Xabier Díaz: “O meu objetivo a curto prazo é estarmos presentes em Portugal”

O artista galego atua hoje com as Adufeiras de Salitre no auditório TAGV de Coimbra



Xabier Diaz

Após o sucesso dos seus trabalhos com as Adufeiras de Salitre –The Tambourine Man (2016) e Noró (2018)– Xabier Diaz (Corunha, 1969) chega a Coimbra esta noite como “prestigiado embaixador da música galega”, segundo aponta o GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra). A entidade é a organizadora das XVIII Jornadas de Cultura Popular, que chegam ao fim esta noite com a atuação do corunhês. Consciência do próprio e trabalho, esses são os alicerces de todo o projeto, tal como conta o artista em conversa com o PGL. Em relação aos vínculos da Galiza com a lusofonia, “continuar furando”, afirma.

É a primeira vez que toca em Coimbra?

Não, é a segunda ocasião! Estivemos a tocar já no mesmo teatro há dois ou três anos.

Como definiria o público português ou lusófono, em geral?

É um público exigente que está afeito a escutar muita música. Para nós é interessante testar as nossas propostas além do nosso próprio país e comprovar como funcionam as coisas em Portugal.

Está a haver muito movimento na música de raiz portuguesa?

Sim, sim, claro. Além dos próprios labores de recolha, há um percurso longo em relação a grupos que estão a fazer coisas interessantes. Por exemplo, mais ao norte da zona de Miranda estão Galandum-Galundaina. São um quarteto de homens que fazem música popular, música tradicional e que também trabalham no circuito tradicional. Falam bastante de Portugal e é muito interessante o que fazem. Também estão os Gaiteiros de Lisboa, uma banda já senlheira em Portugal que estão de regresso. Há muitas propostas, como Celina da Piedade, que nos visita com frequência e tem o Alentejo como fonte de que beber para os seus projetos.

Há convergências entre esta música tradicional e a galega?

Muitas menos das que deveria haver. Penso que muitas vezes nesse sentido tudo tem muito mais a ver com os desejos que com a realidade, mesmo procurando e tentando que não sejam unicamente práticas pontuais… Está o OuTonalidades, o ciclo que organiza a gente d’Orfeu, uma organização que partilha o seu circuito com gentes galegas, ou mesmo os grupos portugueses que vêm cá e as propostas galegas que vão lá… Há tentativas de que haja uma relação de ida e volta, mas não tenho a sensação de que esteja a calhar de jeito notável. Penso que deve haver mais presença da música do nosso país lá e que haja artistas portugueses que venham cá com mais frequência… Por uma questão de afinidade, primeiro, e de proximidade, depois. Por uma questão mesmo de linguagens e simetrias, semelhanças… Há tantas razões para que realmente haja uma relação muito mais viçosa e muito mais frequente… que eu acho que está a faltar.

Xabier Diaz adufeiras

Quando falamos com Nacho Muñoz, músico e produtor de artistas como Mercedes Peón, disse exatamente o mesmo.

Há infinidade de paralelismos, sim. Reconheço que, independentemente de que nos mídia queiramos ser optimistas, a realidade é que a frequência é pouca, e isso é um problema a corrigir dalgum jeito. Também não sei, honestamente, como bater na tecla certa. Dizer “isto acontece por isto”. Sabes? Não o sei, mas coincido totalmente com Nacho, na realidade a relação e a partilha de circuito é muito menor do que podes ver pelos meios de comunicação. Muitas vezes enchemos a boca, mas é uma falácia.

O sistema galego não tem relação com outros sistemas?

Com a Lusofonia eu acho que, independentemente dos titulos das notícias, não. Os títulos servem muitas vezes para nos autoenganarmos. Não vejo artistas galegas tocando com frequência no Brasil nem em Angola nem em Portugal… Então… poder, podemos querer tirar uma foto e empregar o Photoshop. E porque acontece isto? Bom, muitas vezes os próprios artistas não temos como objetivo penetrar nesses mercados dum jeito sólido. Somos, muitas vezes, pouco proativos. Aguardamos que um festival de Portugal chame… e, de facto, se chama, vamos. Não sei. Eu toquei há dois anos no Festival do Avante, em Lisboa, e há alguma consulta mais. Possivelmente toquemos também em Braga, vamos tocar em Coimbra… E, segundo falei com a minha manager, também é possível que toquemos este verão lá. O que quero dizer é que penso que faltam estratégias das próprias bandas e solistas para ter presença nesses mercados, dum jeito mais proativo, porque não acredito que haja um ente maravilhoso chamado Lusofonia que faça aparecer por inércia uma irmandade da língua.

“Não creio que haja um ente maravilhoso chamado Lusofonia que faça aparecer por inércia uma irmandade. Faltam estratégias proativas”

Em Portugal estão a olhar mais para outros sítios? Como o Brasil, por exemplo.

No caso dos brasileiros eu penso que provavelmente é porque eles são exportadores de música, praticamente não importam nada. Lembro uma conversa que tive com Waldemar Bastos, um dos mitos e uma das vozes mais importantes da Lusofonia a nível mundial. Ele disse que no Brasil têm tanto de tudo (hip-hop, rock & roll, indie, música popular…) que não precisam comprar nada. Têm tanto que são exportadores, não importadores. Evidentemente, eu o que tenho como objetivo a curto ou meio prazo, nos próximos três anos, é provocar uma presença da nossa proposta em Portugal, mas por uma questão de proatividade, de acreditar que é um mercado muito próximo e afim a nós. Honestamente, acredito que a proposta que temos com as Adufeiras é um elemento absolutamente identificável, que forma parte da cultura tradicional de Portugal. Por isso, temos que tomá-lo exatamente como quando pensamos em posicionar o projeto na Alemanha, mas não devemos pensar que por estar aqui ao lado… Levamos muito tempo com a mesma ladainha, mas a verdade no final não flui demasiado.

Há que furar para que saia?

Efetivamente, eu penso que sim, há que tê-lo como um objetivo mais, mais presente no nosso jeito de gerir as coisas. Eu, por exemplo, todos os anos toco em Barcelona e em Madrid. Porém, curiosamente não faço uma visita anual a Lisboa! Isto depende da minha própria estratégia, do desenho que faço. É um passo mais que devemos dar, mas não podemos ficar a esperar por contratações. No mundo da música, as coisas mudaram muitíssimo a uma velocidade muito grande, agora há que ser muito mais proativos e ter uma presença baseada na própria energia dos projetos, em querer estar aí e querer mostrar o teu discurso.

Sobre isto também falava o pessoal de Compostela Literária quando visitou o festival Correntes d’Escrita, na Póvoa do Varzim. Quico Valeiras, de Chan da Pólvora, destacava como “há uma constante na autoria galega de qualquer arte, já que, quando se quer transcender, olha-se para Espanha e não para Portugal”.

Eu estou de acordo, totalmente. Afinal, estamos aqui permanentemente falando dessa irmandade, da obviedade que é partilhar língua e do razoável e lógico de que houvesse muita mais circulação em dobre sentido… mas o certo é que não a há. Quando pensamos em pôr um pé fora primeiro pensamos em fazê-lo em Madrid ou Barcelona, de maneira que somos responsáveis de que as nossas estratégias demorem a atingir Portugal.

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Disse Muñoz que agora em Portugal estão a ter muita força os tropicalismos.

Sim, por parte de Portugal sempre houve um interesse notório em tudo o que estava a acontecer com a música brasileira. Caetano Veloso, por exemplo, toca lá todos os anos, Gilberto Gil passa com frequência… e como eles, muitíssima gente. E mesmo os novos, os mais indies, estão indo a tocar a Portugal com frequência. É óbvio que não está a acontecer isso com os músicos deste país. Então parece que a Lusofonia está bem, deveria ser um espaço de ida e volta, mas é de ida e volta nalgumas coisas e noutras longe disso. De maneira que devemos começar a tê-la em conta nas nossas estratégias no momento de pensar em lugares e mercados onde queremos ter impacte. Acho que se trata mais disso que de pensar na Lusofonia como uma palavra ou conceito maravilhoso, porque passam os anos e não acontece nada.

Além da Lusofonia, a música galega tem projeção internacional?

Estive em digressão na Bélgica, Suécia, Holanda, Escócia… Então… Mentiria se dissesse que não a tem. Seria um contrassentido. Agora, se calhar o argumentário para a tua pergunta deveria basear-se em que eu impus esses objetivos. Nós também temos como objetivo mostrar o nosso trabalho no mercado centroeuropeu e no norte da Europa. De facto, fizemos uma digressão muito longa de 16 concertos na Alemanha porque para mim é um mercado muito interessante. Por várias razões. Primeiro, porque são grandes consumidores de música, e segundo, porque são grandes consumidores de world music. Têm muito interesse por tudo o que for exótico ou diferente. Depois, também são mercados fortes, em que a gente tem capacidade económica para comprar álbuns e entradas. Noutras latitudes isto é mais difícil. Por exemplo, agora mesmo tentar ter uma projeção na América do Sul é muito complicado, porque as coisas estão complicadas. É por isso que eu continuo a pensar que Centro Europa e o norte da Europa devem ser a base da nossa perspetiva internacional, e depois está a península como objetivo número 11. Tenho que dizer que as vezes que viajamos estes mercados funcionaram bem… assim que tratamos de consolidar a nossa presença, também por outras vias. A nossa distribuidora discográfica está a distribuir os nossos trabalhos na Bélgica, Alemanha, França, Reino Unido… É todo uma estratégia necessária para termos presença lá.

A música galega, então, tem muita potencialidade nesse sentido.

Há toda a potencialidade, porque há muita qualidade. Se se me permitir, eu penso que neste país, a respeito da música, somos mui imobilistas. Temos uma qualidade enorme mas falta-nos procurar vias para vender o produto. Os músicos, as propostas… são excelentes, mas a gente pensa que lhes vão comprar a fruta à casa. E não é assim, há que ter estratégias, ver os mercados como o que são, mercados. Tens de conseguir posicionar-te no mercado internacional, mostrar as tuas propostas, procurar objetivos… Que quero dizer? Ir tocar a um país ou a uma cidade talvez tenha um balanço de resultados negativos as primeiras duas ou três vezes, mas na quarta ou na quinta já é positivo.

É um invertimento.

Efetivamente, essa é a ideia. Aqui na música fomos um bocado conservadores e eu estou a tentar que a minha proposta tenha mais posição, e para isso é necessário fazer um investimento, e é isso que estou a fazer.

Do mesmo modo que fazes um desenho ciente, a tua proposta também tem consciência no seu conteúdo?

É a base de tudo! Eu falo de posicionamentos, de mercados… e quase podes pensar que tenho um escritório de advogados, mas na realidade eu sou músico, a minha paixão é a música. Não obstante, como já penteio cabelos brancos e há muitos anos que estou na música e na indústria que rodeia a minha atividade… vi que era absolutamente necessário acompanhar uma coisa com outra. Porém, na base de tudo, sempre digo à minha gente e a quem me pergunta… Na base de tudo está a música, o importante é fazer música, fazer boa música. E além disso, eu tenho compromissos pessoais com muitas coisas, com a língua, com a igualdade… E há certas decisões tomadas conscientemente que já não têm volta atrás. Ademais, no meu caso, sempre digo que não só tem a ver com uma decisão tomada hoje e com vistas ao presente e ao futuro, senão que no meu caso é mesmo um exercício de correção, de muitas coisas que fiz no passado que não teria feito agora.

“Reconheço que cantei muitas coisas que, pensando como agora, não teria cantado. Reafirmo-me nisso. O mundo precisa de mudar muitas coisas e, para mudar o mundo, precisamos de mudar nós.”

Penso que é muito importante que todos sejamos cientes das nossas próprias mudanças. Hoje a gente moça tem a possibilidade –por uma questão de informação– de não cair em muitos erros que cometemos. E estou a falar das músicas e das líricas. Eu cometi muitos erros nesse sentido, e hoje não cantaria muitas coisas que cantei há 25 anos. Gostaria de ser ciente de que mudei isso, porque penso que é importante. A geração da minha mãe e do meu pai tinham uma dialética e uma linguagem determinada, com estes micromachismos que formam parte do nosso dia-a-dia. Nós, a nossa geração –eu sou de finais da década dos 70– fomos criados com toda essa informação na cabeça. Eu agora penso que a nossa geração tem a responsabilidade ir mudando tudo isso, para que haja uma mudança efetiva e maior. Tenho para mim que é importante ser ciente de que podemos mudar coisas que estavam mal feitas. Eu reconheço que cantei muitas coisas que agora sob nenhum conceito teria cantado. Reafirmo-me nisso. O mundo precisa de mudar muitas coisas e, para mudar o mundo, precisamos de mudar nós.

Falas do teu compromisso com a língua. Nos teus trabalhos tens recuperado também líricas em castelhano?

Os únicos textos em castelhano dos meus últimos trabalhos são canções de Palência, Zamora… em nenhum caso são músicas galegas. As galegas são todas em galego. O que se passa é que não bebi única e exclusivamente dum manancial de águas integramente galegas. Quando acometi a revisão do tema palentino, cantei em espanhol, exatamente igual que com o zamorano, o leonês… mas o meu compromisso com a tradição, nesse caso, é descartar as coplas em castelhano ou, melhor, mudá-las para o galego. Fazer um trabalho de adaptação que muitas vezes faço em primeira pessoa ou outras vezes peço conselho a amigas filólogas, poetas… A minha proposta é cantar todo o cancioneiro galego, cem por cento.

Quais são os teus planos no futuro?

Agora estou diante dum ano em que restam 35 concertos. Um ano em que seguramente acabemos fazendo entre 40 ou 50 concertos aproximadamente. Além disso, da digressão que é permanente, vamos fazer uma terceira entrega com este mesmo ensemble, este mesmo formato com as Adufeiras de Salitre. Estamos a trabalhar intensamente na preprodução e a preparar uma nova entrega que chegará para 2020.

Com o mesmo método de trabalho que antes, ou melhorando processos?

Sim, bom, agora tudo flui de jeito mais orgânico. É uma terceira entrega, fizemos já 24 ou 25 canções juntos… No segundo álbum já havia um jeito de fazer muito mais orgânico, mais fluido… E também vão melhorando processos. Está tudo muito mais ajustado, e já temos mais certeza de onde temos que transitar, como fazer as coisas… No primeiro misturamos líquidos de muitas fontes para provar uma fórmula. No segundo tínhamos muitas fórmulas já estruturadas e agora, no terceiro, já tratamos mesmo de procurar e construir algumas destas fórmulas para tentar abrir novas janelas. Penso que este próximo disco será uma terceira parte duma trilogia que vai dar solidez e perspetiva ao público da nossa proposta. Não queria que fosse algo anedótico e penso que o público vai ter uma perspetiva de solidez mesmo temporal. São sete ou oito anos do que foi e é esta proposta com as Adufeiras. Para mim é mais importante fixar um pouco mais a fotografia que continuar a distrair o meu público [ri].


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  • Paulo O’Lema

    Programa de Port, da BBC e TG4, voltado para a música da Galiza. Protagonismo especial das músicas do nosso país em cenários culturais do destaque do Celtic Connections ou o FIL. Programas da CRTVG indicados no Celtic Media Festival. Cantoras como a Julie Fowlies a fazerem versões em gaélico de temas tradicionais galegos. Se calhar há um mercado lá acima, um bocado mais a norte do que a sul, para o qual nem estamos a ligar (sei lá o porquê…), e no qual gozamos há décadas de presença e reconhecimento. O mundo não termina no Minho, com certeza, mas também não termina na Estaca de Vares.

  • Smugglerdoghrandsole

    Na primeira quincena de Agosto, @s que consideram que a música de raiz galega não está inserida em nenhum sistema, debereiam ser consequentes e coerentes e seguir furando. Furar , furar e não parar, que An Oriant está este ano dedicado a GZ porque surdiu um furado que não é coisa nossa. Enfim!