RODÍZIO DE LÍNGUA

“Qual política lingüística? Desafios glotopolíticos contemporâneos” de Xoán Lagares



Há palavras que assustam. Com certeza, glotopolítica é um vocábulo que se nom der medo deve gerar certo afastamento ou rejeiçom em muitas pessoas. Porém, o termo glotopolítica é muito mais próximo de nós do que à partida pode parecer.

 O uso feminino de vozes que originalmente careciam de expressom mórfica de género como presidenta; a crítica de instituiçons autoritárias e discriminatórias, como as Academias, aos movimentos feministas pola defesa da linguagem inclusiva; ou os preconceitos lingüísticos contra pessoas por falarem línguas minorizadas ou variedades estigmatizadas socialmente som alguns dos debates glotopolíticos do quotidiano que o professor Xoán Lagares inclui no ensaio recentemente editado Qual política linguística? Desafios glotopolíticos contemporâneos.

 Desde a primeira página Lagares joga limpo, nom blefa ninguém e mostra as suas cartas afirmando que “toda sociedade é linguageira e toda prática de linguagem é social”. E é que o lingüista galego foge de perspetivas trapaceiras impostas polo estruturalismo saussureano ou o gerativismo chomskyano, para analisar o fenómeno lingüístico como um produto social e enxergar as línguas como umha construçom política ao serviço de uns interesses concretos.

 É nessa visom avançada de língua que Xoán Lagares formula o conceito de dinâmicas normativas. Conceito que aludiria às relaçons existentes entre as forças em conflito polo controlo de umha língua e com o que contribui para o desenvolvimento da sóciolingüística.

Publicado na cidade de São Paulo pola Parábola, única editora especializada em lingüística no ámbito galego-luso-brasileiro, o livro está estruturado em cinco capítulos que abordam questons glotopolíticas fundamentais como a relaçom entre a língua, Estado e mercado; as minorias lingüísticas; a padronizaçom das línguas e o ativismo lingüístico.

Numha prosa acessível, borbulham ao longo das 234 páginas exemplos de diversas realidades lingüísticas planetárias, desde a língua hipercentral às línguas periféricas, por usarmos a terminologia que o autor pega emprestada do sociolingüista francês Louis-Jean Calvet.

De um olhar crítico e sempre preocupado com os coletivos que sofrem discriminaçons, pola obra de Xoán Lagares circula a seiva do variacionismo laboviano enriquecida com o mais moderno pensamento da viçosa lingüística brasileira e coroado pola sensibilidade do estudioso que fai parte de umha comunidade lingüística minorizada, a galega, que sofre há séculos grandes preconceitos.

 “Um mundo multilíngue é um mundo mais justo” di-nos Xoán. E eu nom podo deixar de concordar com ele.

https://youtu.be/mgbJIE3XPkA

 

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal Rico (Lugo, 1982) é mestre em Filologia Galega pela Universidade da Corunha e pós-graduado em Ensino do Português como Língua Segunda e Estrangeira pela Universidade Nova de Lisboa.

Lecionou em diversas universidades brasileiras e portuguesas e na atualidade é profesor de galego na Escola Oficial de Línguas Jesus Maestro de Madrid.

É co-autor do Dicionário Visual Através (2019) e autor do conto A estória do Apalpador. O carvoeiro mágico do Courel (2011) e dos ensaios Português do Brasil. O galego tropical (2020) e Apelidos da Galiza, de Portugal e do Brasil (2021). Com Valentim Fagim coordenou o volume Remédios para o galego (2017) e com Xoán Lagares publicou a seleçom de artigos lingüísticos de Ricardo Carvalho Calero, Antologia de textos para pensarmos a língua. Umha proposta didática (2020).
Diego Bernal


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  • Venâncio

    Muito interessante, Diego, sobretudo para quem tem mais dificuldade em adquirir o livro do Xoán.

    E é bom divulgares obras da Parábola (o director dela é o entrevistador no vídeo), que é a melhor editora do momento no Brasil em matéria de reflexão linguística. Sublinhe-se que o galego Xoán Lagares se vai perfilando como um dos grandes autores neste âmbito.

    Interessante, também, constatar que, durante a hora e tal que o vídeo dura, não se ouviu uma única referência a Portugal ou a qualquer coisa relacionada com ele. Não é por acaso. O Brasil tem uma forte consciência de si mesmo, e Portugal deixou, há muito, de ser referência. Em contrapartida, falou-se muito do espanhol e do fim duma política em que ele era língua privilegiada no ensino médio brasileiro, elemento duma atitude linguística essencialmente de Esquerda.

    Do maior interesse é, por fim, verificar como a Norma é vista, nesse debate, como realidade intrinsecamente ‘polémica’, isto é, sujeita mais a reservas que a aplausos. Esse é um dado tanto mais notável quanto a Norma linguística brasileira é, ela mesma, produto duma árdua emancipação face aos usos europeus.

    • Diego Bernal

      Muito obrigado, Fernando,
      Na verdade o espanhol nunca chegou a ter sucesso no Brasil. Ao contrário do que acontece em Portugal, no Brasil há muito preconceito em relação ao espanhol por vários motivos. É engraçado ver como um congresso de espanhol cá é parecido com um congresso de galego na Galiza: arengas políticas, pessoal de esquerda, reivindicação, luta…
      Espanhol no Brasil afinal tem um sentido de integração latino-americana frente à ideologia dominante que promove o inglês e a subordinação aos EUA.
      Enfim, realidade bem diferente à galega e à portuguesa também no plano linguístico 😉