Em 9 de dezembro participa com a sua companhia Red Cloud Teatro de Marionetas no festival Titiribéria em Teu

Sara Henriques : “O Teatro Dom Roberto reflete um tempo em que o espaço público servia de verdadeiro convívio e partilha social”



robert-faro-8-2016Sara Henriques (Porto, 1982) iniciou a sua carreira profissional e especialização em marionetas em 2003 enquanto atriz e marionetista residente no Teatro de Marionetas do Porto, companhia de referência nacional e internacional.

Em 2012 recuperou o repertório do Teatro Dom Roberto feito até 2010 por João Paulo Seara Cardoso. Em 2013 é membro fundador e dirige os campos artístico e produção da companhia Red Cloud Teatro de Marionetas, com que vai participar no festival “Titiribéria. Olhadas sobre os Cristovos” que se realiza em Teu entre 7 e 9 de dezembro com o espetáculo.

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Qual é a situação dos Robertos em Portugal?

Felizmente há mais bonecreiros agora do que há uns anos atrás. Quase se extinguiram nos anos 80. É um género que está novamente em crescimento. Mas o seu sentido mudou por várias razões, entre elas, o Dom Roberto está prestes a ser reconhecido Património Imaterial Português, resultado de todo o importante trabalho e esforço do Museu da Marioneta de Lisboa, na recolha de documentação, informação e testemunhos sobre o tema. Quase todos os bonecreiros atuam profissionalmente no âmbito do teatro de marionetas, dando a este género um carater menos marginal. Vejo este género como uma relíquia da cultura popular tradicional Portuguesa de marionetas que faz recordar os mais velhos e mostra-se às novas gerações com a mesma carga mágica que sempre pairou no cume da barraca do Teatro Dom Roberto.

Quase todos os festivais de marionetas em Portugal, independentemente da sua visão artística, incluem a apresentação do Dom Roberto!

O “Roberteiro” sempre foi considerado alguém à margem da sociedade, um observador capaz de agir através da sua arte, e é essa a minha visão das marionetas, sem a religiosidade do termo.

roberto-faro-3-2016Qual foi a importância social deste espetáculo?

Este género chegou a Portugal pelas companhias itinerantes que se fizeram apresentar por toda a Europa. Terá sido em Itália, com o Concílio de Trento no século XV, quando as marionetas foram banidas das representações religiosas em igrejas que terão surgido companhias itinerantes alastrando-se por todo o continente europeu.

O género foi reconhecido por diferentes nomes de Norte a Sul de Portugal como : “Zé Broas”, “Robertos de Santo Aleixo”, “Robertos de Caixa Murrada”, “Títeres” ou “Robertos”.

O Teatro Dom Roberto reflete um tempo em que o espaço público servia de verdadeiro convívio e partilha social, onde memórias e identidades de um povo se encontravam transmintindo um olhar crítico sobre o mundo que o cercava e rindo sarcasticamente dos valores do seu tempo ridicularizando assim conceitos e preconceitos sobre a religião, a moral, os bons costumes, a autoridade e até a própria morte, sempre de forma bastante lúdica.

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Quais são a suas principais características?

Espectáculo itinerante, montado e apresentado pelo marionetista conhecido por “palheta”, “roberteiro”, “bonecreiro” ou “titeriteiro”  que apresentava o espetáculo em feiras, praias, mercados, praças e jardins. Apreciado por crianças, pela mágica manipulação, e pelo seu cariz muito pouco didáctico. Os adultos também se rendiam aos encantos do teatro Dom Roberto! Apreciando o espectáculo como crianças, e subentendendo todas as suas mensagens subliminares.

Essas marionetas de luva identificadas por “fantoches”, “bonecos” ou “robertos” eram manipulados de dentro de uma “barraca” ou se quiserem “guarita” onde o “roberteiro” escondido desempenhava a sua função cheio de rigor e ritmo. Em comparação com outros países , tradicionalmente, o Dom Roberto é apresentado com muito menos texto e todas as personagens têm a voz da palheta. O espetáculo vive do rigor e dinâmica da manipulação acompanhados por muitas onomatopeias e palavras com “rrrrrrrs” que facilitam a pernuncia com a palheta.

Têm várias caraterísticas fisionómicas comuns: são de uma madeira leve mas forte para aguentar as pauladas! Aliás, as mais utilizadas são pinho, oliveira, nogueira, figueira verde, e amieiro. Amieiro é a madeira utilizada para fazer as máscaras tradicionais do Entrudo de Lazarim “Os Caretos”, e, é precisamente a mesma que serviu para fazer os nossos Robertos (Red Cloud Teatro de Marionetas). A madeira, talhada com olhos esbugalhados e sorriso sarcástico; o nariz vermelho e cara cor-de-rosa são as principais características dos Robertos em Portugal.

Tradicionalmente as cabeças eram esculpidas e pintadas pelo próprio bonecreiro, no nosso caso não se sucedeu assim. Rui Rodrigues escultor, artista plástico e também diretor da Red Cloud TM , desenhou, talhou e pintou os nossos “Robertos”.

Por experiência sei que “Os Robertos” continuam a não deixar o seu público indiferente, seja qual for a sua faixa etária.

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Como vê, em geral, a situação dos títeres na sociedade portuguesa?

Na  generalidade existem mais companhias de marionetas, contudo observo com muito interesse o teatro ou dança que exploram este género trazendo novos olhares, de quem não obedece às “regras” préconcebidas do trabalho com marionetas, pois aprecio a reflexão sobre a manipulação no seu sentido abrangente. O “Roberteiro” sempre foi considerado alguém à margem da sociedade, um observador capaz de agir através da sua arte, e é essa a minha visão das marionetas, sem a religiosidade do termo.

Felizmente dispomos de melhores meios de comunicação e trabalho o que nos permite continuar e acompanhar a exploração infinita de posibilidades com focos artísticos bem diferentes em cada trabalho.

Por outro lado Portugal é um país de pequena dimensão, na ponta da Europa, e consequentemente com menos industria teatral, o que faz com que muitos artistas e bonecreiros itinerantes cumpram a função de educadores sociais, sendo que fora dos polos centrais, na descentralização e democratização do produto artístico, acabamos por ter um papel preponderante na educação de um povo. Em que na maioria das vezes  sozinhos  implementamos hábitos culturais e sensibilizamos novas gerações para este género.

 

João Paulo Seara Cardoso transformou o personagem do Roberto no herói do povo que desafia e vence a própria morte.

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Há renovaçom no género?

Sim, alguns roberteiros já construiram, adaptaram e recuperaram novas histórias como por exemplo Manuel Dias, José Gil e João Costa.

Quais são os principais desafios para manter esta tradição?

O Dom Roberto teve a sua grande expansão entre os anos 40 e 60, o próprio reportório continha chavões da sociedade daquela época, como por exemplo, a Tourada à Portuguesa e o Barbeiro, entre muitas outras histórias (algumas já foram recuperadas e outras que acredito nem temos ainda ouvido falar). Estas sessões não competiam com a evolução tecnológica, que hoje em dia nos obrigam a tomar as devidas precauções, como por exemplo o uso de amplificação, pois os espaços públicos são muito mais barulhentos.

Tornou-se matéria de pesquisa e a sua representação, normalmente, é contextualizada diante do público pelos próprios “roberteiros”.

O grande desafio seria, a meu ver, através do seu teor sarcástico com uma visão aguçada apostar numa crítica sobre do que nos rodeia atualmente, não perdendo o seu cariz popular, lúdico e aparentemente naífe. Os espetáculos tradicionais tinham um público de todas as idades. Continua a ser assim, ou os Robertos são também confinados ao público exclusivamente infantil? Por experiência sei que “Os Robertos” continuam a não deixar o seu público indiferente, seja qual for a sua faixa etária. É um espetáculo que pode ser apreciado sob vários pontos de vista.

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Como marionetista com ampla experiência em distintas técnicas de manipulação, quais são as principais qualidades do teatro de marionetas de luva?

Fiquei muito contente por ter aprendido esta técnica, que é muito exigente e que depende muito do rigor de manipulação, pois o marionetista está completamente escondido atrás de uma barraca onde lhe é praticamente impossível encarar o público a não ser pela mestria das mãos. Por vezes o público não quer acreditar que o espetáculo é apresentado por uma só pessoa, dando-lhe um carácter mesterioso e mágico.

Que faz dessa técnica tão popular? Qual é  a sua principal dificuldade?

O teatro Dom Roberto é um teatro lúdico, sarcástico e do povo. A excelencia das suas apresentações ocorre com a repetição das próprias apresentações,  é rigoroso e claro vive muito dos jogos de “pauladas” entre os personagens, o que para mentes mais fundamentalistas poderá causar alguma estranheza.

João Paulo Seara Cardoso tomou do mestre António Dias o testemunho para continuar com o teatro de Dom Roberto, mas ao mesmo tempo foi um grande renovador do teatro de marionetas português.

Nos anos 80, o Teatro Dom Roberto, quase se extinguiu, mas felizmente graças a João Paulo Seara Cardoso, que, teve a oportunidade de acompanhar um dos últimos Mestres desse tempo António Dias, houve uma recuperação do Teatro Dom Roberto, já sob um olhar, que desde o início da sua atividade revelava mestria em tudo o que se relacionava com teatro de marionetas. João Paulo Seara Cardoso, também acompanhando o seu tempo, por essa época, transformou o personagem do Roberto no herói do povo que desafia e vence a própria morte. Inicialmente antecedia-se às suas apresentações a “Trupe Maravilha” , grupo que formou e pertenceu antes de ter fundado o Teatro de Marionetas do Porto.

Tanto eu com o Rui tivemos a feliz oportunidade de nos especializarmos em marionetas (em áreas diferentes, eu como atriz e o Rui como escultor/construtor) sob a direção de João Paulo Seara Cardoso, na sua Companhia. Durante dez anos participei em vinte e cinco novas produções teatrais, o que nos transmitiu  muito do  que desenvolvemos  na atualidade com a Red Cloud TM.  Obviamente  tive um conhecimento próximo do que que se fazia no país dentro do género e sem qualquer dúvida reconheço que João Paulo Seara Cardoso foi um grande renovador do teatro de marionetas em Portugal, facto refletido no acervo do Museu das Marionetas do Porto.

Qual é a relação entre tradição e inovação, são incompatíveis?

Sim! Como se costuma dizer “A tradição é Modernização”! É completamente impossível desenvolver uma obra sem um olhar aguçado sobre um tema, seja ele tradicional ou não.  Inevitávelmente quem se lança a criar vai deixar o seu cunho a marca do seu tempo, porque está nele. Ao reproducir uma obra tradicional, eu vou divulgá-la e apresentá-la de acordo com os meios disponiveis da atualidade, isto só por si já tem um impacto diferente no espectador e até na visão do próprio criador da obra. Nada é estanque, tudo está em movimiento. Sou fã da sabedoria tradicional das marionetas aplicada em soluções de productos artísticos contemporáneos, que nos surpreendem e transportam para diferentes patamares de percepção e sentido.

Seria possível mudar o repertório do teatro dos Robertos, incorporar novas histórias e personagens, sem desvirtuar a sua essência?

Acredito que sim, desde que se faça permanecer o seu teor sarcástico, visão aguçada,  cariz popular, lúdico e aparentemente naífe.

 

 


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  • abanhos

    Que Bom, e que interessante