UM PAÍS TROPICAL

Sem perder o Norte: De mapas e toalhas



Em geral, a Galiza é a região espanhola que melhor conhecem as pessoas do Norte do Portugal e, frequentemente, a única. O primeiro que admira ao visitante português noviço é os sinais de tráfico estarem escritos num espanhol esquisito e surpreendentemente parecido com o português, quando menos, mais do que eles teriam pensado. Por sua vez, as ruas do Porto estão inçadas de turistas que falam castelhano com sotaque agalegado. Dizer-se-ia que o conhecimento mútuo está a aumentar. Já no turismo comercial percebe-se uma certa assimetria, o português vai à Espanha atraído pelo o exclusivo, enquanto o galego em Portugal procura o barato. Se calhar é esta assimetria a que faz com que exista essa perceção tão estendida entre os portugueses do Norte segundo a qual a Espanha seria um país mais avançado e com uma economia mais potente, no entanto, os galegos a miúdo afirmam que o Norte de Portugal se parece com a Galiza de há vinte anos. Mas, o que haveria de certo nessas apreciações populares?

Segundo o Regional Innovation Scoreboard de 2019, nada nadinha. O Regional Innovation Scoreboard (RIS) vem sendo um relatório anual da União Europeia (UE) que avalia a capacidade de inovação das regiões europeias em base a uma série de parâmetros (Figura 1).

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Figura 1. Parâmetros empregados pelo RIS2019 para a avaliação da capacidade inovadora das regiões europeias.

 

O RIS agrupa as regiões em função da sua pontuação global e fornece mapas e gráficas que permitem uma mais intuitiva visualização dos dados. A Figura 2 monstra as regiões coloreadas em base à sua pontuação geral. Os tons azulados indicariam os líderes da inovação na Europa, os verdes os inovadores fortes, os amarelos os inovadores moderados e, finalmente, os avermelhados as regiões com uma capacidade de inovação mais modesta.

Figura 2. Regiões europeias coloreadas em função da sua capacidade de inovação geral no RIS2019.

Figura 2. Regiões europeias coloreadas em função da sua capacidade de inovação geral no RIS2019.

Constatamos que as únicas regiões da Península Ibéria com uma capacidade de inovação forte, por cima da meia europeia, são todas portuguesas: o Norte, o Centro e Lisboa. Já a Galiza mostraria uns índices de inovação moderados-baixos, por baixo das meias europeia e espanhola. As melhores regiões da Espanha no referente à inovação seriam o País Basco e a Catalunha, que estariam na categoria de inovação moderada-alta. Para termos uma comparativa quantitativa, a Galiza fica no posto 190 das regiões europeias enquanto o Norte de Portugal está no 100, Lisboa no 94 e a melhor das regiões espanholas, o País Basco, no 132.

Uma perspetiva diacrónica como a apresentada na Figura 3 arroja uma visão esclarecedora da evolução da capacidade inovadora na presente década (2011 – 2019). Note-se que o código de cores é diferente do empregue nas restantes figuras, com os verdes a assinalar agora as regiões que experimentaram uma evolução mais positiva e os azuis a indicar estancamento ou decrescimento.

Figura 3. Evolução da capacidade inovadora das regiões europeias no período 2011 – 2019.

Figura 3. Evolução da capacidade inovadora das regiões europeias no período 2011 – 2019.

Mais uma vez, o Norte de Portugal acha-se entre as regiões que experimentaram uma evolução mais positiva e a melhor na Península Ibéria, enquanto a Galiza melhorou apenas de maneira modesta. Isto quer dizer que o Norte de Portugal, de continuar com esta progressão, estaria a convergir rapidamente com os líderes em inovação. Já no caso da Galiza, não é claro que essa convergência pudesse chegar a vir acontecer num futuro enxergável, já que muitos desses líderes mostram uma progressão positiva mais acelerada.

Mas, a que se deve esta substancial discrepância entre as duas Galécias? Se calhar uma olhadela a alguns dos parâmetros mais significativos fornecer-ia algumas chaves para entendermos as razões para esta crescente fenda.

Comecemos pela educação. A Figura 4 permite-nos constatar que a percentagem de titulados universitários na Galiza é significativamente superior à meia europeia e à do Norte de Portugal. Este fator, em consequência, não parece explicar o superior desempenho da economia portuguesa em termos de inovação. O que sim pode evocar é a pergunta sobre qual seja o destino dessa massa de jovens altamente qualificados numa economia tão pouco dinâmica e inovadora como a galega. O desemprego, a realização de trabalhos para os quais estão sobre-capacitados e a emigração semelhariam três repostas frequentes de mais.

Figura 4. Regiões europeias coloreadas em função da percentagem de titulados universitários.

Figura 4. Regiões europeias coloreadas em função da percentagem de titulados universitários.

Se analisarmos a produtividade científica em termos absolutos sim que poderíamos começar a encontrar respostas à nossa pergunta. A maior produtividade portuguesa (Figura 5) correlaciona-se perfeitamente com um superior investimento em investigação em organismos públicos (Figura 6).

Figura 5. Regiões europeias coloreadas em função da sua produtividade científica por milhão de habitantes

Figura 5. Regiões europeias coloreadas em função da sua produtividade científica por milhão de habitantes

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Figura 6. Regiões europeias coloreadas em função da percentagem do PIB investido em investigação em organismos públicos.

De facto, um dos problemas potenciais às duas beiras do Minho é que são os governos quem suportam a maior parte do peso dos investimentos em investigação e desenvolvimento (I+D), com uma menor implicação do setor privado (por brevidade, omitimos o mapa correspondente). Dito isto, mais uma vez, o balanço do investimento privado em I+D favorece a Portugal a respeito da Galiza. Em ambos casos, um compromisso superior das empresas em I+D poderia facilitar a tradução das descobertas científicas e técnicas em produtos comerciais.

Se as empresas galegas e portuguesas investem de maneira insuficiente em I+D (mais uma vez, com vantagem para as portuguesas, como vimos de ver), as pequenas e medianas empresas (PME) do sul do Minho mostram-se muito mais inovadoras em questões como produtos, produção, marketing, etc. A Figura 7 mostra os resultados combinados na forma dum mapa. O leitor interessado pode consultar os pormenores diretamente no RIS2019.

Figura 7. Percentagem das PME que inovam.

Figura 7. Percentagem das PME que inovam.

Outros indicadores do maior dinamismo da economia portuguesa seriam o número de marcas registadas anualmente, o número de modelos, etc.

Aspetos nos que ambas economias, a da Galiza e o Norte de Portugal, precisam melhorar, para além dos acima mencionados, incluem o número de patentes, as colaborações entre empresas privadas e as colaborações público-privadas, entre outras.

Em conclusão, a economia do Norte de Portugal mostra uma superior capacidade de inovação e dinamismo a respeito da economia espanhola em geral e da galega em particular. Sintoma deste melhor desempenho é que cada vez mais jovens galegos altamente formados estão a procurar o seu futuro da outra beira do Minho.

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Miro Moman

    Olá, falta a figura 6, mas, tanto faz, é muito parecida com a 5.

    • Miro Moman

      Desculpai, foi um erro meu. Venho de me precatar de que enviei a figura como PDF em lugar de PNG.

  • Joám Lopes Facal

    Interessantes mapeados com Vigo, Braga e Porto como trípode tractor implícito.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Excelente artigo.
    Os mapas alumeiam muito bem a realidade