TEIXEIRA DE PASCOAES, O POETA-FILÓSOFO DE PORTUGAL



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Com motivo do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Lusófonas, comemorado anualmente em 10 de Junho, dediquei o depoimento anterior a Manuel R. Lapa. A minha proposta inicial era dedicar dous depoimentos a esta tão importante comemoração, que tem um profundo significado para a Galiza, por ser evidentemente um território lusófono, por língua e cultura. Por isto, a segunda figura a que dedico um espaço na série dedicada a grandes vultos da humanidade iniciada com Sócrates é o grande escritor e poeta de Amarante Teixeira de Pascoaes (1877-1952). O presente depoimento dedicado a este grande escritor é o número 104 da série de personalidades que devem conhecer todos os escolares dos diferentes níveis do ensino.

VIDA E OBRA DE TEIXEIRA

A portuguesa Maria das Graças Moreira de Sá escreveu no seu momento para o Instituto Camões um lindo depoimento biográfico-literário dedicado a Teixeira, que temos por bem reproduzir.

Uma das figuras mais proeminentes da literatura e da cultura portuguesas do século XX, Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) é estruturalmente um poeta-filósofo, mesmo quando se instaura como mentor do Saudosismo ou resvala da poesia para outros géneros literários, cujo hibridismo (de géneros e de linguagem) tem vindo a ser explorado pela crítica moderna. Nascido a 2 de novembro de 1877, em Amarante (Gatão), cursa Direito em Coimbra (1896-1901) e chega a exercer profissão, durante dez anos, no Porto, entregando-se depois, e até à data da sua morte (1952), à escrita, recolhido no solar cujo nome adotou (Pascoaes), no seio da paisagem da sua intimidade, o Marão e o Tâmega, que eleva, enquanto canto à Terra e à Natureza, em termos míticos e místicos, a uma figura integral do Mundo e do destino humano.

Casa familiar de Teixeira de Pascoaes em Gatão.

Casa familiar de Teixeira de Pascoaes em Gatão.

A sua estreia no parnaso português, numa procura de rumo entre as diversas tendências herdadas da viragem do século, não foi brilhante. Em 1895 publica a primeira obra poética, Embriões, que merece a crítica menos favorável de Guerra Junqueiro. Nas obras que imediatamente se seguem, Belo I (1896) e Belo II (1897) e À Minha Alma (1898), transparece já uma vivência original, que toma o Homem como centro e caminho de uma ascensão espiritual crescente, transformando o material em espiritual, a memória em sonho, o Real em Irreal, a presença corpórea em ausência saudosa. As coordenadas do seu universo imaginário, já imbuído do que mais tarde chamaria Saudade, estavam lançadas. Mas a sua consagração só seria alcançada com Sempre (1898), que simboliza o encontro do poeta consigo mesmo. Nesta obra estão já patentes traços que tornarão a sua poesia inconfundível: a fusão do subjetivo e do objetivo; o sentimento religioso das coisas, esse além que, num mesmo instante, se esconde e se revela nas sombras, nos fantasmas e nos espectros; o fascínio pelo mistério e pela substância enigmática de tudo o que o rodeia; a vocação mística, que tudo transforma.

Depois de Sempre, o seu ímpeto de criação parece imparável: surgem Terra Proibida (1900), À Ventura (1901), Jesus e Pã (1903), Para a Luz (1904), Vida Etérea (1906), As Sombras (1907),Senhora da Noite (1909), Marânus (1911) e Regresso ao Paraíso (1912), ou seja, grandes coletâneas de poesia, cuja redação acompanha a reformulação consecutiva da sua obra, em que refunde, amplia e transfere poemas, o que demonstra, contrariamente à visão tradicional que se possuía do poeta, uma atenção extrema pelo aperfeiçoamento formal da sua escrita. Um breve apontamento a algumas destas composições: Para a Luz, dedicado ao irmão que se suicidou, representa, pelos poemas de intuito realista e social que contém, um certo desvio a uma poesia vocacionada para a transcendência; Vida Etérea é, enquanto hino à harmonia cósmica e à procura ansiosa de Absoluto, considerado um dos melhores livros do poeta; As Sombras têm merecido destaque por mais tipicamente desenharem a atmosfera espiritual pascoaesiana; de Senhora da Noite afirma a crítica ter inspirado os dois “finais” de “Ode de Álvaro de Campos”; finalmente, em Jesus e Pã, destaca-se o pendor filosófico do poema, onde estão já presentes os princípios orientadores do Saudosismo como doutrina de restauração nacional, que consubstanciarão também Marânus e Regresso ao Paraíso. De fôlego e estrutura épica, estas duas obras exaltam a Saudade, embora o cunho nacionalista da primeira (a Saudade como deusa portuguesa da redenção) se veja, na segunda, amplificado a uma dimensão universal (a Saudade como valor humano mais perfeito que reconduzirá o Homem ao Paraíso).

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Serão estes dois vetores da Saudade – o nacional e o universal – que ditarão a cruzada saudosista do poeta nas páginas d’A Águia, de que é o diretor artístico desde que esta revista se torna órgão da “Renascença Portuguesa” em 1912. Vulto maior desta Associação, transforma-se no teorizador, por excelência, da Saudade, nos seus aspetos políticos, filosóficos e estéticos, entendendo esta como sentimento-ideia caracterizador da fisionomia lusitana e motor do ressurgimento nacional, mas também, enquanto ideia, como criadora de tensões dinâmicas (Lembrança/Esperança, Passado/Futuro, Matéria/Espírito, etc.), nunca abandonadas por completo na sua obra posterior. Desta atividade, a que o seu nome ficou sempre ligado e que obscureceu, durante largos anos, a potencialidade estética da sua escrita, incluem-se textos e conferências como O Espírito Lusitano e o Saudosismo (1912), O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa (1913), A Era Lusíada (1914), Arte de Ser Português (1915) e, já afastado da revista onde se mantém até 1917, Os Poetas Lusíadas (1919). Pela força da sua personalidade e pela grandeza da sua obra, reúne à sua volta, apesar da célebre polémica sobre a Saudade que, nas páginas d’A Águia, o opôs a António Sérgio, uma série de poetas de tendências afins, os chamados poetas saudosistas, de que se salientam aqui António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, Afonso Duarte ou Mário Beirão.

Depois de Elegias (1912) e de O Doido e a Morte (1913), onde, com mais intensidade, a conceção filosófica se une ao lirismo emotivo, a edição de Verbo Escuro (1914) inaugura uma nova via de expressão, a da prosa poética. Prosa e verso passam a coexistir na obra do autor. Citem-se, por exemplo, O Bailado (1921) e O Pobre Tolo (1924), onde os aforismos invadem a tónica lírica da escrita, ou os Cantos Indecisos (1921) e os Cânticos (1925), ou, ainda, a versão, em elegia satírica, de O Pobre Tolo (1930). O acento lírico da prosa e o prosaísmo filosófico do verso tornam-se uma constante na obra de Pascoaes. Desta época, e ainda em verso, são o drama D. Carlos (1925), espécie de contrapanfleto da Pátria de Junqueiro – experiência teatral a que se junta a colaboração com Raul Brandão na tragicomédia Jesus Cristo em Lisboa (1924) –, Painel (1935), curiosa panorâmica de Portugal vislumbrada do Marão, Versos Pobres (1949) e Últimos Versos (1953). A Versos Brancos, de que ainda hoje se não conhece a totalidade das composições, referia-se Pascoaes já como “pensamentos metrificados”.

A partir, pois, de 1914, a prosa conquista terreno no panorama literário do autor, com grande variedade de géneros e de interesses, desembocando na redação de grandes biografias que lhe deram renome internacional. A Beira (Num Relâmpago), de 1916, é um livro de viagens que propicia a entrada no mundo imagético do autor – tal como acontece em Duplo Passeio (1942) –, onde cada pormenor avistado, paisagem ou gesta humana, é símbolo de uma realidade transcendente, desveladora do sentido mais íntimo das coisas; O Bailado (1921) constitui-se como, nas palavras de Pascoaes, “uma espécie de romaria”, viagem pelos “outros” na tentativa de construção de um “eu” simultaneamente individual e universal; O Pobre Tolo, de teor autocaricatural, dá conta do drama da existência humana na sua consciência de Ser e de não Ser ao mesmo tempo; o Livro de Memórias (1927), mais do que um documento histórico preciso, é uma anotação autobiográfica que prima pela reelaboração imposta pela memória, tal como acontece em Uma Fábula (o Advogado e o Poeta), de publicação póstuma em 1978.

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Mas é em 1934 que Pascoaes envereda pelas biografias romanceadas que lhe abrem novos caminhos na perscrutação da alma humana. Todos os biografados são figuras relevantes na história espiritual do Homem ou são movidos por sentimentos ou ideias de alcance universal. Irrompem, assim, São Paulo (1934), São Jerónimo (1936), Napoleão (1940), O Penitente: Camilo Castelo Branco (1942) e Santo Agostinho (1945). Porque polémicas (sobretudo a primeira), as biografias contribuíram para chamar, mais uma vez, a atenção do nosso meio cultural para a obra de Pascoaes. Talvez por isso tenha o autor sentido a necessidade de esclarecer quer o seu pensamento poético, o que faz em O Homem Universal (1937), quer o seu conceito religioso, que explicita em A Minha Cartilha, escrita em 1951, mas só editada em 1954.

Duas obras de ficção narrativa marcam ainda a última fase do percurso vivencial do poeta: O Empecido (1950) e Dois Jornalistas (1951), onde, respetivamente, o tema da Saudade e o do Medo são tratados com uma ironia que mais realça o sentido da dúvida que se pretende inculcar como fonte dinamizadora do sentir e do pensar do Homem.

Herdando, pois, o neogarrettismo e o idealismo finissecular, este antipositivista e antinaturalista por definição (com ecos de Antero, Junqueiro, Gomes Leal, António Nobre e da poética simbolista do Vago e do Indefinido), Teixeira de Pascoaes cria algo de novo na literatura portuguesa com o seu universo imaginário virado para o mistério da alma, para a essência das coisas, para o paradoxo da existência em que tudo e o seu contrário se implicam numa amálgama inesperada, feita de antinomias que, conceptualmente, se harmonizam. Desligando-o do Saudosismo de escola, que, descontextualizado, passou a ser lido como sinónimo de nacionalismo reacionário, a crítica dos últimos vinte anos tem vindo a valorizar, no campo literário e no filosófico, inúmeros aspetos da modernidade de Pascoaes, quer pela conceção filosófica do Homem (ser imaginante e imaginário) como substância mesma da Realidade (Eduardo Lourenço), quer pela virtualidade da sua escrita, com aspetos ainda hoje surpreendentes. A publicação, em curso, da imensa obra de Teixeira de Pascoaes pela Assírio & Alvim, depois de ter ficado incompleto o projeto das suas Obras Completas (ed. de Jacinto do Prado Coelho) pela Livraria Bertrand, os numerosos estudos críticos entretanto surgidos e, até, a recente atenção pela sua obra plástica, revelam o interesse renovado na redescoberta de Pascoaes. Teixeira de Pascoaes, que usava como seu pseudónimo literário, pois seu nome completo era Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, faleceu em 14 de dezembro de 1952 na localidade amarantina de Gatão, com 75 anos de idade.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Teixeira de Pascoaes.

     Duração: 43 minutos. Intervém: António Feijó. Ano 2017.

     Realizado com motivo do Congresso internacional comemorativo dos 140 anos do seu nascimento.

     

  1. Vida e obra de Teixeira de Pascoaes. Ler mais, ler melhor.

     Duração: 11 minutos. Ano 2011. Fala: Teresa Sampaio.

     

  1. Teixeira de Pascoaes.

     Duração: 7 minutos. Ano 2018.

     

  1. Era uma vez…Teixeira de Pascoaes.

     Duração: 3 minutos. Ano 2010. Realizam: Lisandro Pereira, João Teixeira e Jorge Martins (9º C) das aulas de Educação Visual das Escolas de Amarante.

     

  1. Teixeira de Pascoaes: Elegia do amor.

     Duração: 6 minutos. Realiza: Amarante TV. Ano 2010.

     

  1. Desenhos de Teixeira de Pascoaes.

     Duração: 4 minutos. Ano 2009.

     

  1. Casa/Quinta Teixeira de Pascoaes. Amarante.

     Duração: 2 minutos. Ano 2015.

     

POEMA DE TEIXEIRA PARA OS JOVENS POETAS GALEGOS

O primeiro número da revista Nós, publicado em Ourense em 30 de outubro de 1920, na sua página 3, inicia-se com um poema de Teixeira de Pascoaes, intitulado “Fala do Sol”, dedicado aos jovens poetas galegos, que a seguir reproduzimos:

Fala do Sol

Num lar azul sem fim

sou velho tronco a arder.

Há florestas de mãos voltadas para mim,

velhinhas, a tremer…

Os cegos andrajosos

gritam por mim nas trevas. Querem luz!

Gritam por mim as árvores desfolhadas,

os roxos corpos nus,

as fontes congeladas

e os ventos invernosos…

Gritam por mim, à noite, a voz dos mundos

e os poetas moribundos…

 

As lágrimas da chuva,

as lágrimas do órfão e da viúva,

as lágrimas dos trágicos vencidos,

as lágrimas dos mortos esquecidos,

pelas noites de outono, errando ao luar,

vendo-me, em alvas nuvens se evaporam;

Nuvens que eu bebo, a rir, pelos que choram,

erguendo a Deus meu cálix de amargura,

meu cálix de oiro aceso, a trasbordar,

cheio de toda a humana desventura…

DEDICATÓRIA À GALIZA

por Teixeira de Pascoaes (*)

 

Galiza, terra irmá de Portugal

que o mesmo Oceano abraça longamente;

berço de brancas nevoas refulgindo

o espírito do sol amanhecente;

altar de Rosália e de Pondal

iluminado a lágrimas acêzas,

entre pinhaes, aos zéfiros, carpindo

maguas da terra e místicas tristezas;

a ti dedico o livro que uma vez,

embriagado de sombra e solidão,

compuz sobre os fraguedos do Marão:

este livro de saudoso e montanhez.

(*) Este poema dedicado por Teixeira à Nossa Terra aparece na 2ª edição da sua obra Marános, publicada no Porto em 1920, e na 3ª edição do ano 1930, em Lisboa. Com ele abre o seu livro. Em julho de 1923 publica-o com pequenas variantes na revista Nós.

 

A ELEGIA DO AMOR, POEMA DE TEIXEIRA

    Lembras-te, meu amor, / das tardes outonais, / em que íamos os dois, / sozinhos, passear, / para fora do povo /  alegre e dos casais, / onde só Deus pudesse / ouvir-nos conversar? / Tu levavas, na mão, / um lírio enamorado, / e davas-me o teu braço; / e eu, triste, meditava / na vida, em Deus, em ti… / E, além, o sol doirado / morria, conhecendo / a noite que deixava. / Harmonias astrais / beijavam teus ouvidos; / um crepúsculo terno / e doce diluía, / na sombra, o teu perfil / e os montes doloridos… / Erravam, pelo Azul, / canções do fim do dia. / Canções que, de tão longe, / o vento vagabundo / trazia, na memória… / Assim o que partiu / em frágil caravela, / e andou por todo o mundo, / traz, no seu coração, / a imagem do que viu.

    Olhavas para mim, / às vezes, distraída, / como quem olha o mar, / à tarde, dos rochedos… / E eu ficava a sonhar, / qual névoa adormecida, / quando o vento também / dorme nos arvoredos. / Olhavas para mim… / Meu corpo rude e bruto / vibrava, como a onda / a alar-se em nevoeiro. / Olhavas, descuidada / e triste… / ainda hoje escuto / a música ideal / do teu olhar primeiro! / Ouço bem tua voz, / vejo melhor teu rosto / no silêncio sem fim, / na escuridão completa! / Ouço-te em minha dor. / Ouço-te em meu desgosto / e na minha esperança / eterna de poeta! / O sol morria, ao longe; / e a sombra da tristeza / velava, com amor, / nossas doridas frontes. / Hora em que a flor medita / e a pedra chora e reza, / e desmaiam de mágoa / as cristalinas fontes. / Hora santa e perfeita, / em que íamos, sozinhos, / felizes, através / da aldeia muda e calma, / mãos dadas, a sonhar, / ao longo dos caminhos… / Tudo, em volta de nós, / tinha um aspecto de alma. / Tudo era sentimento, / amor e piedade. / A folha que tombava / era alma que subia…/  E, sob os nossos pés, / a terra era saudade, / a pedra comoção / e o pó melancolia. / Falavas duma estrela / e deste bosque em flor; / dos ceguinhos sem pão, / dos pobres sem um manto. / Em cada tua palavra, /  havia etérea dor; / por isso, a tua voz / me impressionava tanto! / E punha-me a cismar / que eras tão boa e pura, / que, muito em breve — sim! / Te chamaria o céu! / E soluçava, ao ver-te / alguma sombra escura, / na fronte, que o luar / cobria, como um véu. / A tua palidez / que medo me causava! / Teu corpo era tão fino / e leve (oh meu desgosto!) / Que eu tremia, ao sentir / o vento que passava! / Caía-me, na alma, /  a neve do teu rosto.

    Como eu ficava mudo / e triste, sobre a terra! / E uma vez, quando a noite / amortalhava a aldeia, / tu gritaste, de susto, / olhando para a serra: / Que incêndio! — E eu, a rir, / disse-te — É a lua cheia!… / E sorriste também / do teu engano. A lua / ergueu a branca fronte, / acima dos pinhais, / tão ébria de esplendor, / tão casta e irmã da tua, / que eu beijei sem querer, / seus raios virginais. / E a lua, para nós, / os braços estendeu. / Uniu-nos num abraço, / espiritual, profundo, / e levou-nos assim, / com ela, até ao céu / mas, ai, tu não voltaste / e eu regressei ao mundo.

O SAUDOSISMO DE TEIXEIRA

A portuguesa Ana Paula de Araújo é a autora do seguinte depoimento:

Nos dicionários, Saudosismo significa “saudade do passado, nostalgia, afeto ao passado”. Foi uma corrente estética ocorrida em Portugal, no século XX, segundo a qual o ser humano viveria sua vida com base na saudade do passado, e este sentimento seria capaz de mudar a atitude de vida das pessoas de modo a realizar a regeneração do país. O mentor deste movimento foi Teixeira de Pascoaes, que era ligado à revista A Águia, órgão da Renascença Portuguesa. Para tanto, ele juntou intelectuais como Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio e Fernando Pessoa.

O saudosismo tem como base a saudade, que Pascoaes considera o traço espiritual que define a alma humana (portuguesa, em especial). Segundo o poeta, este sentimento é descrito pela Literatura Portuguesa ao longo do tempo. Por ele, a saudade é elevada de um simples sentimento humano, individual, a um plano místico, que determina a relação do Homem com Deus e com o mundo. O Saudosismo, portanto, corresponde a uma doutrina política e social.

Saudosismo tinha como pretensão a regeneração do país, pois surgia em meio a uma mentalidade nacionalista, tradicionalista e neorromântica. Faria isso, portanto, utilizando a saudade como princípio renovador que agiria através da ação cultural (literatura e demais artes em que o saudosismo se manifestou).

Quanto à linguagem utilizada, os Saudosistas davam preferência a uma expressividade mais tradicional, clássica, através do “verso escultural” de Pascoaes, e não se preocupavam muito em analisar o subconsciente. Davam, antes, preferência ao pensamento intuitivo e à criação de mitos.

Ao longo do tempo, alguns adeptos foram se afastando do Saudosismo por não concordar com algumas de suas características. A nova tendência, como doutrina político-social, não satisfazia os espíritos positivistas, o que faz com que António Sérgio e Raul Proença (os dois sócios da “Renascença Portuguesa”) manifestem seu desagrado na revista, acusando Pascoaes de ser “utópico e passadista, fechado num lusitanismo xenófobo, provinciano, incompatível com o moderno espírito europeu”, atitude que gerou grande polêmica no grupo. Assim, outros membros foram se afastando, como Fernando Pessoa, que preferiu aderir a um projeto cosmopolita e revolucionário, através da Revista Orpheu, acabando por criar o movimento modernista português e por causa dele ser alvo de escândalos e controvérsias no meio artístico e social português.

Essa dissidência fez com que o movimento desaparecesse enquanto corrente literária, porém nota-se que ainda há vestígios seus presentes nas obras de alguns autores da atualidade”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Teixeira de Pascoaes, a sua obra literária, as suas ideias e também o apreço que sempre teve pela nossa Galiza, abrindo, por exemplo, com um poema seu dedicado aos escritores galegos o primeiro número da revista Nós, fundada em Ourense por Risco, Cuevilhas, Noguerol e Otero. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-Fórum, em que participem estudantes e professores. O livro de Teixeira Arte de ser português, escrito em 1915, e publicado pela Assírio & Alvim de Lisboa em 1993, pode servir perfeitamente. Também o Livro de Memórias, escrito em 1927 e publicado em 2001 pela mesma editora lisboeta, assim como O Homem Universal e outros escritos, do ano 1937, editado também em 1993 por esta editora. Ademais podia interessar a leitura de alguma monografia sobre a vida e obra de Teixeira, como as de Guido Battelli, José Carlos Casulo ou Jorge Coutinho, editadas em Portugal.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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