Teresa Moure: ” Um elefante no armário é um romance sobre a verdade”



um_elefante_no_armario_capa-001Já nas livrarias o novo romance de Teresa Moure,Um Elefante no armário“, publicado mais uma vez na Através editora. Teresa  Crisanta Pilhado entrevista a respeito a autora para o PGL.

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Na apresentação pública do teu romance na Culturgal fizeste menção ao reto que para ti supus alcançar uma escrita menos barroquizante. Poderias precisar o alcance e objetivos desse propósito e ainda, trata-se dum desafio estritamente retórico ou tem dimensões compositivas, estruturais, etc.?

Um elefante no armário é um romance sobre a verdade. Ao fundo, as teorias deflacionistas que pretendem diminuir o peso desse conceito na ciência ou no pensamento, também na política. Porém, a protagonista, que é uma filósofa especializada nesse assunto, e que abandonou anos atrás toda atividade académica, deve regressar lá, à indagação, mas em contextos quotidianos, nas relações pessoais, na interpretação da própria vida. Essa temática obrigou-me a usar, especialmente nas partes narradas por Ana Brouwer, um estilo mais conciso, quase poético. O procedimento tem a ver com a procura da autenticidade porque a verdade é isso: revelar o que está oculto, com a intencionalidade única de o conhecer. Trata-se apenas duma questão de estilo. Na estrutura, o romance é complexo: tem seis partes que incluem seis pontos de vista e nenhuma das vozes narradoras está em possessão da Verdade com maiúsculas; quem ler deverá decidir qual é a versão dos factos correta. É mesmo um desafio.

Do meu ponto de vista, acho que em Um elefante no armário podemos encontrar vários elementos de ficção muito semelhantes com sucessos que de facto são reais. Por outro lado, podemos ler no romance que a verosimilitude é uma qualidade que não predicamos da realidade, mas sim temos uma certa tendência a exigi-la na literatura. Podes ser que estejas a ficcionalizar elementos da realidade para ver até que ponto uma e outra –é dizer, ficção e realidade– se podem distinguir?

Sempre que publico um romance, observo que @s [email protected] pretendem encontrar lá elementos autobiográficos ou episódios realmente acontecidos. Porém, literatura é literatura. Histórias são histórias. Provavelmente escritores nadamos num caldo cultural que implica nem só conceitos, também episódios, mas nem agora nem nunca pretendi ficcionar nada real. Porém, respondendo a tua pergunta num sentido mais geral, a literatura é esse espaço onde o imaginado e o real se confundem. E, com efeito, a vida surpreende-nos com histórias muito mais esquisitas do que aquelas que aparecem nos romances. Como diria Maurício Almeida, um dos protagonistas de Um elefante no armário, Deus, como escritor, não passa do nível de amador.

Ana Brouwer é uma filósofa especializada em epistemologia e fenomenologia. Para além disso, fez a sua tese sobre a Verdade. A pergunta é, pois, que e a Verdade para Ana Brouwer? De que jeito está ligada a Verdade com um elefante?

Ana considera três versões do conceito de verdade. Em grego, verdade diz-se aletheia, que significa o não-oculto, não escondido nem dissimulado. Em latim, diz-se veritas e refere-se à precisão, em rigor e exatidão, dum relato no qual é dito com a maior fidelidade o que aconteceu. Em hebreu, diz-se emunah e significa confiança. Tem a ver com os relacionamentos entre as pessoas. Embora ela reviste o que dizem os filósofos (de Wittgenstein a Heidegger ou Byung-Chul Han) está muito influída por estes matizes que chegam as línguas. Quando faz com que esses grandes conceitos dos pensadores virem para a vida quotidiana, Ana lembra que Schuld, em holandês, a língua da comunidade que a acolheu, significa tanto culpa como dívida. Quem se sentir assediado pela culpa correrá para restituir um velho empréstimo. Apagar as culpas e sobretudo obrar com coerência, sem ressarcir nada a ninguém, fazem parte do ideário da Ana sobre a verdade. O elefante, nesse sentido, é esse intruso que se enfia no armário interior para berrar a toda a hora, que temos culpas e que devemos pagar por elas.

A forma quarteto tem uma certa tradição musical e narrativa, ás vezes ligada à questão da perspetiva ou à da caracterização discursiva de personagens em conflito –no teu romance, com o reparto entre o Maurício, a Ingrid, a Natália e a Ana. Podes dizer-nos algo sobre as intertextualidades que traça o teu romance neste sentido?

O elefante conta a história de Ana Brouwer, uma doutora em filosofia que decide proletarizar-se e abre uma loja de trabalhos manuais. Na sua juventude teve uma bolsa de investigação em Leida (Holanda) e lá surgiu um caso com um dos seus professores. Quinze anos depois esse professor, Simon, regressa para a sua vida. As duas vezes que Simon se instala na vida da Ana, abandona-a. E ela tenta analisar até que ponto as palavras e os compromissos podem ser verdade. Mas a cerna da história, que acabo de contar, começa na parte 4 do romance. Antes assistimos a vários invólucros necessários para simpatizar com Ana, para tirar tristeza e excessivo peso filosófico ao relato. E, portanto, @s [email protected] têm que enfrentar versões parciais e múltiplas da verdade, que @s desorientam. Assistem ao relato de Maurício, um voyeur que observa a intimidade de Ana e que descreve tudo dum ponto de vista machista e obsceno. Escutam o relato da Natália, a amiga insegura, que julga que Ana quer vingar-se do seu antigo amante planificando seu assassinato. E escutam Ingrid, a amiga controladora, que é psiquiatra e tenta previr Ana do seu pendor para o excesso. Os diferentes narradores acabam por colaborar na tarefa de escreverem a história de Ana, de maneira que contam diferentes versões, às vezes a falar dos mesmos factos de diferente maneira, e permitem observar o difícil que é registar a verdade, como esta resiste a ser desvendada, como é complexo ser testemunha, como nos influem os demais no próprio ponto de vista. Há um trabalho musical de criar uma coral, com efeito. E mais um pormenor, a figura de Ingrid Meyer, a psiquiatra, é uma personagem que resgatei doutro romance anterior (publicado em galego como A intervenção e em espanhol com o mais rico título de Artes subversivas para cultivar jardines). Como naquele romance, agora pretendo registrar a polifonia, as testemunhas contrapostas que, bem temperadas de anedotas e de perspetivas psicológicas individuais, devem confluir numa versão aproximada dos factos.

Que sabes do público na tua narrativa? Pesas que é o mesmo público que o da tua obra ensaística, teatral e poética?

Provavelmente não. Não penso muito no público, confesso. Doutra maneira ver-me-ia desapontada para escrever porque vivemos numa sociedade que lê pouco e fundamentalmente em espanhol. Mas, se me obrigares a pensar, direi que provavelmente o público de ensaio se sente convocado pelo tema: está interessado num assunto e prestes a ler sobre esse assunto. E isso pode ser semelhante para os leitores, sempre minoritários, da poesia ou o teatro. O romance, no entanto, é o género das massas e, nesse sentido, escrever em galego internacional é especialmente complicado. Muitas pessoas do meu ambiente leem os meus romances quando publicados em espanhol. Pelas próprias caraterísticas da nossa época, onde prima a pressa e a imagem, é complexo criar um público leitor de romances numa língua acossada pelo poder e, aliás, escrita numa padrão dissidente.

A propósito da tua tradução dos poemas da Ana Brouwer em Chan da pólvora (Não tenho culpa de viver), como é que concebes a autoria?

Em Um elefante no armário incluem-se fragmentos dum livro de filosofia que Ana Brouwer escreve. Apanhei alguns desses fragmentos (demasiado toscos talvez para serem verdadeira poesia, demasiado poéticos para serem verdadeira filosofia), num poemário ainda inédito que intitulei O dia em que comprei mentiras por catálogo. Antón Lopo, da chancela Chan da pólvora soube da sua existência e propus publicar oito deles, numa escolha pessoal de editor, nesse livrinho Não tenho culpa de viver. Isso permite que saiam ao mesmo tempo a minha obra e a obra de Ana Brouwer. É um jogo sobre autorias que se explica só. A criação nunca vem do nada nem é estritamente individual. Fazemos parte sempre dessa coral de textos que nos constroem como indivíduos e que constroem a cultura como artefacto coletivo que nos representa e que nos modela.


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  • Carlos Rios

    Magnífica entrevista. Obrigado

  • abanhos

    Muito boa entrevista, e um livro mais desta muito boa escritora, que teremos que devorar