AS AULAS NO CINEMA

Tolstói, pedagogo pioneiro da escola libertária. Filme: ‘A última estação’



TOLSTOI Foto1Leão Tolstói (1828-1910) foi um escritor e educador russo, autor de Guerra e Paz, obra-prima que o tornaria célebre. Profundo pensador social e moral é considerado um dos mais importantes autores da narrativa realista de todos os tempos. Stephan Zweig considerava-o como o “Pedagogo do Universo”, pois não só elaborou o projeto de uma publicação pedagógica, chamada Revista da Escola de Iásnaia Poliana, como também dedicou ao tema educativo mais de 630 trabalhos. Nasceu na quinta de Iasnaia Poliana, Rússia, no dia 9 de setembro de 1828. Filho de Nicolau Tolstói, de origem ilustre, e da sua esposa a princesa Maria Nicolaievna. Com nove anos ficou órfão sendo então educado por precetores. Em 1841, muda-se para Kazan e em 1844 ingressa na universidade. Dedica-se aos estudos de línguas orientais e às Ciências Jurídicas, mas insatisfeito com o ensino formal abandona o curso. Senhor de inúmeros servos, dono de 2.200 hectares de terra, tem sua juventude dividida em contradições. Entusiasma-se com o luxo e a frivolidade da capital, porém preocupa-se com os servos e procura oferecer-lhes melhores condições. Duvida das próprias certezas e sente as contradições dos dous mundos em que vive. Ao completar 23 anos, entra para o exército, ao mesmo tempo em que publica os capítulos da autobiografia Infância (1852), na revista O Contemporâneo, de São Petersburgo. Um ano depois eclode a Guerra da Crimeia entre russos e turcos. Por ser de origem nobre, recebe o posto de oficial, sendo designado para luitar em Sebastopol, onde escreve, em 1854, Os Relatos de Sebastopol.

“Dormia no terraço, ao ar livre, e os raios oblíquos do sol matinal me despertavam. Vestia-me às pressas, punha debaixo do braço uma toalha, um romance francês, e ia-me banhar no riacho, à sombra dum bidoeiro que ficava muito perto da casa. Depois, estirava-me e lia, parando às vezes para contemplar o lilás sombrio da superfície do riacho que começava a se agitar ao sopro da brisa da manhã, ou o campo dourado de centeio que ficava na margem oposta”. Esta deliciosa descrição da juventude do escritor Leão Tolstói está registada nas suas Memórias.

Tolstói volta para São Petersburgo, em 1855, descrente da guerra, após a derrota das tropas russas. A vida na corte o deixa dececionado, administrar suas propriedades não o satisfaz e a vida militar o repugnava. Dedica-se a escrever, o sucesso de Infância era um grande incentivo. Em 1854 escreve Adolescência e em 1856 Juventude, completando assim a trilogia autobiográfica. Em seguida publica Uma Tormenta de Neve (1856), obras que despertam o interesse do público e da crítica literária. Em 1857, troca a carreira de oficial pelas letras. Inicia uma série de viagens pela Europa, onde observa as novas experiências em matéria de educação. Influenciado desde a adolescência pela obra de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), acredita que a função da educação seria melhorar a moral e moldar o caráter, através da autodisciplina. Para aplicar suas teorias funda uma escola em Iasnaia Poliana, para educar os camponeses, o que chocou aos círculos intelectuais da Rússia. Tolstói foi o precursor das ideias revolucionárias que conturbariam a Rússia no século seguinte.

Caminho dos vidoeiros na localidade natal de Tolstói

Caminho dos vidoeiros na localidade natal de Tolstói

Em 1856, abandonada a carreira militar, Tolstói passou a viver em sociedade, ampliando suas relações pessoais. Viajou à Europa, visitando diversos países (Alemanha, França, Suíça, Itália, Bélgica e Inglaterra). Ao regressar, isolou-se em sua propriedade rural, determinado a dedicar-se à literatura e à escola de Iasnaia Poliana que tinha criado para os filhos dos camponeses da sua quinta. Em 1862 casa-se com Sofia Andreievna, com quem teve 13 filhos, dos quais apenas 10 sobreviveram. Começa a trabalhar na obra que o consagraria Guerra e Paz. A primeira parte foi publicada em 1865, sob o título de Mil Oitocentos e Cinco. Redige também artigos, contos e uma cartilha para a escola primária, onde escreve, de forma original, as lendas folclóricas russas. Em 1869, conclui Guerra e Paz. Em 1877 escreve Ana Karenina, um dos melhores romances psicológicos da literatura moderna. Tolstói publicou Uma Confissão (1882), onde descreve sua crescente confusão espiritual. A Morte de Ivã Ilyitch (1886), Sonata de Kreutzer (1889), Senhor e Servo (1889) e Ressurreição (1899). Escreveu em seu diário: “Tenho uma terrível vontade de deixar-me ir”. Com uma vida pessoal cheia de conflitos, Tolstói assume uma posição anarquista, recusando toda forma de governo e poder. Entra em crise espiritual, questiona a sociedade em que vive, rejeita a autoridade da Igreja Ortodoxa e é excomungado em 1901. Tolstói tornou-se pouco a pouco um cristão evangélico, uma espécie de apóstolo, pregando para os seus. Ao renegar a religião ortodoxa, acabou excomungado pela Igreja. Suas posições políticas também se radicalizaram, tendendo ao anarquismo. Tolstói criou uma escola alternativa, para a qual chegou a redigir os livros didáticos. Suas convicções cada vez mais exaltadas atraíam a atenção de místicos do mundo inteiro. Ao mesmo tempo, ampliava-se sua fama de grande romancista.

Sua esposa não aceita as ideias do marido sobre a educação dos filhos, nem a dedicação à escola e os conflitos são constantes. A morte sucessiva de três filhos, e de uma tia, abala a vida do escritor. Começa uma grande transformação em sua vida, afirmando que “A origem do mal é a propriedade”. Repudia a nobreza, veste-se como camponês, anda descalço e serve-se a si próprio. Divide os móveis da família entre a mulher e os filhos, deixa metade dos direitos autorais para o público. Tolstói tornou-se pouco a pouco um cristão evangélico, uma espécie de apóstolo, pregando para os seus.

Distanciando-se cada vez mais de sua família, Tolstói decidiu entrar para um mosteiro. Planejou a fuga e, no dia 31 de outubro de 1910, finalmente embarcou num comboio, acompanhado apenas da filha mais nova Alexandra e de seu médico. Com a saúde abalada, foi obrigado a descer na cidadezinha de Astapovo, sendo acolhido pelo próprio agente da estação. O fato tornou-se público e telegramas e visitas começaram a chegar de toda a Rússia e de outras partes da Europa. Tolstói resistiu apenas alguns dias, falecendo pouco depois em consequência de uma pneumonia, o 20 de novembro de 1910 na estação ferroviária de Astapovo, na província de Riaz.

Muitas das suas famosas obras literárias foram levadas ao cinema, e algumas, como Ana Karenina, com catorze versões diferentes, desde o ano 1914 (a primeira) até o 2012 (a última) a cargo de vários realizadores e em diferentes países. Em 2009, sob o título de A última estação, o britânico Michael Hoffman realizou um filme sobre a vida e obra de Tolstói, que teve grande sucesso, e que tomo como base para o presente depoimento.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • TOLSTOI Filme A ultima estação Cartaz0Título original: The Last Station (A última estação).
  • Diretor: Michael Hoffman (Reino Unido, 2009, 112 min., cor).
  • Roteiro: M. Hoffman, segundo o romance autobiográfico “Jay Parini” de Tolstói.
  • Música: Sergei Yevtushenko. Fotografia: Sebastian Edschmid.
  • Produtoras: Sony Pictures, Egoli Tossell Film, SamFilm Produktion, Zephyr Films, Egoli Tossell Film Halle e Production Center of Andrei Konchalovsky  (Co-produção Alemanha-Rússia-Reino Unido). Montagem: Patrícia Rommel.
  • Nota: O filme dublado pode ser visto entrando aqui ou aqui.
  • Atores: Christopher Plummer (Leão Tolstói), Paul Giamatti (Chertkov), James McAvoy (Valentim Bulgakov), Helen Mirren (Sofya, esposa de Tolstói), Anne-Marie Duff (Sasha), Kerry Condon (Masha), John Sessions (Dushan), Patrick Kennedy (Sergeyenko), Tomas Spencer (Andrey), Christian Gaul (Ivan), Wolfgang Häntsch (Padre), David Masterson (Reporteiro), Anastasia Tolstoy (menina de luto), Maximilian Gärtner (um rapaz) e Nenad Lucic (Vanja).
  • Prémios: Recebeu em 2009 numerosas nomeações aos Óscar e os Globos de Ouro (melhor atriz e ator secundário, em ambos os casos) e no festival de Roma à melhor atriz.
  • Argumento: Drama histórico e biográfico sobre o lendário escritor e educador russo Tolstói, a sua mulher Sofya e sobre Valentim Bulgakov, o seu discípulo mais avantajado. O filme ilustra ademais a batalha espiritual que teve que librar o romancista e mestre para conciliar a fama e o compromisso com uma vida extraordinariamente austera.

IDEIAS EDUCATIVAS DE TOLSTÓI:

Criticar a Tolstói é como criticar o Novo Testamento. Podemos objetar o ascetismo dos seus últimos anos, a sua oposição à vida urbana, a sua interpretação puritana da arte, os aspetos pouco práticos do seu programa social, o fanatismo das suas crenças, a sua exagerada fé na não-violência, embora todas estas cousas sejam insignificantes se as olharmos na perspetiva total da sua vida. Pois existem vários Tolstói: o de Sebastopol, o de Ana Karenina e Guerra e Paz, o das Confissões, o de Ressurreição e o visto pela sua esposa, este último um homem apaixonado, idealista, obstinado nas suas opiniões e de conduta imprevisível.

Tolstói no seu escritório

Tolstói no seu escritório

Máximo Gorki dizia que a influência de Tolstói, como tudo o que está vivo, medra cada vez mais. A impronta das suas ideias é sumamente evidente em Gandhi e Romain Rolland. O amor que predicava não respeita barreiras de raça, religião, nem nacionalidade. A sua religião não está destinada só a Ocidente, mas também a Oriente. A sua procura constante, os seus méritos e fraquezas o irmanavam à humana luita em todas as partes. Mas, sobretudo, Tolstói é importante hoje em dia porque a sociedade do novo mundo requer uma transformação dos valores existentes, uma genuína reforma educacional.

A época de Tolstói foi um período de agitação no campo educacional, com vários vultos russos preocupados pelo tema, influenciados especialmente por Bacon, Locke e Spencer. Tolstói acreditava que a educação devia cultivar o amor à pátria, embora não favorecesse o nacionalismo. Não havia nenhuma nação superior; o patriotismo tinha sido amiúde pervertido pelos mestres. Devia-se ensinar às crianças a amar a humanidade e a olhar mais além das fronteiras da raça, a nação e a civilização. Enquanto alguns educadores russos insistiam na superioridade de Ocidente e glorificavam os avanços da tecnologia ocidental, Tolstói, ao igual que o pedagogo Ushinsky, destacava os valores da civilização russa. O intelectual devia encontrar fundas raízes na sua própria nação e converter-se em parte do seu espírito e dos seus ideais.

Tolstói acreditava que a educação tinha um significado espiritual. O ideal não era somente saber, senão aplicar os conhecimentos com espírito crítico pois, sustentava, “só uma personalidade livremente desenvolvida, armada de informação e conhecimentos científicos pode mudar a vida”. Devia-se salvaguardar a dignidade do individuo. Não devia ser doutrinado, pois não devia converter-se em instrumento do Estado. A censura e a supressão das novas ideias deviam considerar-se como males absolutos. Para Tolstói, a liberdade era o mais prezado bem. Tolstói exigia que os sábios assumissem um senso de responsabilidade social, pois eram não só modelos de informação, senão que deviam ser modelos de sabedoria. A conquista da verdade e a sabedoria devia ser um processo intensamente pessoal. Quanto podiam aprender os sábios da simplicidade do homem comum! Quanto podiam beneficiar com a virtude da gente comum!

Cena de 'A última estação'

Cena de ‘A última estação’

Tolstói dava importância à personalidade do mestre. Era muito mais importante que o mestre estivesse convencido da importância do seu ministério e não que fosse um especialista. O mestre devia interessar-se por todos os aspetos da vida e devia preocupar-se mais com os problemas do homem que com os da ciência técnica. O tipo de escola que propugnava não devia fazer uso das classificações nem admitir nenhuma distinção de classe. O centro da mesma era a criança e não o mestre. Os alunos deviam aprender pela experiência e a aula seria como um laboratório. Em todas as suas atividades os alunos estariam guiados por um espírito de bondade e compaixão. Nas suas teorias pedagógicas, Tolstói sinalava a importância da personalidade do mestre. Se este era frio e hostil para os escolares, resultava uma influência negativa e seria somente um capataz. Porém, se realmente amava a sua vocação e considerava a personalidade do aluno, converter-se-ia num pilar da cultura e da civilização.

Cena de 'A última estação'

Cena de ‘A última estação’

O saber não devia estar restringido a uns poucos. Tolstói opinava que todos os seres humanos ansiavam conhecer a verdade e desejavam um melhor modo de vida. Portanto, opinava que se devia dar importância à educação dos adultos e universalizar a cultura. Tolstói ensinava por meio de preceitos: “Sede francos com vós mesmos e sede-o com os vossos filhos”, era a base da sua filosofia pedagógica. Afirmava, ademais, que o homem só podia progredir mediante a autoanálise. Para Tolstói, a religião, a educação, a filosofia e a ciência, todas tendiam ao mesmo fim. O seu objeto era formar indivíduos que amassem e tivessem sempre consciência das suas responsabilidades para com a humanidade. Tolstói reclamava uma transformação de valores, de modo que a educação desse mais importância ao afeto e à espontaneidade, que à disciplina formal. Em certos aspetos, Tolstói era um mestre como Jesus. Tinha uma fé infinita no indivíduo e ensinava por meio de parábolas. Segundo ele, amar os homens e amar a Deus era o princípio e o fim da sabedoria. Para Tolstói, a educação era um processo de identificação. O aluno compreendia que tinha uma dívida com os demais e que, sempre que a gente sofresse ou estivesse necessitada, requeria-se a sua ajuda. Para Tolstói, a educação tinha, pois, uma função realmente universal e humanista.

O MODELO DIDÁTICO DA ESCOLA “IASNAIA POLIANA”:

Tolstói cria uma importante escola na sua quinta rural de Iasnaia Poliana, perto da localidade russa de Tula, em 1859. A metodologia pedagógica da mesma fundamentava-se nos seguintes aspetos básicos e fundamentais:

  • TOLSTOI Frase linda2Preocupação pelo educando e pelo homem, com a necessidade de aprender por sim mesmos.
  • Importância do espírito de liberdade. Não ao doutrinamento. Os estudantes escolhem segundo seus interesses e o que mais lhes atrai.
  • Condena total do dogmatismo. Dando valor à ciência e a razão.
  • Repulsa do autoritarismo e intervencionismo. Os alunos decidiam por eles mesmos e o seu processo e evolução cognitiva eram livres, já que o conhecimento não pode ser transmitido ou imposto contra a vontade dos estudantes.
  • Implicação da educação e da instrução. Educação integral dos escolares e aquisição de conhecimentos intelectuais.
  • Vitalismo existencial frente ao mero intelectualismo. Descoberta do mundo em contacto com a natureza. Uso da experimentação.
  • Pragmatismo científico. Aplicação sempre do método científico no ensino.
  • Humanismo liberal. O educando é o centro do processo educativo e o método de ensino deve adaptar-se a ele e seus interesses.
  • Sentimento, razão e sugestão (crença seletiva) como causas motivadoras. Tolstói não utilizava um único método de ensino, pois queria observar que era o que motivava os estudantes, e mudava de método quando via que se aborreciam. Com acerto opinava que a criança desfruta quando realmente está a aprender. O bom método é o que satisfaz os alunos.
  • Educação social-popular. O seu naturalismo está implícito nesta relação. As crianças preferem os contos e histórias populares no lugar dos relatos literários, pois a sua compreensão é mais singela. Para que depois cheguem à linguagem literária devem começar pelos contos.
  • Educação gratuita para todos. A escola de Tolstói era totalmente gratuita e os alunos que mais a frequentavam eram os das aldeias próximas.

Didática e organização escolar de sua escola:

TOLSTOI Frase lindaO primeiro dia do início da sua escola acolheu 22 jovens que atravessaram timidamente o limiar da Iasnaia Poliana. Depois de 5 ou 6 semanas, o número de alunos aumentou a mais do triplo. A organização do ensino da escola tolstoiana era muito diferente à das escolas correntes, e o número de estudantes, nenos e nenas de 7 a 13 anos, continuou a aumentar constantemente. O ensino começava entre as 8 e as 9 da manhã. Ao meio-dia interrompiam-se as aulas para comer e descansar. Depois, o ensino prolongava-se durante três ou quatro horas mais. Cada mestre dava diariamente cinco ou seis horas de aulas. Segundo a idade, o grau de preparação e os progressos dos alunos, criaram-se três grupos de escolares: o inferior, o médio e o superior. Não existiam lugares fixos para os alunos; cada um sentava-se onde mais lhe agradava. Não se davam deveres para casa. A forma predominante do trabalho escolar não eram os exercícios no senso corrente, senão uma conversa livre com os alunos no curso da qual as crianças aprendiam a leitura, escrita, aritmética, religião e assimilavam as regras gramaticais e as noções de história, geografia e ciências naturais acessíveis para a sua idade. Também aprendiam a desenhar e cantar.

A estrutura e o conteúdo da educação não eram constantes, variavam de acordo com o desenvolvimento das crianças, com as possibilidades da escola e dos mestres e com a vontade dos pais. O próprio Tolstói ensinava ao grupo superior matemática, física, história e algumas outras matérias. Muitas vezes ensinava os rudimentos das ciências em forma de conto. As crianças não eram castigadas nem pela sua conduta nem pelos resultados pouco satisfatórios nos seus estudos. A exigência de que se tratasse com respeito a personalidade dos alunos presupunha que estes, sem castigo nem coação por parte dos adultos, deviam convencer-se paulatinamente da necessidade de submeter-se à ordem de que dependia o sucesso da sua aprendizagem. Sobre este tema Tolstói escreveu: “Os alunos são pessoas apesar de serem pequenos. São pessoas que têm as mesmas necessidades que nós e que pensam igual que nós; todos eles gostam de aprender; por isso vão à escola e por isso chegarão muito facilmente à conclusão de que devem submeter-se a certas condições para aprender”.

Tolstói e os mestres da sua escola estimularam a independência dos alunos, desenvolveram a sua capacidade criativa e conseguiram que as crianças assimilassem consciente e ativamente os conhecimentos. O que costumava pôr-se em prática em composições, por vezes de tema livre, que os escolares redigiam com agrado. A sua escola considerou que este recurso era uma das maneiras de desenvolver a personalidade criativa, a capacidade de criar no futuro novas formas de relações sociais dignas de uma pessoa civilizada. Embora, o que distinguisse particularmente a escola de Iasnaia Poliana fosse a atitude com respeito aos conhecimentos, as habilidades e as aptitudes que as crianças adquiriam fora da escola. Ao contrário do que se fazia noutras escolas, não se negava o valor instrutivo que tinham para os alunos essas experiências, aliás, considerava-se que eram a condição necessária do sucesso da atividade escolar. No mundo circundante há uma quantidade inesgotável de fontes de informação, embora as crianças não sempre saibam interpretá-las. Por conseguinte, a tarefa da escola consiste em elevar as informações que recolhem os alunos no meio à esfera consciente.

As tarefas dos professores na Iasnaia Poliana eram muito mais complexas que as das escolas com horários fixos, aulas, disciplina severa, que utilizavam os métodos do estímulo e o castigo e que ministravam um volume de conhecimentos rigorosamente estabelecidos e organizados previamente. Em Iasnaia Poliana exigia-se ao mestre um constante esforço moral e intelectual, assim como a aptitude para captar em qualquer momento a situação e as possibilidades de cada uns dos alunos. Exigia-se do mestre o que hoje se denomina a criatividade pedagógica. Embora, também os resultados destas atividades fossem diferentes dos que se atingiam nas demais escolas. Evguenei Markov, um dos Mestres de Iasnaia Poliana, escreveu: “Observávamos os sucessos notáveis dos alunos de Tolstói, entre os que havia pequenos que vinham do campo ou de cuidar rebanhos de ovelhas e que em poucos meses de estudo já podiam escrever composições sem muitos erros ortográficos”.

Tolstói, com crianças na sua quinta

Tolstói, com crianças na sua quinta

A atividade e a influência pedagógica de Tolstói não se limitaram ao âmbito da sua escola, pois por sua iniciativa e colaboração espontânea, no distrito de Krapivna, província de Tula, funcionaram de forma simultânea não menos de vinte escolas populares. Os seus experimentos eram para essa época tão insólitos que atraíram a atenção da opinião pública russa e estrangeira, e favoreceram o desenvolvimento da educação primária. A Iasnaia Poliana chegavam mestres de muitas cidades da Rússia e de vários países do mundo, interessados pela aplicação das ideias humanistas na prática escolar. As frequentes visitas às aulas terminaram por entorpecer o curso normal do processo pedagógico, embora Tolstói, que compreendia a situação, não rejeitasse os visitantes, pois conversando com eles pôde verificar as suas teorias e compará-las com outros métodos conhecidos da educação. Com esta ideia começou a publicar uma revista pedagógica especializada sob o título de Iasnaia Poliana, que tinha como finalidade descrever os novos métodos de ensino e princípios da administração da instrução pública, apresentar novas formas de organização do processo educativo e experiências de educação extraescolar e de distribuição de livros à população, assim como monografias sobre as escolas que surgiam de forma independente com o objeto de analisar as suas qualidades e defeitos. Segundo ele, uma das tarefas mais importantes da revista era a investigação da experiência da atividade educativa livre e a identificação dos elementos essenciais do processo de ensino, conhecimentos que representam um valor permanente tanto para a pedagogia como ciência, como para o ensino como prática. Por isso solicitou muitas colaborações para a revista, estipulando que os colaboradores tinham que ser “unicamente docentes que considerassem a sua ocupação não só como um meio de vida ou como uma obrigação, como também como um experimento em benefício da ciência da educação”. O próprio Tolstói publicou artigos fundamentais tais como “Sobre a instrução pública”, “Sobre os métodos de ensino das primeiras letras”, “Projeto de plano geral da organização das escolas públicas”, “Quem ensina a escrever a quem?” e “Progresso e definição da educação”, em que criticou os vícios da velha escola, difundiu as ideias da nova escola popular e examinou as formas criativas das crianças e muitas outras questões.

Tolstói na sua quinta

Tolstói na sua quinta

A atividade pedagógica de Tolstói continuou com grande sucesso e lhe deu satisfações, embora despertasse suspeitas do poder czarista. Foi submetido a julgamento, e as ideias da revista foram qualificadas de “perigosas para os princípios básicos da religião e da moral”. O número 12, que apareceu em dezembro de 1862, foi o último publicado. E Tolstói, a partir deste momento, iniciou a redação da sua obra Guerra e Paz, mas não deixou de refletir sobre as suas experiências pedagógicas. Pois chegou à conclusão de que elas contribuíam com algo de novo para a pedagogia da sua época. E chegou a dizer: “Penso muito e constantemente na educação, preparo-me a escrever tudo o que sei sobre educação e o que ninguém sabe ou aquilo com que ninguém está de acordo”. Tolstói reabriu a sua escola a princípios da década de 1870, e novamente ajudou a organizar escolas em todo o seu distrito e se esforçou “por resgatar das águas os pequenos Pushkin, Ostrogradski, Filareto e Lomonosov que abundam em cada escola”. Precisamente para eles, os “pequenos mujiques”, pois assim chamava aos filhos dos camponeses, Tolstói criou o seu Abecedário, texto escolar em que trabalhou com entusiasmo nos anos 1871-72, e no Novo Abecedário, por causa do qual interrompe, em 1875, a redação de Ana Karenina. Estes seus dous livros escolares tiveram um sucesso enorme em toda a Rússia. Dos mesmos também existe no Brasil uma bastante recente edição, naturalmente traduzidos para a nossa língua. Ademais de lindos contos que escreveu para as crianças da sua escola, Tolstói continuou a fazer investigações educativas, relacionadas com a sua doutrina ético-moral, que expôs em artigos, depoimentos, cartas, notas e palestras. Entre eles destacamos especialmente: “Ideias sobre educação”, “Sobre o trabalho físico”, “Palestras com as crianças sobre problemas morais” e “A principal tarefa do mestre”. Depois de romper com a religião do Estado, e ser excomungado pelo Sínodo, difundiu as ideias do que ele denominava “cristianismo autêntico” e da rejeição da violência, destacando a função excecional da educação no melhoramento das relações humanas e na consecução do bem-estar social.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica) e o fundo do filme anteriormente resenhado, realizado por Hoffman.

Organizar nos estabelecimentos de ensino de todos os níveis uma amostra monográfica sobre a vida e obra pedagógica de Leão Tolstói. A mesma terá que incluir fotos, textos, frases educativas, cartazes, autocolantes, desenhos e mesmo textos dos próprios estudantes. Deve aproveitar-se o muito que há na internet sobre a sua figura. Com todo o material podemos editar e/ou policopiar uma monografia dedicada a Tolstói como educador. Paralelamente a esta amostra, podemos projetar o filme anteriormente resenhado, e organizar um debate-papo sobre as imagens vistas no mesmo. Comentando também as estratégias didáticas por ele utilizadas, e como podem ser levadas às nossas atuais aulas.

Organizar um Livro-fórum, depois de ler, estudantes e professores, um livro escolhido por todos, relacionado com Tolstói. Podemos escolher entre os seguintes: Contos da nova cartilha: Primeiro livro de leitura, editado pela Ateliê Editorial de São Paulo em 2005, ou o Segundo livro de leitura- Vol. 1 (ano 2013), da mesma editora, ambos em tradução de Aurora Bernardini e Belkiss Rabello. É muito interessante a biografia sobre Tolstói, escrita por Rosamund Bartlett, editada pela Editora Globo, na Biblioteca Azul, em 2013. Em castelhano temos os livros La escuela de Yasnaia Poliana, da editora Olanheta de Maiorca, e Tolstoi educador, escrito por Ch. Baudouin, editado no seu dia por La Lectura.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • José Ramom Pichel

    Q grande artigo! Muito obrigado!

  • Joám Lopes Facal

    Umha achega magnífica ao grande profeta da liberdade de espírito e a fraternidade. Obrigado.

  • Ernesto V. Souza

    Gostei!! parabéns, caro professor.