Notas à margem do II Congresso da Cidadania lusófona, que decorreu em Lisboa a 16 de abril

Que duro esforço o de fundar-se Roma



Instantâneo do II Congresso da Cidadania Lusófona

Instantâneo do II Congresso da Cidadania Lusófona

A ciência da cartografia tem as suas limitações. Representar em plano a terra física, onde nascemos, lembramos e morremos, é tarefa sempre inacabada. Não sinto a ciência cartográfica fora desse esforço na beleza e no ir mais além que caracteriza tudo o que está vivo e procura caminho, seja semente de árvore, rio ou homem. E mais: este esforço de fórmulas incertas de amar o próximo. Não sei se foi isso o que animou o geógrafo galego Domingos Fontão quando concebeu a ideia de fazer a carta geométrica da Galiza nos inícios do século XIX, utilizando o método da triangulação geodésica, sistema de medição com o que já se desenhara o mapa de França, e que só se utilizaria para o conjunto do estado espanhol cento e trinta anos depois. Desde a primeira medição astronómica e geométrica da torre Berenguela da catedral de Santiago de Compostela em 1817, Domingos percorreu o pais durante dezassete anos, realizando quase todo o seu trabalho no seu tempo de folga, enquanto era diretor do observatório astronómico de Madrid, e mesmo depois teve grandes dificuldades para o poder imprimir com a escala certa, cousa que só conseguiu em Paris em 1845. A beleza do mapa de Fontão deixou uma longa esteira na literatura galega. Exemplo é a imagem de Adrião Solóvio, o protagonista do romance Arredor de si, passando a vela à frente do mapa de Fontão para alumiar os nomes da terra que ia lendo o seu tio D. Bernaldo, que, moribundo, quis assim ver por última vez a Galiza à que tinha dedicado a sua vida e o seu saber. Quando Outeiro Pedralho levou consigo o mapa aos exilados galegos no Buenos Aires dos anos 40 do século XX, quase cem anos depois, disse que sentia que levava com ele a Galiza toda.

E é que a beleza é esforço que pede a harmonia dos saberes e não deixa de fora nem o catedrático de Matemática Sublime que chegou a ser Fontão nem o velho narrador das glórias humanas, aquele que algum dia cantou as armas e os homens que fundaram Roma e outro a calada epopeia de amor das solitárias mulheres galegas. Na Sociedade de Geografia de Lisboa onde se realizou o congresso que motiva estas notas marginais também há um mapa que representa as viagens dos descobrimentos portugueses. A sala está rodeada das estátuas dos heróis que nem se sabe se voltaram do mar. E ali nos juntamos, novamente, gentes da chamada lusofonia, com as nossas heranças, as nossas narrativas e as nossas carências de homens entre a vida e a história, procurando manter no discurso aquilo que vibra em nós e de cuja continuidade nos sentimos responsáveis, porque o coração manda e nós obedecemos e o demais é ir fazendo com o que temos ou sabemos.

E ali fui eu, também, como a outros encontros à volta da lusofonia em que a Galiza é convocada, cheia das esperanças e perdas duma galega em trânsito, com a convicção de que quem anda em movimento tem de escolher muito bem o que carrega no seu fardel e com a pungente necessidade de comunicação que é sinal dos viajantes. No meu fardel, a impressão da terra física que me deu o clarão primeiro, o horizonte do mar em que nasci, a ligação à minha família, que me deu o norte do amor e o sentido da casa, o meu ofício de interpretar, relacionar e transmitir que aprendi nas aulas de filologia, e a esperança de liberdade para todos os poetas que procuram esse frágil fio da história que a todo nos ligue, intuição de cousas bem dispostas por uma ordem que nos foge mas cujo sentido, de vez em quando, conseguimos agarrar.

O mote do congresso era
“Que prioridades na cooperação lusófona?”.
Poderia chamar-se também como encontrar
fórmulas novas para problemas velhos

O mote do congresso era “Que prioridades na cooperação lusófona?”. Poderia chamar-se também como encontrar fórmulas novas para problemas velhos. Ouvi lógicas, narrativas e símbolos de estruturas estatais, de estruturas institucionais, de estruturas académicas, de estruturas associativas, e, enfim, só vi homens que procuram viver com dignidade, neste mundo nosso em que nunca encaixam as fronteiras dos territórios e as nossas múltiplas pertenças. A medida para cartografar tão extenso mundo oxalá fosse cada vida humana concreta, tão carregada de ouro como as daquelas idades que só os mitos lembram. E oxalá também estivessem os saberes ligados ao centro único do coração que se emociona e se expande, tão naturalmente como as ondas do mar ou as folhas das árvores na primavera.

Todo o discurso sobre a alteridade é, em essência, definir onde está o centro: se o centro é um nós, chamemo-lo poder, se o centro é o outro, chamemo-lo amor. Mas homem não ama sem esforço, ainda que seja o amor a sua natureza primeira. E nesse esforço está descobrir o método para chegar mais além que espero seja nesta alegoria da cidadania lusófona metáfora viageira para o simples amarás o próximo como a ti próprio. Depois de todos os discursos que ouço à volta do termo lusofonia pergunto-me o que é que permite a comunicação e não vejo que seja a língua nem a história. É antes de mais, como bem sabemos os que ensinamos línguas estrangeiras, a pura necessidade de comunicar e o conhecimento de sermos parte de um todo. E o demais são pontes para salvar obstáculos.

É condição física do viajante a consciência do peso e a sua escala mítica a procura do paraíso. É condição física do cidadão a necessidade do muro e a sua dimensão mítica a defesa. Toda construção linguística nasce dessa semente primeira. Como se constrói cidade e muros, leis e ágora, com quem se define pela viagem, não tenho a certeza. Dou em pensar que algo tem a ver com isso que se passou na história entre o peregrino que andava per agros e a construção da cidade de Compostela ou essa transformação que vai das árvores às canoas, que é a voz com que se designa as naus pelas bandas de São Tomé e Príncipe, segundo me conta o meu irmão das ilhas Mário Lopes. O conhecimento que vou tendo faz-me desconfiar de mundos perfeitos, mas se posso dar uma ajudinha aos que vou encontrando na minha vida, dou. Com tanto peso de saber que não serve os meus afetos nem a minha sede de irmandade, tomo a medida da vida humana concreta e sobre ela espero que se assente o muro da cidade que defendo. Espero um espaço não territorial que compreenda e ame os muitos territórios que em nós e com nós transitam. Necessária é a emoção, o afeto e o conhecimento positivo, a medida da nova triangulação geodésica que transforme em cartografia um território que se diz afetivo. Políticas de saúde e políticas de ensino que deem verticalidade à vida dos homens que a perderam neste mundo abrangido pela lusofonia. E espero, como Eneias perdido no mar, que as fadas venham ao encontro dos meus caminhos.

Maria Dovigo

Maria Dovigo

Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Maria Dovigo

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  • Ernesto V. Souza

    Magnífico texto… e emocionante…

    Ai, como manca, percorrer o velho e querido mapa de Fontan, enquanto fazemos vida de galegos e realmente galeguizamos o mundo por terras de longe…

  • Joám Lopes Facal

    Admirável texto, María, entre o sublime dom Domingos e as praias de Saõ Tomé. Muito grato de ter conhecido neste breve discurso, que faráiamos sem as nossas mulheres?

  • Isabel Rei Samartim

    “Só vi homens…” E havia aquele mapa, que como todos, reflete o mundo segundo lhe parece. A beleza do de Fontão era a sua precisão, o esforço no detalhe daquilo que ele considerava Galiza. Não pode dizer-se o mesmo do mapa da Sociedade de Geografia. Lembras? Uma África demasiado pequena, doada de navegar e conquistar, como se quisessem esconder o sofrimento dos navegantes e combatentes, minguando também o seu valor e coragem. Por demais, o mapa-mundi atual é assim como aquele, uma América do Norte e uma Europa exageradas de tamanho, e diminuição alarmante do tamanho do hemisfério Sul ao completo. Muita precisão, se se quer, na definição do poder. Velhos problemas e soluções novas. Isso é o que qualquer cientista procura. Que seria de nós sem a astronomia? Beijos e parabéns!

  • Lois Pérez

    Que bonito…!