AS AULAS DO CINEMA

VICTÓRIA OCAMPO, REBELDE FEMINISTA E ANTIFASCISTA

(Duas longa-metragens e vários documentários)



 

Dentro da série que estou a dedicar aos grandes vultos da humanidade, que os escolares dos diferentes níveis devem conhecer, e que iniciei com Sócrates, com o número 81 da mesma, desta vez quero dedicar o meu depoimento a uma mulher argentina excecional, de antepassados galegos, que ao longo da sua vida desenvolveu um labor cultural e social extraordinário. Conhecida como Victória Ocampo (1890-1979), foi uma grande intelectual, foi escritora, ensaísta, tradutora, editora, filantropa, mecenas, e, especialmente, uma grande feminista, rebelde e antifascista. E, dado que estou com uma minissérie de grandes figuras iniciada com Robindronath Tagore, e seguida com o seu principal amigo europeu Romain Rolland, continuo com ela apresentando pessoas também relacionadas com Tagore, como é o caso de Victória Ocampo, que era uma sua grande amiga e admiradora. A minissérie continuará com depoimentos dedicados a admiradores e amigos de Robindronath, como são os casos a seguir: Zenóbia Camprubí, grande tradutora de obras tagoreanas para o castelhano (mais de 25); Telo de Mascarenhas, o goês tradutor a partir do idioma bangla para a nossa língua de vários livros de Tagore, romances e contos; o germano Hermann Keyserling, um grande amigo, que era visitado por Robindronath cada vez que viajava à Europa, na sua “Escola da Sabedoria”; Albert Einstein, o grande cientista amigo de Tagore, com quem manteve várias entrevistas; Adeodato Barreto, o goês que estudou em Coimbra, criador em Portugal do jornal Índia Nova, admirador de Robindronath, que manteve com ele alguma correspondência, e sobre o qual escreveu uma pequena obra, hoje em dia ainda inédita, sob o título de As ideias pedagógicas de R. Tagore; e, finalmente, também Pablo Neruda, que gostava muito do livro de poemas de amor de Tagore O Jardineiro, e realizou uma formosa paráfrase dum poema tagoreano deste livro para o seu tão famoso de Vinte poemas de amor e uma canção desesperada.

ALGUNS DADOS BIOGRÁFICOS:

victoria-ocampo-cartaz-1De nome completo Ramona Victória Epifania Rufina Ocampo, nasceu a 7 de abril de 1890 na cidade de Buenos Aires, filha de Manuel Sílvio Cecílio Ocampo (1860-1931) e de Ramona Máxima Aguirre (1866-1935), alcunhada “A Morena”, pertencentes à alta classe e que se conheceram em 11 de setembro de 1888 durante o funeral de Sarmiento, contraindo matrimónio em 26 de abril de 1889. Os Ocampo descendiam dum paje galego da rainha Isabel “a Católica”, um dos primeiros habitantes da ilha de Santo Domingo. Por isso a sua família era aristocrática, e Victória foi educada com precetoras e o seu primeiro idioma foi o francês. Manuel José de Ocampo, o seu trisavô, deixou o Peru em finais do século XVIII. Da sua família eram também Prilidiano Pueyrredón, o fotógrafo de seus bisavós, e, por parte de seu pai o poeta e político José Hernández. Manuel Hermenegildo Aguirre (1786-1843), por parte de sua mãe, era seu bisavô, o qual concedeu uma grande fortuna ao Cabido de Buenos Aires, para apoiar a causa da Revolução de Maio de 1810, depois das invasões britânicas, e manteve uma longa amizade com Domingo Faustino Sarmiento, que o visitava em ocasiões. Por parte da família de sua mãe era também descendente de Domingo Martínez de Irala (1509-1556), conquistador, explorador e colonizador hispano. E os seus antepassados tinham uma remota origem mestiça guarani, que compartilhava com muitos próceres da independência e com grandes personagens paraguaias e argentinas. Um dos seus tios-avós, Enrique Ocampo, foi conhecido por matar de um tiro Felicitas Guerrero, depois de descobrir-lhe um romance com Samuel Sáenz Valiente. Segundo uma biógrafa de seu pai, este era um homem alto, bom moço, refinado e distinguido, exercendo a profissão de engenheiro especializado na construção de pontes e caminhos, muitos dos quais levantou no interior do país, pai de família conservador, preocupado com ela e amante de suas filhas. De bom humor e amável, tinha, porém, tendência natural à melancolia. A respeito de sua mãe, opinava que era uma mulher com grandes dotes para tocar violino, com uma grande paixão por cuidar flores e plantas, considerando-a como uma progenitora perfeita, carinhosa e protetora, que sabia como resolver os pequenos e grandes problemas familiares. Victória destacou sempre nos seus escritos autobiográficos o sentido de honestidade de seu pai e as rígidas normas impostas às filhas pela mãe.

Victória foi a maior de seis irmãs. Que tinham de nome Angélica (1891-1980), Francisca (1894-1967), Rosa (1896-1968), Clara (1896-1911) e Silvina (1903-1993), escritora e esposa de Adolfo Bioy Casares. Na sua autobiografia, Victória fala da admiração que tinha por Angélica e do grande desgosto que levou, chegando mesmo à depressão, quando faleceu com 11 anos Clara, por causa da sua diabetes infantil.

Durante os seus anos de infância desenvolveu um grande carinho pela sua tia-avó Vitola, que influenciou bastante na sua vida. Como era costume nas famílias aristocráticas recebeu uma educação privada com professoras particulares. Estudou literatura, história, religião e matemática em aulas particulares de Alexandrine Bonnemason e de língua inglesa com Kate Ellis. Em 1896, já com a grande mansão familiar de “Vila Ocampo” construída, a família decidiu viajar à Europa, onde moraram durante um ano em Paris, Londres (onde viram os atos do jubileu de diamante da rainha Vitória), Genebra e Roma. O primeiro idioma que aprendeu foi o francês, e depois o inglês e o castelhano. Sobre Paris, cidade que muito apreciava e admirava, comentava que era uma cidade que, embora não fosse sua filha natural, lhe pertencia tanto como aos seus filhos legítimos. Ao voltar à Argentina, começou a ser atraída pela literatura. Sendo criança, admirava Júlio Verne, Arthur Conan Doyle, Charles Dickens, Guy de Maupassant, Daniel Defoe e Edgar Allan Poe. Paralelamente desenvolveu um grande gosto pelo jogo de ténis e pela música de Chopin. Em 1901, descobriu na escrita uma maneira de desabafar, e foi assim como redigiu os seus primeiros artigos e relatos em francês, alguns dedicados a Chopin e Musset. Com dez anos assistiu a uma representação teatral da companhia de Maria Guerrero e Fernando Diaz de Mendoza, e mais tarde a uma de estilo clássico com Marguerite Moreno. Desde este momento sentiu-se fascinada pela arte dramática, ainda que, para não desgostar o seu pai, não chegou a exercer de atriz, sendo como era seu grande desejo ter esta profissão. Renunciar a esta sua vocação foi sempre para ela uma grande frustração ao longo da sua vida, que, por vezes, por este motivo, considerava fracassada.

victoria-ocampo-capa-revista-surEm novembro de 1908, a família voltou a viajar à Europa, e ela, com 18 anos de idade, assistiu a aulas de piano, vocalização e filosofia, ditadas no Colégio da França por Henri Bergson, e à Universidade da Sorbona, onde estudou literatura grega clássica, literatura inglesa, as origens do romantismo, história de Oriente e a obra de Dante e Nietzsche. Desde a sua juventude participou nas primeiras manifestações dos movimentos feministas, intelectuais e antifascistas argentinos, o qual a levou a fundar em 1936 a “União Argentina de Mulheres”. As suas múltiplas viagens permitiram-lhe contactar com figuras destacadas da cultura e literatura mundiais. Animada por Waldo Frank e Eduardo Malhea, fundou a revista Sur, e a editora do mesmo nome, em 1931. Graças a esta publicação periódica, pôde promover as obras literárias de autores argentinos e também de autores estrangeiros e internacionais, como Garcia Lorca ou Virgínia Wolf, até o seu encerramento parcial em 1971. Em 1941, instalou-se na residência familiar de “Vila Ocampo” (que hoje pertence à UNESCO). Esta formosa casa, com amplo jardim e vistas sobre o rio da Prata, antes e depois deste ano, converteu-se no lugar de acolhida de grandes personalidades e figuras da cultura mundial, como Robindronath Tagore em finais de 1924, Albert Camus, Graham Greene, Ígor Stravinsky, Saint-John Perse, Pierre Dreu La Rochelle, Roger Caillois, Ernest Ansermet e Indira Gandhi.

Esteve casada em duas oportunidades. Luís Bernardo de Estrada, alcunhado “Mónaco”, foi o seu primeiro esposo, com quem casou em 8 de novembro de 1912. Porém, pouco durou o relacionamento, já que em 1914 deixaram de conviver, e só assistiam juntos a reuniões sociais relevantes. A sua separação legal teve lugar em 1922. Desde o ano em que na prática deixaram de ser casal, Victória manteve um relacionamento quase em segredo com um primo familiar de seu esposo chamado Julián Martínez, um diplomático quinze anos mais velho do que ela, que foi seu segundo esposo. Durante uns meses, em finais da década de 1920, conviveram juntos em Mar de Plata. Depois de treze anos de relacionamento amoroso terminaram de forma cordial com o mesmo. O que antes, na sociedade puritana argentina, não deixava de ser algo mal visto e escandaloso. Victória faleceu em Beccar-S. Isidro em 27 de janeiro de 1979, vai fazer agora 50 anos. Tinha 88 anos de idade quando faleceu.

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Devemos assinalar que Victória foi a única latino-americana que esteve presente numa das sessões dos julgamentos de Nuremberga, que militou na oposição ao peronismo, pelo que foi arrestada durante 26 dias em 1953, pelo governo peronista. Foi presidenta do Fundo Nacional das Artes de 1958 a 1973 e recebeu diversas distinções, assim como doutorados “Honoris Causa” de várias universidades (entre eles, o da universidade tagoreana de Visva-Bharoti, para o qual Indira Gandhi se deslocou à Argentina, para fazer-lhe entrega do diploma correspondente). A rainha britânica Isabel II concedeu-lhe a Ordem do Império Britânico. Já em 1977, Victória converteu-se na primeira mulher eleita como académica da Academia Argentina de Letras. Manteve relação de amizade com grandes figuras intelectuais, algumas das quais já citámos antes, tanto acolhendo-as na sua residência, e noutros casos por troca postal. A listagem de pessoas destacadas que se relacionaram com Victória é a seguinte: Delfina Bunge, escritora, Ricardo Güiraldes, Robindronath Tagore, Hermann Keyserling, Drieu La Rochelle, Lawrence de Arábia, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Waldo Frank, Gabriela Mistral, José Bianco, Igor Stravinsky e José Ortega y Gasset, entre outras muitas personalidades. O relacionamento com alguns deles passou de ser bastante profundo e durante tempo, para terminar com desgosto, como no caso de Keyserling, com críticas em escritos posteriores de ambas as partes.

Em 1986 estreou-se a peça teatral Eva e Victória, sob a direção de Mónica Ottina, onde se recriou um encontro imaginário de Victória com a sua antagonista Eva Perón, sendo atrizes China Zorrillla como Victória, e Soledad Silveyra como Eva. Em 1989 filmou-se 4 cartas para Victória, sob a direção de Óscar Barney, um ensaio biográfico sobre a escritora, representada em diferentes etapas pelas atrizes Carola Reyna, Júlia von Grolman, Nacha Guevara e China Zorrilla.

Dados de interesse na vida de Victória são também que foi a primeira mulher argentina em obter a carta de condução de carro, a única mulher latino-americana que assistiu aos julgamentos de Nuremberga, e a primeira mulher em ser eleita membro da Academia Argentina de Letras. Foi ademais, um dado muito importante, uma das principais figuras na luita pelas causas da mulher, mantendo sempre viva a sua defesa do feminismo, das liberdades e do antifascismo. Por isto, em 1936 fundou a União Argentina de Mulheres, com a ajuda das suas amigas Susana Larguia e Maria Rosa Oliver. Esta associação tinha como objetivos os sete seguintes: Defender os direitos civis e políticos das mulheres; Incrementar as leis protetoras das mulheres na indústria, agricultura e serviço doméstico; Amparar a maternidade; Proteger os menores (e as meninas); Desenvolvimento cultural e espiritual da mulher; Defender a paz mundial e Diminuir e prever a prostituição.

Durante 38 anos morou na linda casa familiar de “Vila Ocampo”, em S. Isidro, inaugurada em 1891, sob a direção arquitetónica de seu pai. A propriedade atual desta casa é da UNESCO, como já comentámos, e foi declarada monumento histórico nacional em 1997. Hoje funciona como casa-museu. Em Mar de Plata teve outra formosa casa chamada “Vila Victória”, utilizada fundamentalmente nas férias do verão. A terceira casa está na capital argentina, no bairro portenho de Palermo Chico, construída em estilo modernista no ano 1928. Hoje é sede do Fundo Nacional das Artes.

FICHAS TÉCNICAS DOS FILMES E DOS DOCUMENTÁRIOS:

A. Longa-metragens:

1. Pensando en él (A pensar nele).

Título em inglês: Thinking of him.

Diretor: Pablo César (Argentina-Índia, 2017, 110 min., a cores e a preto e branco).

Roteiro: Jerónimo Toubes. Fotografia: Carlos Essmann. Música: Gabriel Carbone e Fernando Sande.

Assessor cultural (relacionamento Tagore-Ocampo): Shamu Ganguly.

Assessor sobre o relacionamento Índia-Tagore: Gustavo Canzobre.

Ver pequeno trailer em:

https://subjetiva.com.ar/2018/08/29/pensando-en-el-de-pablo-cesar/

Atores fundamentais: Eleonora Wexler (Victória Ocampo), Hector Bordoni (Félix Mazzola), Jerónimo Toubes (Leonard K. Elmhirst, secretário de Tagore), Constanza Nacarato (Fani, cuidadora galega da casa de Victória), Victor Banerjee (Robindronath Tagore), Raima Sen (Kamali), Bikramjeet Kanwarpal (Rothindronath Tagore, filho de Robindronath), Soumyadip Sarkar (Abhik), Bratin Chottopadhyay (Prakash), Partha Chakravorty (Kalimohan) e outros muitos.

Argumento: Duas histórias misturam-se através do tempo. No presente, Félix, um professor pessimista e indolente, encontra-se com um livro que o surpreende, enquanto leciona aulas de geografia num centro de acolhimento de menores. Este livro é o de Tagore e Pearson Morada de Paz (Sntiniketon). No passado, Robindronath Tagore, poeta bengali e um dos autores do livro, chega à Argentina em novembro de 1924, e é alojado por Victória Ocampo na casa familiar de S. Isidro, com quem vive um breve e inocente romance. Entretanto, Félix obceca-se mais e mais com a história do poeta e a jornalista e escritora, o mesmo vai-se aproximando às noções espirituais sobre as quais Tagore funda uma revolucionária escola na Bengala indiana. A partir das leituras dos livros de Tagore e de Ocampo recorremos os sucessos que aproximam e afastam estas notáveis personalidades da cultura universal, que se debatem entre o carinho e o estranhamento. Félix propõe-se viajar à Índia e experimentar de forma direta o método de ensino que Tagore sonhou para toda a humanidade. Paralelamente, a história de amor platónico entre o Mestre bengali e a jovem argentina chega a um ponto de definição: depois do encontro em Buenos Aires voltam a juntar-se anos mais tarde em Paris. Ali despedem-se pela última vez, seguindo cada um o seu próprio caminho, mas afirmando seu amor impossível e a sua admiração mútua.

2. Cuatro caras para Victoria (Quatro rostos para Victória).

Diretor: Óscar Barney Finn (Argentina, 1992, 94 min., a cores).

Roteiro: Ernesto Schoó e Óscar Barney.

Fotografia: Alberto Basail. Música: Luís Maria Serra.

Ver um fragmento de 22 minutos em: https://www.youtube.com/watch?v=OrQoS1IXNks

Atores: Carola Reyna, Julia von Grolman, Nacha Guevara, China Zorrilla (as 4 representam V. Ocampo em diferentes etapas históricas), Arturo Maly, Eduardo Pavlovsky (Robindronath Tagore), Hugo Soto (Julián Martínez), Selva Alemán, Hilda Bernard, Ricardo Fasán, Maria Teresa Costantini (Emily Bronte), Daniel Kuzniecka, Jorge D´Elia e Laura Palmucci.

Argumento: Filme sobre a vida de Victória Ocampo, em que várias atrizes interpretam Victória em diferentes etapas da sua vida de intelectual e aristocrata argentina.

B. Documentários:

1. Biografia de Victória Ocampo.

Duração: 49 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=jMVzjhuskC8

2. Victória Ocampo: Paisagem.

Duração: 20 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=e_TkMp5uUuo

3. Victória Ocampo. Uma mulher de outro tempo.

Duração: 66 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=nWwzLeffZ6Y

4. Victória Ocampo e a UNESCO.

Duração: 8 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=-R44Vi2fgeQ

5. A casa de Victória Ocampo, mulher da cultura.

Duração: 6 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=5gHZvmhOGw4

6. Comemoram-se os 35 anos da revista Sur, de V. Ocampo (1966).

Duração: 4 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=vlkJBuqoiWc

7. Victória Ocampo: breve apresentação.

Duração: 7 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=pXLEgcRh39Q

CRIAÇÃO DA IMPORTANTE REVISTA SUR:

Durante uma palestra dedicada ao cineasta Chaplin, Victória conheceu Waldo Frank, que lhe solicitou que o visitara nos EUA e fundasse uma revista literária. Esta visita teve lugar, e foi a primeira de uma série de viagens que realizou na década dos anos 30, em que conheceu grandes personalidades como Jacques Lacan, Ramón Gómez de la Serna, Leo Ferrero, Sergéi Eisenstein e Le corbusier, entre outros. Frank, com que teve amizade até a morte deste, sugeriu-lhe que fundasse uma revista para tratar os problemas, as inquedanças e a literatura do momento. Para poder criá-la aproveitou parte das fortunas herdadas por ela: a da sua tia Vitola, a da sua madrinha e a parte proporcional que lhe correspondeu na herança de seu pai. O projeto da revista Sur requeria importantes investimentos e de forma constante. Quando Victória faleceu em 1979 não tinha o dinheiro suficiente para o pagamento dos impostos.

Em 1 de janeiro de 1931 saiu à luz o primeiro número da revista, que contou com a colaboração de Drieu La Rochelle, Jorge Luis Borges, Waldo Frank, Eugênio D´Ors, Walter Gropius, Ernest Ansermet e Alberto Prebisch. A primeira edição esgotou-se rapidamente com uma tiragem de quatro mil exemplares e foi vendida também em Paris e Madrid. Segundo Bioy Casares, cunhado de Victória, “foi um desafio para ela, como abrir um caminho na selva”. As primeiras edições foram publicadas no prelo de Francisco Colombo em S. António de Areco, onde se editara em 1926 a famosa obra Don Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes. Embora tenha sido ideia de Waldo Frank a escolha do nome Sur, Victória encarregou-se do desenho simples da capa que consistia numa frecha olhando para baixo. Por ciúmes e outros motivos, mesmo políticos e, surpreendentemente de algum setor da igreja, na sua acolhida também houve críticas para a publicação que vinha de nascer. Victória comenta isto em carta a Maria de Maeztu da Residência de Estudantes da ILE.

Em 1931 saíram a lume 4 números, em 1932 dous, e só três entre 1933 e 1934. Durante o período de julho de 1934 a julho de 1935, não se publicou. Desde 1935 até 1953 publicou-se mensalmente, e de 1953 a 1972 bimestralmente. A partir de 1972 só se publicaram monográficos e edições especiais. Ao longo do seu percurso histórico, teve entre os seus colaboradores figuras literárias de prestígio: Borges, Bioy Casares, Bianco, Frank, Alfonso Reyes, Thomas Mann, Eliot, Malraux, Henry Miller, Octávio Paz, Gabriela Mistral, Sábato, Guillermo de Torre, Pezzoni, e muitos outros. Em 1933, Victória fundou também a editorial Sur com o objetivo de solucionar a publicação e divulgar a literatura estrangeira mais destacada da época. Entre os autores de que foram publicadas obras estão Lawrence, Lorca, Huxley, Virgínia Wolf, Albert Camus, Graham Greene e Dylan Thomas. Segundo Júlio Cortázar, Sur significou uma oportunidade para consolidar os jovens escritores, ajudando os estudantes entre as décadas de 30 e 40. O próprio Rafael Alberti opinava que esta revista conseguia ligar o mundo com a cultura, e Octávio Paz achava que Sur era uma tradição do espírito, e que Victória conseguira com ela o que ninguém antes tinha conseguido na América.

UMA OBRA LITERÁRIA EM QUE DESTACAM AS LEMBRANÇAS:

Em quase que toda a sua obra ao longo dos tempos deu prioridade à dimensão biográfica sobre a estética da narração. Porém, muitos autores coincidem em que não adoita formalmente nenhum dos dous métodos. A relação entre o escritor, a literatura e a vida é o tópico fundamental dos seus livros baseados na experiência e a subjetividade, sobretudo ao fazer referência às suas viagens. Os volumes dos seus testemunhos e autobiografia começam habitualmente com uma descrição da época, continuam com a biografia do escritor para depois terminar com comentários sobre a sua obra. De maneira diferente aos seus contemporâneos, outorgou particular importância ao destino por sobre o caráter humano. De acordo com a sua ideologia filosófica, a ideia de destino conota fatalidade no senso do cumprimento de uma lei inexorável que dirige o curso da vida. Por isto chegou a comentar: “Cada ser leva dentro de si a mesma cena, o mesmo drama desde que nasce à consciência e por tudo o resto da vida; e representa a sua cena, o seu drama, sejam quais forem os acontecimentos ou as personagens que saírem ao encontro até dar com o seu acontecimento, com a sua personagem”. A sua obra autobiográfica revela recantos de uma vida marcada pelas exigências sociais para com as mulheres e nunca foi apreciada pela crítica académica nem por escritores de esquerdas. Héctor Bianciotti, seu admirador, assinalou que “era uma jornalista extraordinária, mas não se pode dizer que soubesse escrever”. Com 17 anos, numa carta a Carlos Reyes, Victória chegou a dizer: “Mais que nunca tenho a impressão de viver o que leio”. O seu compromisso com as suas leituras levou-a a desenvolver uma produção memorialista em que narrou uma série de paixões e desilusões influenciadas pela sua relação com a literatura. Durante a sua vida alimentou a desvalorização da sua obra na sua própria escrita, tanto de ensaios como autobiográfica. Numa carta a Keyserling em 1929 fez referência ao seu complexo de inferioridade e a que se expressava com dificuldade.

Segundo a artista Amália Pereira, Victória procurava encher a sua vida através de metáforas de linguagem, como a tradução ou a interpretação, para dissimular a dificuldade que tinha para escrever no seu próprio idioma. Nos seus relatos, as dificuldades para configurar uma expressão própria das mulheres foram utilizadas para mencionar a falta de uma educação formal, liberdades e tradição literária feminina em que apoiar uma escrita. Particularmente, pareceu-lhe decisiva a falta de referentes dentro da literatura e, por isso, os seus textos colocam em evidência o desejo de estabelecer diálogos e alianças com diferentes sujeitos. Nos seus livros cita em muitas ocasiões escritoras relevantes como Jane Austen, Elizabeth Barrett Browning, George Eliot e as irmãs Brönte (em especial Emily). Francisco Ayala definiu Victória como uma “escritora de circunstâncias, espontânea e natural”, enquanto que Enrique Pezzoni escreveu: “vejo-a incorporada a uma série de escritores que tradicionalmente se identificam com o nosso meio literário, e não só literário”.

Ricardo Güiraldes, por volta de 1917, publicou o seu romance Xamaica, cuja protagonista era Clara Ordóñez, figura inspirada na própria Victória. A personagem de Clara transcorre com a mesma infância que ela, como assim também com um casamento conflituoso. O autor do livro solicitou no seu momento autorização para incluir no mesmo uma carta de Victória. Por essa época ela sentiu-se muito identificada com Dante, até o ponto que chegou a dizer: “eu vivia em Dante”. Em 4 de abril de 1920, pouco depois do seu aniversário, escreveu o seu primeiro depoimento no diário La Nación, com o título de “Babel”, onde realizava um comentário do Canto 15 sobre o Purgatório, da obra do escritor italiano, e escreveu sobre as desigualdades entre os seres humanos. Naquela altura era de muito prestígio publicar no diário da capital argentina. Quando em 1916 Ortega e Gasset chegou à Argentina, a conseguinte amizade entre ambos ajudou ao aperfeiçoamento do castelhano dela. Idioma a que teve que adaptar-se, por causa das críticas que recebia dos que a qualificavam de “estrangeirante”. Até 1930 tudo o que escrevia era em francês, e tinha que ser depois traduzido. Em 1924, depois da sua partida, Ortega publicou-lhe o seu primeiro livro na Revista de Occidente, sob o título de De Francesca a Beatrice, traduzido por Ricardo Baeza como segundo tomo da revista, e redigiu o seu prólogo. Ortega alcunhou Victória como “a Gioconda das Pampas”. Ambos deixaram depois de escrever-se, recuperando a sua amizade de novo, quando saiu à luz a revista Sur.

Feita uma oportuna escolha da sua obra literária, temos que destacar entre os seus livros publicados os seguintes: De Francesca a Beatrice (Rev. de Occidente, 1926, e Sur, 1963 e 1984), A lagoa dos nenúfares (Rev. de Occidente, 1926, e Sur, 1982), Domingos em Hyde Park (Sur, 1936), S. Isidro (Sur, 1941), Le Vert Paradis (Lettres Françaises, 1947), Lawrence d´Arábia (em francês e inglês, Gallimard, 1947), O viageiro e uma das suas sombras (Sudamericana, 1951), Lawrence de Arábia e outros ensaios (Aguilar, 1951), Virgínia Wolf no seu diário (Sur, 1954), Fala a alfarrobeira (Sur, 1959), Tagore nas barrancas de S. Isidro (Sur, 1961 e 1983), J. S. Bach, o homem (Sur, 1964), A bela e os seus namorados (Sur, 1964), Diálogo com Borges (Sur, 1969, e El Ateneo, 2014), Diálogo com Mallea (Sur, 1969), Cartas a Angélica (Sudamericana, 1997), Esta América nossa (El Cuenco de Plata, 2007), Cartas de pós-guerra (Sur, 2009), A viageira e as suas sombras (Fondo de Cultura Económica, 2010), Epistolário (Interzona editora, 2013), Páginas dispersas de V.O. (Rev. Sur, núms. 356-57, jan-dez 1985, e maio de 1987), Testemunhos (10 volumes, Rev. de Occidente, 1935, Sur, 1941, Sudamericana, 1950, e Sur, 1954, 1962, 1967, 1971, 1975 e 1977), Autobiografia (6 volumes, Sur, 1979, 1980, 1981, 1982, 1983 e 1984, com uma edição em Alianza editorial, em 1991), e Darse: autobiografia e testemunhos, editado em 2016 pela Fundação Banco de Santander. Existem duas edições (1993 e 1998) de Circe Ediciones da monografia escrita por Laura Ayerza del Castillo e Odile Felgine, sob o título de Victória Ocampo. Existem sobre ela outras interessantes monografias publicadas. Uma de Doris Meyer, publicada por Braziller em 1979 em inglês, que foi traduzida para o castelhano com o título de Contra viento y marea (Contra vento e maré), e publicada em 1981 pela editora Sudamericana. A outra monografia, com o título de Victória Ocampo, foi escrita por Maria Esther Vázquez, e publicada em 1991 pela Planeta.

Entre 1946 e 1978 foram publicados por Sur 19 livros de diferentes autores e autoras traduzidos por Victória do inglês ou do francês, no seu caso. As obras que se publicaram foram 6 de Graham Geene, 3 de Albert Camus; e 1 de cada de Colette, Anita Loos, Dostoievski, W. Faulkner, Lanza del Vasto, T.E. Lawrence, Dylan Thomas, Jawarharlal Nehru (uma antologia, em 1966), Mahatma Gandhi (A minha vida é a minha mensagem) em 1970 e Paul Claudel.

RELACIONAMENTO COM ROBINDRONATH TAGORE:

Pouco tempo antes de que Robindronath Tagore chegasse à capital argentina num transatlântico procedente do Reino Unido, caminho do Peru, em novembro de 1924, Victória publicou no diário La Nación o seu artigo “ A alegria de ler a R. Tagore”. E já antes dois depoimentos dedicados resptivamente a John Ruskin e Mahatma Gandhi, que ela respeitava e admirava. Tagore, como escritor, conhecia-o desde que em 1914 lera a obra Gitanjali, em tradução para o francês por André Gide. Tagore, com passagem do barco pago pelo governo de Peru, viajava para participar nos atos da comemoração da independência do país andino, que estava governado na altura pelo ditador Augusto Leguia. Ao chegar a Buenos Aires muito canso da viagem por mar, depois de receber muitas cartas no périplo da mesma, criticando que fosse ao Peru apoiar um governo repressor, que tinha no cárcere muitos estudantes e políticos, e outros muitos no exílio – entre elas, uma carta do ministro mexicano José Vasconcelos, e outras de organizações estudantis várias –, com apoio de Victória, que tampouco via bem essa ida, organizou-se uma campanha jornalística e divulgativa, em cuja montagem nunca acreditou o governo peruano, assinalando que Tagore se encontrava muito doente e o seu médico tinha ordenado que não podia continuar a sua viagem a Lima, pelo seu estado de saúde, e atravessar a cordilheira andina. Encontrando-se no dia seguinte da sua chegada, no Plaza Hotel da capital, foi visitá-lo Victória, oferecendo-se para alojá-lo na “Vila Ocampo” em S. Isidro. Perante a negativa de seus pais, Ocampo solicitou emprestada a quinta “Miralrio” da sua prima, também situada em S. Isidro. Num primeiro momento a sua morada estava prevista para oito dias, e terminou por ser de dous meses, pelo que Victória teve que afinal alugar a casa. A estadia do vate bengali provocou em próprias palavras de Victória, nela “uma vasta admiração e entrega espiritual por Robindronath”. O que também manifestou Tagore, pela sua parte, com uma grande atração por Victória, e terminaram num livro-poemário em bengali intitulado Purobi, de que existem edições em bangla, inglês (em tradução de Kshitis Ray, pai da minha amiga bengali Shormila Ray), e 7 poemas do mesmo foram traduzidos para o nosso idioma pela poetisa brasileira Cecília Meireles. Com tradução a partir do inglês por Alberto Girri, com o título de Canto del sol poniente, o poemário de Purobi, foi editado em 1961 por Sur, em colaboração com a Comissão Argentina da Homenagem a R. Tagore, com motivo de seu centenário. Na editora Nivicke existe outra edição deste livro realizada em 1983, e uma terceira em 1986. Alguns dos poemas foram musicados, e o mais lindo cantado é aquele que leva por título “Ami chini gochini tomare”. Em Robindro-Bhovon (Biblioteca e museu Tagore, de Santiniketon) existem as cartas digitalizadas que mantiveram entre eles Victória e Tagore, de que tenho cópia. Através das mesmas pode observar-se que entre eles houve pelo menos um certo amor platónico, apesar da sua diferença de idade (Robindronath, 63 anos, e Victória 34 anos).

Em 4 de janeiro de 1925, acompanhado do seu secretário particular, o britânico Leonard K. Elmhirst, que o acompanhou na sua viagem de ida, na estadia argentina, e na viagem de volta, saiu da Argentina no barco “Giulio Cesare” de caminho para Génova (Itália). Ao pouco de partir, com data de 10 de janeiro, mandou a Victória a sua primeira carta, de mais de 7 páginas, e iniciou-se a correspondência epistolar entre ambos. Ele manifestou a tristura por não poder permanecer mais tempo em “Miralrio”. Em 1930 ambos voltaram a reencontrar-se pela última vez em Paris, onde ela lhe organizou na galeria Pigalle, uma exposição pictórica das obras tagoreanas, que depois foram também expostas em Berlim e Londres. Onze anos depois Tagore faleceu, em 1941. Em Santiniketon, no museu Tagore, conserva-se a grande cadeira que Victória lhe oferecera, e também o piano em que Tagore tocava, que teve que trazer com ele no barco de regresso.

Coincidindo com o centenário do nascimento de R. Tagore, Victória ajudou a organizar atos em Argentina na sua honra e lembrança, e publicou um monográfico da revista Sur dedicado ao Centenário, de que tenho cópia na minha biblioteca, ademais de outras publicações. O número de Sur em concreto é o 270 de maio-junho de 1961, em que, ademais de Victória com vários de seus trabalhos, colaboram Eduardo Glez. Lanuza, Jorge Luis Borges, Krishna Kripalani, Osvaldo Svanascini, Leonard K. Elmhirst e Fryda Schultz de Mantovani. Graças a Victória, que realizou as oportunas traduções dos artigos tagoreanos, e o seu apoio, foram publicados em castelhano vários depoimentos, entre novembro de 1924 e dezembro de 1925, de Robindronath no diário La Nación. Entre eles destacamos “O mestre de escola” (12-XI-1924), “O ensino da religião” (13-XII-1925) e “Navidad” (27-XII-1925). Também escreveu sobre as escolas no bosque, e, por sorte, graças a Alberto Vilanova, temos cópia dos artigos na biblioteca da Deputação de Ourense, de que no seu dia fiz fotocópia dos mesmos, que tenho arquivadas na minha biblioteca Tagore.

Em 1968 deslocou-se à Argentina Indira Gandhi, para fazer entrega a Victória do diploma de “Doutora Honoris Causa” da universidade tagoreana de Visva-Bharoti. Também no seu momento se deslocou a calcutaense Kétaki Kushari Dyson, para pesquisar sobre o relacionamento Victória-Robindronath, e apresentar depois na Universidade de Calcutá a sua tese de doutoramento sobre este tema, que mais tarde se publicou em inglês (e também em Bangla) como livro, com o título de In Your Blossoming Flower Garden, em 1998, pela Sahitya Akademi de Nova Deli. Kétaki mora com a sua família perto de Oxford (Reino Unido), e mantenho com ela grande amizade. Em 1973, em idioma Bangla, o grande tagoreano de Calcutá Shonko Ghosh, publicou na editora Dey´s Publishing, uma monografia dedicada a Victória. Da qual em 2010 se realizou uma segunda edição. Também Sisir K. Das e o meu amigo Shamu Ganguly, que foi professor de castelhano na JNU (Nehru University) de Nova Deli, publicaram em bangla uma monografia sobre o relacionamento Tagore-Victória Ocampo. Ganguly, junto com Kétaki Kushari, é um importante especialista sobre o importante tema do relacionamento entre a Ocampo e Tagore.

FORMOSAS FRASES DE VICTÓRIA OCAMPO:

Resenho a seguir uma antologia de frases de Victória Ocampo, através das quais se podem conhecer as suas ideias e pensamentos, e muito especialmente a sua defesa da mulher e do feminismo.

-“Só necessito a tua ajuda, os teus conselhos e os teus artigos. Se te negas seria capaz de suicidar-me moralmente”.

-“O único sujeito de que realmente posso falar e em nome do qual me permito falar com algum direito de causa sou eu mesma”.

-“No cárcere tinha-se a sensação de se bater no fundo, vivia-se na realidade”.

-“Os homens falaram muito da mulher, mas certamente e fatalmente através de si mesmos. Através da gratidão ou da deceção (…). Podem ser elogiados por muitas cousas, mas nunca por uma profunda imparcialidade sobre este tema”.

-“A minha única ambição é chegar a escrever um dia mais ou menos bem, mais ou menos mal, mas como uma mulher”.

-“A vida social é um continuado concurso aberto entre os homens para medir as suas aptidões com ânimo de serem preferidos pela mulher”.

-“O monólogo do homem não me alivia nem dos meus sofrimentos nem dos meus pensamentos. Por que tenho de me resignar a repeti-lo?”.

-“(…) Nascerá uma união, entre o homem e a mulher, muito mais verdadeira, muito mais forte, muito mais digna de respeito. A união magnífica de dous seres iguais que se enriquecerão mutuamente visto possuírem riquezas distintas”.

-“Há livros cuja beleza formal é tão concreta, tão concluída, tão severa, que nada nosso pode inserir-se neles. A sua superfície compacta e lisa não nos oferece resquício algum. Fica-nos só a possibilidade de aquiescência ou de os rejeitar”.

-“(…) Escrevo-te como sempre para queixar-me e dizer-te que a vida é estúpida, o mundo injusto, o destino cego, a sociedade idiota, e mais nada… tenho quase que tudo o que se pode ter, uma cousa incomoda-me: a inteligência”.

-“O que desde já sabemos afirmar da América é que estamos apaixonados estranhamente por ela. E esse amor, como todo o grande amor, é uma prova. Prova que deita sobre as nossas incapacidades e imperfeições uma luz resplandecente e cruel”.

-“Acredito que, desde há séculos, toda a conversa entre o homem e a mulher, começa por um não me interrompas da parte do homem. Até agora o monólogo parece ter sido a maneira predileta de expressão adotada por ele (A conversa entre homens não é mais do que uma forma dialogada deste monólogo). Dir-se-ia que o homem não sente ou sente muito debilmente a necessidade de troca que é a conversa com esse outro ser semelhante e no entanto diferente a ele: a mulher”.

-“(A maternidade) Não se trata apenas de levar nove meses e de dar à luz seres sãos de corpo, mas de dá-los à luz espiritualmente. Quer dizer, não só de viver junto a eles, com eles, mas perante eles. Acredito acima de tudo na força do exemplo”.

-“Não podemos refletir a fundo sobre nós mesmos, cuidando de retificar as inexatidões em que incorre o amor-próprio, sem alcançar por esse caminho os demais. Um homem conhece dos demais homens, definitivamente, apenas o que aprendeu a conhecer de si mesmo e das suas semelhanças e diferenças com os diversos tipos humanos”.

-“(…) Mas eu não sou uma escritora. Sou simplesmente um ser humano à procura de expressão. Escrevo porque não posso evitá-lo, porque sinto a necessidade disso e porque essa é a minha única maneira de comunicar-me com alguns seres, e comigo mesma. A minha única maneira”.

-“(…) Mas os anos ensinaram-me que apenas se convence os convencidos. Pretender apartar as gentes dos seus gostos, das suas inclinações naturais, para aproximá-las de nós, é tão estéril como renegar de nós mesmos para apagar a distância que nos separa de tal ou qual ser”.

-“Não se pode criar nada fora de nós sem antes tê-lo criado em nós. O que os homens, fora de uma minoria que abençoo, não parecem compreender, é que não nos interessa em absoluto ocupar o seu posto mas ocupar por inteiro o nosso, cousa que até agora não tem acontecido”.

-“Existe a raça daqueles que não chegam às palavras mais que movidos pelas suas emoções, e a raça dos que não chegam às emoções mais que movidos pelas palavras”.

-“No momento em que o vi de longe, a sua presença invadiu-me… só nos cumprimentámos essa noite, entre muita gente. Mas eu olhei para ele como se temesse não voltar a vê-lo”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os documentários e filmes citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Vitória Ocampo, a sua obra, as suas ideias, o seu pensamento e as suas propostas sociais. Na mesma, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum. Entre os livros que podemos escolher para ler, estudantes e docentes, temos o de Tagore nas barrancas de S. Isidro, editado em 1961, e com outra edição em 1983. Podia ser lindo também ler os 7 poemas do livro Purobi, que Tagore dedicou a Victória Ocampo, que foram traduzidos para o nosso idioma em 1961 pela grande poeta brasileira Cecília Meireles.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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