Teresa Moure: “O futuro convida a centrar os nossos esforços na tarefa de dar cabo do Apartheid ortográfico, de procurarmos um público sem prejuízos, de ganharmos espaços.”



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Teresa Moure está a apresentar em diversos espaços culturais e associativos  o livro duplo   Bolcheviques/Bolxeviques (Através / Xerais), coordenada por ela.

Entusiasmada com o Blogue pessoal de crítica “A tecer aranheiras”, recentemente nomeada Académica pela AGLP e fervendo de projetos, a Teresa giza-nos brevemente a sua impressão da cultura galega, do presente do reintegracionismo, das escolhas e estratégias, dos trabalhos em curso e dos projetos presentes e futuros. Matias G. Rodrigues entrevista-a para o PGL.

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Vens de dar começo a um blogue pessoal de crítica literária, A tecer aranheiras. Ti própria diz fazê-lo “quando blogues já não estão na moda, quando ninguém tem tempo para ler”, fazendo um apelo à resistência. De que jeito pode a crítica, hoje, edificar uma resistência?

A cada dia que passa mais sou persuadida pela ideia de que fica pouco tempo para um certo tipo de literatura. O pessoal devora textos on-line, mas acha não ter um momento propício para outros formatos mais clássicos. Nesse sentido, é possível que a palavra resistência se module mais uma vez entre nós. O meu objetivo consiste, portanto, em tecer uma rede de cumplicidade entre [email protected] que ainda tentamos construir mundos ou enviar mensagens para o público, embora tantas dificuldades. A tecer aranheiras concentra-se especialmente em livros invisíveis pelo seu género (poesia, ensaio), ou pela temática e o estilo; livros pouco divulgados nos meios convencionais ou declaradamente proscritos do núcleo oficial da cultura. Tem muito de subversão, de denúncia dos circuitos diminutos da crítica neste país, e também muito de brincadeira pessoal.

Do mesmo ponto da crítica (que é sempre, mesmo em sentido inverso, também o da instituição), qual achas que é o estado das letras reintegracionistas? Quais os seus caminhos mais fecundos em clave de futuro?

Toda a literatura galega é um produto contrapoder por definição. Assim nasceu, como uma reivindicação nacional, e dalguma maneira esse é seu perfil caraterístico, visto que continua a ser vetada na maioria das montras das livrarias. Num tal contexto, a literatura galega reintegracionista constituiu mesmo as margens das margens. Porém, nos últimos tempos, timidamente, e devido a circunstâncias externas a seus criadores, parece visualizar-se um bocado. Como tais produtos literários, as criações em normativa reintegracionista têm a garantia duma vontade de língua, que é um motor importante nesta arte. O futuro convida a centrar os nossos esforços na tarefa de dar cabo do Apartheid ortográfico, de procurarmos um público sem prejuízos, de ganharmos espaços. A qualidade e as vontades de tantas criadoras e criadores não podem ser inúteis.

Posto da Através (Festigal 2015)

Recentemente a Academia Galega da língua Portuguesa nomeou-te Académica numerária. O que pensas da função da Academia no tempo presente, e o teu lugar nela?

Foi uma honra imensa para mim a proposta e a aprovação unânime por parte dos seus membros. Contudo, esta não é uma Academia em sentido convencional. Não me interessam instituições decimonónicas, é claro; nem gosto de fazer parte de grupos de prestígio. O importante cá é que a AGLP conduz o nosso ativismo para propostas concretas que possam ajudar a manter uma língua ameaçada, melhorar a sua qualidade e incentivar a criação, fomentando as suas relações internacionais e contribuindo a socializar a ideia de fazermos parte duma unidade ampla (e útil).

Há pouco se perguntava a euro-deputada galega Lídia Senra se podia o galegopermitir-se o luxo de rejeitar ativistas por escreverem com ç”. Qual achas o estado do reintegracionismo no momento presente? Que diferenças observas desde o momento em que decidiras a dar o salto?

… Hahaha… Acho que a frase que atribuis à Lídia Senra é minha! Foi um desses titulares entressacados da minha intervenção em Bruxelas, no grupo de pessoas da cultura que por iniciativa de AGE se reuniu no Parlamento Europeu e onde participei, junto aos companheiros Jose Ramom Pichel e Sabela Fernández. A frase pretende apenas sensibilizar aquelas pessoas que escrevem na normativa ILGA sobre o facto de estarem a exercer uma discriminação sobre nós que, aliás, não pode beneficiar à língua. Nós não somos o inimigo. O reintegracionismo é um movimento plural, mas, em conjunto, constituído por pessoas com a coragem de pensar por si mesmas e de tentar mudar uma inércia perigosa, que está a levar a língua para a sua desaparição. A partir daí, é difícil fazer valorações a curto prazo. O movimento é rico em ideias, vigoroso, mas como em toda negociação também depende do que fizer a outra parte. Acho que é bom abandonarmos a ideia de ser uma periferia da cultura galega para, sem complexos, reivindicarmos o nosso trabalho dentro do país. Em simultâneo, devemos cultivar a estratégia, já iniciada, de cuidar a nossa presença exterior, nos outros países onde falam variedades da nossa língua. O reconhecimento interno também há de vir dado pelos índices de reconhecimento no exterior. Ademais, a tarefa diplomática e a representação exterior são imprescindíveis para @s utentes duma normativa internacional como esta.

Voltando à representação galega na Europa: Há pouco tomaste parte de um encontro da cultura galega em Bruxelas organizado por AGE. Qual achas a distância entre as elites culturais nacionais e o panorama cultural de base? Que papel pensas que desempenha o reintegracionismo neste campo, e qual poderia desempenhar?

Na definição que eu utilizo de cultura, só entram as bases, forem coletivas (na criação popular) ou individuais, mas bases no final das contas. Ainda mais, elite e cultura são antónimos, a meu ver. Outra cousa são os comedores da cultura, os comedores do galego, como tem dito Pilar García Negro. O reintegracionismo cresceu em ambientes formados, sofisticados e cultos, ou claramente politizados, mas não em elites. E continua a crescer em centros sociais, em projetos educativos alternativos ou em ambientes peculiares, como o da música. (Porque é que tantos músicos e músicas são reintegracionistas é uma pergunta que me formulo frequentemente, aliás). O papel do reintegracionismo, orgulhoso duma identidade própria, mas confiante com as achegas do exterior, resistente ao avanço do espanhol, tem de ser fundamental para mantermos uma cultura diferenciada. Essa é a sua cerna.

bolcheviquesbolxeviquesBolcheviques (1917-2017), livro coordenado por ti e editado por Através e Xerais, vem de ser escolhido como um dos melhores ensaios do ano pelos leitores de Fervenzas Literarias. Agora que têm passado já umas semanas desde a sua aparição, e que começaste a fazer lançamentos da obra, como avalias a experiência?

Os volumes de Bolcheviques, um único livro com duas editoras, constituem uma experiência sem precedentes na nossa história editorial e bastante esquisita em qualquer lugar. As grandes editoras dum país pequeno e culturalmente ocupado por outra língua decidem uma política sem fendas: só publicam numa normativa isolacionista, rejeitando as possibilidades económicas e a difusão internacional que teria a ortografia histórica. Em consequência, no lado escuro, xurde uma alternativa editorial para dar voz à dissidência, por assim dizer.  Perante uma tal situação, quando alguém quer organizar um volume de autoria coletiva sobre determinado tema, vai bater com que os autores e autoras especialistas de facto escrevem em normativas diferentes. Uma resposta possível, que também não é assim tão imaginativa, consiste em propor que cada autor(a) utilize a normativa da sua preferência e que o livro seja editado por duas editoras, que podem manter, desta maneira, as suas políticas ortográficas. Utilizei no prólogo a metáfora do rei Salomão com certa ironia. Desta vez, o Salomão decidiu partir a criança, a metade para cada mãe. Pretendíamos visualizar assim que, quando existir vontade, é possível procurar a via. A minha esperança é que no futuro imediato apareçam mais projetos onde a convivência das normativas dê nas vistas, experimentando com novas fórmulas. Porque nós, reintegracionistas, queremos lá estar, na cultura galega; não fazer parte dum grupo de exílio forçado.

Num sentido diferente, acho muito engraçado que seja eu (nem militante dum partido comunista, nem historiadora) a coordenadora. Ter escrito um romance sobre Inessa Armand e Lenine deu-me hipótese de partilhar opiniões políticas e históricas com boa parte da esquerda deste país. No ano passado fui convidada a participar num Comité para a celebração do centenário da revolução russa e lá propus que o meu contributo poderia consistir em publicar um livro. Eis o livro.

Susana Arins entrevista Teresa Moure (fantasiada de Inessa Armand) durante o Culturgal 2015

Susana Arins entrevista Teresa Moure (fantasiada de Inessa Armand) durante o Culturgal 2015

Quais são os teus próximos projetos?

Tenho um romance guardado na gaveta. Outro coze-se no computador. Acabo de receber uma proposta, bastante surpreendente, do lado da música e outra, provocadora, que tem a ver com as raízes. Estou a ferver. Gosto de ferver. Mas não tanto assim de falar do que se está cozinhando enquanto fervo. Quando estiver pronto, direi: “passem e vejam”.

 

 

Matias Mourinho

Matias Mourinho

Compostela, 1989. Historiador da arte e investigador em Estética na USC, centra o seu trabalho nas tradições pós-estruturalista e socialista e nas relações entre estética e política no discurso artístico contemporâneo. Militante reintegracionista, faz parte da área de Comunicação da AGAL e mais da Através Editora.
Matias Mourinho

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  • abanhos

    O País precisa de Teresa Moure, igual que os seres vivos precisamos de ar para respirar.
    Teresa Moure com o seu trabalho infatigável de aranha paciente, está ajudando a criar um espaço no que tem de ser possível viver, sobreviver e respirar enchendo os pulmões de liberdade e futuro.

    Teresa Moure, cara, multiplica-te por todo lado e em todos e todas, pois isso ha de contribuir um mundo, para a nossa revolução exponencial certinha.

  • jot

    Furacão Teresa! Achei muito oportunas todas as reflexões sobre o reintegracionismo.
    De todos os jeitos a normalidade (ou centralidade) está socialmente sobrevalorada. A peculiaridade do movimento, das ideias, condutas e produtos dessas não elites que integram o reintegracionismo… é-che a óstia.