Uma Galiza onde Carvalho Calero pudesse ser



Fonte: Moncho Rama.

Moncho Rama

Aconteceu quando se criaram as medalhas Castelao em 1984. O governo na altura estava na posse de Alianza Popular, um partido em cuja génese participaram vários ex-ministros franquistas. Por vezes, instituições abordam homenagens ou canonizações de personagens que foram expulsas, no melhor dos casos, do seu seio. Pode ser feito por oportunidade, oportunismo, necessidade, obriga mas o certo é que existe um hiato entre quem homenageia e o alvo da homenagem.

Se revermos, por exemplo, o material primavera das letras que a Real Academia Galega dedica a Carvalho Calero tendo como foco as crianças vemos que Carvalho, simplesmente, desaparece. A palavra reintegracionismo ou lusismo não apresenta uma única ocorrência, apenas um vácuo: defendeu o achegamento do noso idioma ao portugués, que no caso de um galeguista da sua geração é como dizer que respirava ou que dormia deitado. O processo de apagamento chega, infelizmente, a limites de enorme desonestidade. Nesse mesmo site, um trecho de Scórpio, a sua grande obra narrativa publicada em 1987, aparece escrito com a ortografia promovida pola RAG, não a que o autor usou e defendeu na fase final da sua vida e que lhe valeu o ostracismo de pessoas e instituições.

Por vezes, instituições abordam homenagens ou canonizações de personagens que foram expulsas, no melhor dos casos, do seu seio. Pode ser feito por oportunidade, oportunismo, necessidade, obriga mas o certo é que existe um hiato entre quem homenageia e o alvo da homenagem.

Tudo isto coloca uma pergunta: se o autor homenageado no Dia das Letras fosse vivo poderia ser Carvalho Calero? As suas obras teriam as mesmas oportunidades que as obras escritas com ortografia castelhana? A sua carreira profissional veria-se afetada negativamente pola sua forma de ver e de viver o galego?

O apagamento por parte da Rag do “seu” autor nasce de um facto: a respeito da visão que a instituição promovia da nossa língua, ele realizou uma emenda à totalidade. Para o nosso autor, não era uma realidade local mas internacional, não tinha que ter uma norma culta castelhanizada e valia para o mesmo que servia o castelhano. Não era uma língua para estar à sombra da língua estatal, era uma língua para elevar o bem-estar da sociedade galega.     

Ora, há tempos que a RAG está ao serviço de si mesma e não da sociedade que a financia. Portanto, devemos mais olhar para nós, a cidadania, e perguntar-nos: somos capazes de criar um contexto social onde Carvalho Calero não fosse um cidadão de segunda? Uma sociedade que vive o galego como sendo uma língua partilhada com outras sociedades nacionais e não apenas uma marca ideológica ou de localização geográfica? Uma sociedade que é capaz de viver a nossa língua com o mesmo aproveitamento que vive a língua estatal? Será que somos capazes?

Há tempos que a RAG está ao serviço de si mesma e não da sociedade que a financia. Portanto, devemos mais olhar para nós, a cidadania, e perguntar-nos: somos capazes de criar um contexto social onde Carvalho Calero não fosse um cidadão de segunda?

2020 devia ser, de facto, o ano para uma mudança de rumo. Esta mudança deveria estar alicerçada numa consciência maior do percurso atual, sem miragens, sem narcóticos. Não há nenhum dado, nenhuma variável que nos mostre que as políticas atuais em volta do galego consigam mudar o estado de cousas e frear, já não digamos reverter, a cada vez menos lenta substituição linguística.  As velhas gerações, na sua maior parte galego-falantes, desaparecem e em muitas das novas, na su

a maior parte castelhano-falantes, o galego é um habitante menos familiar no seu dia a dia que o inglês. É algo que podemos observar a olho nu ou que os nossos ouvidos, se estiverem limpos de preconceitos e de desejos, podem enxergar com clareza percorrendo os parques infantis da nossa geografia. Quem está a ler este artigo sabe que é assim ainda que não goste dessa realidade.

Uma mudança de rota não implica apagar o passado. Essas dinâmicas não são nutritivas socialmente e são um insulto à inteligência das pessoas. Trata-se de deixar de limitar a nossa língua, de repetir relatos antigos e que as diferentes formas de a viver tenham espaço e interajam cada vez mais criando sinergias. Porque [email protected] temos alguma hipótese, [email protected] só resta a derrota.

Trata-se de que a ortografia e o modelo de língua não seja um problema mas uma riqueza. Trata-se de que as nossas crianças saibam que polo facto de serem galegas têm um mapa linguístico amplo e que o galego não é um aborrecimento escolar mas uma fonte de oportunidades que têm, temos, polo facto de sermos [email protected]

Trata-se, portanto, de criar uma sociedade onde Carvalho Calero pudesse ser. Onde a língua poda ser.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Joám Lopes Facal

    Grande verdade, Valentim. O país binormativista está atravessado por um profundo barranco necessitado de ponte. Construi-la precisa de duas cabeças de ponte; umha só nom dá.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito boa

  • Ernesto Vazquez Souza

    Eu há anos, no 2005, quando apareci por este espaço, tinha bastante claro que havia que começar a assumir que nos 80 perdêramos a guerra, que era impossível qualquer diálogo ou reforma… e que só nos quedava trabalhar individualmente, procurar outros individuais e construir espaços associativos, média alternativos, espaços formativos, revistas, editoras… criar em paralelo e passar do mundo institucional…

    Continuo a pensar… e até mais convencido do que antes…

    Para mim fica demonstrado (com o PGL, Sementes, AGLP e Através) que esse é o caminho certo… e fica bem demonstrado com o ano CC que achegar-se do institucionalismo mata…

    Mas evidentemente eu não sou ninguém para lhe dizer à gente que aquilo que têm diante é um muro… e acelerar… não é boa ideia…

    Saúde