao facto de o Nobel ser uma figura “modesta do ponto de vista intelectual”.

Carlos Ximenes Belo, que nasceu numa aldeia timorense nos arredores de Baucau, não estava preparado para assumir o protagonismo que viria a ter. “Teve uma formação convencional, de simples padre. E essa falta de preparação dava-lhe uma certa inibição quando tinha de se expor”, acredita o sacerdote. O Nobel nasceu em 1948 e foi o quinto filho de uma família timorense modesta. O pai, professor primário, morreu quando Ximenes tinha dois anos. Frequentou escolas católicas e depois entrou para o Seminário de Daré, nos arredores de Díli, onde se formou aos 20 anos. Andou por Macau, Timor, Portugal e Roma e entrou para os Salesianos. Antes completou o liceu na Escola Salesiana de Manique de Baixo, no Estoril – onde entrou, em 1972, para o noviciado.

Miguel Monteiro, hoje professor universitário, foi colega de carteira do Nobel no colégio dos Salesianos no final da década de 1960 e recorda que Ximenes era o rapaz mais calado do grupo de 14 seminaristas que iam ao colégio ter aulas de Latim e Alemão. “Era muito inteligente e percebia muitíssimo de Latim, ao contrário de mim. Era extremamente afável e generoso e deixava-me copiar nos testes”, confidencia. Miguel Monteiro retribuía o favor e ajudava o colega no Alemão.

Apesar de despertar a simpatia dos colegas, Ximenes já era, nessa altura, muito tímido. “Sentia que, de certa forma, era um rapaz enigmático. Talvez a timidez se devesse ao facto de não falar fluentemente português”, tenta justificar o antigo colega. Um padre que é também professor universitário avança outra explicação para o carácter reservado do antigo bispo de Díli. “Culturalmente, os timorenses têm uma personalidade reservada e um temperamento vincado pelo medo e pela desconfiança, o que é comum em povos que sofreram processos de ocupação”, explica.

Ximenes Belo em Sabugal.

Ximenes Belo em Sabugal.

O bispo indesejado: Com um feitio assim, a chegada a Díli, como bispo, em 1988, não terá sido fácil. Uma fonte eclesiástica recorda que Ximenes Belo foi boicotado, numa fase inicial, pelos padres de Timor. O clero timorense tinha-se radicalizado e o anterior bispo, D. Martinho Lopes, ajudara a resistência e tinha sido afastado por João Paulo II. O futuro Nobel chega a Díli enviado pela Conferência Episcopal da Indonésia – o que criou um clima instantâneo de desconfiança. “Era visto como um apoiante da causa indonésia e muitos padres nem sequer foram à sua entronização”, confirma Adelino Gomes. Mas não tardou a ganhar a confiança dos católicos.

Bastaram cinco meses para que, num sermão na Sé Catedral, D. Ximenes Belo tecesse veementes protestos contra as brutalidades do massacre de Craras, em 1983, perpetrado pela Indonésia. Em tempo de ocupação, a Igreja era, aliás, a única instituição capaz de comunicar com o exterior. Ciente disso, o bispo de Díli começou a enviar cartas a personalidades do mundo inteiro, numa tentativa de combater o isolamento imposto pelos indonésios e o desinteresse de grande parte da comunidade internacional.

Escreveu a Mário Soares. Conta-se até que o histórico socialista ficou mais sensível à questão timorense depois de um encontro pessoal com Ximenes. Escreveu também ao Papa e ao então secretário-geral da ONU, Javier Pérez de Cuéllar. O bispo defendia que o povo tinha de ser ouvido. E, sem qualquer ideologia política, transformou-se num aliado da resistência.

Em Dezembro de 1996 recebeu o Nobel da Paz, a meias com José Ramos-Horta. Na sequência da distinção, reuniu-se com figuras como Bill Clinton e Nelson Mandela. O bispo católico tornara-se uma referência à escala mundial. E mesmo assim voltava recorrentemente a Portugal – especialmente a Évora, onde ainda mantém uma ligação forte com a família de um dos industriais mais importantes da região. José Manuel Noites, dono de uma fundição, chegou a mandar fazer uma estátua de D. Bosco – o fundador dos Salesianos – em bronze, enviada mais tarde para Timor em jeito de homenagem ao então bispo de Díli.

Em 2002, logo a seguir à resignação, o padre salesiano Manuel de Brito garantia ao diário Público que o contributo de Ximenes Belo para o desenvolvimento de Timor não ficaria por ali. “Terá lugar à frente da Fundação Ximenes Belo ou como embaixador itinerante da causa timorense”, antevia. No entanto, mais de uma década depois, a realidade do Nobel da Paz é bem diferente”.

XIMENES BELO NAS SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS

No seu momento Ximenes Belo chegou a pronunciar estas lindas palavras:

  1. “É mais importante a paz que a independência. Talvez no trabalho de defender os direitos humanos, a justiça e a paz, alguns vejam um gesto político, mas meu trabalho é unicamente pastoral”.
  2. “Os seniores nunca estão a mais na sociedade. Os mais velhos, os mais idosos, têm a sabedoria e experiência. Por vezes, há o choque de sensibilidades entre novos e seniores, mas todos temos de aprender uns dos outros. Dos jovens, aprendemos a esperança, a ousadia, o entusiasmo, a aventura. Dos seniores, aprendemos a sabedoria, a sapiência, a guardar a memória e, sobretudo, a transmitir aquilo que é positivo e que vale para todos os tempos”.
  3. “O mundo não sabe de nada. Timor é um caso de desconhecimento mundial exatamente como foram os campos de concentração na época da guerra. Depois, todos se chocaram, mas já era tarde”.
  4. “Não há paz se não houver respeito das diferenças de ideias, pensamentos, religiões, maneiras de ser e estar no mundo, como hoje infelizmente vemos acontecer em várias regiões do Globo”.
  5. “O povo de Timor é de ótimos sentimentos, é grato, simpático e de bom convívio”.
  6. ”Portugal está a ajudar a Timor, mas insisto sempre na consolidação da língua portuguesa. Na Constituição de Timor-Leste são duas as línguas oficiais: o tétum e o português. Por outro lado, por causa de circunstâncias várias, existem também duas línguas de trabalho: o indonésio e o inglês. Em Díli, concretamente, a pessoa fala a língua que mais entende e o estudo do português está a custar um pouco, sobretudo entre aqueles jovens que aprenderam durante os 24 anos de domínio indonésio. Além disso, Timor tem 24 dialetos oficiais. As crianças falam o português nas aulas, mas fora da escola cada um fala a sua língua. É preciso investir mais, através da literatura, dos livros, da televisão, dos jornais. Por exemplo, nota-se que a TV indonésia entra nas casas com maior facilidade do que a RTP internacional, enquanto que a língua portuguesa marca passo. Claro que Portugal investe com o envio de professores para a universidade, para as escolas secundárias, para formação de docentes timorenses, mas é preciso fazer mais”.
  7. ”Sim, em Timor desde há 450 anos, existe “alma portuguesa”. Isto já foi caldeado nos séculos XVII, XVIII e XIX, na convivência com os missionários, com as autoridades oficiais. Muitos reis espontaneamente se ofereceram para serem aliados de Portugal e prestaram vassalagem à Coroa portuguesa. Podemos dizer que o timorense na sua alma tem parte desta cultura católica, lusa, e convém manter sempre esses laços culturais, religiosos e históricos”.

Abundando sobre Timor-Leste chegou a comentar: “Sim, Timor é um país seguro. Não há mais conflitos como houve no passado, há mais tranquilidade, calma. O problema, agora, são os investimentos, como fazer indústrias e fábricas para dar trabalho aos mais jovens. Isso é que interessa.” Porém, “o sofrimento não é exclusivo do passado”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Ximenes Belo, natural de Timor-Leste e premiado com o Nobel da Paz em 1996. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Debate-Papo, em que participem estudantes e professores. A tertúlia pode desenvolver-se ao redor de dous temas: a luita pela independência de Timor-Leste, da Indonésia, e o Prémio Nobel da Paz desde a sua criação a princípios do século XX até hoje. Antes, usando a Internet e algumas publicações que possamos conseguir (livros e revistas), procuraremos informações pertinentes sobre os temas de debate citados.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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