UM PAÍS TROPICAL

Raibeart Ruadh



His honour likes the library. He’s nane o’ you
Papishers, that delight in blinded ignorance.

O Rob Roy (1817) de Walter Scott é um livro da chuva. Um livro desses que nunca tive vontade de ler. Peguei nele, um pouco ao chou, num chuvoso serão de férias. Gratíssima surpresa.

Raibeart RuadhAvanço que não tem muito a ver com o filme homónimo (1995) do Michael Caton-Jones. Não quero dizer com isto que o filme seja mau, que não é, mas substância também não tem muita. É um filme de aventuras, não isento dum épico romanticismo. Também o romance do Scott costuma ser adscrito a essas mesmas categorias, romanticismo e aventuras. Fico com a dúvida de se os críticos leram o mesmo livro que li eu. O romance monstra, com efeito, numerosos elementos dos anteditos géneros e, porém, a leitura que fiz eu foi eminentemente política. Cada quem tem as suas teimas…assim que se calhar é cousa minha.

Trata-se dum romance epistolar constituído duma única carta que o abastado herdeiro londrino Francis Osbaldistone dirige a um seu sócio e amigo. Já no ocaso da sua vida, Osbaldistone decide por fim, perante a insistência do amigo, relatar as aventuras e tribulações da sua juventude no prelúdio, durante e justo depois da primeira grande rebelião jacobita, a de 1715.

A minha tese é que, escocês orgulhoso, a intenção primária de Scott ao conceber este romance foi precisamente a de exculpar os clãs das Terras Altas escocesas pelo apoio que deram ao pretendente católico Jaime de Stuart face ao protestante Jorge I, primeiro monarca de Inglaterra da dinastia dos Hanover. Embora estes feitos aconteceram pouco mais dum século antes do livro ser escrito, cumpre lembrar que os jacobitas britânicos não foram definitivamente esmagados até 1745, pelo que Scott teve de fiar muito fino para não ser suspeito de albergar quaisquer simpatias cara eles e, portanto, de ser um traidor.

É por isso, na minha opinião, que o autor escolhe como protagonista do seu relato um inglês do sul, da capital, protestante e filho dum influente homem de negócios que, embora com raízes na aristocracia católica do norte da Inglaterra, é também protestante, para além dum leal partidário e aval financeiro do Rei Jorge. Francis Osbaldistone ignora tudo sobre a Escócia, terra que não descobrirá até meado o livro (de mais de 500 páginas na edição de Penguin que encontrei na biblioteca da minha namorada). As suas incompreensão, estupefação e repugnância iniciais irão virando compreensão, respeito e até admiração a medida que o nosso inexperiente jovem vai descobrindo e fazendo-nos descobrir a nação dos pictos e dos escotos. Osbaldistone rematará por compreender as circunstâncias que levaram aos clãs a dar o seu apoio à causa jacobita, assim como por exculpâ-los, parcialmente, pelo “erro” cometido.

Esta inteligente estratagema, a de falar por boca dum personagem cuja lealdade não pode ser posta em causa (embora sim o será ao longo do romance), proporciona ao nosso autor o recurso duma perspetiva muito mais longínqua do que a sua própria.

Ao longo da trama irão assim mesmo sendo desvelados de maneira progressiva, como se dum romance de mistério se tratasse, as circunstancias, interesses e motivações das distintas partes em conflito, tecendo assim um apaixonante retrato pára-historicista. Mas, precisamente o facto de apresentar a história essencial e primordialmente como um conflito de interesses, confere a este romance em particular uma dimensão que vai muito além do que poderíamos esperar dum livro de aventuras enquadrado romanticismo artístico. Não é que o relato exclua, nem muito menos, elementos como os valores, as paixões, a inveja, a vaidade, a vingança, os princípios, as religiões ou as ideologias, mas, finalmente, os vetores dominantes que dirigem os acontecimentos são fundamentalmente os interesses materiais objetivos dos poderosos. Porque são precisamente esses interesses os que agem para manipular tudo o resto na sua vantagem.

O livro, como se calhar a atualidade que estamos a viver, apresenta diante dos olhos do leitor um contexto histórico muito rico e interessante no que se está a consagrar uma transformação fulcral na história recente da humanidade: os descobrimentos e a subsequentes novas rotas francas para o comércio ultramarino permitem que a grande burguesia comercial substitua a aristocracia terratenente militar como classe dominante. Essa burguesia tece uma ideologia, em forma de religião, o protestantismo, chamada a reforçar e disseminar os seus valores, hábitos psicológicos e interesses. Boa parte da nobreza rendista, fiel aos seus valores cavaleirescos medievais, opõe-se ferozmente, mas em vã, a estas transformações. Outra parte simplesmente, adapta-se, investindo o capital herdado nos negócios. Normalmente, a porção da aristocracia que se mostra mais relutante às mudanças é aquela que tem os seus feudos em áreas que ficam muito na periferia dos novos centros de poder e prosperidade.

Já na Escócia, as estruturas económica e sociopolítica que Sir Walter Scott, por boca de Francis Osbaldistone, delineia para as Terras Altas não diferem muito, como o próprio autor indica de maneira explícita, das que este território apresentava na Idade Média ou ainda na pré-história. Para evitar a expansão e o contágio dos conflitos desde aquela região inóspita na que cada homem é um guerreiro armado até os dentes, os monarcas vem-se obrigados a subsidiar os clãs das Terras Altas, em guerra permanente entre eles. Estes subsídios são, porém, uma bomba de relojoaria. Por uma parte, engordam os caciques sem solucionar a precariedade na que vive grande parte da população (o que dá lugar à conversão dalguns chefes em foragidos da justiça, como o Raibeart Ruadh MacGriogair que dá nome ao relato). Por outra, contribuem para agravar o fenómeno de superpopulação que complica e retroalimenta os problemas estruturais antes mencionados.

Os endinheirados das Terras Baixas, pelo contrário, começam a usufruir já da prosperidade derivada do Tratado de União de 1707, que abre para eles as rotas do comércio ultramarino (em troques de renunciar à soberania nacional). Isso explica que as Terras Baixas se alinhem com o de Hanover enquanto a maioria dos clãs das Terras Altas preferem o Estuardo. Não devemos esquecer, aliás, que um dos pontos do programa político do primeiro é precisamente a supressão dos subsídios reais para os clãs. Não admira pois que, mália a sua proverbial divisão, os celtas montanheses esqueçam momentaneamente as suas diferenças para pôr as suas espadas ao serviço dos jacobitas.

Mas assim como Scott diagnostica o problema também fornece uma possível solução: convencer os Chieftains para enviar os filhos a estudar a Glasgow e Londres onde deverão aprender inglês e aritmética e virar graves homens de negócios. Isso foi precisamente o que fez no seu dia o diácono Nicol Jarvie, quem baixou das montanhas para assegurar um futuro melhor para o seu filho, magistrado e homem de negócios de Glasgow e um dos protagonistas do romance, quem, por sua vez, aconselha ao MacGriogair salvar a sua descendência do destino do homiziado enviando-a a fazer carreira na armada francesa ou na espanhola. Não é que o jovem e romântico Francis, cativado como ficou por toda aquela moicania, concordasse plenamente com a antedita solução, mas, que outra possibilidade existiria?

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Miro Moman

    No penúltimo parágrafo onde diz “em troques de renunciar à soberania nacional” entenda-se “a cámbio de renunciar à soberania nacional”.

  • Ernesto V. Souza

    é mesmo interessante, tenho de re-ler… 😉

    • Miro Moman

      Procura uma versão “unabridged”. Mas já che aviso de que aos do norte de Inglaterra custa um pouco entendê-los ao começo, pois cada pessoa “fala” com o seu sotaque local e Scott faz uma transcrição fonética 😉

      • Ernesto V. Souza

        Sei, sei… e não sei se me dará para perceber…

  • Ernesto V. Souza

    Lembrei-me também, Miro, de The Talisman… com aquele cão escocês fazendo piadas tão à galega sobre cães e lealdades ao Rei Inglês de Coração de Leão e ao Leopardo Saladino …

    Talvez haja que re-ler tudo… Scott… Vicetto, Valle, Blanco Amor.. Conrad… Joyce… Kafka… com outros olhos melhores… boa parte da narrativa entre a lógica estadual e a lógica local, entre o passado e o futuro… é ambivalente… e por tanto é mais subversiva do que parece… em função do leitor…

  • Isabel Rei Samartim

    Venho de reler, pois nalguns momentos tive de voltar atrás e noutros, de ir ao dicionário. ‘homiziado’, vaia palavro. Também haverá ‘homiziada’, ainda que o dicionário (Priberam) não o recolha. Para mim ficar além da ‘justiça’ é uma boa opção. Por outro lado, a expressão ‘fenómeno de superpopulação’ pareceu-me muito curiosa…
    Mas, uma cousa, então o apoio ao Vaticano era pelos subsídios suicidas? Eram as moedas de ouro as propiciadoras da insólita ‘união’ dos nortenhos?

    • Miro Moman

      O texto não reflete os meus valores. Tento fazer uma exegese da obra em chave política. Como toda interpretação, é discutível. Mas o que tenciono é interpretar a perspetiva do autor, em toda a sua contraditória complexidade e em toda a sua ambiguidade, e não julgá-la nem avalia-la desde os meus valores particulares.

      Do resto, o que faz Scott é, com efeito, explicar as motivações de cada uma das partes implicadas no conflito. E nessas motivações predominam os interesses objetivos.

      Se a obra tem qualquer rigor histórico ou não tem nenhum, é uma questão que ignoro completamente.

      • Isabel Rei Samartim

        Obrigada pela resposta. Não sei que serão os interesses objetivos esses. Eu só comentava o teu texto, portanto, aguardava opiniões tuas.

        • Miro Moman

          Não che tenho.