A BARCA DO RIBEIRÃO

A urna do povo



Tenho uma avó que nunca votou. Do início da suposta democracia no ano de 1978, até o ano do seu falecimento em 2008, nunca votou em ninguém. Tinha uma frase que sempre empregava para falar dos políticos profissionais: Som-che todos iguais. Tenho um avô que sempre votou no P.P. Do início da suposta democracia no ano de 1978, até o ano do seu falecimento em 2007. Os meus dous avós maternos casaram no ano de 1941, ele tinha dezanove anos e ela vinte e um. Apesar desta profunda divergência quanto a eleições periódicas, coincidiram sempre num ponto ao longo de mais de sessenta anos juntos, nunca pelejar por causa das urnas. O respeito mútuo neste assunto foi sempre a norma prática até o final do seu convívio. Nunca ouvi a mais mínima controvérsia a respeito de partidos políticos, cada um respeitava plenamente a decisão do outro.

A vinte e um de outubro de 2016 houve na Galiza eleições autonómicas. O autor deste artigo esse dia não foi votar e ficou na casa, seguindo o imperativo categórico da sua avó. Nos últimos anos nunca vou votar, mas é um não votar consciente, não abúlico. Cumpriria analisar bem e em detalhe o ceticismo popular galego, aquele que pôs em prática a minha avó desde o ano de 1978. Este ceticismo popular tão nosso é por enquanto a mais saudável postura política, e provoca uma abstenção positiva e consciente, uma autêntica pré-revolução. Sabemos que a Galiza é tradicionalmente o território do Reino de Espanha com as maiores taxas de abstenção, mas isto quase nunca se torna público. Este dado demonstra que somos um povo inteligente, ao contrário do que algum pessoal disse sobre a nossa gente após o resultado das últimas eleições galegas, desprezando os nossos compatriotas.

Uma das causas deste velho desprezo cara o voto dos Galegos, é o mundo muito ideológico no que vivemos. Um mundo no que cumpre ser de direita ou de esquerda. Mesmo alguém que se considerar de centro é alguém sem ideologia, alguém sem personalidade. O voto galego de direita, plenamente legítimo, é atacado com frequência pola esquerda, nacionalista e espanholista. Mas isto quase nunca acontece inversamente. Quando Manuel Fraga perdeu a maioria absoluta em 2005, ninguém da direita galega foi amolar os votantes galegos por não votarem de jeito suficiente no PP ou por votarem na esquerda ou no nacionalismo.

Infelizmente, o mundo da ideologia divide as pessoas e os povos, e permite a alternância no poder durante décadas sem que nada vier a mudar significativamente, quer dizer, permite manter a velha estrutura hierárquica do Estado e a posição de subordinação que nela corresponde ao Povo. Si el voto cambiase algo, lo harían ilegal, diz Eduardo Galeano recolhendo a frase que viu escrita nalguma parede da América do Sul. Então o erro, aliás muito comum no planeta, não é votar na direita ou no P.P., como argumenta a esquerda, mas o simples facto de votar em alguém. O voto perpetua o sistema de dominação, eis a triste, mas ajeitada conclusão.  Ora  bem, se nas últimas eleições autonómicas galegas houve quase 37% de abstenção e nas anteriores ultrapassamos 45%, somos um povo inteligente, muito inteligente.

Uma outra questão, sem dúvida interessante, seria saber por que a Galiza vota maioritariamente no PP. Na minha opinião, o PP da Galiza, muito diferente do PP espanhol, representa o tradicionalismo que por sorte ainda subjaz na mentalidade galega . Este tradicionalismo, este galeguismo fraguista foi o que conquistou o poder durante dezasseis anos e o que segue a conquistá-lo no presente. O único galeguismo tradicionalista, uma vez que CG desapareceu do Parlamento galego, foi o PP da Galiza. O erro da esquerda, espanholista ou nacionalista, é tratar o País como uma abstração, como um sujeito potencialmente ideológico, sem se importar com as suas tradições, com a sua idiossincrasia ou com a sua religião. Este afastamento do Povo, esta carência de intercompreensão faz com que os Galegos, sobretudo no rural, procurem o sentimento de tribo ali onde se achar, e na esquerda não o acham, muito polo contrário encontram lá com frequência um intelectualismo incompreensível, um intelectualismo que mesmo se torna às vezes desprezativo com o próprio povo.

Acima afirmei  que é um facto positivo o tradicionalismo ainda existir na mentalidade galega, como poderoso sinal de identidade, incluída a forte presença da religião  cristã, porquanto é sinónimo de valores, de convívio, de identidade comum, de união e de fraternidade entre os indivíduos. Estes valores não são os valores da direita nem da esquerda, são simplesmente os valores. E ao serem os valores são precisamente os valores revolucionários, os valores anticapitalistas e antiestatais, muito para além de considerações bipolares e ideológicas que quiçá quiserem apropriar-se deles. O Partido Galeguista do século passado, apesar da sua vocação republicana, nunca renunciou ao tradicionalismo, e se calhar esta dupla natureza foi a que permitiu o seu grande sucesso popular.

Poder-se-ia dizer que os Galegos da época da autonomia pós-franquista são de direita ou conservadores, como arquétipo ideológico do País, e de facto o arquétipo emprega-se dentro e fora da Galiza. Mas eu acho errado. O votante galego médio de fins do século XX e de começos do século XXI não é um votante formado ideologicamente, o seu voto é habitualmente o voto da tribo, nas eleições autárquicas, autonómicas ou estatais. Ora não é o seu erro se o nacionalismo político, organizado e consciente, herdeiro  do galeguismo histórico, não é capaz de criar uma alternativa política ajeitada para o povo galego, quer dizer, uma alternativa polítiva que tiver em conta o sentido de tribo, o imprescindível tradicionalismo. Isto significa a urgente e radical reformulação do nacionalismo, para além da clássica bipolaridade esquerda-direita, como movimento social e também a nível institucional. O nacionalismo e o galeguismo não podem ter qualquer traço ideológico, o nacionalismo e o galeguismo são o amor polo País, são em essência algo transideológico, como o próprio reintegracionismo.

O nacionalismo oficial chegou a reduzir o galeguismo  ao simples status da língua, à única tarefa da recuperação linguística. Mas o galeguismo é muito mais do que isso, o galeguismo é a retranca, é o amor pola horta, é a cultura do nicho, a cultura do além, é a cultura da saudade e do humor, a cultura das festas populares, a cultura dos santos e das procissões, é o culto da terra e dos animais como sustento, como o alfa e o ómega… Em resumo, o galeguismo é  toda uma cosmovisão, ainda profundamente alicerçada no mundo rural, no mundo camponês, apesar da Modernidade e da industrialização. Se esquecemos tudo isto, ou ainda pior, se o desprezamos, estamos condenados ao fracasso. Espanha ainda está presente, lá no fundo desse imaginário popular galego, lá no fundo do nosso tradicionalismo?.  Com certeza. Às vezes de jeito positivo e outras de jeito negativo, mas Espanha como fonte de poder, como realidade preexistente, como entidade quase divina e imprescindível, está sempre lá, muito bem utilizada polo PP galego. É muito lógico após a espanholização maciça encetada no século XIX e aperfeiçoada ao longo do século XX, durante o apogeu do Estado capitalista.

 

Já quase ninguém lembra que antes do nascimento da Espanha atual, da Espanha liberal, antes de 1833 na época da Francesada, os nossos labregos, organizados em milícias populares pola Junta Suprema do Reino da Galiza, deram uma lição de soberania popular e de patriotismo ao serem os primeiros em derrotar as tropas imperiais de Napoleão. Mas o realmente salientável não foi isso, não foi a bravura heroica do nosso povo, mas a renúncia a seguir lutando fora dos lindes da sua pátria. Por outras palavras, o seu País já estava libertado, e o País nessa altura não se chamava Espanha ou coroa de Espanha, chamava-se simplesmente a Galiza. É claro que nessa época a nossa mentalidade tradicional estava isenta do que hoje denominamos espanholismo, mas também estava isenta sem dúvida do que hoje poderíamos denominar nacionalismo galego, entendido como doutrina ideológica.

Os nossos ilustres antepassados, após a vitória, voltaram ao seu trabalho quotidiano, às suas leiras, às suas vacas e aos seus arados. O seu patriotismo simples é o patriotismo do amor pola terra natal, onde estão soterrados os devanceiros, é a pátria das fontes e dos prados, a pátria dos cruzeiros e das carvalheiras, a pátria da língua comum e da gaita comum, a pátria do sustento material e não material. A pátria dos libertadores da Terra era uma pátria pré-liberal, uma pátria não ideológica, a antítese do Estado-nação. O nacionalismo moderno, incluído o galego, ao pretender tornar-se emancipador, o que faz é reproduzir o velho modelo da opressão, o modelo do Estado liberal. Para ele não pode existir mais independência do que a independência dentro do Estado, dentro de um novo Estado-nação. A Galiza da altura, sob o governo dos concelhos abertos, emancipada da invasão napoleónica e da influência da coroa espanhola, foi realmente idependente, até que o projeto uniformizador e imperialista que redigiu a Constituição de Cádis de 1812 foi pouco a pouco e de jeito violento tornando-se hegemónico. Foram poucos anos, mas anos de independência real num clima político convulso. Infelizmente, com a chegada do Estado liberal também chegou o doutrinamento maciço, o espanholismo para todos.

É ainda possível um galeguismo emancipador na nossa época? E aliás, seria ainda possível no século XXI, em plena globalização, na era do peak-oil, um voto realmente revolucionário, para além da miragem das ideologias?. É  de facto possível ultrapassarmos a velha ditadura liberal, a sucessão infinita das legisladuras, mediante as próprias ferramentas do sistema, mediante o sufrágio universal?. Poderia existir algures esse voto ilegal, de que fala Galeano? . Sim, se calhar se restaurarmos o galeguismo, não entendido como ideologia, mas como pensamento e sentimento democrático e popular. Um pensamento e sentimento capaz de desemascarar a História vigente, capaz de desemascarar a dicotomia civilização / ruralidade; cidade / aldeia; cidadania / indigenismo; progresso / atraso; riqueza / pobreza; bom / mau; formoso / feio; culto / bruto ou bárbaro; lengua española / gallego; España / Galicia. A possível cura do nosso estigma, o velho colonialismo.

Este pensamento e sentimento precisaria de uma empatia íntima entre todos os partidos que fossem plenamente galeguistas ou tradicionalistas, e o voto do povo voltaria para o povo sob a forma de poder, de poder popular. Uma única candidatura galeguista, uma fusão de partidos, ou várias candidaturas galeguistas, tanto faz, o objetivo seria sempre o mesmo: a vitória eleitoral como legítimo preâmbulo da autogestão. As instituições estariam ao serviço da democracia, e o Parlamento autonómico-estatal teria que se dissolver em pequenas assembleias comarcais e locais. Para atingirmos esta verdadeira revolução, cumpre uma nova pedagogia galeguista, na sociedade e nos partidos políticos. Iniciarmos este caminho, a partir do muito são ceticismo galaico ante a realidade existente, obriga-nos a esquecer o mundo ideológico, em que a civilização é sempre superior ao espírito popular. Deem as pipas ao povo, só ele as sabe guardar, dizia o grande Zeca.

 

Manuel Meixide Fernandes

Manuel Meixide Fernandes

Depois de nascer em Chantada e passar alguns anos pela Península adiante, nomeadamente em Euskadi, onde chega a estudar a metade do primeiro ano do antigo E.G.B., com sete anos volta definitivamente para morar na Galiza, na sua comarca natal. Lá estudará o resto do ensino primário e secundário, para finalmente obter em Compostela a Licenciatura em Filosofia e Ciências da Educação. Um ano antes começa a estudar o curso de Tradução e Interpretação na cidade de Vigo. Tem colaborado na década de noventa na revista chantadina Além-Parte, publicando nela diversos contos. Foi co-fundador da infelizmente dissolvida Associação Cultural Rodrigues Lapa, nascida na vila do Asma no ano 2007. A partir do ano 2001 dá aulas de francês no secundário, morando na vila da Estrada desde o ano 2011.
Manuel Meixide Fernandes

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  • Ernesto V. Souza

    Que bom… ainda dá para acreditar que há outros muito mundos, políticos e sociais, cheios de correntes subterráneas.
    Abraço

  • Joám Lopes Facal

    Estupenda reflexom em chave antroplógica. Ecoam nela Otero e Risco, dous pensadores intempestivos ancorados na tradiçom.
    O convite a um novo-velho galeguismo é oportuno mas falta reconciliá-lo com o Paz Andrade da Galiza como tarefa. Tradiçom e tarefa, dialéctica pendente.

    • Ernesto V. Souza

      Um dia, quando estes das mareas lhes caduque o benefício da dúvida… imos ter de ter uma reunião presencial e fundar um partido… 😉

    • Manuel Meixide Fernandes

      Obrigado Joám. O teu ditado é perfeito, e é também o meu, e acho que poderia ser o de muita gente, mesmo gente da chamada direita. A tradição para não se perder e a tarefa porque está tudo por fazer. Dialética pendente e dialética permanente. Cada vez entendo mais o galeguismo como uma mudança radical e ao mesmo tempo progressiva, algo capaz de mudar os indivíduos e portanto a sociedade em todos os âmbitos: valores, economia, política, cultura… e tudo isto apesar da perda de identidade que estamos a sofrer nos últimos anos. O mais fácil seria o pessimismo, mas como já militei nele no passado, agora sou otimista. Se o galeguismo é mudança, tudo pode sempre mudar, só cumpre criarmos esse galeguismo popular e inclusivo, esse galeguismo para todos. Eis a Galiza como tarefa. A tarefa comum, difícil, possível e apaixonante.

      Grande aperta

  • abanhos

    E completamente falso que a Galiza seja dos territórios dos estado espanhol onde se produz mais abstenção.
    No seu dia fez uma pequena pesquisa sobre dados de concelhos galegos muito abstencionistas e o resultado era inflação do censo, mas os que estavam até votavam tanto ou mais que em qualquer outro lugar.
    Na Galiza tradicional o voto é algo que se vende “antropologicamente” aguardando algo… Se algo há afastado da pre-revolução é a abstenção galega…infelizmente.
    Porém isso sim, com ela “não se perde” e na Galiza sempre jogamos a ganhar que o nosso jeito de perder
    http://www.pglingua.org/opiniom/4999-na-galiza-sempre-se-joga-a-perder

    • Ernesto V. Souza

      não é mais que noutra parte, mas eu penso que si é onde se faz mais a mantenta… por fazer mal… que tem a ver sim com esse jogar ao ganha-perde…

    • Manuel Meixide Fernandes

      É interessante o que apontas, a tua pesquisa, mas tudo isso cumpriria contrastá-lo de jeito objetivo. É por isso que acho um pouco ousado dizer é completamente falso que a Galiza… Eu não fiz qualquer pesquisa, estou só a empregar dados oficiais, mas apesar de uma possível inflação do censo, ultrapassar 45% de abstenção é um dado relevante, em minha opinião. De qualquer jeito, mais importante do que uma possível abstenção à galega dentro do Estado espanhol, real ou fictícia, é o ceticismo popular galego, este sim indubitável como parte da nossa idiossincracia. É lá onde se acha, na minha opinião, essa pré-revolução. Um ceticismo se calhar ainda não ativo politicamente, mas sempre real. A abstenção é o menos interessante neste artigo. Se há qualquer utilidade nele, tem a ver com a reformulação do nacionalismo galego, eternamente condenado ao fracasso institucional e eleitoral, mas não por causa do eleitorado, eis o problema. Adiar ou ignorar este problema, pode significar a desaparição do nacionalismo galego institucional, cousa que mesmo pôde ter acontecido este mês de outubro, O caminho é errado desde há décadas, e não vou ser eu quem fale em possíveis causas do insucesso (não só eleitoral, também estão as contínuas cisões). Esta reformulação geral do galeguismo, na sociedade e nas instituições, em todos os partidos políticos, é necessária e urgente. Na minha opinião, cumpre um galeguismo popular, amplo e transideológico, em que o reintegracionismo também deveria participar. Esta união ou aliança galeguista acho que é o único jeito de mudar o País, muito espanholizado nos últimos anos.

      P.S. Se usas o verbo vender do lado do povo e não do lado do poder, eu interpreto-o mesmo assim, acho que a gente no rural vota sob a influência da tribo, dos nossos. E os seus não são os nacionalistas, o galego médio não percebe o nacionalismo clássico, mas sim pode perceber um tradicionalismo galeguista, no qual também está e deve estar Espanha (nomeadamente como Estado, como realidade necessária). Esta é a minha experiência na minha terra, numa comarca muito rural como é a comarca de Chantada. Ora bem, esse tradicionalismo por enquanto só o possui o PP da Galiza. O nacionalismo nega-o, propondo uma secessão, uma independência formal que é vista como uma loucura, uma extravagância. A República Galega clássica, entendida como um novo Estado, não tem qualquer futuro. Mas se calhar poderia ter futuro uma República Galega popular e realmente democrática. Para atingir isto cumpriria tempo para ultrapassarmos o velho colonialismo, muito difícil mas não impossível se temos alguma ferramenta para fazê-lo, se calhar esse novo galeguismo.

      Grande aperta

      • abanhos

        Pegas as eleições espanholas e a Galiza está na abstenção na media do estado ou incluso por cima com mais participação
        as últimas eleições são bem representativas
        http://resultados.elpais.com/elecciones/2016/generales/congreso/01/

        Pegas as municipais e passa-se o mesmo

        E pega-se as eleições autonómicas, e a participação galega é menor da media estatal, muito mais baixa que nas eleições espanholas…
        Essa abstenção é todo o contrário de pre-revolucionária e gaitas; Isso do que fala é do valor que se lhe dá a essa eleição…O importante é castela/espanha na Galiza isso é o que está incutido e por isso governa quem governa e o nacionalismo não conseguiu agir para modificar isso, aceitando o balizamento de castela/espanha.

        Um pode se fazer feliz com pouca cousa e pensar que aí há algo, mas isso não deixa de ser uma abstração sem alicerce real, enquanto desde o posto de mando vão-nos apagando

        A abstenção só é forte se leva uma mobilização firme dos abstencionistas. Por exemplo a abstenção sunita no Iraque ao não quererem participar nas primeiras eleições sob tutela americana. Essa abstenção foi lá alimento da guerra.

        • Heitor Rodal

          Caros,

          acho que não estades a dizer nada antitético, mas antes a falar de duas realidades diferentes: a mentalidade tradicional galega e a mentalidade ‘galeguista’ “progressista”.

          É desse jeito que eu reconheço familiarmente na descrição de Manuel a ‘cosmovisão’ e o agir político que daí se deriva dos meus maiores, ligados certamente a um ‘patriotismo da terra’ (ou também da tribo/família) e a um ceticismo que não concede demasiada importância aos elementos que são basilares para o nacionalismo moderno (língua, bandeiras, independência política, etc…) e na que a ideia de Espanha não é incompatível: que mais dá o que falem os netos, o importante é que estejam bem, mas tampouco há faltar nunca uma visita ao panteão familiar no Dia de Defuntos. (*)

          Também reconheço a postura para a que aponta Alexandre, que se desenvolve(u) em contextos urbanos (ou amiúde, por melhor dizer, “rurbanos”) e que na sua vontade de se incorporar à “modernidade” rejeitou os elementos basilares em que se sustenta esse tradicionalismo, que é visto como uma antigalha que deve superada, ainda que ela pola sua parte tampouco fosse quem de estabelecer o seu enquadramento mental e ideológico de maneira firme e coerente nem entre a sua própria ‘militância’ (sobre isto, só é preciso olhar para o peripatético desnorteamento que exibem a maior parte dos seus aderentes), com o que amiúde acabou operando como um Cavalo de Troia daquilo que dizia querer combater.

          O resultado disso é um cenário instável em que duas visões da realidade falam senhas linguagens totalmente incompreensíveis uma para a outra. E se bem é certo que a segunda visão anda a erodir gravemente a primeira, concordo absolutamente em que quem deseje construir um nacionalismo ou um movimento político com possibilidades de suceder, deve ser quem de englobar -evidentemente doutra maneira e com outros objetivos- ambas as duas visões, tal como o P.P. faz: “Galicia, nosa terriña e tradición, España, nuestro país y nuestro futuro”.

          ····································································

          (*) Por contraste, tendo vivido na Catalunha e no País Basco, posso bem dizer que os comportamentos no que diz respeito ao que aponto aí são diametralmente opostos.

          • abanhos

            Excelente analise Heitor, ao martelares não te enganas com o prego

          • Heitor Rodal

            Obrigado, Alexandre.

            Eu, coma o Ernesto, aprendo muito por aqui. 😉

            Apertas.

        • Ernesto V. Souza

          Mas é desde o início… se fosse por votos a Galiza nunca teria aprovado o Estatuto de autonomia…

          Para mim que ambos tendes razão.

          Acho como Heitor que o nacionalismo galego moderno não analisa a ausência de nacionalismo moderno na Galiza, ou analisa como um resultado, quando para mim como apontam Meixide e Heitor é uma questão de raiz…

          O modelo nacional/soberanista/independentista… não funciona. Acho que é ridículo propor na mentalidade comum galega a Renúncia a Espanha… isso é nosso, sempre foi nosso… e mesmo se nos arruína… é nosso…

          O problema com a Autonomia é que houve por todas as partes um muito “não venhades com caralhadas”… o próprio nacionalismo não soube integrar as possibilidades institucionais e de jogo político…

          Na Galiza eu cada vez penso mais que a gente desconetou da política nos tempos do Provincialismo… se repassades a história, a lírica… veredes que na Galiza simplesmente não se aceitou nada desde a divissão Provincial Isabelina… movimentou-se sim na República e no franquismo por causa dos franquistas galegos… mas com a restaração do 75… voltou ao Sono… permanece a ideia de que o Estado espanhol traiu Galiza e os galegos deram-lhe, como conjunto as costas… andam nele e fazem carreira alguns dele… mas pronto…

          Temos falado muitas vezes e para alem da tática e da pragmática política, de como se ganha uma assembleia ou se poderia ganhar uma eleição municipal, provincial e autonómica, de como se confronta, contorna ou bate caciques (aí Alexandre o que tu digas é palavra de deus para mim)…

          Mas o problema é o discurso de um partido político nacional na Galiza… até o único que o conseguiu formular nessa dupla condição de Galiza Espanha foi e apenas por momentos (dado que escora muito ao nacionalismo espanhol e apenas a realidade o obriga ao regionalismo) o PPg…

          Fora disto, a ORGA, nalgum momento o BNG e alguma das Mareas, mas por puro acaso…

          Para a Galiza entrar num processo verdadeiramente independentista teria que acontecer um cataclismo… uma catástrofe que desintegrara a estrutura de Poder do Reino da Espanha… algo que obrigasse a gente a desenterrar a estrutura tradicional: clã, paróquia, comarca…

          Mas como tu dizes… sem população e com um processo tão acelerado de destruição cultural e individualização capitalista urbana … talvez não tenhamos já muito tempo…

          De qualquer jeito mesmo se somos os derradeiros… é um prazer sempre falar com vós (e com algum mais outro/a) e um orgulho para mim ter compartilhado tantas cousas cá no PGL…

          Apertas

          • Heitor Rodal

            ” isso é nosso, sempre foi nosso… e mesmo se nos arruína… é nosso…”

            “Para a Galiza entrar num processo verdadeiramente independentista teria que acontecer um cataclismo… uma catástrofe que desintegrara a estrutura de Poder do Reino da Espanha…”

            ············································································

            Que certo, meu.

            E provavelmente até nessas circunstâncias, por história, mentalidade e posição geopolítica, seríamos o ultimo bastião a resistir e a parte mais tenaz e teimuda para a restaurar. De facto, a Península sempre ‘se perdeu’ ora polo Leste, ora polos Pirenéus, ora polo Sul, mas nunca polo Noroeste.

            E tenho também cada vez mais certo para mim que até os portugueses são cientes disso e preferem que a Galiza durma placidamente o seu sonho.

            Abraço, meu.

          • Manuel Meixide Fernandes

            Mas o próprio Estatuto de Autonomia, apesar da clara boa vontade dos seus impulsores, foi na minha opinião um erro. E esse baixo número de novos cumpriria interpretá-lo de jeito positivo, não de um ponto de vista anti-galego, mas de um ponto de vista cético. E o futuro já sabemos qual foi, negócio institucional com a cultura galega, urbanização da nossa costa, implementação maciça de eucaliptos… e podemos seguir a falar de cousas maravilhosas, como por exemplo a norma ILG. A Autonomia foi e é um grande desastre, um fato de ladrões, usando a frase popular. Essa Espanha nossa de que falas é uma realidade, mas o radicalismo para combatê-la não pode provir da ideologia, tem que provir da recuperação da nossa cultura. Essa Espanha não estava nos labregos da época da Francesada, eles bem sabiam diferençar a Galiza, o País, o importante, da Coroa, do Estado, do prescindível. Cumpre uma grande pedagogia galeguista e popular para reconstruirmos o nosso imaginário perdido e a nossa autoestima. Espanha é o Estado, é o capitalismo, a riqueza, o progresso, a cultura, a historiografia … é o necessário e o positivo. Depois está a Galiza, um degrau sempre por baixo, Ora bem, se começamos a reconstruir a nossa identidade, se começamos a recuperar a nossa História, a nossa língua, de um jeito transideológico, as cousas podem mudar. Como seria hoje o País se a norma oficial do galego aquele ano aprovada fosse a norma AGAL, ou o português padrão?. A vertigem é óbvia. Seria uma Galiza muito diferente. Por isso veio a censura, é claro. Quanto a sermos os derradeiros, oxalá que nunca sejamos nem isso. A independência, em minha opinião, é uma outra cousa. Ou é popular e democrática, ou não é nada. Se o povo não é livre, para quê um Estado galego?. Eu não partilho o entusiasmo que alguns amigos meus nacionalistas mostram cara o processo soberanista catalão, porquanto o objetivo é a criação de um novo Estado, quer dizer, a abolição da democracia, mesmo se de vez em quando põem algumas urnas por cá e por lá. Se fosse um processo popular, apoiaria-o com todas as minhas forças e lutaria por um processo similar na Galiza. A impossibilidade da Galiza independente como Estado clássico é uma cousa claramente positiva. Agora só cumpre tentarmos a mudança da História, cumpre coesionarmo-nos em redor do País e da sua tradição, num contexto de decrescimento económico progressivo por causa do peak-oil, num contexto de decadência global do capitalismo, até estarmos convencidos também da impossibilidade da Galiza como Estado espanhol, a nível cultural, económico, identitário, ecológico, de relacionamento e de convívio… É isto ainda possível?. Obviamente, cumpre atingi-lo antes do grande deterioro do Estado, para evitar o irremediável caos. Quanto tempo temos?. Se calhar algumas décadas, não muitas. Eis a Galiza como tarefa e o novo galeguismo.

            Grande aperta Ernesto

        • Manuel Meixide Fernandes

          O do tempo, qui lo sa. Eu já fui pessimista, e agora sou otimista, otimista-realista. Estive a contrastar dados (poucos), em eleições autonómicas recentes noutras zonas do território do Estado espanhol com baixa população, como por exemplo Castela e Leão. Eu no meu artigo só falei da abstenção galega nas eleições autonómicas, que são as nossas. Não me importo com as estatais nem com outras, mesmo se os Galegos vão votar mais quando são as eleições espanholas. Não me importo com a importância que eles lhes dam a umas e a outras. Eleições galegas só há umas.

          Eis os dados:

          Galiza 2.016 Castela e Leão 2015
          36,27% 31, 03%

          Galiza 2.012 Castela e Leão 2011
          45,09% 32,5 %

          A diferença semelha notável. Não sei se leste a minha resposta anterior. A abstenção é algo irrelevante no artigo. E se tenho de reconhecer um erro, não há problema. Então mudo a palavra e digo o nosso ceticismo é uma pré-revolução ou poderia sê-lo. O importante são outras cousas. Falas de Castela / Espanha como incutido na população. Sim, na população de todo o Estado. Mas na Galiza incutido por quem?. Polo governo do PP nestes anos de Autonomia?. Não. O espanholismo é incutido polo próprio sistema liberal no que ainda nos achamos (político-económico) e pola estrutura de doutrinamento do Estado-nação. Ora bem, o nacionalismo galego teria de ser antítese de tudo isso. Então sim seria possível falarmos de bons e maus, do PP e dos outros. O nacionalismo já governou, e isso de que falas quando falas em modificar o governo nominal da Autonomia, ou falas em outra cousa?. Muitas vezes não tem tanta importância o posto de mando, quanto a própria sociedade. Se a identidade galega diminuir, não é por causa de um governo da Junta qualquer, é por causa da própria sociedade galega, que se calhar está mais cómoda no capitalismo, no urbanismo e no espanholismo (e isto já começou bem antes da Autonomia). Ninguém da altura do poder preme qualquer botão (como botão final). É a gente a que decide e mudar é sempre difícil. Falas em balizamento, suponho que da população galega cara Espanha, e da impossibilidade do nacionalismo galego para mudar isto. Não concordo. O teu balizamento, uma nomenclatura mais ideológica, eu chamo de tradicionalismo. Obviamente, o espanholismo e o colonialismo são o problema. Mas o nacionalismo galego, ao tentar modificar isso, age ideologicamente, e confronta-se com o tradicionalismo insalvável. O único jeito é mudar a estrategia e esquecer a ideologia. Como já escrevi no P.S. da minha resposta anterior, a República Galega como Estado não é possível, e mesmo se o for, eu estaria contra. Onde há Estado não há democracia. Mas a outra solução, a única boa realmente, ainda está sem explorar, a Galiza democrática e popular. Mas tu voltas a falar mais uma vez da abstenção e da minha possível ingenuidade (são uma pessoa bastante realista e analítica, com tendência natural ao pessimismo), mas nunca falas do importante, dessa reformulação do nosso nacionalismo, sequer for para rejeitá-la, argumentando contra.

          Grande aperta.

      • abanhos

        esses recordes abstencionistas sempre são nas eleições autonómicas, reparache. Nas de castela/espanha há que somar um 20% mais de participação
        http://www.infoelectoral.interior.es/min/

      • abanhos

        só mais uma cousa: O que não temos é tempo

  • Maria Dovigo

    Saúdo com alegria que no reintegracionismo haja quem cante o povo que somos, também nós, a quem tantas vezes se nos acusa de elitistas e até de traidores. E saúdo esse teu ver para além dos marcos ideológicos que nas últimas décadas tanto nos tem limitado o entendimento de nós próprios. Que a palavra “espírito” esteja na última frase pública que Castelao deixou escrita, esse voto para os vindouros, para nós, com que acaba a “Alva de glória”, tem-me feito pensar muito. É sempre reconfortante ler os teus artigos, Manuel. É como um convite a sentar-se à lareira no meio do caminho.

    • Manuel Meixide Fernandes

      Muito obrigado Maria polas tuas formosas palavras. O povo somos sempre todos, com seus erros e seus acertos. Somos os que falamos sempre em galego, somos os que falamos sempre em espanhol, somos os que empregamos as duas línguas, somos os que votamos maioritariamente no PP, somos os que votamos no BNG, nas Mareas, no PSOE, somos os que não votamos, somos os marxistas e os anarquistas, somos os franquistas que ainda ficamos por lá (mais bem poucos), somos os espanholistas, somos os de direita e os de esquerda, somos os nacionalistas, ortodoxos, heterodoxos, ao nosso jeito, ao jeito de cada casa, somos os isolacionistas, somos os reintegracionistas, até somos os que nada queremos ser. Mas a única etiqueta que vale para todos sempre é a de galegos, até para aqueles que não a querem, que prefeririam outra, não se sabe nunca qual, na teoria mais requintada (se calhar a de castelhano ou a de andaluz). Este é o povo que somos, diverso e múltiplo. Como atingirmos a desejada união?. A primeira cousa é tirarmos os marcos ideológicos de que falas, na sociedade e nos partidos políticos, e a segunda construirmos um novo galeguismo inclusivo e transideológico, um galeguismo para todos. Este novo galeguismo deveria promover o amor polo que é nosso, língua, cultura, tradições, História… Teria de ser capaz de mudar o real, procurando a verdade. A mudança e a revolução chegariam, quando de jeito voluntário, todos os pais e mães da Galiza falarem com seus filhos em galego. Isto não é sonhar, é possível, se quisermos, se a sociedade civil galega quiser. Ora bem, na sociedade civil nada temos que nos convide a fazer tal cousa, e nos partidos políticos o único interesse são os votos. Esse novo espírito galeguista, essa palavra que tu empregaste, capaz de mudar a realidade, apesar do capitalismo, da cultura urbana e do Estado. E a realidade haveria de mudar não só na língua, mas também na política, na economia, no convívio… É uma imensa tarefa, ainda sem encetar. Podemos escolher o pessimismo e deixar que tudo continue na mesma, ou podemos escolher o otimismo e amanhã começar a trabalhar.

      Grandíssima aperta