A resistência galega de Carvalho Calero



Da fala e da escrita (1983) foi um dos livros do professor Ricardo Carvalho Calero que mais influíu na minha formação linguística. Ainda conservo o exemplar com a data da leitura, 1996. Tinha eu vinte e três anos, os cursos do conservatório acabados e começava a minha vida laboral.

Vinte e três anos mais tarde, a Real Academia Galega, após décadas de desprezo pelo que foi um dos seus mais destacados membros, decide dedicar a Carvalho o Dia das suas Letras para o ano 2020. E escreve “Carballo” para que fiquem bem claras as suas intenções de não aceitar sequer a última vontade do homenageado.

Tuíter oficial da RAG, 22 de junho de 2019

Tuíter oficial da RAG, 22 de junho de 2019

Ao mesmo tempo, uma outra instituição do Estado como é o Ministerio del Interior, decide chamar de lusista uma operação policial contra gentes independentistas. O nome é para que fiquem bem claras as intenções de ligar o lusismo, que na Galiza se identifica com a língua portuguesa, com o que eles denominam terrorismo sob a forma da não provada, e improvável, organização Resistência Galega.

Vem aí um ano cheio de manipulações mediáticas, silêncios inclinados, origens incertas de faróis espúrios, sim-lê-se-nões e demais políticas e polícias anti-linguísticas que intentarão acabar com o discurso apoderado do Reintegracionismo, cujo trabalho social tem crescido exponencialmente ao longo das últimas décadas, atingindo em 2014 o seu, até agora, maior sucesso institucional, a aprovação da lei Paz-Andrade (1/2014) para o ensino do português na Galiza com o apoio unânime de todos os grupos do Parlamento.

La Voz de Galicia, 18 de junho de 2019

La Voz de Galicia, 18 de junho de 2019

O nosso labor para os próximos meses terá de ser defender Carvalho. Fazer valer o seu sentido linguístico, cultural e social, que é o do Reintegracionismo que ele teorizou, praticou e fomentou. Também haverá que denunciar a criminalização da sua, que é a nossa, opção ortográfica, legítima, legal e tão oficial quanto qualquer outra, dado que no Reino não há legislação oficial sobre normas ortográficas nem proibição das várias opções.

Mas o mais urgente, o fundamental, a tarefa que devemos estar [email protected] para realizar do modo mais elegante, eficaz e demolidor é a de desmascarar o fundo da questão. Chegar ao fundo, apanhá-lo bem apanhado, deconstruí-lo, analisá-lo e mostrá-lo à vista do mundo inteiro, como [email protected] polí[email protected] que todas somos neste Reino linguicida. E para isso, ninguém melhor do que Carvalho.

Por um lado, será absolutamente necessário dizer-lhe à RAG e os seus derivados institucionais, que por mais parcerias e colaborações que assinarem com instituições lusófonas, todas nós sabemos que não assumem a unidade da Língua. Por mais que se empenharem em dizer que “o portugués naceu do galego”, a sua linguística política consiste em defender a norma castelhana para o Galego, caindo numa flagrante falta de princípios de Língua (Carvalho, 1983, 67):

Se escrevemos o andaluz com uma ortografia fundada na sua própria fonologia e procuramos expurgar o seu léxico de termos modernos introduzidos pela língua oficial, daremos à fala em questão uma fisionomia tão afastada da do castelhano, que facilmente se poderá constituir uma língua independente, mesmo mais distante da língua mãe que o valenciano e o português das suas respetivas.

Um labor de polícia linguística pode orientar-se, pois, tanto cara a unificação como cara a separação. A polícia está sempre ao serviço de uma política.

Mas não só negam na prática a unidade da língua escrita. O apartheid que as instituições galegas aplicam aos logros individuais dos reintegracionistas é total e completo. Esmagam docentes, silenciam textos, impedem edições e ignoram os próprios votantes nos programas eleitorais dos partidos afins. A Xunta comporta-se na língua como uma empresa privada com a sua patente. E o Estado nega-nos, em virtude do art. 3 da Constituição, o dever de conhecer a nossa língua própria.

Por outro lado, será também igualmente necessário dizer que o Ministerio del Interior e a Polícia continuam interessados em afastar os galegos do português e de Portugal, alimentando quantos mais preconceitos melhor e, sobretudo, o medo, o enfrentamento social e ideológico, que está muito perto da xenofobia que professam os partidos neofranquistas espanhóis (Carvalho, 1983, 68):

Se a nova monarquia espanhola reconhece como legítimo o desenvolvimento cultural das línguas até agora marginadas, não deve apoiar as posturas que fomentem a separação entre as diversas formas de cada um dos romanços hispânicos. Um valenciano que vivesse em oposição ao catalão, de que procede, ou um galego que não quiser saber nada do português, que procede dele, desnaturalizariam a verdadeira estrutura linguística da Península, ou melhor dito, da Iberorománia, em que as fronteiras políticas, por mui respeitáveis que sejam, não podem confundir-se com as fronteiras idiomáticas. [ano de 1981]

Não esqueçamos que essa xenofobia que o Estado alimenta na Galiza contra Portugal acha também o seu reflexo no próprio Portugal, onde as instituições republicanas mantêm as necessárias distâncias com um país que pertence a um Estado-Reino colonizador e com uma língua que não reconhecem como sua porque está escrita, precisamente, para não ser reconhecida. Essa xenofobia está a ser pagada por pessoas cuja inocência não é defendida pelas mesmas instituições que deveriam ser, mas não são, garantes dos Direitos Fundamentais. Está a ser pagada com o sofrimento das famílias. Está a ser pagada com os dinheiros de [email protected] nós, que pagamos impostos.

Depois dos dinheiros públicos esbanjados durante décadas numa normalización fracassada, dos ataques continuados aos docentes, do silenciamento mediático, agora vem o ataque judicial à democracia, como o que levou Bolsonaro à presidência do Brasil, os políticos catalães à cadeia provisória, os moços de Altsasu a serem condenados sem provas, as vítimas de estupro a serem condenadas com provas, as famílias empobrecidas a ficarem sem vivendas, os jornais bascos a serem fechados, ou os moços e moças galegas cuja militância política as converteu em alvo dos abutres.

Gente da barreira, temos muito a fazer (Carvalho, 1983, 27):

Podemos, em consequência, imaginar uma Galiza que não fale galego. Por exemplo, uma Galiza absolutamente castelhanizada. Ou, se queremos pensar numa situação menos radical, uma Galiza onde o galego seja respeitado, mas não promovido. Ou mesmo uma Galiza onde o galego seja considerado como uma relíquia histórica, ou como uma típica modalidade folclórica que a fins turísticos convenha conservar. Poderíamos estabelecer reservas em que um fato de galegos e intelectuais, vestidos com monteira e cirolas -os homens- e dengue e mantelo -as mulheres-, vivessem subvencionados pelo Estado, consagrados a falar, escrever, cantar, rir e chorar em galego com acompanhamento de gaita. Cousas semelhantes viam-se e veem-se noutras latitudes.

Mas, há uma tradição, segundo expusemos, que aspira a outra fortuna para o galego. Essa tradição, a de Murguia e a Academia Galega, a de Risco e a revista Nós, a de Vilar Ponte e as Irmandades da Fala, a de Outeiro Pedralho e o Seminário de Estudos Galegos, para não citar mais que figuras e instituições científicas e literárias, propugna o galego como língua da Galiza. Para os que nos educamos nesse ambiente, não há outra fórmula satisfatória. Não vemos Galiza falando noutra língua que o galego. Claro que este ideal implica problemas de organização, devidos ao estado em que a língua se acha, à presença social do castelhano e à existência de um idioma oficial da Administração central. A resolução destes problemas incumbe aos políticos. Aos estudiosos da língua corresponde-nos fornecer a informação precisa para esta resolução. E fazer votos por que os que temos já calcado desde há tempo o sarego da velhez, presenciemos endebém, a reinstauração definitiva – à que todos são convocados com respeito e amor – do galego na vida da Galiza. [ano de 1980]


Carvalho Calero, R. (1983). Da fala e da escrita. Ourense: Galiza editora. Asociaçom Sócio-Pedagógica Galega. ISBN: 84-86129-03-6.

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
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