A literatura infantil e juvenil na Galiza. Uma necessidade cultural e educativa

A autora expôs esta palestra no IX Encontro de Escritores Lingua Portuguesa de Cabo Verde



Adela Figueora no Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

Adela Figueroa no Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

Somos seres conta contos. Para os  humanos imaginar mundos é tão importante como comer. Alimentar o imaginário e alimentar o corpo, o soma e o espírito, são funções duais e inseparáveis da condição humana.

A nossa pegada neste mundo está feita de sonhos e de contos. (Para além de bastante lixo) Somos a terrível espécie da palavra que tudo invade e para toda parte caminha. Inventamos a luz do fogo para quebrar a noite e lá, no calor das fogueiras imaginamos mundos e criamos fantasias. A redor do lume fizemos o nosso lar e aí, agasalhados polo seu calor e o das pessoas que a noite escura envolve ou deitadinhos no leito, sempre as crianças gostaram de escutar o som da tribo. A referir contos que colaboravam com a transmissão cultural do grupo e afiançaram a coesão social. O ser humano é um ser social. Nunca teríamos sobrevivido se não for em grupo. Na cova Eirós, em Triacastela apareceram vestigios duma fogueira de 180.000 anos. Com certeza que a volta daquele lume ancestral contar iriam-se muitos contos e lendas.

Nos contos transmitem-se os valores morais do povo, as ensinanças necessárias para saber-mos pertencer ao grupo humano em que nascemos e as advertências para nos previr dos perigos que ameaçam a todas as crianças no seu percurso vital. Nos contos tradicionais ou  nos romances cantados as beiras das lareiras as madrastas, o lobo, o acossador de meninas, estão presentes como advertência dos perigos reconhecidos que existem no mundo. As lendas que contam a história da tribo e que rompem a transcendência do tempo foram indispensáveis para ubicar-nos sobre a terra e dar-nos hão indicações acerca de quem fomos, que somos e para onde será que podemos ir.

Neste momento os contos infantis mudaram radicalmente a respeito de gerações passadas. Já não há bruxas más nem velhas agachadas nas profundezas da floresta que atraiam as crianças para a sua casinha de chocolate. Não há pais que abandonem suas criaturas no meio do bosque. Agora os contos são amáveis, fomentam o amor as pessoas e, sobre tudo à natureza.

Algo de história

Na Galiza os contos tradicionais contados em galego ficavam ao resguardo do mundo oficial da escrita e dos livros, alumiados polas chamas das lareiras . Eu nunca li um conto galego,em criança. Sim  li para os meus três filhos. Ainda que soubesse alguns, que gostava imenso, ao escutar as estórias nas cozinhas ou entre as lavandeiras a beira do rio. Todas as minhas leituras foram de contos “ universais” escritos em castellano sem qualquer referência ao mundo galego resistente nas aldeias e no campo. Acontecia também assim nas escolas. Nunca os mestres nem as mestras se importaram com referir contos galegos em nosso idioma as crianças galegas na Galiza. Aliás isto implicaria por parte deles um exercício de investigação, uma pesquisa e uma rutura com a inercia cultural dominante.  Até a chegada da “democracia” e o reconhecimento legal da Autonomia da Galiza e da sua língua .

Segundo Blanca Roig (1):

“a literatura infanto juvenil em Galiza não existe até a década dos anos 50 em que Galaxia recupera a cultura galega e,desta época, encontramos apenas 96 obras publicadas no período de 1950 a 1979. Com a oficialidade do idioma galego e sua incorporação nas escolas a literatura infanto-juvenil mostra um incremento notável na produção. Nos primeiros tempos esta tem um objetivo utilitário, e dizer produz-se, de preferência, como material escolar  e pouco e pouco as temáticas foram diversificadas dentre elas narrativas, poesias, literatura dramática, história em quadradinhos e traduções, e atualizando-se consoante os novos modelos de sociedade  e as demandas desta. A parecem autores de qualidade notável como  Marilar Alexandre, Xavier P. Docampo, Agustín Fernández Paz ou Paco Martim, entre outros” (estes três, Prémio Nacional de Literatura de Espanha).

Xosé Neira Vilas promoveu o Prémio Arume de poesia infantil (2001) que ganha Marica Campo na sua II edição com o livro Abracadabras editado polo Castro.  Xosé Neira Vilas é bem conhecido na Galiza polo seu livro Memórias dun neno Labrego. Eu sou o Balbino, un rapaz d’aldea, como quen di un niguén. E ademais pobre”. Com estas palavras, que já são famosas no mundo da literatura galega, começa o seu livro. E Manuel Maria publica Os Soños na Gaiola ( 1978) de poesias e canções para crianças. Para mim um fato fulcral na literatura infantil e juvenil da Galiza.

Mas, com tudo a literatura galega perde leitores em relação á literatura castelhana.

Ainda hoje é muito mais fácil para uma mestra encontrar fontes de literatura infantil em castelhano do que em galego. Embora exista, na atualidade uma grandíssima produção literária infantil e juvenil na nossa língua, nas escolas é maioritária a utilização do castelhano para leituras infantis e juvenis. Ainda existindo planos da Xunta para promover as biblioteca nas escolas que envolvem o idioma galego como condição para conseguir fornecimentos destes materiais (Bibliotecas Inclusivas)

As mestras consultadas dizem que um fator importante na promoção do nosso idioma e, na sequência do livro infantil e juvenil em galego, é a TV. Na atualidade não há, apenas, banda desenhada em galego, como já fora o Xabarin Club (por exemplo). Isto faz com que as crianças não tenham seus heróis em galego mas sim em castelhano, o que reforça muito o uso desta língua por parte destas.

A cultura popular perde chance porque é feita em galego e desde a Galiza, em beneficio da cultura “española” uniformizadora e destrutora da nossa cultura tradicional.

A recolha de contos populares já foi feita no primeiro quartel do século passado, assim quanto de cancioneiros e folklore popular. Nomeadamente promovido pelos movimentos nacionalistas galegos nascidos desde princípios do século XX, como as Irmandades da Fala.  Estas  também promoviam as escolas em galego e a defesa da língua e cultura galegas. O Franquismo deu cabo de tudo este movimento de recuperação dos Saberes populares mas  ainda nos piores momentos da ditadura nunca se deixou de fazer publicações em galego, subsistindo a Editorial Galaxia, que foi promovida no mecenato do grupo “galeguista” resistente na Galiza. Também sempre houve o recurso de Portugal. Eu ia lá na procura de livros e contos para que meus filhos lessem estórias na sua língua. Algo que não estiver em castellano.

Considero que é muito importante elevar à escrita personagens e estórias que reflitam a nossa cultura própria e, mais ainda, que exista uma literatura em galego sobre contos, canções e anedotas que possam fornecer de material aos /ás mestras para afiançar a identidade de meninos e meninas galegos. Criar o respeito pelo próprio e amor ao coletivo em que nasceram e desenvolvem sua vida. Amar seus avôs e avós, suas mães e pais. Amar suas carvalheiras e rios, seus montes e ribeiras, seu mar e praias, adubado tudo em lindas estórias compreensíveis e aceites por elas. Saberem das tradições que agasalharam seus pais e mães quando eram crianças, e conhecerem seu país. Só se ama o que se conhece, e só se defende o que se ama. Este pode ser um dos objetivos da literatura infantil e juvenil. Educar no lazer, nos jogos, e nas canções no amor ao próprio e desde ele amar o universal.

As crianças gostam de música, versos rimados e imagens vistosas e coloridas. Também gostam, e muito, do humor. Fazer rir a uma criança é o prémio maior do contador de estórias. E vê-las acompanhar os cantos dum conto também o é. Ainda as crianças e jovens gostam muito dos mistérios. Saber manter a atenção da gente miúda é um repto , e mais ainda nos tempos em que vivemos de avalanche de informação que abruma à maioria das pessoas e que, para o mundo das crianças é irresistível e mesmo, diríamos que aditiva. Tudo é rápido, diverso e penetrante.

Mas os tempos próprios das nenas e dos nenos,são de natural, tempos muito demorados, Eles precisam de vagar para “digerirem” tanta informação que lhes alcança. E não há . Não há tempos para meditar, madurar e interiorizar as informações.

Por isso cá defendemos o conto, quer lido quer contado. O conto que faça com que as estórias antigas e novas passem de geração para geração. O Conto que divirta e que transmita valores morais e de esperteza. O conto que cante, que acarinhe e que arrole. O Conto que  faça rir dançar e brincar. Eu lembro muitos contos da minha infância que ouvia nos jantares para me fazerem comer ou no leito para espantar os meus medos infantis. Contos que meu pai lia nas calmas das sobre mesas, antes de irmos brincar ou dormir. Eu contei contos aos meus filhos e , também agora aos meus netos. Que incluso me ajudam a reescrever alguns que tenho feito, porque as crianças não somente gostam de ouvir, mas também de recriarem as estórias que lhes vamos referindo.

Não quero deixar de citar ao Padre Sarmiento (Fray Martin Sarmiento, ilustre vulto da ilustração “espanhola, galego de raiz e de prática literária). Na sua obra dedicada a Educação da Juventude recomenda que as primeiras letras que os meninhos galegos deveriam aprender forem em idioma galego. E que os mestres deveriam se dirigirem aos estudantes nesta língua que era a própria deles . Explicar latines em catellano para as crianças galegas, seria: “aprender ignoto per ignoto” em palavras suas.

O caso Galego

Falando com diversas livreiras disseram-me que o livro galego infantil não se vende mal. Confessavam no Faro dos Três Mundos especializado em literatura infantil e juvenil, com livrarias em Lugo, Corunha, Santiago e Vigo, que, em geral, de cada 10 livros vendidos 5 poderiam ser em galego. Mais em Lugo e Santiago menos em Corunha. Elas votavam a faltar livros que tratassem temáticas demandadas por jovens, como as aventuras e mistérios bem ilustradas, e livros interativos. Na Galiza há muitas editoriais que trabalham o livro galego para crianças, (Algar, Picarona, Patos de Peixe, Engaiolarte, Kalandraka ou a desaparecida A Nosa Terra que criara a serie dos Bolachas) mas há poucas para o livro juvenil. Também as livreiras queixam-se de que em galego, não há nada para trabalhar as diferenças , a diversidade . Em Castellano há muita literatura infantil dedicada a socializar a diferencia.  Também há uma grande carência ara tudo o que tenha a ver com as ciências (Matemática…).

Projetos são destacados como o de Maria Fumaça, que é mistura de literatura cantos e música. Criado por Uxia Senlle e sua família para abordagem da “diferencia” das pessoas com capacidades diferentes. Transcrevo desde a sua pagina:

María Fumaça é un proxecto musical de celebración da vida. Ducias de artistas cantando a alegría de vivir. Uxía, Sérgio Tannus, Magín Blanco, Isaac Palacín, Tanxarina, Carlos Blanco, o noso Ruí, Familia Domínguez Senlle e moitas amigas e amigos… viaxan nun libro-disco, con CD e DVD, no tren máis festeiro que nunca houbo nin haberá.

Falei com a Uxia Senlle a respeito deste projeto e confirmou que era um projeto familiar mas que envolveu muitos artistas. Aliás, como faz ela, em tantas ações criativas de incorporação do mundo galego na lusofonia.

Na Galiza, para alem do conflito linguístico entre o domínio do castelhano e a resistência do galego, existe também duas maneiras de escrever a nossa língua, a normativa chamada oficial feita mais ou menos a imagem da norma do castelhano, e a internacional, que bebe na tradição dos cancioneiros e é inspirada nas soluções fornecidas pelo Acordo Ortográfico, que chamamos de Galego internacional.

Livros escritos na norma internacional da língua galega há muito poucos. Mas sempre está aí Portugal para procurar literatura de todo tipo.

Através Editora que edita livros na normativa internacional para o Galego tem pouca cousa em literatura infanto- juvenil como o Nântia e a Cabrita d’Ouro de Concha Rousia. Para jovens.

Também há bastantes exemplos de auto edição e de editoriais que “permetem” algumas publicações nesta norma como era Edicions do Castro criada polo insigne Isaac Diaz Pardo. Hoje desaparecida junto com seu criador.

A Cumplicidade educativa

Para trabalhar o livro em galego não abunda com haver editoras e livrarias. Precisar-se há do concurso de pais, mães e das escolas. Estas últimas são fundamentais para a demanda de livros em galego e de temática galega. A rede de escolas infantis da Xunta A Galinha  Azul( de 0 a 3 anos) tem em suas bases que o ensino há de ser em galego na sua totalidade. Mas encontramos que em muitas delas isso não se cumpre e que os materiais escolares que utilizam nem sempre estão em galego. Por isso elas não fazem demanda que possa puxar para a produção rendível de materiais educativos em Galgo.

Isto é o que figura como indicativo para a Rede Galega de Escolas infantis:

As escolas infantís da rede “A Galiña Azul” están dirixidas a nenos e nenas con idades compreendidas entre os 3 meses e os 3 anos. Trátase dun servizo público de atención á infancia, educativo asistencial, que busca adaptarse ao concepto de familia do século XXI e permitir a conciliación da vida laboral e persoal da cidadanía galega, ao tempo que facilita a súa inserción no mercado laboral”.

Acho algo cómico o da “inserción no mercado laboral”, e sinalo como na sua apresentação o idioma galego nem se menciona.

Em geral, nas escolas públicas o uso do galego, que poderia puxar pela literatura infantil, depende em maior medida da vontade das mestras e os projetos educativos elaborados pelo centro. O uso do idioma galego é mais frequente no rural que nas vilas onde  este é praticamente inexistente. Eu tenho uma netinha de três anos que, felizmente, vai a uma escola em que o galego é o idioma generalizado. De 50 livros que as crianças da sua turma manejaram, neste inverno 40 eram em galego. (Ela adora sua escola).

Há também um modelo de escola privado que é feito na integra em galego. São as Escolas Semente, Em  Trasancos (Ferrol), Lugo, Compostela e Vigo (proximamente na Corunha). São infantários de 2 a 6 anos (agora também terão primária na categoria de internacional) com um sistema educativo baseado na natureza na auto realização na exploração e na liberdade. São seus princípios :

Coeducaçom, Laicidade, Assemblearismo, Interaçom com a natureza, Respeito pola autoregulaçom da criança Integraçom no contexto do seu bairro e da cidade.

Estas escolas sim que seriam demandantes de literatura infantil alem de outros materiais. Falando com a educadora da Semente de Lugo, conta-me que ela necessitaria livros infantis que trabalhassem as ciências (Matemática), os dinossauros ou a diversidade.

Fui  visitar esta escola em Lugo. Com criancinhas de 2 anos até 5. Cantamos, contamos e dançamos numa manhã de primavera entre o sol e as nuvens. Cloe a Amiguinha das flores, O Rei da Floresta foram as nossas estórias. Elas também  contaram as suas e desfrutaram dançando com a Sra Maria e o Sr Dom Xosé castanhas assadas e vinho com mel que dá inicio ao livro O Rei da Floresta. Gostei daquela escola, tão naturalmente em galego, com miudinhos galegos/as e na Galiza.

É importante também atender a procura de literatura por parte da franja etária da adolescência ou pre adolescência, o que se conhece como ensino secundário . Como já disse, para este público existem muito menos oferta que para os pequenos. A serie Dragall (de Edicions Xerais) o dragão Galego, de Elena Gallego iniciou uma interessante experiência que foi subscrita por bastantes escolas da Galiza até o ano 2014.

Marica Campo, reconhecida escritora galega de obra diversa que tem livros de contos para crianças e jovens (Xoel aprendeu a voar, Unha misión para Clara…) comentava-me acerca da sua experiência com os livros de literatura juvenis. Foi interessante porque visitou muitos centros de ensino onde seus livros foram postos como leitura obrigada para jovens de entre 5 e 13 anos. Ela encontra que, a aceitação da literatura galega, depende muito da orientação do professorado a respeito da língua. Se este é mais votado para a prática e respeito pelo idioma galego, os estudantes leem, comentam e discutem acerca das obras que lhes foram indicadas. Mas se os professorado não mostrarem qualquer interesse pela língua, resulta difícil estabelecer um colóquio com os jovens que se desinteressam pela leitura como se desinteressam pela língua. Nos comprovamos isto. No Colégio Fingoi, de Lugo, onde sua professora trabalhava bem com seus estudantes, a visita para falarmos do Mistério da Escada Interior resultou ótima e muito produtiva. Com intercâmbio de opiniões etc. No entanto, visitamos algum Instituto em que foi pouco menos que uma perda de tempo. O alunado não tinha sido preparado e o uso do galego por parte do professor não era comum e dialogante.

O Conflito linguístico na Galiza

Compre dizer, que na Galiza existe uma certa esquizofrenia a respeito do nosso próprio idioma. Há setores da população muito interessados em seu cultivo e defesa, mas a maioria é passiva face ao conflito linguístico em que vivemos: O domínio do castelhano sobre o idioma próprio da Galiza , o Galego, e cada vez mais evidente. O galego perde espaço  e utentes de ano após ano. Basta uma só criança a falar castelhano para que o grupo se vire completamente para essa língua. Isto acontece também entre as pessoas grandes. É um fato curioso de mimetismo linguístico ainda não bem estudado. Mas acontece .

Na Galiza também existe o problema da normativa. As editoriais em galego recebem verbas pelas suas publicações , mas somente se esta é feita na norma oficial, mimética da norma castellana. Isto faz com que recusem publicar livros em galego, na norma internacional porque para elas poderia ser um mal negocio. Nisto a Editorial Kalandraka tem feito uma aposta pelo livro galaico português que pode ser de grande interesse. Não é milagre que seja esta editorial a que alcança mais vendas em Galiza.

Admitimos que, bem programado, a literatura pode ser uma eficaz ferramenta para compensar a diglossia e a perda de utentes da Galiza. E, como não, a literatura infantil e juvenil é sem duvida um instrumento eficaz e necessário para reforçar a identidade e a cumplicidade com Galiza e sua cultura.

Para além da Academia da Língua Portuguesa na Galiza, eu pertenço a um coletivo ecologista (que cumpriu os seus 43 anos de existência) a ADEGA (Associação para a Defesa Ecológica da Galiza) e que tem diferentes projetos, Um destes é o da Educação Ambiental, com elaboração de materiais , quer para crianças quer para adultos. A Fundação Eira  faz parte deste projeto. Na sua casa celebramos a língua a cultura e o ambiente por igual. O nosso guieiro é Recuperação de Saberes Populares. São muitos os serões de Conta Contos que lá se fazem. Tradicionais galegos e também internacionais com participação de elementos vindos de Brasil, Portugal e outros países lusófonos. A literatura oral é de suma importância na criação dos vínculos afetivos e do estabelecimento das redes sociais. Sempre temos a visita do Apalpador no Natal, e de contadoras e contadores de “contos da lareira”, alguns destes já profissionalizados como Celsinho, Luis Pérez,  Alba Maria , entre outras figuras.

Em Lugo existe um movimento interessante de Cultura Oral, é o Chamado Galiza Encantada que lidera Carlos Reigosa do Museu Provincial e envolve, no encontro anual que fazem, a muitos escritoras e escritores e, como não, conta contos. Transcrevo da sua pagina: “Galicia é un país habitado por homes e mulleres de carne e óso pero tamén por seres que bulen nun mundo fantástico ou encantado, e tamén real, coma o noso… Desde 205 seguimos encantados”. Eu tenho algum conto publicado numa das suas recompilações A lenda da Ceguinha.

A questão da normativa

Nós temos comprovado que, nem para crianças nem para adultos/as a normativa representa um impedimento, pois todos os livros que temos feito são escritos na norma internacional para o galego. E todos os livros foram bem sucedidos, quer nas vendas quer na sua aceitação pelo público.

Alguns, como o Rei da Floresta ou o Mistério da Escada interior foram utilizados como livros de leitura de diferentes colégios. Outros de adultas, como Madeira de Mulher, e Atlântidae: Mulher D’Água foram escolhidos para diferentes clubes de leitura em Escolas de idiomas e associações de mulheres.

Nesta altura o problema da normativa vai virando para um entendimento entre as partes. Marca o inicio desta “entente” a publicação da Lei Paz Andrade para fomento do uso do Português na Galiza aprovada por unanimidade no Parlamento galego. Transcrebo da Wikipedia:

«A Lei nº 1/2014, do 24 de marzo, para o aproveitamento da lingua portuguesa e vínculos coa lusofonía, mais conhecida como Lei Valentín Paz-Andrade, é uma lei do Parlamento da Galiza[1]. Nascida a partir da Iniciativa Legislativa Popular Valentín Paz-Andrade, de onde se retira o nome pelo qual a lei é mais comumente conhecida, trata-se de um instrumento normativo que visa estreitar os laços da Galiza e da variedade galega da língua portuguesa com o resto de variedades da língua portuguesa e os países em que ela é oficial. A Iniciativa Popular, especialmente apoiada por setores reintegracionistas da sociedade, tem seu nome em homenagem ao economista, jurista e escritor galego Valentín Paz-Andrade, ilustre defensor da reaproximação entre a norma escrita galega e portuguesa[3].

Ao ser enviada ao Parlamento, em 2012, a iniciativa contava com 17.000 assinaturas e foi aprovada por unanimidade em 2014[4][2]

Celsa e Adela entregam alguns livros à Diretora da Biblioteca Nacional.

Celsa e Adela entregam alguns livros à Diretora da Biblioteca Nacional.

Exemplos de algumas publicações (2)

Escolhemos diversos estilos adaptados as diferentes idades. Contos cantados para pequeninhos de 2 ou três anos, teatro infantil para crianças desde 5 anos para adiante, contos para contar por um maior ou ler quando a criatura for algo mais grandeira, ou teatro juvenil para pre adolescentes .

Cloe a Amiguinha das FloresEste é um conto em verso e com canções. É para Crianças desde os 2 anos. Por meio dos versos aprende-se o nome das flores mais frequentes, como a margarida o girassol, a violeta, as rosas ou as vincas, para além das árvores foiteiras.

Pingas. Obra de teatro para crianças desde os 5 anos, com personagens malandros (os poluentes) e uns outros tenros (as gotinhas de água) que tenta falar do ciclo hidrológico para criancinhas, por médio dos risos e dos valores clássicos dos bons e dos mãos. Também pode se uma introdução a conceitos matemáticos como o grande o pequeno o ínfimo ou o infinito.

O Rei da FlorestaDesde os 4 anos em diante. É uma coletânea de contos para serem lidos ou contados. Trata de recuperar uma tradição muito antiga, na Galiza e que ficou resguardada nas montanhas dos Ancares e do Courel: A figura do Apalpador, que vem ser o Pai natal de culturas alheias, o Olenxtero do País Vasco etc. Acompanhado de versos e canções. Nas montanhas de Ourense é chamado de “Pandigueiro

O Mistério da Escada Interior. A partir de 8 anos, que é a idade que tem um dos protagonistas O Chinto. É uma obra de teatro infantil pensada para pre adolescentes que acontece na muralha de Lugo. Aproveita-se para recriar o mundo na chegada dos romanos, recuperando velhas tradições como a das lendas associadas a pedras com petróglifos, e também os jogos populares que tinham na época como a Décima Escrita, para trabalhar os números e as  letras coa gente miuda. Esta obra pode ser utilizada como simples lazer tratando de desvendar o mistério do neno romano Casio, para matemáticas, para língua, ou mesmo para cultura clássica. Ou trabalhar valores como a amizade e os afetos. Foi utilizada no Colegio Fingoi de Lugo como texto de base para língua galega.

O velho da Pena PatelaUm conto de mistério e de “medo”, no mais clássico estilo dos contos de “ aparecidos” ou contos da lareira. É dedicado a Breixo um rapaz de 13 anos que morava perto da Pena Patela em Outeiro de Rei (Lugo). Foi publicado em Brasil, Pola Free boks em versão eletrónica. De Paulo Soriano.

 

A modo de conclusão

Na Galiza o idioma galego recua face ao castelhano, case a mesma velocidade que se esvazia o mundo rural onde fora cultivado por séculos.

Os poderes públicos nada fazem de real para a preservação cultivo e promoção do galego. A literatura infanto juvenil pode ser um valioso instrumento de cultura e de promoção do idioma galego assim quanto da autoestima da população em geral. A normativa do galego internacional é pouco significativa no monto total das publicações em galego e menos ainda na literatura infantil. Compre ter-mos um acordo entre os/as escritoras para promover a literatura infantil e juvenil na norma internacional e aproximar-mo-nos mais ao português por que disso somente pode vir benefícios: Ampliação das nossas miras, internacionalização da nossa cultura e recuperação das nossas tradições.

“ Minha amiga de olhar longo

 admira-me teu passo certo

palavras após do vento

palavras contra silêncios”

 


(1) Blanca Roig (Coordenadora). Historia da Literatura Infantil e Xuvenil en Galicia. Xerais 2015

(2) Estes livros são escritos por Adela Figueroa, ilustrados por Celsa Sánchez e musicados por Xaquin Facal. Editoriais, O Castro, e Fundacion Eira.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • Paulo Soriano

    Parabéns, Adela!
    Texto de grande poder esclarecedor e imprescindível à perfeita compreensão da exata dimensão — e extensão — de nossa língua.
    Fico feliz e honrado com o seu brilho invulgar no “IX Encontro de Escritores Lingua Portuguesa de Cabo Verde”.
    Que o teu exemplo gere muitos e muitos frutos!