‘A imagem da Galiza em Portugal’ – Resenha (Carlos Pazos-Justo, Através, 2016)



Esta obra de Carlos Pazos-Justo (Redondela, 1975) foi publicada pela Através Editora em 2016 e complementa-se com o livro de Carlos Quiroga, A imagem de Portugal na Galiza, publicado no mesmo ano e pela mesma editora, embora sejam obras diferentes, na focagem, no texto, nos objetivos e até na edição.

os-livros-falm-carlos-pazos

Carlos Pazos-Justo é professor do Departamento de Estudos Românicos da Universidade do Minho e membro do Grupo de Investigação Galabra e no seu percurso como leitor de galego e atual professor de espanhol em Portugal foi somando anedotas pessoais à sua carreira como investigador, isto fez com que em A imagem da Galiza em Portugal o rigor na exposição se complemente com diferentes anedotas, que provocam uma leitura rápida e ágil.

Esta questão da adaptação da escrita à obra é preciso esclarecê-la para evitar interpretações. O autor já tem uma obra considerável, mas sempre de natureza académica. De facto, com Trajectória de Alfredo Guisado e a sua relação com a Galiza (1910-1921), ganhou o Prémio Carvalho Calero de Investigação em 2009, publicado na editora Laiovento em 2010. Em 2015 publica em Edições Húmus, Relações culturais intersistémicas no espaço ibérico. O caso da trajetória de Alfredo Guisado (1910-1930). Ambas as obras são de interesse para um público académico e especializado e, consequentemente com um estilo propriamente academicista.

Em A imagem da Galiza em Portugal o autor consegue libertar-se, em grande medida, das algemas dessa escrita caracterizada por longos parágrafos, citações constantes e frases grandiloquentes, embora mantenha traços do mundo académico, sobretudo na abordagem da terminologia utilizada.

A obra é estruturada, sem o especificar, num preâmbulo, três capítulos, uma coda final e as referências bibliográficas, surpreendentemente extensa para um livro tão breve. Para além disso, são inseridas numerosas imagens, fotografias, desenhos, quadros e capas de jornais, livros, guias e revistas, que provocam uma leitura muito visual e agradável, pois ajudam a ilustrar e a compreender as temáticas do livro.

No preâmbulo, o autor explica a necessidade do livro com uma anedota pessoal exemplificadora sobre uma das emissões e recepções da imagem do galego e da Galiza em Portugal. Esta dessintonia em interpretar as imagens, a força das imagens, a sua perdurabilidade e resistência à mudança fazem do breve preâmbulo um guia de leitura.

Também no preâmbulo esclarece o autor a origem académica do trabalho, sem lhe dar valor académico ao livro “pois nutre-se igualmente […] das reflexões e ideias várias de quem vive e trabalha em Portugal, em Braga concretamente, e se interroga amiúde por estas questões” (p. 10). Contudo, não concordamos com esta desvalorização da experiência e reflexões pessoais, pois são muitos estudos académicos os que adoecem de qualquer valor ao reduzir as análises ao estritamente publicado, quando no âmbito das imagens é a vivência, individual ou coletiva, a que costuma marcar tendência.

cartaz-apresentacao-livro-carlos-pazos-justo

De facto, em nossa opinião, um dos livros que melhor analisou até à altura as relações entre Portugal e Espanha no nosso dia a dia, com referências à realidade específica no que diz respeito às relações entre a Galiza e Portugal, é um livro sem nenhum aparato académico mas cheio de reflexões a partir de experiências reais. Estamos a falar do livro de Federico J. González, Reflexões de um Espanhol em Portugal.

Embrenhando-nos na estrutura do livro, no capítulo: “Imagens: por que, para que e como?”, o autor trata a natureza das imagens e a Galiza nos imaginários. É a parte mais teórica do livro, com citações explicativas de autores que já têm tratado o tema da construção da imagem do galego, como, por exemplo, Miguel-Anxo Murado ou Xosé Manoel Núñez Seixas, numa viagem que revisita construções estereotipadas antigas, clássicas e contemporâneas. Assim, constata-se realmente através das imagens, positivas ou negativas, uma realidade cultural forte, diferente, viva e coesa.

Se calhar, neste capítulo poderia ser interessante introduzir a hipótese das origens da imagem do galego em textos de Fernão Lopes ou da introdução da imagem negativa do galego em Portugal através da influência do teatro castelhano no teatro clássico português. Contudo, também parece razoável que essa hipótese fosse posta de lado ao abrigo de reduzir ao mínimo o percurso histórico do livro e não fosse um recompilatório ao estilo da obra já clássica de Alonso Montero, Galicia vista por los no gallegos.

No segundo capítulo: “Imagem até 1936”, Pazos-Justo trata o imagótipo negativo do galego; o imagótipo de afinidade; as encenações das afinidades entre galegos e portugueses; e o imaginário luso e a trajetória da comunidade galega de Lisboa.

É o capítulo mais interessante e provavelmente mais surpreendente para o leitor galego, mesmo interessado nas relações entre a Galiza e Portugal. Nele é estabelecido o percurso que a comunidade galega emigrada a Portugal, especialmente para Lisboa –os lisboanos- fizeram para passar de uma imagem negativa do galego a uma imagem positiva, baseada no trabalho, no empreendedorismo e no empenhamento social, cultural, económico e político, o que o autor denomina a aquisição de capital social e capital simbólico.

Como explica Pazos-Justo: “Os galegos de Lisboa descobrem que a galeguidade não é necessariamente, portanto, um entrave para aquisição de capital social ou simbólico. A galeguidade, sob o prisma do imagotipo de afinidade, homologa-os com os lisboetas/portugueses e até nobilita a sua cultura de procedência” (p. 88).

“Como explica Pazos-Justo: ‘Os galegos de Lisboa descobrem que a galeguidade homologa-os com os lisboetas/portugueses e até nobilita a sua cultura de procedência'”

A parte surpreendente do capítulo para um leitor galego interessado é, por um lado, a descoberta desta emigração e, por outro, a ocultação em meios políticos, sociais, académicos e simbólicos dessa realidade na própria Galiza. É ilustrativo a este respetio que a publicação A Nosa Terra fosse apresentada em cabeçalho gráfico como “Idearium da Hirmandade da Fala en Galicia e nas colonias gallegas d’América e Portugal”. É evidente que essa simbologia positiva e transcendental que na Galiza atual se dá à emigração galega na América ou noutras partes de Europa perdeu qualquer eco no caso português.

O terceiro capítulo intitula-se: “A Galiza no imaginário português hoje”, subdividido em “A invisibilidade”; “As afinidades”; “A setentrionalização”; “O ruído”.

Neste capítulo o autor conclui que a ruptura produzida por ambas as ditaturas provocou uma ruptura no desenvolvimento das intervenções culturais: “O golpe de estado e a consequente Ditadura franquista, assim como a consolidação do Estado Novo, fizeram com que se esvaíssem quase todas as possibilidades de intervir cultural e politicamente para muitos dos interessados no contacto galego-português, para muitos dos empenhados na ativação das afinidades” (p. 89).

O autor ilustra esta incomunicação no longo período que existe entre 1886 e 1993, mais de cem anos entre a ponte velha e a nova que unem Valença e Tui. É neste ponto entre comunicação e invisibilidade onde o professor redondelano tenta fazer uma abordagem sobre a questão linguística, à que não é possível fugir, mas que também provoca numerosos equívocos nas relações de certos âmbitos e alguns ambientes.

E eis uma das grandes contradições tratadas nesta obra, quando maior são as possibilidades históricas das relações entre galegos e portugueses e quando se constata uma invisibilidade da imagem da Galiza em Portugal: “Parece inevitável ter em consideração o relacionamento hispano-luso, a imagologia hispano-lusa, para entendermos as lógicas da imagem portuguesa da Galiza” (p. 92). Ou seja, segundo o autor, parece difícil para um país uniformizado como Portugal reconhecer diversidade em Espanha. Um Estado, o espanhol, que baseia a sua projeção internacional na importância da língua espanhola, Espanhol S.A, em palavras do professor compostelano José del Valle.

Seria possível acrescentar, mais ainda se essa realidade diferenciada não potencia a sua presença internacional, caso contrário ao do País Basco ou Catalunha. Por isso: “Vemos, enfim, que hoje, em meados da segunda década do século XXI, a análise da matéria proposta deverá equacionar primeiramente a invisibilidade da Galiza e os galegos na perspectiva de Portugal no meio de um emergente todo espanhol. Por outras palavras, a crescente ativação de um novo imagotipo a respeito dos espanhóis, de carácter abertamente positivo –provavelmente hegemónico nas faixas etárias mais novas– contribui para um apagamento da Galiza e dos galegos no imaginário português” (p. 95).

Se o objetivo de uma resenha é encorajar o leitor para a leitura de uma obra, A imagem da Galiza em Portugal é uma obra que deve ser lida, assim de simples. Portanto, esta resenha apenas pode justificar esta conclusão.


PUBLICIDADE