CARTAS MEXICAS

Por um novo Milénio de Paz



 

“Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.” (BUDA)

O historiador e economista russo-americano Gerschenkron introduziu o conceito de horizonte histórico, que é muito útil para entender os impulsos humanos do presente. Qualquer empreendimento humano é concebido, realizado e julgado em algum horizonte histórico, isto é, uma projeção para o futuro das intenções humanas.

Existe uma força inerente ao ser humano que o impele, a procura de realizar algo, que lhe resulte em última instancia satisfatório. A motivação parece ser a procura de prazer imediato, nos seres menos evoluídos e, a necessidade de encontrar um prazer compartilhado, o qual somente pode ser construído em um futuro, a dos seres mais evoluídos.

Os cabalistas falam de 5 estágios para obtenção do prazer real, o prazer verdadeiro: a paz interior total (somente possível uma vez tornada a instisfação material em compreensão assimilação e transformação das que derive paz profunda ).

No 1º estágio estaria a procura do prazer que assegura nossa sobrevivência. O desejo aqui se desenvolve na procura de comida, sexo, abrigo. Uma vez preenchido este patamar, a força motivadora nos impele a ascender um 2º degrau: Procura da prosperidade. Buscamos então um maior sucesso económico e material, para não ternos de preocupar-nos mais, com o desejo primário de satisfazer: comida, sexo, abrigo. Assim que temos assegurado este grau evolutivo, a força da motivação nos impele a procura dum 3º degrau, mais acima: a busca do poder, seja este na forma de poder político, económico, poder de influência na sociedade… Para garantir com esta posição mais elevada cobrir os dous desejos anteriores. Sabendo que o poder nos proporciona a habilidade para garantir e controlar nosso sucesso material (e o dos outros: os que ainda visonamos como concorrentes pelos recursos para sobrevivência). Depois de obtido este nível e verificado não proporcionar a satisfação que aguardavamos, uma certa desilusão se apodera do nosso ser. Fica claro então, que estávamos numa ilusão: o poder não traz real prazer, pois não garante a felicidade; não pode assentar a paz interior necessária para isso. Assim que alcançada esta ilusão, uma ilusão maior ira penetrar no coração da pessoa, a ideia que sem conhecimento não é possível um verdadeiro poder. Chega a motivação (motivação: motivo para a ação) de conhecer através da ciência, religião, arte; em definitiva uma melhor educação, na busca da erudição. Mas de novo a ilusão remata em desilusão quando a pessoa comprovar que o conhecimento erudito tem um limite, além do qual, sua análise não pode ser aplicada. Navegar em círculos dentro da erudição, somente traz aumento do sofrimento; a inicial calma interior que este conhecimento nos pode dar, agora se transforma em turbilhão duma mente acelerada pelo impulso da força da evolução, que procura cada vez mais e mais insaciável novas respostas… Através da nova desilusão, a pessoa ira a procura doutras fontes. Assim, surge um novo patamar na sua ascensão, o 5º, quando a pessoa começa a intuir que a verdade completa, a realidade essencial, pode que esteja oculta trás os véus aparentes da nossa realidade física. E então que essa pessoa inicia o caminho do conhecimento interior, na procura de preencher seu novo vazio: o Vazio Existencial.

Segundo a grande teosofia russa Helena Petrova Blavatsky, ainda haverá vários degraus dentro do mundo do conhecimento integral total ou espiritual, ate atingir o conhecimento que leva a Libertação do sofrimento, a iluminação, da que falou o Buda (nascida do desapego com todo o material e conquistada uma vez quebrada todas as amarras que nos atam ao mundo da concorrência e guerra pela sobrevivência).

O decano do Instituto Galego de Estudos celtas, André Pena Granha, afirma que os druídas eram educados em Escolas Maiores de Conhecimento, durante 21 anos. Em outras tradições também se fala de que estes 21 anos são divididos em uma tríade de 7: 7 anos para o estudo do corpo, 7 para o da alma, e 7 mais para o estudo do espírito. Evidenciando ai, a sua vez o componde tríplice do ser humano, que fica também assim gravado com sua evolução concreta no símbolo do “Trisquel” celta, junto com a espiral (símbolo universal, já estudado, no século XIII pelo matemático italiano Leonardo de Pisa, mais conhecido por Fibonacci).

Prisciliano, antecessor dos Cátaros do Langedoc e dos cavaleiros Templários do Norte e do Sul (haste lunar e solar, respetivamente) fora um grande iniciado nos mistérios primogénitos da Essência única, da qual promana toda tradição da humanidade. Segundo cita de Orósio, na sua Communitorium de errore Priscillianistarum et Origenistarum: “Prisciliano ensinou que os nomes dos Patriarcas correspondem às partes da alma, e de jeito paralelo, os signos do Zodíaco correspondem-se com partes do corpo” . Nas suas comunidades o princípio sinarquico apregoado pelo conservador Saint-Yves D´Alveydre e o princípio reitor do florescer do famoso livro: “ajuda mútua: um fator na evolução”, defendido pelo progressista Piotr Kripotkin, foram um fato vivenciado no dia-a-dia, pelo movimento priscilianista. Demonstrando que não somente é possível, senão que resulta mesmo necessária a fusão das polaridades (aqui representadas por esquerda e direita), quando o fundo claro de luz e a essência do amor pelo bem comum, delas nascem. Dando mais importância as pessoas que às mesmas ideologias (pois como em este caso, as vezes as ideologias escondem na sua aparência uma essência de justiça, equidade e liberdade, simplesmente encenada de forma diferente – mas não divergente).

O ser humano tem evoluído, lentamente, da fisicalidade pura, com a consciência focalizada na materialidade, ate uma consciência mais evoluída chamemos psíquica, mais centrada nos sentimentos, emoções, afetos. Para mais tarde desenvolver uma consciência mais racional, desde a era das Luzes e as achegas de Descartes e Newton. Consciência que atualmente estar já a transitar ate uma nova orientação mais holística (onde o inteligência racional e a inteligência intuicional tenderão, em breve, a fundir-se). Esta nova consciência se faz necessária mesmamente pela melhor adaptação as novas provações, que os novos tempos trazem; incluindo a revolução científico-tecnológica, que nos obriga a processar informação em pacotes interligados (onde as partes e o todo estão acionando numa interdependência contínua). O modo de observação linear, do reducionismo cartesiano, fica assim definitivamente superado (a Física Quântica tem marcado um caminho de não retorno em este sentido). Já em 1927 Jan Christiaan Smuts (seguindo a estela aristotélica), no seu livro “Holismo e Evolução” chegou a considerar vida, mente e matéria como unidades interligadas dentro dum processo sucessivo.

As comunidades priscilianistas já trabalharam estes aspetos, convertendo-se em verdadeiras vanguardas do hoje, sendo a vez verdadeiras herdeiras das antigas tradições chegadas do Egito (através da escola de Horus e os princípios herméticos), da Grécia (através de Orfeu, dos pré-socráticos e os pitagóricos, entre outros), da Índia Védica do valeroso Arjuna e Ram, aquele migrante celta (segundo afirma Eduard Schure, no seu livro: “Os Grandes Iniciados”), ate o Druidismo europeu, ou o Zoroastro da Pérsia (Zoro-Astro ou Zero Astro: Sol Interior e Oculto)…

Não podemos ocultar o facto de outros seres de boas intenções virar em transmissores da escuridão, por causa da sua vaidade, paixão excessiva no despenho da sua missão ou queda no intuito dominador ególatra que tomar posse material do conquistado, virando seu destino libertador em opressor. Em destaque, para que sirva de exemplo e reflexão, olharemos para as figuras de Napoleão ou Adam Weishaupt, que na sua obsessão por cumprir a agenda de libertação das cadeias da velha Ordem Mundial Aristocrática (lutando pela abolição do velho regime, das classes sociais e a propriedade privada; superação do poder nacional em beneficio dum poder global, com participação de todos os povos na busca da fraternidade global) perderam o humilde, paciente e honorável referente; acabando por ser mais um canal para o mantimento da guerra escuridão, ao invés de pontes para o futuro da confraternização .

Mas isso não tira o esforço de milhares de homens e mulheres honoráveis como Bolívar, Jefferson, os marinheiros da Ilha de Kronstadt (trás cuja repressão, rematou o sonho fraterno duma revolução russa verdadeiramente democrática) Tolstoi, Gandhi… e muitos outros e outras, que têm ajudado a semear o germe do amor universal e comunhão com todos os seres vivos, que hoje está já frutificar – num já chegado futuro. Os tempos são chegados diz nosso hino…

Sobre a pegada que deixaram na humanidade esse seres, que atingiram o despertar e a libertação total das cadeias da materialidade, conseguindo a paz interior, de novo afirma Blavatsky: “Diversas religiões da humanidade preservam uma tradição segundo a qual uma coletividade de grandes sábios inspira e conduz, silenciosamente, a nossa humanidade no caminho que leva à paz e à sabedoria. O taoismo menciona estes sábios como Imortais, e o hinduísmo usa o termo Rishis. Para o budismo, eles são Arhats. Outros os chamam de Mahatmas, raja iogues, mestres de sabedoria, Adeptos ou, simplesmente, Iniciados. Segundo a filosofia esotérica, estes seres atingiram o Nirvana e libertaram-se inteiramente do estágio atual do reino humano, mas permanecem ligados à humanidade por laços de compaixão e solidariedade.”

Falar de todas as questões, que hoje preocupam a humanidade: suas diversas crises económicas, ecológicas, energéticas, culturais, éticas (que não são senão a aparência externa duma grande crise cíclica: a crise de modelo de dominação e pelo tanto a decadência do centro geográfico que impulsa tal modelo – no nosso caso Ocidente)… Falar dizíamos destes grandes temas devera ser, sem lugar a dúvidas, o objetivo fucral das forças de libertação (vierem estas de onde vier, beberem estas das fontes de onde beber) deste novo Milénio, em procura duma solução global que impeça a auto degeneração ou autodestruição da humanidade. Falar desde todos os ângulos, visões, perspectivas, sem excluir nenhum ponto de vista ou perceção (com respeito mútuo, e abertura mental), será também a forma adequada de poder (mediante o diálogo) achegar-nos a esse sonhado mundo da confraternização de todos os povos e de toda a humanidade. Sonho tão duramente, em tantos séculos de esforço e sacrifício, planificado, ensaiado, encenado e trabalhado (por causa do qual muitos tem perecido).

Será preciso para tal sonho vir materializar-se, superar as velhas inércias de confronto esquerda-direita, masculino-feminino, mal-bom. Encarando suas achegas como parte dum mesmo holístico tudo, em contínua interação, movimento e progresso. Dado, que nós achamos, estas novas e velhas achegas ao invés de serem contraditórias podem mesmo resultar convergentes e complementares.

No trisquel de libertação global, o primeiro passo é a libertação individual das amarras das baixas paixões e das ânsias de conquista. Coletivamente temos de borrar a imagem do guerreiro, que Mircea Eliade achava mitificada desde a Idade do Ferro, ao passar o antigo caçador paleolítico (de cuja habilidade dependia a manutenção da tribo) a constituir-se em estamento militar dirigente; mantendo o status de protetor e cuidador da comunidade (aquele que se confrontava com a morte para trazer comida).

Ultrapassar o mito do guerreiro, se faz necessário, para estabelecer novas honras aos seres portadores da chama da paz, amor e sabedoria. Novos guias, que podem conduzir à humanidade pela senda nova, das novas transformações que permitam ultrapassar a crise contínua do atual modelo de guerra.

 


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