O ‘Vocabulário Ortográfico da Galiza’ está já em papel



O Vocabulário Ortográfico da Galiza, apresentado publicamente em 27 de junho de 2015, dentro do programa do Seminário “Língua, sociedade civil e ação exterior” da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), está já disponível no formato impresso. De facto, os primeiros exemplares foram entregados no recente simpósio SIPLE, entre outras personalidades, ao secretário-geral da Política Linguística da Junta, Valentín García Gómez.

Carlos Durão, académico da AGLP

Carlos Durão, académico da AGLP

Em artigo publicado no sítio web da AGLP, o académico Carlos Durão explica que «a elaboração de um Vocabulário Ortográfico da Galiza, como contributo ao Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, previsto no texto do Acordo Ortográfico (e ratificado em Lisboa pelos Ministros da Educação e da Cultura dos países membros da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), foi tarefa assumida pela delegação de observadores da Galiza já nas sessões de trabalho das negociações do Acordo Ortográfico, primeiro do 1986 no Rio de Janeiro, e depois do 1990 em Lisboa, hoje vigorado nos países signatários».

A presença de uma delegação da Galiza foi noticiada até no comunicado que, em nome dos Estados lusófonos, anunciava o Acordo da Ortografia Unificada de 1990: «As delegações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Portugal com a participação de uma delegação de observadores da Galiza, reunidas em Lisboa…». Esta menção foi ainda recolhida no no Diário da República Portuguesa (I Série-A, no 193, 23-8-1991, p. 4370), e também na Resolução da Assembleia da República no 26/91, aprovando o Acordo para ratificação.

Tarefa assumida pela AGLP

Esta tarefa, porém, não foi assumida até a constituição da Academia Galega, cuja Comissão de Lexicologia e Lexicografia (CLL) já elaborara um primeiro Léxico Galego, que partilhara com academias e empresas culturais da Lusofonia, a título de mostra, com aproximadamente 2.000 vocábulos de léxico peculiar galego. Muitos desses vocábulos estão hoje recolhidos em dicionários lusófonos diversos, que se podem consultar na rede, ou em vocabulários ortográficos em papel, como o da Porto Editora; e são reconhecidos no corretor ortográfico FLiP8 da Priberam.

O presente Vocabulário Ortográfico da Galiza

Vocabulário Ortográfico da GalizaEste vocabulário, agora impresso, inclui mais de 154.000 entradas, «número que foi considerado como termo médio razoável», assinala Durão, de maneira que nele coubesse «o vocabulário considerado propriamente galego, junto com o corpus geral da nossa língua, num amplo vocabulário patrimonial, naturalmente partilhado na sua quase totalidade com toda a Lusofonia».

Quanto à ortografia empregue, é «descritiva ou indicativa, digamos recomendada ou orientadora, mas não prescritiv»a. Por outras palavras, «a escolha é a da norma galega escrita, inclusa no padrão português como a forma galega do português europeu, segundo os parâmetros do Acordo Ortográfico. Por isso, é claro que não obriga ninguém a escrever o seu nome, ou o da sua vila, de uma determinada maneira, e menos ainda a o pronunciar com uma determinada fonética, pois esta corresponde a cada realização concreta dentro do domínio linguístico».

Tendo em conta que se trata de um vocabulário puramente ortográfico, «é claro que não leva definições: só a breve indicação da categoria gramatical, e ainda esta em abreviatura e reduzida ao mínimo para não cansar na sua leitura», aclara Durão. Das famílias de palavras, entra o mais representativo, indicando-se a seguir se é substantivo (com o género), pronome, verbo, advérbio, adjetivo, preposição, conjunção, interjeição… «e sempre tentando evitar uma multiplicidade de formas quando bastam as fundamentais, sendo as demais facilmente deduzíveis delas», conclui o académico.


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  • Ernesto V. Souza

    Aplausos, grande e discreto Carlos Durão, todo um exemplo.

    • Ângelo Cristóvão

      Grande, discreto, comprometido, trabalhador incansável.

      Carlos é também poeta e escritor, iniciando-se com “A Teima”, de 1973, “O Internado”, 1975, “Galegos de Londres”, 1978 ou “O Silêncio, Nós”, 1988. Tradutor de diversos artigos e livros, colaborador de jornais vários, Recenseou dúzias de livros e artigos em publicações conhecidas como a revista Grial ou o semanário A Nosa Terra, Agália ou o Boletim da AGLP. Divulgador da cultura galega em Londres, colaborando em programas de rádio da BBC e organizando eventos de todo tipo. Membro das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, da Comissão Galega do Acordo Ortográfico, da Associação de Amizade Galiza-Portugal, e da AGLP desde a sua criação, publicou o “Prontuário Ortográfico da Língua Galego-Portuguesa” das Irmandades da Fala, em 1984.

      Assistente a numerosos congressos de língua, contribui a fazer país desde Londres, onde reside. O seu livro “O silêncio, Nós” poderia ser visto em relação ao que António Gil descreve no seu “Silêncio Ergueito”. O ausência de “armas e barões assinalados”, o esvaziamento da Galiza, a nulidade dos “notabiliños galegos”…

      O VOG é uma obra imensa que coloca a Galiza em posição de contribuir ao Vocabulário Ortográfico Comum, em pé de igualdade com os outros países de língua portuguesa. Na sua versão impressa estará disponível nos próximos dias para aquisição do público.

      • Ângelo Cristóvão

        Faltaria indicar que, por tudo isso, foi silenciado, censurado e excluído dos âmbitos institucionais galegos, tal como indica Celso Álvarez Cáccamo a respeito da atitude que até agora tiveram entidades como a AELG.

  • Ricard Gil

    Muito obrigado Carlos Durão a Galiza sempre terá um bom e generoso presente.
    Eu já encomendei o meu exemplar na Sargadelos de Ourense assim que o tiverem vou por ele e comento-o.
    Eu sei bem que para os utentes é um saco ter que ler ora em rag ora em agal ora em padrão mas para os amadores de língua é divertido mesmo.
    Estes/estas galegas/galegos como somos

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Muitos parabéns, caro Carlos. Abraço!

  • Venâncio

    Caro Carlos,

    Não posso felicitar-te por este trabalho, este trabalhão que claramente tiveste. Isto por duas razões. A primeira é que ele é feito no contexto dum mau produto, esse Acordo Ortográfico de 1990 que nos em cima da cabeça. A segunda, se possível ainda mais grave, é que os autores deste «Vocabulário» do galego são os primeiros a não usá-lo.

    Não existe motivo nenhum para um galego se vangloriar de ter colaborado no AO90. Ele foi mal concebido, mal amanhado e, pior, está a ser aplicado duma maneira caótica, que não prenuncia nada de bom. Eu sou, fui sempre, a favor dum Acordo Ortográfico. Publicamente, detidamente, o propus em 1984. Só que este AO foi feito às três pancadas, e foi, já nos anos 1990, rejeitado por todos os especialistas portugueses, salvo um: o seu próprio autor, Malaca Casteleiro. Foram-lhe apontadas falhas, incoerências, inadequações. Ninguém era, em princípio, contra um AO. Mas este AO era, e continua a ser, um conjunto altamente deficiente. É um simples produto ideológico, que sonha o Português como língua gramaticalmente uniforme, o que ele simplesmente não é, e cada vez menos será.

    Existe, contudo, neste caso, uma circunstância que raia o desatino. É que vós, os autores do «Vocabulário» galego, não fazeis uso dele. Sim, tu, mais o Estraviz, mais o Cáccamo, mais o Herrero, mais o Gil, mais a Rei, mais o Cristóvão, mais o Barbosa, mais a Rousia, tentais exprimir-vos do modo mais indistinguível daquele em nós, portugueses, nos exprimimos. É um milagre contínuo. É a transmutação da água em vinho. Ou o contrário.

    Sejamos claro: quem usa o vosso «Léxico da Galiza» não sois vós, mas aqueles que mais detestais. Este facto é duma perversidade inominável. Quando vos calha usá-lo, é de modo ritual, ou, pior ainda, para efeitos exóticos.

    E não se trata só do banal substantivo ou do trivial verbo. O vosso «Léxico da Galiza» inclui materiais gramaticais doutro estatuto, como são os advérbios. E eu pergunto-me, pergunto-te: quando foi a última vez (se alguma houve) que as senhoras e os senhores acima nomeados usaram, em textos públicos, os advérbios (fiquemos pela letra A) acarão, adoito, agás, assemade, avondo? Eu sei, e tu sabes, quem os usa com naturalidade: os “isolacionistas”. Esses advérbios, e os adjectivos, e o verbos, e os substantivos, e as formas pronominais do vosso «Léxico da Galiza».

    Mais parece que andais a pavonear-vos, fora de portas, com um Galego que, portas adentro, considerais de baixa extracção, e do qual, no fundo, no fundo, vos envergonhais.

    Um abraço.

    • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

      Vá por diante que antes de usar tal ou qual advérbio, é recomendável que este flua com naturalidade. Quero dizer, no meu galego nunca sairia um “adoito”, um “agás” ou um “assemade”. Fluem, sim, “acarão”, “avondo” ou, continuando, “aginha”, “canda” (junto a), etc.

      Abraços.

      • Venâncio

        Caro Gerardo: seja evidente que não se trata do teu galego, mas do Galego… Toda a doumentação disponível mostra que TODOS esses advérbios são correntíssimos na escrita da Galiza.

        • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

          Na escrita, não na fala.

          • Venâncio

            Como? Queres acaso sugerir que o «Léxico da Galiza» da AGLP está mal feito? Eu acho-o MAGNÍFICO.

            Mas, exactamente por isso, ele revela-se, nas mãos destes autores, uma contrafacção. Ou, sejamos simpáticos, um gigantesco mal-entendido.

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Em absoluto digo que esteja mal feito. Mal posso opinar se nem sequer o pude valorizar como é devido. Apenas comentei que na escrita da Galiza há certos usos correntíssimos, mas que nem necessariamente o são na fala ou podem não reunir as caraterísticas necessárias para formarem parte da língua padrão galega. Mas cuido que esse é outro debate e nem sequer forma parte do objeto do vocabulário.

          • Venâncio

            Não, eu não estou a falar do «Vocabulário Ortográfico», que não conheço, e sim do «Léxico da Galiza», o qual (se este mundo estiver bem feito) há-de estar inteirinho naquele.

            Esse «Léxico» está desde há anos disponível aqui:

            http://academiagalega.org/publicacoes/lco-da-galiza-mainmenu-50/401-lexico-da-galiza-ficha-da-edicao-novembro-de-2011.html

            Quanto à sua adequação como Galego padrão, não tenho a mínima dúvida. Só é pena vós não o usardes… 😉

            E não me refiro ao uso em família, ou na rua, ou como exotismo (vejam-se «As Sete Fontes» da Concha Rousia). Refiro-me ao uso desse léxico como os galegos “isolacionistas” o fazem… se me faço entender.

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Eu só posso falar por mim, que intento usar o melhor possível o galego nos usos orais e escritos, na sempre difícil adequação entre a língua que me foi transmitida, a que me foi aprendida e as noções do que julgo deve ser (mas não é).

            Centrando-nos só em léxico, eu nunca usaria (de maneira natural) muitas das vozes do «Léxico da Galiza», por serem inexistentes no meu galego. É a mesma razão pola qual minha mulher fala de «encartar» (dobrar) a roupa, mas eu «pregar» a roupa, ou eu «termo» (seguro) de um livro mas ela «tem conta» dele.

            Não sei se me expliquei.

          • Venâncio

            Compreendo inteiramente, Gerardo. Só que a Língua não pode ser gerida a esse nível. Importa dispor dum padrão (e o «Léxico da Galiza» codifica um padrão galego…), e este acha-se acima (e, por vezes, contra) os usos pessoais.

            Tu assumes-te como utente, e fazes bem. Mas, a nível social, tem de fazer-se escolhas. E elas não agradam, nem podem agradar, a cada um dos utentes.

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Não creio que a pretensão do «Léxico da Galiza» seja codificar um padrão galego. Segundo se indica na própria apresentação do trabalho, é apenas uma seleção de vocábulos genuinamente galegos ainda não dicionarizados fora da Galiza. Cuido que essa é toda a sua pretensão. Nessa alargada amostra aparecem formas que, por serem tão minoritárias (e até divergentes doutros padrões da nossa língua), não parece razoável que conformem o padrão galego. Quer dizer, «apreijar» poderia formar parte do padrão galego, mas e poderia/deveria «apouvigar»?

            No mesmo léxico podemos ver a forma «donizela», que é a própria do meu galego, e talvez fruto de um labor padronizador não aparecem «denozinha» ou «denodinha», mas, por que qualquer uma das três devera estar por cima de «doninha», também existente na Galiza e comum ao já fixado padrão português? A questão não é doada, mas a CL-AGAL (julgo que de maneira correta) resolveu que, na sua opinião técnica, a forma padrão galega seja «doninha».

            Não é um assunto singelo, não.

          • Venâncio

            Sim, deves ter razão. O «Léxico da Galiza» da AGLP, mesmo sendo um bom produto, serve, só, para dar umas achegas, uns sabores galegos, a essa ratatouille que vai ser o «Vocabulário Ortográfico Comum» da LP. A criação dum padrão galego é a última coisa que há-de interessar a essa estranha agremiação. Para eles, o Galego é assunto superado, simples dialecto rural de paletos… Pobre Galiza!

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Desde a sua criação, a AGLP centrou os seus fôlegos mais na ação institucional do que noutra cousa.

            Deve ser a padronização a sua prioridade? Se quadra. Por que não o fez? Não o sei. Eu tenho a minha apreciação particular do porquê, a qual prefiro não explicitar aqui; longe de ser ‘desinteresse’, cuido qué mais bem respeito polo labor doutras pessoas.

          • Venâncio

            Existe outra explicação: a AGLP não faz a mínima ideia dum papel seu em matéria linguística. Tem lexicógrafos, tem sociolinguistas, tem pedagogos… mas não tem um único linguista.

            De resto, linguisticamente, a própria AGAL acaba de entrar numa Terra-de-ninguém… Uma “norma flexível”, eis uma parvoíce de todo o tamanho, só concebível por gente para quem o Idioma nunca teve, verdadeiramente, importância.

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Discordo, mais uma vez. Eu pediria um pouco de calma e paciência a respeito.

          • Venâncio

            Não, Gerardo. O que falha entre vós, o que vos vai lixar o projecto inteiro, é essa crónica e grave falta de informação sobre o idioma, que permite toda a espécie de mitos e primarismos.

            Sois um conjunto de simpáticos activistas.Mas isso não chega para um Reintegracionismo.