TERCEIRA PARTE

Portugal e a Galiza são constituídos por um mesmo povo, são eles um só povo?(III)



lusofonia1. A língua é a pátria verdadeira que dizia Pessoa. As línguas são as almas coletivas dos povos2, e são aquilo que por cima de qualquer outra cousa, nos faz sentir a fraternidade e comunhão duma mesma pertença3.

2.Toda a linguística mundial, exceção dos trabalhos posteriores ao ano 70, no Estado Espanhol (a Espanha -Castela/Espanha- dominadora, não dá pontada sem fio, e converter a língua da Galiza1 em modalidade regional espanhola, e travar o relacionamento com os espaços onde ela é normal, é o seu), afirmou a unidade do romance ocidental peninsular, ainda que popularmente ao português na Galiza se lhe mantenha o nome medieval e popular de galego.

3. Após a guerra de Doma e Castração (1476-1490), e o submetimento posterior a ferro e jugo, não se apagou essa unidade. Com certeza que o português da Galiza, desde o 1500 sofreu um processo de castelhanização, mas tamém desde o século XV esteve incorporando termos novos que iam aparecendo a sul do rio Minho, muitos deles ligados à expansão colonial portuguesa.

4. As repetidas candidaturas para se proclamar pela UNESCO, o pátrimónio imaterial que é comum a um lado e a outro da raia política, e que nasceram da associação transfronteiriça Ponte nas Ondas, de escolas de Portugal e da Galiza, onde constataram que tradições, expressões, jeito de olhar o mundo… é comum ao norte e sul do Minho, porém a Espanha trava, bem eficazmente esse reconhecimento, não é de admirar.

5. A fronteira de Portugal ao norte, não é mais fácil que a que tem ao leste, porém nenhuma é tão transitada.  Todos os dias há umas trocas e circulação entre a parte da Galiza que ficou submetida por Castela/Espanha e Portugal, dum jeito que no caso galego dobra as que se produzem entre essa Galiza com o resto do Estado Espanhol.
Para os galegos ir a Portugal é um pouco irem e estarem na sua própria casa. Como me dizia um dia uma vendedora na feira de Vila Real de Santo António, aqui vêm muito menos espanhóis do que se produz no norte, para os espanhóis que estão ao leste vir a Portugal é irem ao estrangeiro, os galegos não têm esse sentimento, para eles andarem por Portugal é bem natural, já fosse isto Valença ou Barcelos…

6. A língua da Galiza, o português (da Galiza), é uma língua perfeitamente normalizada no mundo, que tem a pluralidade diatópica própria das línguas estendidas por todos os continentes, é dizer própria por tanto das línguas internacionais, que ainda que não seja oficial no Estado Espanhol sim que o é na União Europeia. Mas o problema com o português da Galiza, é que no estado espanhol dá-se uma situação de reconhecimento linguístico assimétrico em que uma das línguas tem carácter oficial pleno e a outra(s) cooficial, e essa cooficialidade é regulada e limitada entanto não existe nenhuma regulação dos usos do castelhano nos territórios das outras línguas.

A língua da Galiza, o português (da Galiza), é uma língua perfeitamente normalizada no mundo, que tem a pluralidade diatópica própria das línguas estendidas por todos os continentes, é dizer própria por tanto das línguas internacionais, que ainda que não seja oficial no Estado Espanhol sim que o é na União Europeia.

7.A regulação do castelhano é o primeiro plano de qualquer política de sucesso normalizador dos usos das línguas. As políticas linguísticas em todo o momento estão intervindo nessa realidade e regulando a menorização linguística da língua(s) não oficial do estado, a que se soma o peculiar exercício interpretativo que fazem os tribunais, (não esqueçamos que no âmbito da judicatura não existe nenhum direito de uso das línguas “cooficiais”), e o próprio Tribunal Constitucional limita essa regulação, com o qual o assunto fica num exercício prometeico. Como diz o profesor Sánchez Carrion “La distorsión asimétrica consiste en el modo en que tiene una comunidad lingüística de percibir la misma situación como si fuera distinta”. Como dizíamos, o modelo espanhol é o do castelhano pleno e a outra(s) é uma língua cooficial com uma regulação em constante modificação, e se juntamos que ambas as línguas têm diferentes velocidades de circulação e penetram em âmbitos comuns mas com uma muito distinta intensidade, veremos que como consequência de isso assiste-se à constante descompactação e fracionamento dos falantes, e esse fracionamento é o mecanismo mais poderoso de menorização, ou melhor dito de que – os falantes da “língua nacional”, o castelhano, se percebam como tais.

8. No caso do português de Galiza, que dispõe de instrumentos enormemente válidos e mui produtivos para poder estar no mundo sendo ele próprio, com todas as variações diatópicas que se quiserem ressaltar, mas que não fazem mudar o discurso unitário da língua. Castela/Espanha impôs a rutura da unidade, a rutura do cordão umbilical com a língua galega internacional (o português), com a criação dum modelo de língua regional espanhola dependente do castelhano, a sua norma de correção4. Isso é um elemento chave do descompactamento da comunidade línguística e da menorização lingüística5. Daí que as alternativas de mais êxito (as únicas que podem ter sucesso na Galiza) procurem restaurar essa comunicação como elemento de viabilidade social linguística.

9. Se a história de convívio na faixa ocidental peninsular é comum, pelo menos nos dous últimos milénios6, se do ponto de vista genético somos um espaço bem homogêneo dum jeito que só se acha em espaços humanos muito isolados, etc etc, e se a nossa cultura, língua e jeito de estarmos e olharmos o mundo é basicamente comum, quer dizer que somos um povo, um único e mesmo povo7.

 

1-Com o termo Galiza, estou-me a referir, -não a Galiza histórica, que ocupava a faixa ocidental peninsular e ia desde a Mar Catábrica ao Tejo, da qual o cerne era Braga e que foi quem constituiu Portugal-; se não a parte da Galiza a norte do Minho, que acabou sob o domínio castelhano, porém foi quem acabou por usufruir o nome.

O Norte de Portugal não tem nome, chama-se mesmo com uma simples definição geográfica, será por ser ele o cerne da Galiza, a Galiza mesmo, tal como é Portugal todo do Tejo para cima? 

2-Na Gália há até organizações que acreditam e agem sob essa palavra de ordem como a  COMISSÃO PARA A REUNIFICAÇÃO NACIONAL DA GALIZA E PORTUGAL: 2006 (galizaunidaportugal.blogspot.com) 

3-Por isso é tão ativo por todo lado, as políticas linguísticas de estatalização linguística de o divide et impera, vide artigo a Estatalização linguística: Boletim da AGLP nº 12 – 2019 (academiagalega.org) 

4-As repetidas candidaturas para se proclamar pela UNESCO, o pátrimónio imaterial que é comum a um lado e a outro da raia política, e que nasceram da associação transfronteiriça Ponte nas Ondas, de escolas de Portugal e da Galiza, onde constataram que tradições, expressões, jeito de olhar o mundo… é comum ao norte e sul do Minho, porém a Espanha trava, bem eficazmente esse reconhecimento, não é de admirar.

5-As organizações políticas que defendem essa alternativa regional espanhola, além do que elas afirmem e declarem, estão inseridas no universo hispano e o seu projeto “nacionalista”, se existir, acha-se num beco sem saída.

6-E mais, se uma pessoa repara no megalitismo do noroeste e a sua especificidade e percorre o seu alcance territorial, rapidamente reparará que há um modelo caraterístico que abrange a faixa ocidenteal peninsular. Isso mostra que as nossas raízes comuns são bem profundas.

7-A grande vantagem nossa é termos uma Galiza que se chama Portugal e o seu universo, sem eles nós estaríamos nas condições dos asturo-leoneses, pouco mais que uma recordação. Por isso para os posicionamentos neocompostelanistas e regionalistas o discurso da unidade ou da reivindicação da galeguicidade portuguesa e tão desapontador, e fogem dele como diabos da água benta, Portugal para eles não existe pois não é Espanha -estado atual- e nós para eles somos uma realidade exclusivamente espanhola.


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