Washington Irving, guilhotina e horror



 J. A. Bauce (1818 – 1875) e Héliodore Pisan (1822 – 1890)

J. A. Bauce (1818 – 1875) e Héliodore Pisan (1822 – 1890)

Quem nunca ouviu dizer que “Guillotin, o inventor da Guilhotina, morreu guilhotinado”?

Mas há dois equívocos nessa breve assertiva que, de tão disseminada e repetida, parece conter uma verdade inexpugnável.

Em primeiro lugar, não é certo que o médico e político francês Joseph-Ignace Guillotin (1738 – 1814) tenha inventado a máquina de decapitação que, contra a sua vontade, levou o seu nome. O aparelho, largamente usado na época da Revolução Francesa — pano de fundo do maravilhoso “Conto de Duas Cidades”, de Dickens (1812 – 1870) —, já existia há séculos quando o médico, por questões humanitárias, sugeriu o seu uso às autoridades revolucionárias.

Foram percussoras da guilhotina, tal como nós a conhecemos, diversas máquinas de decapitação semelhantes, empregadas desde — pelo menos — o século XVI na Alemanha, Escócia, Irlanda, Inglaterra e Itália.

Até a Revolução, a grande maioria de franceses sentenciados à pena capital era cruelmente executada. Executava-se a gente da plebe por meio do estrangulamento, da forca, da roda, do esquartejamento, da fogueira, do cozimento em caldeirão, dentre outros métodos sumamente aflitivos. Supliciavam-se os plebeus, também, pela mais piedosa decapitação, mas com o emprego exclusivo do machado. Não raras vezes, porém, esse instrumento — quer porque não amolado a contento, quer em razão da inabilidade do carrasco — não cumpria o seu mister logo ao primeiro golpe, de molde a prolongar, desnecessariamente, o padecimento do infeliz sentenciado. À nobreza — que até na morte recobria-se de regalias — era reservada a “prerrogativa” da decapitação pela espada, instrumento considerado mais eficiente que o machado.

Para evitar que os condenados passassem por tão inúteis e desumanos sofrimentos, Guillotin, então deputado na Assembleia Nacional, propôs, em dezembro de 1789, que uma máquina de decapitação, capaz de produzir uma morte instantânea, fosse utilizada na generalidade das execuções. Não teve, todavia, êxito imediato. Pediu, então, que Antoine Louis (1723 – 1792), membro da Academia de Cirurgia de Paris, desenhasse uma máquina baseada nas já existentes em outros países europeus. A máquina projetada por Louis trazia uma importante inovação técnica: guarnecia-se de lâmina oblíqua em vez de horizontal, o que lhe conferia maior eficácia e rapidez no corte. Por deliberação da Assembleia Nacional, a decapitação pela guilhotina passou a ser, a partir de 23 de março de 1892, o único método legal de execução da pena capital, aplicável a todo e qualquer cidadão, independentemente da sua condição social e da natureza do crime cometido. A democracia na França, portanto, começou pela degola. Finalmente, em 22 de abril de 1792, após testes com ovelhas e cadáveres humanos, máquina foi posta em uso: caiu sobre o pescoço de Nicolas Jacques Pelletier (c. 1756 – 1792), um salteador de estradas.

O emprego da guilhotina durou 185 anos. Em 10 de setembro de 1977, em Marselha, ocorreu a última execução com o aparelho mortal, que ceifou a vida de Hamida Djandoubi (1849 – 1977), cafetão tunisiano acusado de torturar e matar a ex-amante.

Abolida a pena morte na França em 30 de setembro de 1981, a guilhotina foi finalmente aposentada. Mas a sua longeva existência deixou um imenso rastro de sangue: calcula-se que, somente no período do Terror (1793 – 1794), cerca de 16 mil pessoas tenham sido guilhotinadas (o que equivale a, aproximadamente, 80 mil litros de sangue derramado).

Também não é certo que Guillotin feneceu decapitado numa guilhotina. O médico passou incólume pela Revolução Francesa e morreu de causas naturais em 1814, aos 75 anos. Diz-se que, constrangidos pelo o nome com o qual a máquina mortífera se popularizou, graças a uma infame publicação de um jornal monarquista, os familiares do médico solicitaram ao governo francês que renomeassem o aparelho. Ante a recusa das autoridades, mudaram eles mesmos de sobrenome.

Mas, por que motivo se propala, até hoje, que Guillotin morreu na guilhotina? Respondo: por causa de uma mera coincidência. Na época do Terror, um médico de Lião chamado J. M. V. Guillotin (que não tinha vínculos familiares com o também médico Joseph-Ignace) foi realmente executado na guilhotina. Isto foi bastante a que se disseminasse a falsa informação — morbidamente atraente e quiçá pitoresca — de que o “inventor” da guilhotina morreu guilhotinado.

louis-xvi-guillotine-620x350-1280x720A macabra máquina homicida foi — e continua sendo — uma inesgotável fonte de inspiração literária. Em torno dela, erigiram-se não poucas obras-primas do trágico e do horror, como “Um Episódio no Tempo do Terror”, de Honoré de Balzac (1799 – 1850), no qual o personagem principal não é outro senão o famoso Charles-Henri Sanson (1739 – 1806; aqui, você pode ler um texto de sua pena), verdugo responsável pela execução de Luís XVI (1754 – 1793). Outros nomes famosos somam-se à sua “honrosa” e admirável carreira: Danton (1759 – 1794), Desmolins (1760 – 1794), Saint-Just (1767 – 1794) e Robespierre (1758 – 1794).

Em “Os Mil e Um Fantasmas”, de Alexandre Dumas (1802 – 1870), há uma narrativa — tão trágica quanto terrível — na qual um jovem médico submete cadáveres guilhotinados a experimentos científicos com o objetivo de verificar se há prolongamento da vida após a execução (leia-a aqui). O tema será retomado, mais tarde, por Villiers de L’Isle Adam (1838 – 1889) no conto “O Segredo do Patíbulo” (disponível aqui), inspirado, aliás, num fato real: um médico condenado à morte por decapitação recebe a visita de um colega cientista que o convida a participar, como cobaia, de um não menos aterrorizante experimento post-mortem.

Talvez a mais impressionante narrativa curta sobre o tema não seja de um autor conterrâneo de M. Guillotin. Vamos encontrá-lo no outro lado do Atlântico, numa emergente nação, cujo projeto liberal e semidemocrático influenciou os ideólogos da Revolução sanguinária. Contemporâneo de Edgar Allan Pöe (1809 – 1849), o escritor norte-americano Washington Irving (1783 — 1859) deixou narrativas de terror impressionantes, a exemplo de “O Diabo e Tom Walker” e a muito famosa “Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”. Ambientado na Paris revolucionária, em pleno reinado do Terror, “A Aventura do Estudante Alemão” é um conto pungente, macabro ao extremo: um estudante idealista se apaixona por uma bela jovem enlutada, com uma fita negra em volta do pescoço, que, numa noite de tempestade, permanece encolhida, ao pé das escadas do patíbulo, sob a réstia da terrível guilhotina…

O conto de Irving, que se inspira em “A Amante Defunta” de Flégon de Trales (séc. II a.C) e em “A Noiva de Corinto” de Goethe (1749 – 1832), serviu de argumento a Alexandre Dumas no romance “A Mulher da Gargantilha de Veludo”. Nele, o estudante alemão não é outro senão o célebre escritor de terror E.T.A. Hoffmann (1776 – 1822).

Eis a narrativa de Irving (versão em português nossa):

A AVENTURA DO ESTUDANTE ALEMÃO

Numa noite tormentosa, nos tempos tempestuosos da Revolução Francesa, um jovem alemão regressava aos seus aposentos, tarde da noite, cruzando a parte mais antiga de Paris. Relampejava e nas ruas estreitas ressoava o ribombar dos trovões. Mas devo, primeiramente, dizer alguma coisa sobre o jovem alemão.

Gottfried Wolfgang era um jovem de boa família. Ele estudara durante algum tempo em Göttingen. Mas, tendo um caráter visionário e entusiasta, dedicou-se a estranhas doutrinas especulativas, que há tanto tempo têm fascinado os estudantes alemães. Sua vida reclusa, sua intensa dedicação e a natureza singular de seus estudos produziram um estranho efeito sobre o seu corpo e o seu espírito.

Sua saúde tornou-se débil; sua imaginação, doentia. Entregara-se a especulações fantasiosas sobre a essência dos espíritos, até que, como Swedenborg1, encerrou-se num mundo ideal, construído em torno de si mesmo. Imaginava-se ― e ninguém sabe a causa ― perseguido por uma influência maligna, um gênio do mal ou um espírito, que lhe intentava possuir o corpo, conduzindo-o à perdição. Tal ideia, trabalhando em seu temperamento melancólico, produziu os efeitos mais sombrios. Tornou-se abatido e desanimado. Seus amigos viram nisto uma doença mental e decidiram que o melhor remédio era uma mudança de ares. Enviaram-no, assim, para concluir os estudos, à alegre e esplendorosa Paris.

Wolfgang chegou a Paris no eclodir da Revolução. O delírio popular capturou de imediato sua mente entusiasmada e ele se deixou dominar pelas teorias filosóficas e políticas da época. Todavia, as cenas sangrentas que se seguiram chocaram a sua natureza sensível e, nauseado da sociedade e do mundo, tornou-se mais do que nunca um recluso. Encerrou-se, pois, num apartamento solitário no Quartier Latin, o bairro dos estudantes. Lá, numa rua sombria, não muito longe das paredes monásticas da Sorbonne, continuou as suas especulações favoritas. Às vezes, ele passava horas inteiras nas grandes bibliotecas de Paris, essas catacumbas de autores falecidos, vasculhando suas hordas de obras ― empoeiradas e obsoletas ― em busca de alimento para o seu apetite enfermiço. Ele foi, de certa forma, um ghoul literário, que se alimentava no sepulcro da literatura decadente.

Wolfgang, embora solitário e recluso, era de um temperamento ardente, mas apenas no âmbito da própria imaginação. Ele era muito tímido e ignorante do mundo para insinuar-se ao sexo mais frágil, embora fosse um admirador apaixonado da beleza feminina. E, na solidão de seu quarto, perdia-se muitas vezes em devaneios sobre formas e rostos que ele havia visto; em sua fantasia, criava imagens de beleza que superavam em muito a realidade.

Neste estado de excitamento e sublimação, um sonho passou a exercer um extraordinário efeito sobre ele. Era o sonho com um rosto feminino de beleza transcendente. Tão forte foi a impressão recebida, que ele sonhava com o mesmo rosto, repetidamente. De dia, o rosto assombrava seus pensamentos; de noite, seus sonhos. Em suma, tornou-se apaixonadamente enamorado dessa sombra de seus sonhos. E tal estado se prolongou até tornar-se uma daquelas ideias fixas, que apavoram as mentes dos homens melancólicos, e que, às vezes, são confundidas com a loucura.

Tal era Gottfried Wolfgang e tal o seu estado na época a que me referi.

Voltava ele para casa no final da noite de tempestade, percorrendo as ruas antigas e sombrias do Marais, na parte velha de Paris. O estrondear dos trovões reverberava sobre as casas altas das ruas estreitas. Chegou à Place de Grève, onde as execuções públicas eram realizadas. Os relâmpagos estremeciam acima dos pináculos do antigo Hôtel de Ville, espraiando um brilho cintilante sobre o espaço aberto à frente do estudante. Atravessando a praça, Wolfgang recuou de horror quando se acercou da guilhotina. Era o auge do reinado do Terror2 e esse terrível instrumento de morte estava sempre em prontidão. No cadafalso, continuamente corria o sangue dos virtuosos e valentes. Nesse mesmo dia, a guilhotina havia sido empregada ativamente em seu ofício de carnificina, e, agora, erguia-se cruelmente, em meio a uma cidade silenciosa e adormecida, à espera de novas vítimas.

O coração de Wolfgang fremiu no peito, e já se afastava ele, a tremer, do horrível instrumento, quando notou o vulto de uma figura encolhida ao pé da escada que levava ao cadafalso. Uma sucessão de relâmpagos permitiu um vislumbre mais claro: era uma figura feminina, vestida de preto. Ela estava sentada em um dos degraus mais baixos, inclinada para frente, com o rosto escondido no peito. Seus longos e desgrenhados cabelos tocavam o solo, misturando-se à água que caía torrencialmente. Wolfgang fez uma pausa. Havia algo de terrível nesse solitário monumento de aflição. A mulher parecia estar acima do normal. Eram tempos de vicissitudes, e muitas belas cabeças, que antes descansavam em seus travesseiros, agora vagavam sem teto. Talvez se tratasse de uma pobre mulher enlutada, com o coração destroçado, a quem a terrível lâmina havia deixado solitária, lançando à eternidade todos os entes queridos.

Ele aproximou-se e falou-lhe num tom compadecido. Ela ergueu a cabeça e o olhou selvagemente. Qual não foi o espanto do rapaz ao contemplar, à luz do clarão do relâmpago, o mesmo rosto que insistentemente havia assombrado os seus sonhos! Ela estava pálida e desconsolada, embora linda e encantadora.

Tremendo em meio a emoções violentas e conflitantes, Wolfgang novamente a abordou. À mulher falou sobre a circunstância de estar ela exposta, àquela hora da noite, à fúria de uma tempestade, oferecendo-se, assim, a conduzi-la a seus conhecidos. Ela apontou para a guilhotina com um gesto de terrível significado.

Não tenho ninguém sobre a Terra ― disse ela.

Mas você tem um lar ― Wolfgang respondeu.

Sim, num túmulo.

O coração do estudante se liquefez com tais palavras.

Se um estranho se atreve a fazer uma oferta ― disse ele ―, sem o perigo de ser mal interpretado, eu te ofereço o meu humilde lar, como um amigo dedicado. Eu mesmo não tenho amigos em Paris. Sou um estrangeiro nesta terra. Mas, se eu puder dedicar a minha vida a seu serviço, ela está à tua disposição. Estou propenso a sacrificar a minha vida antes que a ti sobrevenha alguma aflição ou indignidade.

Havia uma honestidade tão sincera na atitude do jovem que suas palavras realmente produziram efeito. O seu sotaque estrangeiro também acorria em seu favor: demonstrava que não era um habitante qualquer de Paris. Com efeito, há no entusiasmo da verdade tanta eloquência que não é possível pô-lo em dúvida. Sem reservas, a desconhecida desabrigada se entregou à proteção do estudante.

Ele amparou os seus passos vacilantes através da Pont Neuf e do local onde a estátua de Henrique IV havia sido derrubada pelas turbas. A tempestade amainara e o trovão ressoava à distância. Toda Paris permanecia tranquila. O grande vulcão das paixões humanas dormitava, reunindo as forças para a erupção do dia seguinte. O estudante conduziu seu fardo pelas ruas antigas do Quartier Latin, junto às paredes sombrias da Sorbonne, levando-a ao sórdido hotel em que morava. A velha porteira, que lhes franqueou a entrada, contemplou, com surpresa, a visão incomum de um melancólico Wolfgang acompanhado por uma mulher.

Ao entrar no apartamento, o estudante, pela primeira vez, corou ao ver a pobreza e a impessoalidade de seus aposentos. Consistiam em apenas um cômodo ― uma sala à moda antiga ― fantasticamente talhado com os restos de uma antiga magnificência, porquanto compunha um desses hotéis situados na mesma quadra do Palácio de Luxemburgo, que pertencera à nobreza. Estava repleto de livros e papéis, e de tudo o quanto é próprio a um estudante. Sua cama ficava em um canto afastado.

Quando os lumes foram acesos, permitido a Wolfgang melhor vislumbrar a desconhecida, ficou ele mais ainda extasiado com aquela beleza. O rosto da desconhecida era pálido, mas de uma beleza deslumbrante, desencadeada por uma profusão de cabelos negros, que pendiam em cachos. Seus olhos eram grandes e brilhantes, dotados de uma expressão singular, quase selvagem. Até onde o vestido preto permitia a visão de suas formas, estas eram de perfeita simetria. Sua aparência geral era extremamente impressionante, embora a mulher se vestisse com simplicidade A única coisa a assemelhar-se a um ornamento era uma fita preta, larga, adornada por diamantes, que lhe cingia o pescoço.

Veio, então, ao encontro do estudante alemão a preocupação de como ajudar aquela mulher indefesa, que se lançara à sua proteção. Pensou em abdicar do próprio quarto em favor dela e buscar alojamento em outro lugar. Mas estava tão fascinado com os seus encantos, pois dela irradiava uma magia que lhe subjugava os sentidos e pensamentos, que não podia desviar-se de sua presença. Suas maneiras eram também estranhas e inexplicáveis. Ela deixou de falar sobre a guilhotina. Sua aflição havia diminuído. Com suas atenções, o estudante ganhara a confiança da desconhecida, e, aparentemente, o seu coração. Evidentemente, ela era, assim como ele, uma entusiasta e as pessoas assim talhadas se entendem prontamente.

Na paixão do momento, Wolfgang confessou o seu amor pela mulher. Contou-lhe a história de seus misteriosos sonhos, e como ela havia se apossado de seu coração antes mesmo que o rapaz a conhecesse. A desconhecida ficou estranhamente impressionada com aquela declaração e admitiu sentir-se atraída por ele de uma maneira igualmente inexplicável. Era a época de teorias e ações selvagens. Velhos preconceitos e superstições eram abolidos. Tudo estava sob a influência da “Deusa da Razão”. As formalidades e cerimônias de casamento, escombros dos velhos tempos, começaram a ser consideradas supérfluos rituais para as mentes honrosas. Os pactos sociais estavam em moda. Wolfgang era demasiadamente teórico para não ser contaminado pelas doutrinas liberais de sua época.

Por que devemos nos separar? ― perguntou. ― O nosso coração está unido; ante os olhos da razão e da honra, somos um só. Que necessidade há de formalidades sórdidas para unir as almas elevadas?

A desconhecida ouvia com emoção: ela evidentemente fora iluminada pela mesma escola teórica.

Tu não tens casa ou família ― continuou ele. ― Deixa-me ser tudo para ti. Ou melhor, sejamos tudo um para o outro. Se as formalidades são necessárias, nós as acataremos. Eis aqui a minha mão. Eu me entrego a ti para sempre.

Para sempre? ― indagou a desconhecida, solenemente.

Para sempre! ― repetiu Wolfgang.

A desconhecida apertou a mão que lhe era estendida.

Então eu sou tua ― murmurou ela, reclinando-se ao peito do rapaz.

Na manhã seguinte, o estudante deixou sua esposa a dormir e saiu uma hora mais cedo, em busca de um apartamento mais espaçoso, adequado a seu novo estado civil. Ao voltar, encontrou a mulher deitada, com a cabeça pendendo da cama e um braço estirado. Falou com ela, mas não recebeu resposta alguma. Então, avançou para despertá-la daquela postura inquietante. Ao tomar-lhe a mão, verificou que esta estava fria e que não havia pulsação. A face da mulher estava pálida e medonha. Em uma palavra, ela era um cadáver.

Horrorizado e frenético, ele soltou um grito alarmante, clamando pelos da casa. Uma cena de confusão se seguiu. A polícia foi chamada. O oficial de polícia entrou na sala e retrocedeu ao contemplar o cadáver.

Céus! ― gritou. ― Como esta mulher veio parar aqui?

Você sabe alguma coisa sobre ela? ― indagou Wolfgang, ansiosamente.

Se eu sei? ― exclamou o oficial. ― Ela foi guilhotinada ontem.

Deu um passo à frente e desatou a gargantilha negra que cingia o pescoço do cadáver. A cabeça rolou no chão!

O estudante perdeu o controle.

O demônio! O demônio finalmente me tomou! ― gritou ele. ― Estou perdido para sempre.

Tentaram acalmá-lo, mas em vão. Estava dominado pela crença de que um terrível espírito maligno havia reanimado o cadáver com o intuito de apoderar-se dele, o estudante. Enlouqueceu e morreu em um hospício.

Aqui, o velho homem, de feições assombradas, terminou sua narrativa.

Esse fato é verdadeiro? ― perguntou um cavalheiro curioso.

Um fato que não pode ser posto em dúvida ― respondeu o primeiro. ― Soube-o por fonte autorizada: foi o próprio estudante que me contou. Eu o conheci no manicômio de Paris.

Se o leitor e leitora têm interesse em ver o que se escreve no Brasil sobre guilhotina e execuções, recomendamos a leitura da breve coletânea “Aquele que Venceu a Guilhotina” (disponível aqui), dos brasileiros Pantoja e Mephisto. Sobre si mesmos, eles dizem: “Pedro Pantoja e Mephisto, ambos escritores de coisas terríveis e cruéis, são amigos e colaboradores há mais de dez anos. Há um tema que eles admiram particularmente: patíbulo e execução. Seus contos são (quase) sempre breves e impactantes”.

1 Emanuel Swedenborg (1688 ― 1771) foi um grande sábio sueco, dedicado à filosofia e a vários campos da ciência, como a astronomia, a biologia, a física, a química, a matemática, a psicologia e a geologia. Foi, igualmente, um teólogo e espiritualista notável.

2 A mais sombria e sanguinária fase da Revolução Francesa.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim. Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
Paulo Soriano

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  • Luciana Oliveira

    Não conhecia a história e equívocos relativos ao Joseph-Ignace Guillotin e a guilhotina. É nteressante e se à temática não coubesse o peso das cabeças rolantes, diria que chega a ser até engraçados os equívocos. Confesso que não deixei de achar (risos). O conto do Washington Irving? Maravilhosamente terrível! Apesar de saber com antecedência que se trata de uma guilhotinada, há um suspense insistente que me faz o tempo todo esperar um grande susto, daqueles que o coração dispara bem antes. Parabéns, muito bom.

    • Paulo Soriano

      Muito grato pelos comentários, Luciana!