Tiradentes: obra explica quem é o herói brasileiro



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É atribuída ao dramaturgo e contista alemão Bertolt Brecht a frase:“Infeliz a nação que precisa de heróis”. Mas, qual país do mundo não exalta (e até “fabrica”) seus heróis? O Brasil, território colonizado por Portugal, poderia ter escolhido vários nomes para herói nacional, mas Tiradentes foi propositalmente escolhido para representar os ideais de liberdade. Um desses candidatos a herói, que foi “esquecido” pela História oficial do Brasil, foi Felipe dos Santos, que liderou a Revolta de Vila Rica (atual Ouro Preto, Minas Gerais) em 1720, foi delatado, preso e esquartejado.

Joaquim José da Silva Xavier, ou somente Tiradentes, como era conhecido por seus pares em Ouro Preto, foi um ativo participante da Inconfidência Mineira, um revolta esmagada pelo governo de Minas Gerais, em 1789, durante o auge do ciclo do ouro, tendo, entre muitos outros motivos, romper com o domínio de Portugal e acabar com a execução da derrama (cobrança excessiva de impostos).

Tiradentes foi considerado líder da Conjuração Mineira , levado para o Rio de Janeiro e em 21 de abril de 1792, e por ordem da rainha de Portugal, dona Maria I, foi enforcado no Rocio, hoje Praça Tiradentes; depois foi esquartejado e preso no caminho do Rio de Janeiro a Ouro Preto.

A partir de 1870, Tiradentes começou a ressurgir na História do Brasil, por ocasião do lançamento do manifesto republicano e, quando o governo militar proclamou a república em 1889, um dos primeiros atos foi a criação do feriado nacional em 21 de abril. O pintor positivista Décio Vilares “criou” a imagem de Tiradentes, baseado em Jesus Cristo.

O Portal Galego da Língua conversou com o escritor e jornalista Lucas Figueiredo (Minas Gerais, 1968). Além de repórter de diversos meios de comunicação no Brasil, Figueiredo também trabalhou como colaborador da rádio BBC de Londres, pesquisador da Comissão Nacional da Verdade e consultor da Unesco. O autor de sete livros reportagem estreia agora a sua última obra, ‘Tirandetes‘, que está a fazer grande sucesso no Brasil, pois, mais do que História, desvenda o mito Tiradentes, para apresentar o homem Joaquim José e como foi sua vida, profissões, amores e anseios de liberdade.

[foto de Pablo Saborido]

[foto de Pablo Saborido]

Tiradentes é uma figura icônica da História do Brasil e que já foi chamado de herói por movimentos políticos (e até militares) de todas as orientações. Como foi a pesquisa do livro? Quanto tempo levou para ter um perfil confiável da personagem principal do livro?

A pesquisa do livro levou cinco anos. Comecei por examinar o processo judicial que condenou Tiradentes (1746-1792) e os demais integrantes da Conjuração Mineira (ou Inconfidência Mineira, como queiram). Esse processo, do final do século 18, tem mais de 350 depoimentos, além de centenas de outros documentos, como cartas de autoridades coloniais e da Coroa Portuguesa, testamentos, relatórios etc. Depois de mapear o processo judicial, fiz pesquisas em arquivos do Brasil, de Portugal, da França e dos Estados Unidos. E, por final, consultei uma grande bibliografia, sobretudo acadêmica, produzida sobre o Brasil Colônia. O esforço valeu a pena, pois foi possível reconstituir a vida de Tiradentes com cores bem vivas.

Entre tantas histórias contadas sobre Tiradentes, quais você conseguiu desmentir ou desconstruir da imagem do mito?

Na verdade, a imagem que se tem de Tiradentes é, em geral, muito manipulada. O mito que se construiu em torno dele é muito forte, o que nos privou de conhecer a história do homem Tiradentes, uma história fantástica. Tiradentes ficou órfão de pai e mãe muito cedo, nunca foi à escola, mas aprendeu a ler e a escrever com seu padrinho, que também lhe ensinou a arte de tirar dentes. Joaquim José da Silva Xavier, seu nome completo, teve várias atividades. Além de dentista, foi fazendeiro, mascate, médico prático, minerador e militar. Também tentou ser homem de negócios. Sobre tudo isso, fala-se muito pouco. No livro, pude resgatar sua história desde o nascimento até a morte na forca, deixando de lado o mito e revelando o homem.

Tiradentes foi um dos principais articuladores da Inconfidência Mineira?

Na escala socioeconômica de Minas Gerais na época, Tiradentes não tinha grande importância. Não era rico, não pertencia a família poderosa e não ocupava cargos de destaque. Sua patente militar, alferes, era a mais baixa do oficialato. Porém, como era muito articulado, tinha uma teia de relações que permitiam a ele circular em senzalas e em palácios. Também tinha a verve afiada, e foi um dos mais entusiasmados conspiradores, assumindo algumas das missões mais arriscadas. Por isso tudo, acabou fazendo parte do pequeno núcleo que encabeçou o movimento.

A imagem e semelhança com Jesus Cristo de algumas pinturas, procede ou foi uma tentativa de criar um herói católico à brasileira? (Pela capa do livro, parece que não…)

Tiradentes morreu em 1792 e depois disso ficou meio século esquecido. Em meados do século XIX, o movimento republicano no Brasil ganhou força e, precisando de um herói para servir a sua propaganda, resolveu fazer de Tiradentes seu patrono. Para sensibilizar a população da colônia, o momento republicano distorceu a imagem de Tiradentes, apresentando-o com um tipo com longa barba e que vestia túnica branca, à la Jesus Cristo. Essa imagem, contudo, nada tem a ver com o verdadeiro Tiradentes. Foi um truque de marketing.

E o delator Joaquim Silvério dos Reis, tem alguma relação com Judas Iscariotes ou era comum a figura do delator na Corte ?

A legislação portuguesa do século 18 incentivava as delações como forma de evitar a rebeldia dos colonos. Conhecendo essa legislação e percebendo as fragilidades da Conjuração Mineira, Silvério dos Reis, que também fazia parte do grupo rebelde, resolveu mudar de lado e delatou seus companheiros. Em troca, livrou-se da prisão e ganhou gordas recompensas. Mas já naquela época passou a ser visto como uma figura abjeta no Brasil, e chegou a ter inclusive a casa incendiada.

[foto de Pablo Saborido]

[foto de Pablo Saborido]

Tiradentes deixou descendentes (esposa, filhos)? O que aconteceu com eles depois do enforcamento?

Tiradentes nunca se casou, mas teve um relacionamento com uma jovem de 15 anos, Antônia Maria do Espírito Santo, com quem teve uma filha, Joaquina. Quando Tiradentes foi enforcado, Joaquina ainda era criança. Ela e a mãe acabaram pagando indiretamente pelo crime de Tiradentes, já que este teve todos os bens sequestrados, inclusive a parte que caberia à filha. Há documentos que mostram que, uma década após a morte de Tiradentes, Joaquina e a mãe moravam numa pequena casa na companhia de quase uma dezena de pessoas e não tinham escravos, o que mostram que não conseguiram ir muito longe do ponto de vista socioeconômico. Ao chegar a vida adulta, Joaquina sumiu na poeira da história, juntamente com sua mãe, pois não há registro de nenhuma das duas ou de possíveis descendentes.

A pergunta que todos fazem aos biógrafos: Quem foi Tiradentes?  

Um homem justo, que acreditava que a forma correta de subir na vida era pelo trabalho. Um homem amargurado por não ter tido seu valor reconhecido pelas autoridades coloniais. Um homem que possuía habilidades variadas e facilidade para se relacionar tanto com as camadas mais altas quanto com as mais baixas da população. Um homem extremamente corajoso, que não hesitou em pedir para si as missões mais arriscadas da Conjuração Mineira. Um homem sem juízo e um tanto quanto imprudente, que se expôs de maneira excessiva na conspiração. Um homem à frente do seu tempo, que enxergou que sua terra natal estava pronta para se tornar independente, coisa que na época poucos imaginavam.

Pode saber mais sobre o autor e sua obra aqui.

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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