AS VIAGENS DO PERRACHICA

A última grande batalha dos guerrilheiros galegos



Repil. É um nome que durante anos estivo quase proibido. Proibido por um muro de medo e de silêncio que impujo o franquismo a sangue e a ferro. Em Repil e no Pericalho, na paróquia monfortina de Chavaga, quase no limite com a Póvoa do Brolhom, morrêrom sete pessoas, quatro guerrilheiros e três vizinhos. Perecêrom uma fria manhã dum 20 de abril de 1949 debaixo de uma chuva de balas e de metralha.

Eram 150 guardas civis os que chegaram de vários pontos de Lugo e de Ponferrada para se enfrentarem a quatro guerrilheiros. Mesmo cumpriu trazer um trem artilhado, por precaução. E, mesmo assim, um dos antifranquistas conseguiu fugir apesar de estar rodeado. Fugiu ferido, com a mandíbula destroçada.

Os seus quatro companheiros não tivêrom tanta sorte. Entre eles estava Evaristo González Pérez – chamado Rocesvinto ou Roçamentos – que levava perto de dous anos utilizando estas casas como refúgio. Também Gregório Colmenero Fernández Porreto – natural de Ribas do Sil -, Guillermo Morán García e Julián Acivro Alberca Guardiña, asturiano e cântabro, respectivamente.

Foto 1: Escavações da casa onde tivo lugar a Batalha de Repil em que morrêrom quatro guerrilheiros e três vizinhos a mãos da Guarda Civil em 1949 / Xurxo Salgado 

Três vizinhos mortos

Durante o tiroteio falecêrom também os irmãos Ramón e Maria López Casanova e Luísa López Centeo, membros da família proprietária da casa do Pericalho, onde se encontrava o chefe do grupo guerrilheiro e que nada tinham a ver com os guerrilheiros, ainda que simpatizassem com eles. Todos morrêrom por uma delação dum vizinho de quem ainda hoje se lembram na zona e que ficou marcado para a vida.

Mas pior sorte tivêrom os donos das vivendas em que se refugiavam os máquis, que sofrêrom ademais duras represálias. E assim o recordou António – parente dalguns dos vizinhos assassinados – num ato que tivo lugar na casa de Repil, que está a ser objeto duma escavação arqueológica de recuperação da memória histórica. A sua avó, a sua mãe, e os seus tios passárom vários anos em cárceres de Lugo, Madrid e Santander. E disso dão fé vários documentos, como cartas que a sua avó mandava do penal corunhês.

A história de Repil marcou um antes e um depois da luta antifranquista na Galiza. O massacre dos máquis foi o início da fim da resistência no sul da província de Lugo. Assim o sublinha o arqueólogo Xurxo Ayán, responsável da equipa que escava em Repil e que também tem nexos familiares com esta triste história, já que a sua família é da paróquia de Cereija, mesmo ao lado de Chavaga.

 O cura de Cereija

Precisamente, o Suso, um dos seus tios, lembra como o guerrilheiro fugido foi pedir ajuda a dom Modesto, o cura de Cereija, que não tivo reparos em prestar-lhe os primeiros socorros e mesmo em lhe recomendar um doutor de “confiança”. Conhecedores os fascistas desta ação, submetêrom a tortura o cura, que logo sofreria uma dura repressão por parte da Igreja e acabaria os seus dias no Brasil.

A casa de Repil onde tivêrom lugar estes tristes factos passaria despercebida se não fosse pola vontade duns vizinhos que os têm mui vivos na memória, apesar do medo e da repressão. Muitos deles revivem aqueles duros momentos. Entre eles o Pepe, um ex guarda civil que estivo às ordens de Tejero durante o golpe de estado e que agora é um convencido republicano. Foi ele, juntamente com o António, um dos primeiros a limpar as ruínas da casa de Repil, que já não voltou a ser a mesma desde o massacre do ano 49.

A firmeza de Antonio fijo que estes factos nunca se esquecessem. Ele limpou parte da casa e colocou uma bandeira republicana e uma placa em homenagem aos falecidos naquele lugar. Uma placa a que arrincárom uma lousa e uma bandeira que foi retirada. Mas colocou outra… E, novamente, foi retirada. Colocou uma terceira, e voltou a acontecer o mesmo. Farto da indignidade dalgum dos seus vizinhos, o António decidiu subir a um carvalho que há mesmo em frente da casa e colocar a bandeira republicana na galha mais alta. E a bandeira já nunca foi retirada.

Agora luz outra bandeira republicana, nova, colocada onde originariamente o António colocara a primeira. Esta bandeira lembra ao equipo de arqueólogos, galegos e da Universidade do País Basco que a memória não se pode corromper, nem modificar, nem esquecer. Na casa de Repil, como na do Pericalho, continua viva a memória dos máquis que dêrom a sua vida lutando contra a ditadura franquista.

Em conformidade com os restos encontrados nos arredores da casa, a batalha, apesar de ser desigual, não amedrontou os guerrilheiros. Algum deles saiu fora dos muros para se enfrentar aos guardas civis e mesmo chegou a disparar a sua pistola. Em frente do muro do salão, os arqueólogos achárom os restos dum projétil duma pistola Astra, a que utilizavam os máquis.

Foto 2: Xurxo Ayán, o arqueólogo encarregado da escavação da casa de Repil, junto com António, familiar dos proprietários e com o também arqueólogo Felipe Criado / Xurxo Salgado

Roteiro da memória

O roteiro da memória dirigido por Xurxo Ayán levou os presentes polas redondezas de Chavaga e de Cereija, por onde se moviam os antifranquistas. Algum deles, como Rocesvinto, mesmo chegou a mocear com mulheres da vila. Alguma delas seria logo, também, vítima de represálias. Por estas chairas de Lemos moviam-se como peixes na água. Os vizinhos sabiam dos seus passos mas evitavam delatá-los. Só alguns – cobiçosos por recompensas, e ajudados por uma hábil política franquista de delações – decidírom finalmente cantar e informar sobre a localização dos guerrilheiros.

A batalha de Repil estava nos livros e na memória da gente. Agora, graças à arqueologia, está também viva e pode-se reconstruir, perfeitamente. Aqueles filhos e netos de vítimas de represálias podem agora ficar tranquilos, terem a consciência tranquila e, como o próprio António se encarrega de sublinhar, “recuperar parte da história que nos tinham roubado”.

Foto 3: Participantes no roteiro da memória de Repil, em Chavaga, Monforte de Lemos/ Xurxo Salgado
* O texto foi publicado anteriormente em Historia de Galicia
Xurxo Salgado

Xurxo Salgado

Xurxo Salgado Tejido, tominhês, da família dos Perrachica. Gosta de caminhar polo monte e polo mar, de percorrer os caminhos do país e, quando puder, descobrir castelos e castros esquecidos e conhecer da gente as lendas e as histórias que tecêrom a nossa nação. O resto do tempo, jornalista e diretor do Galicia Confidencial, coordenador de Historia de Galicia e professor de cibermeios na Universidade de Santiago.
Xurxo Salgado

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  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Bem-vindo ao PGL, Xurxo! Obrigado por por este trabalho de memória histórica.

  • abanhos

    que bom recuperarmos a história. Formoso texto