Portugal e a Galiza são constituídos por um mesmo povo, são eles um só povo?(e IV)



mapa-portugal1. Portugal é um estado, e como dizia Pierre Bourdieu no seu livro O Estado:  O estado é o único deus verdadeiro do nosso tempo; e a parte da Galiza1 que ficou sob o domínio dos povos2 castelhanos está noutro estado, sob outro deus.

2. O estado conforma o seu universo comunicacional e nacionaliza as suas populações, e desde essa perspectiva a Galiza já não funciona como mais uma parte do povo português ou galegoportuguês, e sim como eu exprimia em 1984, como uma espécie de território de fronteira.

3. Uma parte da Galiza, a que se seguiu alargando para o sul sob o nome de Portugal levou a nossa língua até o Alentejo e Algarve e polos quatro cantos do mundo, e não renunciava a unidade de todo o reino, cousa que começou já com dom Afonso Henriques, que interveio não poucas vezes a norte do Minho, e que levou a que três reis de Portugal foram proclamados reis da Galiza: Fernando I, João I, e o último do Afonso V que antes citávamos.

4. Portugal estava, no período baixo medieval e moderno, sempre com a parte da Galiza que não constituiu o reino4, presente na sua ação política, com as classes altas portuguesas com estreitos laços de parentesco com as galegas, e virando-se umas vezes para o centro peninsular e outras para o além-mar, e quase sempre combinando ambos os posicionamentos, quer para cair na órbita de Castela, quer para procurar alianças e equilíbrios que a afastassem dela, esse período concluiu com a infeliz noite filipina, em que Portugal passa a ser mais um reino senhoreado por Castela, e no qual a língua desapareceu da documentação política e da literatura, salvo a religiosa popular. Foi um período de forte contato com o castelhano, e as palavras castelhanas entraram a milhares na língua portuguesa5.

5. No 1 de dezembro de 1640 começa de novo a escrever a história por sim próprio o nobre povo lusitano. A energia e vontade do povo português, e,  sobretudo, os interesses maioritários ainda diferenciados e vivos da classe dominante, fizeram com que a independência mudasse significativamente o sentido da integração no entorno peninsular da nação portuguesa6.

6. Portugal, recuperada a sua soberania, deixa de ser uma  comunidade situada na periferia peninsular e, portanto, marginal a respeito do espaço central ou castelhano/espanhol e passa de facto a ser uma ‹‹ilha». O estado português como tal deixou de ter fronteira física com o resto da península e torna-se um todo em si próprio, o centro do seu mundo com a sua própria periferia, as suas colónias, e daí a importância não apenas económica, mas também psicológica, da sua existência para a sua independência. De outro lado, vai manter relações com as potências dominantes do momento com o fim de conservar o seu estatuto de «ilha peninsular». No campo da língua enceta-se uma política de afastamento do romance central peninsular.
Podem descrever-se episódios de Portugal relacionados com a Península Ibérica posteriormente a 1640, mas são todos aparentes, pois Portugal ainda quando se relaciona com ela, e ela era sempre Castela (não podia ser outra cousa), fazia-o de costas viradas7. Portugal virara de tal maneira as costas ao resto da península que esta (Castela-Espanha) na praxe não existia. Os portugueses concebiam o seu, como um país central, total e homogéneo, conceção promovida pola existência das suas colónias. Caso olhem para outros estados, os portugueses refletiam-se a si próprios, com apenas uma mudança de escala. Portugal podia relacionar-se com o outro estado peninsular, mas era da sua ilha.

6. Essa posição de Portugal, esse estar o país no mundo, foi um elemento consciente e permanente da política portuguesa praticamente durante os últimos trezentos anos. Porém a 1 de janeiro do ano 1985, Portugal entra no espaço económico europeu e, quase repentinamente, descobre a «inteligentsia» portuguesa que na Península Ibérica existe um parceiro, muito coladinho e muito perto, e o país deixa de ser uma «ilha». O parceiro, nessa mesma data, entrava também no mesmo espaço económico. Portugal passou a ser assim, e não apenas geograficamente, um estado peninsular, enquanto o outro estado peninsular, Castela-Espanha, que nunca teve a Portugal como um igual, senão antes bem como um acidente histórico, descobriu subitamente que Portugal existia, achava-se ao seu lado, e podia introduzir nele os seus produtos, as suas finanças, os seus meios de comunicação, as suas imagens e as suas gentes. Para o velho Portugal «centro-ilha» existiam as suas colónias e as potências dominantes, geralmente a Inglaterra, e muito menos a França, apesar do importante pouso da cultura gaulesa no país. Para esse «país de centro» a Galiza não existia, era um nome que apenas ecoava acolá longe nos tempos das origens de Portugal, sem conseguir ocultá-lo com todos os mitos e milagres criados para explicar esta; e ainda não existindo, continuava a se perceber o arrecendo à Galiza na vida popular do Norte do Douro e na Beira. O que sim existia no velho Portugal eram os galegos, que desde sempre chegavam à “ilha” e faziam desde os socalcos do Douro até qualquer duro trabalho que no país cumprisse. Faziam parte da paisagem urbana, a começar por Lisboa8. Para o velho Portugal os galegos eram uma espécie de etnia de brutos trabalhadores que falavam português à galega, quer dizer, rudemente. E ainda que sempre houve portugueses que souberam da Galiza, para a imensa maioria deles, incluída a “inteligentsia” ela não deixou de ser um mistério recluído na Espanha. A velha Castela acabara por se apropriar do nome de Espanha, e do Portugal homogéneo outra realidade resultava inconcebível.

Para o velho Portugal os galegos eram uma espécie de etnia de brutos trabalhadores que falavam português à galega, quer dizer, rudemente. E ainda que sempre houve portugueses que souberam da Galiza, para a imensa maioria deles, incluída a “inteligentsia” ela não deixou de ser um mistério recluído na Espanha.

 

7. Passados 37 anos desde 1985, hoje Portugal é um estado muito integrado na península, pode-se dizer que hoje todos os portugueses falam castelhano, a cada vez de jeito mais perfeito, e gostam de gabar-se disso a cada momento que acharem ocasião. O castelhano está muito presente até nos lares portugueses a meio dos diversos meios, e em Portugal produz-se um fascínio apavorante por Espanha9, dum jeito que não se dá em nenhum estado da Europa a respeito dum seu vizinho10.
Muitos meios estão sob controle económico espanhol, a dívida portuguesa é em grande medida espanhola, e a imagem que projetam da Espanha os meios sob o filtro e o desejo da propriedade, e bem político11. E a Espanha já está na CPLP, e não é um simples observador, que ninguém se engane.

8. A Galiza que ficou sob o controle de Castela, está hoje num estado de degradação apavorante. Para as novas gerações a língua de instalação começa a ser o castelhano, e pode vir a Galiza a funcionar mais como um aríete de castelhanizar Portugal que outra cousa.

8.  Se Portugal não é capaz de desenvolver um novo projeto nacional adequado à realidade do presente, e nesse projeto inserir a Galiza de algum modo, não olho o futuro deste nosso povo muito feliz, ainda que milagres não deixam de acontecer e sempre se albiscam esperanças, até onde menos se aguardam.

 

 

1-Com o termo Galiza, estou-me a referir, não à Galiza histórica, que ocupava a faixa ocidental peninsular e ia desde o Mar Catábrico ao Tejo, da qual o cerne era Braga e que foi quem constituiu Portugal; mas à parte da Galiza a norte do Minho, que acabou sob o domínio castelhano, porém foi quem acabou por usufruir o nome.
O Norte de Portugal não tem nome, chama-se mesmo com uma simples definição geográfica, será por ser ele o cerne da Galiza, a Galiza mesmo, tal como é Portugal todo do Tejo para cima?

2-Na Gália  há até organizações que acreditam e agem sob essa palavra de ordem como a  COMISSÃO PARA A REUNIFICAÇÃO NACIONAL DA GALIZA E PORTUGAL: 2006 (galizaunidaportugal.blogspot.com)

3-Sobre a terceira parte: Esta parte toma o essencial duma palestra minha em Lisboa em 1994.

4-O primeiro rei de Portugal Afonso Henriques, já teve muita atuação a norte do Minho, e nunca renunciou a ter aí influência e presença. Depois houve três reis de Portugal que foram proclamados reis da Galiza, Fernando I, João II e Afonso V.  O encantamento da Galiza com a união na coroa de Portugal, levou a fúria castelhana da guerra de Doma e Castração, o objetivo era banir a comunhão do povo a norte e sul.

5-Fernando Venênacio, Assim nasceu uma língua.

6-O levantamento de 1640, levou a um processo de simpatia e de anseio de união da Galiza a Portugal, mas por Portugal pronto foi percebido isso não como ajuda e sim como um problema, ao se estar falando de fronteiras que não eram as anteriormente reconhecidas do reino. Mas foram inúmeros os galegos a lutarem com Portugal e em não poucas batalhas, levas de galegos levados a lutarem contra seus irmãos, desertaram e lutaram com eles como na batalha de Montes Claros.
Na independência de Portugal foi um bom contributo a luta pela independência que, começada um bocado antes, mantinha a Catalunha.

7-A fronteira política, enquanto linha divisória, é sobretudo um filtro, e toda fronteira política é uma fronteira natural, se por natural se entender de não-fácil trespasse (não devemos esquecer que , são muito mais infranqueáveis as fronteiras políticas que quaisquer barreiras naturais). A fronteira também é a linha de contacto de dous contínuos geográficos.

8-Na Lisboa atual, 1 de cada três moradores, tem raízes na Galiza ou a norte do Minho.

9-Como o fascínio que havia na minha infância nas aldeias da Galiza por Portugal, pois era na altura Portugal a cousa mas maravilhosa em todos os sentidos que se pode imaginar.

10-Isso entanto que para os portugueses ao Norte do Minho, a Espanha garante e procura a inacesibilidade aos meios em português, aplicando a sua matraca legislativa-judicial.

11-No fim da década de 90, pouco antes de se botar a caminhar uma certa regionalização em Portugal, participei numas jornadas sobre a regioinalização de Portugal que organizara a câmara de Tomar. O texto da minha palestra, era Um Projeto nacional de futuro para Portugal. Nele explicava o porque se necessitava um projeto nacional de futuro, e porque a regionalização devia consistir em converter a Portugal em duas regiãos e como se articularia isso, e porque a importância do tamanho regional.  Também afirmava que consentir nas atuais, (naquela altura e seguem) cimeiras ibéricas e aceitar o seu desenho por Portugal, era asneira, (poderia fazer um relatório de quantos roubos e golos se tem feito a Portugal nestas cimeiras, lembrem-se do mercado unificado elétrico…). E pedia desenvolver um novo modelo de relacionamento ibérico, menos ibérico...
Inclusive fazia uma proposta bem esquisita para o auditório, de construir uma nova capital, como parte do projeto nacional.

Alexandre Banhos Campo

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