Rocio Dourado: “Gostava de mais neo-falantes com as suas cinco vogais”



rocio-dourado-1Rocio Dourado nasceu no nordeste alternando entre horros e cabaços. A adolescência foi uma luta constante de auto-afirmação na luta unitárias vs escola religiosa. Seu pai, açoite da castelhanização alcunho-a de cobra por dizer hoje. Leciona língua galega em Ponte Vedra e os seus alunos chamam-se a si próprios “[email protected] em galego” enquanto com os de Bacharelato e adultos tem de fazer de bombeira-docente para apagar chamas e faíscas.

Rocio, como era a paisagem linguística na tua infância?

A minha língua materna foi o galego nor-oriental de Ribadeu, muito ligado ao âmbito rural, e influenciado pela variedade “eo-naviega” utilizada por boa parte da minha família paterna. De facto lembro-me de escolher de maneira ciente algumas palavras dependendo de com quem dos meus pais estava a falar (horro/cabaço; ontes/aer, longueirom/aguilholo, etc.). Além do mais, e ressalvando um ano que não acabei por terminar na escola religiosa da vila, quase toda a minha educação primária decorreu numa escola unitária, a de Rinlo, na qual o galego era a língua de uso normal, embora não a língua de alfabetização (leitura e escrita). Ora bem, é engraçado que o galego fosse a língua na qual adquiri os meus conhecimentos primordiais de Matemática, até porque aprendi a somar e a subtrair com a minha avola enquanto tirava e colocava patacas e cebolas de um cuezo para o outro, e acho que não me ficaram sequelas daquilo.

No respeitante à língua, a adolescência, tu és professora nessa faixa de idade, foi calma como uma noite de verão ou tempestuosa com um enxurrada num dia de trevoada?

A adolescência costuma ser em si uma etapa controversa; ora bem, se lhe acrescentares os fatores de ser rapariga, provir do rural e andar num liceu no qual estávamos misturados o alunado proveniente do centro público (boa parte do qual previamente chegado das unitárias) com aquele vindo do privado religioso (urbano, na sua maioria), a questão linguística vira uma luta constante de auto-afirmação. Quanto a mim, o facto de manter a maior parte das amizades do ensino primário permitiu-me, felizmente, manter também o galego enquanto língua habitual de relacionamento, mas a incorporação ao grupo social de pessoas da vila tornou o castelhano uma língua de uso frequente. O idioma funcionava como marcador de status, pois a tónica geral fazia com que acreditássemos em que éramos nós, o alunado do rural, que tínhamos de demonstrar sermos capazes de dominar essa língua. Nessa situação, o fator de contenção foi a casa, enquanto espaço totalmente monolingue em galego e, fundamentalmente, o guardião da língua era o meu pai, que aplicava com todo o rigor a técnica da troça cruel se por acaso eu ousava castelhanear na sua presença, ou até quando já estava a estudar Filologia Galega e voltava a casa a utilizar palavras que ele considerava como sendo alheias de mais, ou então muito “sibilantes” (tipo “hoje”, em substituição do etimológico “hoi” da nossa zona), sendo esta a causa por que me alcunhou “cobra” por vários anos…

Rocio Dourado é professora de galego em Ponte Vedra. Leciona a muitas diversas idades. Numa cidade com uma presença social do galego tão baixa como visualizam a nossa língua?

Nestes dois anos que estou a trabalhar em Ponte Vedra, a visão da rapaziada sobre o galego não é, em tese, negativa, quer dizer, consideram-na mais uma disciplina (das mais difíceis, é verdade). São totalmente cientes de não possuírem as competências mais básicas, chegando até a autodefinirem-se como “í[email protected] em galego”. De facto, a ausência do galego enquanto língua veicular nas famílias é uma constante em cada entrevista. E é neste contexto que a responsabilidade dos docentes da disciplina aumenta de maneira significativa, até porque nos tornamos no elemento galeguizador da maior parte do alunado, pois as aulas de Língua Galega são praticamente o único nexo quer com o idioma quer com a cultura que mantêm.

A visão da rapaziada sobre o galego não é, em tese, negativa, quer dizer, consideram-na mais uma disciplina (das mais difíceis, é verdade). São totalmente cientes de não possuírem as competências mais básicas, chegando até a autodefinirem-se como “í[email protected] em galego”

Caso falemos do Bacharelato de pessoas adultas, a visão muda de vez. Os preconceitos, os tópicos e o auto-ódio vêm à tona mais habitualmente, sobretudo em 2º de Bacharelato, ao debruçarmo-nos sobre os temas de sociolinguística. É então que esses preconceitos explodem e, infelizmente, continuam a ser os mesmos do costume: as mudanças constantes no padrão, língua válida apenas para a Galiza, língua de ignorantes e / ou nacionalistas (linda contradição), imposição, o “galego inventado” etc. E é então que temos de ensinar a debater com vagar, tentar que a razão venha a imperar e agir como uma bombeira-docente para apagar chamas e faíscas.bty

Há quem diga que em contextos onde o galego tem uma presença baixa seria preferível focar a docência segundo uma pedagogia de língua estrangeira, focando a comunicação. Que opinas ao respeito?

Como comentado na pergunta anterior, a maior parte do meu alunado chega à disciplina de Língua Galega como se fosse uma língua estrangeira. De facto, possuem mais noções de língua e cultura anglo-saxónica ou coreana (através do K-pop e os doramas) que daquela própria do seu entorno mais próximo. Assim sendo, perante um ponto de partida como este, afigura-se-me que não existem muitas mais hipóteses além deste tipo de pedagogia, pelo menos à hora de encarar o primeiro ano da ESO. De facto, no ano passado, dentre as diversas provas desenhadas para avaliar as competências com que partia o alunado de 2º da ESO, pedimos para eles definirem a palavra “jato” (xato), no contexto de um conto breve que tinham de resumir, e ninguém deu a definição certa. O leque de definições ia de “animal mitológico” ou “material duro e caro” a “animal aquático muito comum, aparentado com o cisne”, entre outras.

Portanto, esta situação exige-nos começar a trabalhar praticamente do zero, fazendo questão de desenvolver tanto quanto possível as competências orais (mas sem descurar as outras, é claro), e a resposta da picarejada foi positiva. Sobretudo quando reparas em que mostram curiosidade, sendo isso o que mais motiva e encoraja, a curiosidade, quer dizer, a vontade de querer aprender.

Em que medida o ensino de português de Portugal e do Brasil pode ser útil no ensino secundário? Deveria ser uma matéria em si ou ser inserida nas aulas de língua galega?

Acho que o ensino do português envolve inúmeras vantagens e é muito útil no ensino secundário. Por uma parte, se partirmos de um sistema luso-galego-brasileiro a fornecer-nos uma visão mais cabal do nosso próprio diassistema (bem como dos seus eventuais aproveitamentos), conseguiremos deitar abaixo muitos (nem sei se todos) preconceitos sobre a língua. Mas isto também serviria para aprendermos a ver a língua como sendo um ente vivo que respira e se nutre continuamente das nossas interações, e deixarmos de focar o debate exclusivamente em questões diacrónicas e / ou capturas de páginas de dicionários no Twitter.

Ainda, em minha opinião, o português teria de ser lecionado como disciplina em si, por um critério eminentemente quantitativo, pois deste jeito não se couta mais do que já está o espaço da docência do galego ou mais diretamente relacionada com as aulas de Galego, quer dizer, poderiam ser disciplinas complementares, o qual terminaria de vez com a ideia de as disciplinas serem compartimentos estanques sem qualquer relação.rocio-dourado-4

Rocio estudou português nas escolas de idiomas. Que te forneceu essa formação? Em que medida a recomendas?

O meu contacto inicial com a língua portuguesa foi numa aula de Galego de COU no liceu de Ribadeu, quando Xavier Campos (que acho que na altura estava a desenvolver as práticas) nos trouxe um texto nessa língua, de maneira a comprovar quanto daquilo que estava lá escrito éramos capazes de perceber, e fornecer-nos aliás uma breve aproximação da Lusofonia. Aquela prática ficou gravada na minha memória e, quando já tinha resolvido enveredar pela Filologia Galega, foi um dos motivos pelos quais escolhi a Universidade da Corunha, ao ter nela o português um peso importante no plano docente. Ora bem, no decurso daqueles anos universitários encarávamos o português fundamentalmente como objeto de estudo diacrónico, e só quando continuei os estudos de Português na EOI é que mergulhei na língua viva, na sua cultura atual etc. Além disso, a EOI permitiu-me conhecer uma comunidade de pessoas interessadas nessa língua e com diversos percursos vitais, interesses, opiniões e gostos, com as quais partilhei materiais, informações e debates dos quais muito aprendi, e que me abriram um mundo novo pelo qual navegar. Portanto, acho que é uma experiência muito enriquecedora que cumpre viver.

Quais as motivações para te enrolares no navio agálico? Qual deve ser o papel agálico da associação?

A razão principal de me enrolar na tripulação agálica é fazer parte de uma associação que defenda o galego sem o limitar, sem tornar a língua num simples objeto de museu, fornecendo-lhe um novo ar ao abrir uma janela aos sistemas luso e brasileiro. Este enriquecimento linguístico e cultural aproxima-nos de outra perspetiva muito atraente, a de reinventarmo-nos e desenrascarmo-nos nesse vastíssimo espaço ao qual pertencemos, enquanto deixamos para trás esse estigma de sermos uma cultura dependente e marginal por nos considerarmos “de segunda”. Esta é uma das vias que têm de continuar a ser exploradas; a outra, a visibilização do facto de que a ortografia nem pode nem deve ser um problema, como demonstrado pela Através no âmbito editorial, sem dúvida um dos fitos da normalização neste sentido. Quanto a isto, o facto de ser a Através um projeto auto-financiado pelas sócias e sócios acrescenta-lhe muito valor, até por serem iniciativas como esta (que tecem redes na comunidade enquanto ficam de fora dos circuitos dos subsídios públicos) as que, sob o meu ponto de vista, criam os alicerces daquilo que queremos construir para as gerações futuras.

Imagina o ano 2040. Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” nessa altura?

Gostava de ver mais picarada a utilizar o galego normalmente, sem que o seu ambiente lhes seja hostil ou os estigmatize. Para além de que não dependam, como está a acontecer em muitas zonas urbanas, de uma (re-)galeguização num sistema educativo cada vez mais burocratizado e soterrado em milhares de estândares inabarcáveis e inavaliáveis, restrito a umas determinadas disciplinas, de preferência aquelas relacionadas com as Humanidades (porque, como sabemos, o galego é o glúten das Ciências…).

Gostava de mais neo-falantes com as suas cinco vogais e golpe de chicote na fricativa palatal a superarem-se cada dia e a caminharem de mãos dados com outros falantes sem serem submetidos a um terceiro grau nem a troças, o qual, tristemente, continua a acontecer.

Gostava de mais neo-falantes com as suas cinco vogais e golpe de chicote na fricativa palatal a superarem-se cada dia e a caminharem de mãos dados com outros falantes sem serem submetidos a um terceiro grau nem a troças, o qual, tristemente, continua a acontecer. Gostava de viver na língua em que fui criada sem ter de lidar dia após dia com empresas e instituições que atiram balas de preconceitos e intolerância e que violam de maneira ciente os meus direitos, até conseguirem que me considere a mim própria como sendo uma cidadã “de segunda”.

Gostava de conteúdos audio-visuais de qualidade, quer linguísticos quer culturais, disponíveis para todo o mundo sem que um califinha autonómico censure a informação e sem que o humor fique reduzido a quatro piadinhas retrógradas num pidgin insultante, e sem que a farinha fique espalhada por qualquer roteiro cinematográfico que sair deste país. Gostava de ver um relacionamento fluente e mais e melhores pontes tendidas com o sistema linguístico a que pertencemos (em vez de reduzir tudo a uma lei aprovada sem qualquer aplicação e aproveitamento reais), até porque o isolamento acaba por dar num Medúlio linguístico. Gostava, enfim, de que respeitássemos e aprendêssemos a dar valor ao nosso património material e imaterial.

Conhecendo Rocio Dourado:

Um sítio web:  https://galiciaencantada.com/

Um invento: a música

Uma música: Hiru piztiak de Alboka.

Um livro: Morgana en Esmelle de Begoña Caamaño.

Um facto histórico: O reinado póstumo de Dona Inês de Castro e o seu desenvolvimento literário.

Um prato na mesa: arroz caldoso de Rinlo.

Um desporto: ioga

Um filme: A princesa Mononoke e Totoro de Hayao Miyazaki.

Uma maravilha: a literatura

Além de galego/a: em camín de me converter numa otaku.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Ernesto Vazquez Souza

    O galego não sabemos, mas num mundo de otakus e trekkies… o dia da toalha triunfará…

  • Vítor Garabana

    Nem sabia o que era otaku :-0 Bem-vinda Rocio, seiva nova!