Por que Pedro Sánchez nos embarca em novas eleições?



Vivemos numa sociedade na que os políticos atuam cada vez mais dum jeito maquiavélico, subordinando os princípios éticos aos interesses políticos, utilizando a mentira, a distorção dos factos, a censura encoberta, a fabricação de relatos e a repressão como armas políticas, e a ética como um mero instrumento mais dessa falsificação da realidade. Se um fia do que dizem os políticos não será capaz de formar-se uma ideia clara do que acontece num país.

Outro traço da sociedade atual é a consolidação do ascenso do capital ao governo, de modo que este se converte cada vez mais num representante da oligarquia que já não se preocupa de controlar o governo por meio dos seus acólitos, dos subornos, movimentos estratégico do capital,… senão que passa a ocupá-lo diretamente sem o menor complexo. A propaganda bastará para convencer a cidadania de que estão a trabalhar no seu interesse. Isto não é difícil porque o poder mediático está também nas suas mãos, que lhe permite lavar-lhe a mente à gente para que adira à “verdade”, e destruir aos que pretendem impor outra “verdade”. O caso mais evidente nos nossos dias é o de Trump.

Quando se trata de polaridade entre dous atores muitos costumam adotar uma posição equidistantes, em base ao princípio “in médio virtus”, “in medio veritas”, (“a virtude está no meio”, “a verdade está no meio”), mas eu não creio neste termo médio nem como indicativo da virtude, nem da verdade. Quem rouba cem euros, não ressarce a sua dívida devolvendo cinquenta, senão que tem que devolver a quantidade total de cem; igualmente, a verdade obtém-se pola fidelidade total da descrição dos feitos com o que realmente acontece ou passou e não por posicionar-se em nenhum termo meio. Quero deixar claro que não são votante nem do PSOE nem de UP.

Vem esta breve introdução a propósito do que está a passar com a formação de governo por parte de Pedro Sánchez. Todo o mundo pudo ouvir como o Círculo de Empresários se manifestou publicamente sem o menor recato em prol da repetição eleitoral com a finalidade, naturalmente, de procurar um governo mais proclive aos seus interesses, nos que estão em jogo milhões de euros, por considerar que Podemos seria menos dúctil e menos maleável por pretender legislar em prol da maioria social por ter mais independência e não depender o seu financiamento das campanhas eleitorais dos favores do capital financeiro, enquanto que o PSOE, com umas dívidas financeiras importantes e dependendo, portanto, dos bancos, é mais sensível às demandas dos empresários e também muito mais proclives a ocupar cargos nas empresas uma vez que deixam a atividade de governo. A primeira consequência clara de todo isto é que não mandam os que parece que mandam, senão que quem tem o poder real são os que têm o poder econômico, e o poder político é um delegado seu, mas estão disposto a ser muito benévolos com os que se portam bem e não põem a “economia” em perigo, ofertando-lhe postos de trabalho muito bem retribuídos por fazer de lobbies “conseguidores” de contratos e favorecer que os poderes políticos legislem “sensatamente”.

O PSOE tinha a rota trilhada para formar um governo que pusesse em pratica as políticas que figuram no seu programa, mas está claro que esse programa não se quer cumprir, senão que se utiliza só como reclamo para conseguir votos que depois se põem ao serviço do que mais convenha, não aos seus votantes, senão a outros que são os que realmente mandam. Quando Pedro Sánchez negociou um governo com C’s chegou a um acordo com Rivera em tempo recorde e sem semelhantes subterfúgios como os de agora, e reservou-lhe a Pablo Iglesias o rol de bem-dizer a união entre os dous, para aplicar políticas da direita, que Rivera quantificou que recolhiam um oitenta por cento do seu programa, mesquinho para a cidadania e hostil às aspirações dos partidos independentistas. Naturalmente, UP não picou. Depois das eleições do 28A, ao negar-se Rivera a uma nova maridagem, que lhe daria a Sánchez a maioria absoluta, a única alternativa era um pacto com Podemos, mas, como não quer desairar ao poder econômico nem assumir as críticas do unionismo mais fechado por governar com os independentistas,contra os que previamente lançaram uma campanha de propaganda, injúrias e insultos desapiedada e implacável de desprestígio para demonizá-los perante a opinião pública, e, perante a possibilidade de aproveitar em próximas contendas eleitorais os reditos obtidos do apoio sem contrapartidas de Iglesias, dedicou-se a buscar pretextos para evitar formar governo atrasando qualquer negociação até os últimos segundos e evitando dar-lhe a UP o poder e a representação no governo que em justiça lhe corresponde segundo os resultados eleitorais, e impondo um veto incompreensível e antidemocrático a Pablo Iglesias, porque não é uma pessoas que esteja implicado em nenhum ilícito moral, e, portanto é um veto totalmente arbitrário que implica vetar ao próprio partido de UP. A renúncia de Pablo Iglesias a ocupar ministérios colhe-o por supressa por ser uma decisão que não esperava e só posta com a finalidade de abortar a formação de governo.

A investidura fracassou em julho, como era lógico nestas circunstâncias e com a finalidade de inviabilizar um acordo de cara à eventual formação de governo, agora dedicou-se a desdizer-se do que lhe concedera em julho a UP, reclama a monopolização total de todo o poder por parte do PSOE, apesar de não ter para isto nenhum aval da cidadania, e reserva-lhe aos de Unidas Podemos o rol de sacristães duma cerimônia que oficia o PSOE, com Pedro Sánchez de Sumo Sacerdote. Ao mesmo tempo, já leva tempo preparando um relato inventado que justifique a sua atuação de cara a novas eleições para que não seja óbice a incrementar a sua cesta de votos e, de passo, reforçar o bipartidismo e a monarquia parlamentar, por parte dos que se chamam republicanos, objetivos que também compartem com os poderes econômicos. É totalmente improcedente esta manobra por parte do PSOE porque a cidadania já votou e era factível conformar um governo e só se pretende favorecer os seus resultados eleitorais e dotar-se de sócios menos “problemáticos”, sem preocupar-lhe em absoluto o custo que isso representa para as arcas públicas, ou seja, para o dinheiro de todos os contribuintes.

No caminho fica a perda duma grande dose de ilusão da cidadania por observar que as esquerdas não são quem de pôr-se de acordo; a perda dum tempo magnífico para começar a resolver os problemas do país, do que se conclui que os políticos estão empenhados em demonstrar que eles não servem para nada e que perder um ano entre pitos e flautas sem fazer nada não se nota num país; um monto importante de dinheiro perdido inutilmente em gastos eleitorais prescindíveis; o problema que representa para qualquer votante de esquerdas pensar que os partidos aos que poderia votar quiçá não sejam capazes de pactuar tampouco no futuro; a dificuldade de apresentar aos seus votantes um relato coerente e crível sobre o que se pensa fazer no futuro e um problema de distribuição do poder territorial no estado espanhol ao que não são capazes de dar solução e só se oferece como alternativa a pura repressão. E depois queixam-se do desapego e desafeição dos nacionalistas periféricos cara a essa Espanha que proclamam única e indivisível.

Ramom Varela Punhal

Ramom Varela Punhal

Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.
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