CARTAS MEXICAS

Sobre O Verdadeiro Comunismo (III)



“A semente oculta no interior da terra,

desenvolve-se igualmente,

a pesar, do mau tempo e das tempestades”

(Jacob Böehme, referindo-se a os anos, em que fora perseguido por herético)

 

A Utopia toma forma

No ano 1516, Thomas Moro, chanceler de Henrique VIII, publica Utopia tentando desenhar os alicerces duma sociedade ideal, que de novo de alguma forma, nos volta aproximar daquele comunismo primitivo dos gnósticos, essênios, talvez muito anterior… Mas essa lembrança ecoa, outra vez como uma voz na distância. Uma voz que perdeu e anela a conexão com sua primordial fonte; no entanto brote fresca,  cheia de vida para o valor da sua época. “Utopia” ainda não chega reconhecer plenamente essa comunidade elevada, de consciência espiritual, mas caminha para a mesma.

Marx, também mergulhará profundamente nas augas puras deste livro, para depois modelar seu Manifesto Comunista (publicado pela primeira vez em 1848). Mas, a pesar da ilusões óticas de Utopia esta visão, será profundamente aproveitada pelos mercadores londrinos, que se vem muito refletidos na obra, na ideia de o poder absoluto do monarca serem muito prejudicial e da necessidade de diminuir o mesmo. A Ética de Utopia numa sociedade onde dinheiro e riquezas não tem valor, não pode ser posta em prática a nível global, sem que o ciclo do poder senhorial real, deixe passo ao ciclo mercantil e, este, a sua vez, ao novo ciclo dos cidadãos, ainda por vir… Daí, o poder mercantil, não ver com maus olhos à obra, a pesar, de com o passar do tempo, uma vez obtido o poder da governança global decida apagar os valores do texto. Apagado necessário, pois para uma sociedade mercantil como a atual, o grande valor acrescentando tem a ver com o dinheiro e a riqueza, que proporciona o controlo do mercado: onde a aparência prima por cima do ser e, utiliza em seu beneficio à ciência.

A filosofia, e sua raiz

Se estivermos atentos poderemos observar, que a equação filosófica Kantiana de Tese – Antítese – Síntese (e a polaridade e solução da mesma polaridade, pela analogia da neutralidade – que isso implica)… Tinha já seu referente místico espiritual nos escritos de Jacob Böehme (do século XVII), interpretados pelo reverendo  William Law  (a inícios do século XVIII), que chegariam finalmente a influenciar (a finais deste mesmo século XVIII), a escritores como Willian Blacke.

Böehme, mantinha aquela velha linha de conexão espiritual direta, que remontava e entroncava, outra vez, com essênios e nazaritas (aquela prática direta de conexão com o mundo sublime, elevado). Böehme, também tinha estudado os escritos de Paracelso. A edição The Works of Jacob Böehme, The Teutonic Teosopher publicada em 1764, chegaria influenciar mesmo a Helena Petrovna Blavatsky, já a finais do século XIX; permitindo que esse corpo espiritual-filosófico com raízes no pensamento de Paracelso, penetrará toda aquela renovação cultural que chegaria ate o século XXI na forma do pensamento da Nova Era…

“Eu vi o Ser de todos os Seres, a Superfície e o Abismo; vi também o nascimento da Santa Trindade; a origem e o primeiro estado do mundo e de todas as criaturas. Vi em mim mesmo os três mundos – o mundo angélico ou Divino; o mundo das trevas, a origem da Natureza; e o mundo externo, como uma substância manifestada dos dois mundos espirituais… No meu interior vi isto muito bem, como em uma grande profundidade; pois vi diretamente no caos onde tudo permanece envolto, mas não pude fazer revelação alguma. De tempo em tempo tudo isto floresce em mim como o crescer de uma planta. Por doze anos guardei tudo comigo, antes do poder manifestar de alguma forma ao exterior. Até então isto abateu-se sobre mim, como uma carga que mata o que atinge. Escrevi tudo o que pude exteriorizar. A obra não é minha. Não sou mais do que um instrumento do

Senhor, com o qual Ele faz o que deseja”.

(Experiência mística de Jacob Böehme, em 1610)

De novo O Trisquel de todas as cosmogonias, presente na conexão de Böehme: Ossiris- Issis- Horus; Pai- Mae -Filho, Brahma – Shiva – Vishnu, Larouco-Anu-Briga… Início do início, que toma forma nesta revelação, também como principio criativo, visto por Jacob dentro dele mesmo… Trisquel, Tríade, presente em tantas e tantas formas arquitetónicas no mundo: como nas três portas das catedrais góticas da França (com suas duas janelas acima, das trípticas portas. Uma a cada lado, no meio dum grande círculo ou roseta – para somar de novo três. Três, arriba e abaixo: tríade superior e inferior); ou nas portas base das pirâmides mayas no México. Um padrão que se repete, também no extremo oriente e a Oceânia… Nos amostra, que certos conhecimentos ainda que ocultos, sempre estiveram presentes em todas as épocas, de todas as eras… E, voltam a luz, como no caso de Böehme, quando alma aparece fazendo de ponte entre o mundo material e o mundo mais sublime…

Alemanha como centro

Deve-se reconhecer que a partires do século XVII, o mundo começa a ferver numa fogueira de ideias renovadoras, com raiz firme na pesquisa espiritual e na cientifico material… Fogueira que ira crescendo, século a século, até rematar no século XIX com as revoltas de 1848 – Mas as dores deste parto, já tinham começado muito antes… Grandiosos e virtuosos pensadores, sonhadores e canalizadores do eterno libertador conhecimento, junto a científicos destacados (na procura da verdade em aras da renovação continua)  tinham ativado aquelas labaredas, que iam quebrar séculos de domínio escuro, para ir encaminhando à humanidade em favor da fraternidade precisa…

Alemanha foi especialmente ativada, desde que a misteriosa personagem de Christian Rosenkruz, chegou do Oriente – Arábia, Egito e Fez (Marrocos) com o velho conhecimento oculto – que o mundo árabe – tinha acumulado com Centro Geográfico Mundial, desde os séculos IX ao XV. O Centro Geográfico Islâmico, destes séculos, serviu também de ponte evolucional entre o Oriente, já em decadência e o Ocidente, quebrado trás a queda do Império Romano, e – foi guardião, a vez, do conhecimento grego – romano e mediterrânico, que sem o empenho intelectual dos sábios muçulmanos, sem remissão se houvera definitivamente  perdido…

Foi este conhecimento que Rosenkruz, entre outros ilustres viajantes, aporta de novo a Europa…

Século a século, e graças a construção dum incipiente poder mercantil, com a ajuda monetária da Liga de Hansa, os territórios da Alemanha vigoram em este ciclo, e transformar-se-iam na sede dum grande capital humano, que manteve sua primazia ate inícios da II Guerra Mundial… Depois este poder cientifico – tecnológico, foi transferido para os EEUU. Como amostra desta afirmação, baste confirmar, que antes da destruição da II Guerra Mundial, Alemanha erguia-se como o grande centro das patentes mundiais, a pesar da derrota e ruína económica da Iª Grande Guerra… Em esse centro de intercâmbios intelectuais, políticos, científicos, nasce a 5 de maio de 1818, na famosa localidade de Tréveris, o pequeno Karl Marx…

Não podemos esquecer em toda esta achega, o papel central da Península Celto-Ibérica, que durante a época do Al-Andalus, conviveu e transferiu este saber (recolhido pelo Islão) misturando-o com o saber gnóstico que fez raiz na França, após a fugida dos seguidores do Cristo da Palestina… Lembramos a Afonso X, o sábio, como grande estudioso da Cabala (com sua corte rodeada de judeus, pesquisadores venturosos), ou ao rei português D. Dinis (celebrando a vinda do Espírito Santo) como exemplo de outras muitas cortes, antes de finalmente trunfar o espírito escuro dos perseguidores da boa lei, que remataria na Península, com os anos de esplendor – dando passo a um instinto guerreiro de conquista, falto de um coração luminoso – no reino de Castela, que fazer-se-ia com a centralidade geográfica. O trunfo da Inquisição, em 1478, é um fato desta triste historia.

Antecedentes

Podemos dizer também que Utopia de Thomas Moro (que marca os séculos por vir na Era Moderna), bebe das fontes de ilustres homens como Nicolau de Cusa (1401-1464).

Cusa já tinha voltado de algum modo a ideia do infinito Ser Universal, de onde todo promana, quando comparava, geometricamente, esse infinito com o circulo perfeito – enquanto a mente finita, que não podia atingir aquela imensidade, ainda ansiando conhece-lo, era uma parte diminuta daquele todo cósmico (faisca daquele fogo?).

Ao tempo que fazia bom o principio hermético da simetria (“acima igual que abaixo”) ao reconhecer que a mente humana era semelhante a mente divina; a qual podemos conectar-nos ao olhar Deus com amor…. Voltando à conexão com o neoplatonismo cristão, e com autores medievais heréticos como Guilherme Ockham, Mestre Eckhart (muito vinculado a visão gnóstica dos “Irmãos do Livre Espírito”) ou seu mestre Alberto Magno, teólogo aristotélico.

Cusa, precisamente fará de ponte entre este pensamento neoplatónico medieval e a chegada do novo pensamento renascentista. Pensamento cristão, que clamava, por uma sociedade de “grande irmandade entre os filhos de Deus, nós, os seres humanos” – unicamente realizável pela elevação da consciência humana, dentro duma comunidade igualitária…

Todo este pensamento era grande devedor, a sua vez, da obra de Joaquim de Fiore, e sua visão messiânica da Era do Espírito Santo, que tanto inspirou aos primeiros franciscanos, e se prolongou, na heresia dos  “Dolcinianos” (originaria dos “Irmãos Apostólicos”), seguidores do Frade Dolcino de Novara e de Segarelli, que pregavam o comunismo livre de apego à materialidade, o amor liberto de ataduras e o Reino daquele Espírito Divino, promulgado por Fiore e celebrado por D. Dinis e a rainha Santa Isabel, nas festas do Espírito Santo…

Movimento, que dalgum modo também inspirou o caminho dos Cátaros… Este pouso cristão comunista, ia penetrar na Rússia, por meio de diversas seitas, e foi ele o que preparou o caldo de cultivo da revolução de outubro de 1917 (deturpada pelo poder bancário global) – Revolta da qual falaremos na IV entrega. Esse comunismo cristão (que aportou a Rússia), vinha assente em profundas raízes das ordens mendicantes medievais, que foram proibidas pelo II Concilio de Lyon, em 1274. Ordens herdeiras da Nova Era Fraterna “joaquinista” e do neoplatonismo dos gnósticos, que de novo enlaça com Essênios e Nazaritas e, irremediavelmente faz ligadura com a figura do Cristo, redentor do mundo. Foi essa procura desse Cristo interno – redentor – essência viva divina (que todo ser humano porta no seu interior) e, seria aquela centelha pura (do fogo primordial referida em todas as tradições orientais), que conecta nosso ser natural com aquele infinito Ser Universal de Cusa; aquela que abriria, a mente do ocidente, àquela simetria da igualdade fraterna.

E esse duplo caminho, de ativação do Cristo interno e, ativação da sociedade fraterna – comunista, no exterior, foi a formula global, pela que humanidade, quis fazer (naquela altura) o caminho coletivo de volta à fonte original. Caminho que percorre (no nível individual) todo filho pródigo, espalhado pela Terra, carregando com sua cruz, tentanto limpar sua alma dos impulsos animalescos… Caminho que no social, colectivo, abraça aos irmãos que andam pela mesma senda: unindo-os através da comunhão fraterna (comunismo ou comunidade dos espíritos já libertos)… Dai ser indissociável um trabalho espiritual interior, dum trabalho material, externo. Eis, a verdadeira essência do verdadeiro ser comunitário, que ainda não foi posto em cena: o comunismo espiritual. Sendo somente possível esta conquista, com um elevado grau de consciência coletivo (como já observamos na anterior entrega – deste mesmo artigo).

Todas estas experiências, impossíveis de realizar a grande escala na sua época, formaram, no entanto, pequenas sementes de valor incalculável que abrolhar-hão no momento oportuno, quando a humanidade atingir essa frequência evolucional adequada. Conquistada na luta interna e externa, pela força da coragem, e o combate contra o medo.

Assim foi como todo este corpus oculto, a sua vez, foi penetrando o pensamento mais atual, como o de Hegel, na sua Fenomenologia do Espírito. A influencia de Hegel sobre Marx, será agora, aqui, exposta…

Hegel e Marx, conflito na unidade

A pesar da aparente contradição, entre o idealismo de Hegel e o materialismo de Marx, a estrutura filosófica sobre a qual o marxismo foi construído deve muito a como o grande filosofo alemão, que  desenvolveu com habilidade intelectual os princípios anteriores de Kant, já algo gastos pelo tempo. Porém, a divisão de interpretação entre os hegelianos de direita – associando Hegel ao cristianismo; e os hegelianos de esquerda, ateístas, tem de algum modo distorcido a  unidade da ligação que a visão de Marx herda do magnifico filosofo.

O materialismo dialético de Marx, não deixa de ser influenciado pela visão quase holística de Hegel, onde a realidade histórica entra dentro do movimento fragmentário que caminha para o mais completo e real (a sua vez que influência este, e se vê influenciada por este).

Sendo aquela realidade completa um movimento, a sua vez, que procura atingir uma maior racionalidade…

Hegel volta a situar o Absoluto, no centro, de onde tudo promana. Assim aquele pensamento, do desdobramento progressivo do absoluto, em ocasiões pode surgir de modo gradual (o caminho gradual, do Lamrim budista, de Atisha) ou bem, de modo abrupto, revolucionário (o caminho instintivo da eclosão por pressão, impulsiva). Obtendo aquele dualismo do “Construens e Destruens”; que influenciaria os revolucionários, ainda que na errada guerreira matriz, da ideia de ser impossível criar o novo sem demolir anteriormente o velho… Continuidade histórica na mudança gradual, descontinuidade histórica na ação, por pressão, revolucionária política. Aceitando a dialética histórica de Hegel, Marx evoluiu pelo caminho materialista, enfrentando assim de algum modo o idealismo hegeliano, ao tempo que entroncando com o mesmo na metodologia.

Marx o materialista?

Eis um tema algo confuso, a ideia de ver num pensamento tão  profundo como Marx, uma simples proposta materialista, sem uma raiz idealista profunda – sem aspiração espiritual na essência. Pois o mesmo processo de criar obedece a tripla função: ideia – planificação – realização; da qual somente a última é puramente material. Pois a chegada de ideia, surge bem por associação, bem por inspiração, intuição…  Sendo, o segundo aspeto da planificação mais lógico – racional. Planificação por associação racional pura. Ideia por inspiração – intuitiva, por revelação – transcendente ou por associação de ideias, previamente conhecidas… O elo entre os três conceitos, desta tríade criativa, também é muito fino… Materialização puramente física, mas como evolução necessária dos anteriores conceitos, mais etéricos, mais sublimes…

Alguns autores da direita cristã  europeia associam Marx aos “frankistas”, cabalistas sabatianos, com arreigada linhagem na Alemanha. Segundo esta versão, o pai de Marx teria sido  um adepto da seita, tendo introduzido os filhos nos estudos da mesma. Mas mesmo essa afirmação bem pudera ser difamação, com interesses de tipo ideológico – partidário. Nada se tem comprovado, com firmeza, a este respeito e muito se tem especulado. A pesar de que pela trajetória de amizades, academicamente bem formadas, dentro do entorno judaico alemão e europeu; não seria de estranhar que direta ou indiretamente Marx tivera contanto com o saber cabalístico (ao menos faz-se impossível não ter sabido da sua existência)… Mas isso não significa militar uma seita sabatiana.

Em entrevista feita pelo diretor de  “L´Internationale” R. Landor, a 18 Julho 1871, Karl Marx teria insinuado que alguns irmãos maçons teriam intervindo na Revolta da Comuna de Paris.

O jovem Karl Marx, estudou numa escola jesuíta, e como bom judeu, foi formado também numa escola talmúdica. Nos seus trabalhos deste período deixa entrever o sacrifício pela humanidade, como uma das mais nobres máximas cristãs, a que ele aspira chegar, à semelhança do exemplo do Cristo. Posteriormente, na sua mocidade existe uma rebelião transcendental contra Deus, que ganha força nos seus primeiros poemas. A ideia de queimar o velho para surgir o novo, faz força igualmente em esta idade. Incluindo a velha ideia dum Deus associado já ao poder terreno, corrompido pelo mesmo… da aços a insurreição contra esta figura associada ao paterno.

Aos 23 anos, Marx, conhece ao também judeu Moritz Mosses Hess, que um principio manteve com ele fortes laços de amizade e camaradagem. Hess tinha, naquela altura, a convicção do povo judeu ter de mudar para um ideal comunista, mas finalmente diferenciou seus caminhos de Marx e Engels, distorcendo seu comunismo – com um empenho supremacista. Na sua Historia Sagrada da Humanidade por um discípulo de Espinoza, Mosses Hess, afirmou que a historia da humanidade, marcha conduzida pelo Espírito Divino, para um Novo Éden – Nova Era?

No seu texto Roma e Jerusalém, Mosses desenvolve a teoria sionista clássica, antes mesmo de Helz ter publicado seus trabalhos.

Naquela altura a separação do ideal socialista, tal como concebido por Marx e Engels, já era um fato. Hess seguiu sendo comunista e sonhava com um estado judeu, com forte carácter nacional, dirigido por um Sinédrio, eleito pelo povo judeu – associado a sua vez em comunidades judaicas para agricultura, industria e comercio. Um modelo que tem similitude com a Sinarquia, embora reservado somente para o povo eleito de Israel. Sem embargo esta nova visão, por muito contraditória que possa parecer, tinha, em outros aspetos muito a ver também, com o nacional socialismo. Era um modelo bem virado ao tradicionalismo nacional, que entrava em contradição direta com aquele comunismo internacionalista e progressista, apregoado por Engels ou Marx.

Ideário de Mosses Hess, que paradoxos da vida, estava bem mais perto do fascismo mussoliniano ou o nazismo alemão (criador da ideia, de eliminação do povo judeu, com o argumento, de ser este povo um instrumento para controlo e submetimento da ária raça, segundo consta no Mein Kampf) que daquele comunismo dos começos, do mesmo Mosses…

Até o de agora toda a história se tem baseado na luta de raças e na luta de classes. A luta de raças é primaria, a luta de classes secundária”

(afirmaria finalmente Mosses Hess, no livro “Roma e Jerusalém” fazendo fé firme de seu novo ideário).

Ainda assim, Hess teve grande influencia no movimento marxista, pois suas achegas foram fundamentais para transformar a dialética idealista da historia de Hegel, no materialismo dialético do movimento marxista mundial. Situando ao ser humano como motor da historia e não como mero observador. Ser humano, ao serviço daquele Espírito Divino, que ia trazer à terra o Novo Éden Perdido – e tal vez, de algum modo a redenção dos justos – cristianismo e judaísmo messiânico rumando juntos (pode ser, este pensamento, projeção da aliança entre Cronwell e o cabalista Manoel Soeiro?).

Finalmente Hess, parecia jogar com certo engano, pois enquanto animava ao proletariado mundial não reconhecer nenhuma pátria, afirmava que os Judeus deveriam ser os únicos a reivindicar a sua, e, que de algum modo o internacionalismo deveria servir aos interesses do judaísmo. Situando de novo ao povo de Israel como centro e motor da historia. Influência bíblica e messiânica. Entrelaçando-se assim com o velho messianismo judaico, que já combatia contra Roma, por manter Jerusalem como centro espiritual e material do mundo – ate, que Flavio Josefo, desde as muralhas do mesmo Jerusalém sitiado, no ano 70 d.c (por ordem do Imperador Tito), gritava a viva voz: que Deus abandonara Jerusalém, e rumara para Roma.

Levi Baruch, rabino judeu e também amigo de Marx, explicou numa carta a este último, que os judeus deveriam aproveitar-se da revolução internacional, para chegar ao poder mundial, com ajuda do proletariado. Situando de novo àqueles considerados filhos de Israel, como povo eleito de Deus. Estes pontos de vista afastaram seus amigos de Marx, que no ensaio “Sobre a questão judaica”define aos banqueiro judeus, como os controladores da Europa, a serviço do Deus dinheiro.

Conexão Maçónica 

Em 5 julho de 1843, na pousada Le Socialiste, em Bruxelas, o mação Rangon apresenta um plano revolucionário, muitas de cujas propostas vão ter forma, mais tarde no Manifesto Comunista.

A 17 de novembro 1845 Marx associa-se a pousada Le Socialiste…

Segundo Vladimir Istarkhov – Marx e Engels, seriam maçons do elevado grau 31. Algo, que de confirmar-se, anularia a visão materialista do pai do atual comunismo racionalista, e seu suposto anti espiritualismo; sabido como é dos elevados conhecimentos maçons sobre ciências ocultas e espiritualidade.

Mosses Hess, Wilheim Weitling, Kriege, Marx, Engels, entre outros são associados também a fraternidade Liga dos Justos, com elevado conhecimento esotérico – e, para muitos analistas rama inferior da grande organização maçónica europeia.

No ano 1847, organiza-se uma Conferência Maçónica, em Estrasburgo, muitos dos seus delegados, vão  participar intelectual ou ativamente, nas Revoluções de 1848 contra os regímenes aristocráticos da Europa Central e Oriental. Rebelião que seria o prelúdio da Comuna de Paris, de 1871.

Alguns autores como Gary Allen, também associam o Manifesto Comunista, as ideias de Adam Weishaupt, o fundador dos Iluminados de Baviera.

Seja como for, na verdade o materialismo dialético de Marx, e sobre todo o Manifesto Comunista, enraíza perfeitamente no pensamento gnóstico cristão, no pensamento pitagórico, platónico ou das doutrinas orientais, enquanto a ideia duma nova sociedade nascida da irmandade humana. Pensamento mediterrânico, que junto a outras achegas do Oriente e Egito, formaram o corpus principal do pensamento mação. Apesar de em Marx, o espiritual, tenha sido deixado de lado, pelo pragmatismo.

Ninguém dúvida das maçonarias, como motor, da queda do velho regime – senhorial monárquico (já decadente), e impulsionaras do novo ciclo mercantil (ascendente). Talvez na tentativa de melhorar a evolução humana, os irmãos maçons, tenham impulsado também uma ética – que o mercantilismo excessivo virado no mercado (agora já em decadência), não permitiu alcançar…

Esse movimento, em favor da mudança senhorial à era mercantil, teve seu início já com, a semente, dos Cavaleiros da Ordem do Templo, entre outras ordens, possuidores de grandes conhecimentos espirituais. Sento este poder templário a vez, os primeiros banqueiros globais da Europa, com um sistema de banco central, baseado no juro encoberto de doação… Desse sistema é fácil observar certa similitude com o atual sistema de controlo mercantil mundial, baseado na dívida permanente e na modulação do juro…

 

Materializando a Ideia

Mas de novo esta onda de tentativas de levar a frente uma nova sociedade comunista, inspirada na velha fraternidade espiritual, mais muito deturpado da sua fonte original, e virada somente na consumação do projeto material, não teria ainda sucesso… Teve de aguardar ate chegar aos inícios do século XX, onde finalmente a revolução trunfa na Rússia. Finalmente também os horrores, que em nome dessa igualdade, o falso comunismo deturpado de sua raiz, cometeu, chegariam a manifestar-se de forma descontinua, desafortunadamente, ao longo de todo este século…

Sirvam estes ensinamentos para entender, que não pode ser atingida essa sociedade da liberdade, sem antes, uma profunda limpeza da psique individual e coletiva virada na guerra – depredação – imposição… Sirvam, do mesmo jeito, as advertências do grande Leão Tolstoi, aos revolucionários da sua época, no sentido de que se obtinham a mudança de regime pela força das armas, aferrar-se iam a impor seu programa pelas armas, e chegariam a ser mesmo piores àquele poder opressor, que estavam tentando rebocar pela força do fogo e não dos argumentos… Não esquecer então aquela proposta de verdadeiro comunismo libertário cristão, do mesmo Tolstoi, desenhado no seu magnifico livro “O Reino de Deus está dentro de vós“, que foi estudado por Gandhi, e conseguiu mudar o pensamento inicial belicista deste (Gandhi), para conventer-lo no grande pacifista – Pai da não violência. Para Gandhi está leitura teve a força duma revelação, pois entre suas linhas, ainda que também já algo afastada da fonte, a revelação estava assente…

Assim, holistamente de novo o grande carvalho da sabedoria, estende seus ramos: a semente plantada na Rússia, por Tolstoi, ia contra todo pronóstico frutificar na Índia, dos vedas, com Gandhi…

Desse novo movimento da paz, na procura do amor, foi possível fazer trunfar através duma desobediência pacifica um projeto comunitário, que de Gandhi não ter sido assassinado iria dar – num novo modelo, a caminho daquele comunismo espiritual?

Tal vez algum dia o brilho da luz chegar, permitindo os ciclos necessários de adequação global, através do Estado Bem Estar Ecológico; a Sinarquia ou Ordem Natural não anárquico; para depois finalmente atingir a consciência global necessária, que nos encaminhe gradualmente a sonhada sociedade sem servos, senhores, nem amos.

Sem enganos, nem armadilhas, sem poderes por cima, sejam estes poderes a sombra ou estados e organizações que se aproveitam da ausência voluntária ou forçada da propriedade privada, para criar um falso comunismo, onde toda a riqueza e poder sejam centralizados no Topo da Pirâmide.

Que o amor sabedoria, guie nossa formação continua – através da profunda pacificação tripla, do ser humano – planeta e povos…

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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