A voz de Pir-i-Lampo

Ser isto…ser aquilo



Somos os pacifistas, que andamos dando guerra./ Somos as feministas, que vestimos de home./ Somos os poetas eróticos, impotentes no tálamo nupcial./ Somos os sacerdotes, que nom cremos em Deus./ Somos os comunistas, mui zelosos da nossa propriedade privada./ Somos os homes —e as mulheres—. Inumanos, como cumpre à nossa humana condiçom./ Se os nossos nomes e as nossas condutas nom foram como som contradiçom, só seríamos sombras./ Mas somos realidades, e por isso somos assi, contrários do que somos. (Ricardo Carvalho Calero, in Reticências…)

 

Diogenes | John Waterhouse

Diógenes | John Waterhouse

A tradição ocidental desenvolveu-se de tal jeito que esqueceu ou deliberadamente ocultou o sentido originário da filosofia. Na atualidade a filosofia não tem nada a ver com o significado que aparece no frontispício do Oráculo de Delfos, conhece-te a ti mesmo, uma das frases mais repetidas por Sócrates. Tal e como estão as cousas podemos ser “filósofos” sem ter qualquer noção do que isto significa. E até podemos ser considerados brilhantes. O amor à sabedoria e o conhecimento de si parecem velharias e pode que, tal e como são apresentadas por alguns eruditos, assim seja. O que hoje em dia é denominado filosofia vai em contra do espírito filosófico mais próprio tanto da tradição ocidental como da oriental. Com o fim reverter esta situação surgiu há anos uma tentativa de restauração conhecida como filosofia sapiencial. Justamente para demarcar-se de aquelas atividades vinculadas à filosofia mas que carecem da aspiração, do amor à sabedoria característica da mesma, e que convertem em algo pedante, tortuoso e amiúde incompreensível o que deveria exprimir-se do jeito mais singelo e claro possível. As dificuldades estão no próprio tema de estudo e não devem complicar-se com artifícios. Nietzsche dizia que os pensadores profundos gostavam de mostrar-se superficiais enquanto que eram os superficiais os que buscavam mostrar-se profundos. Como a vida mesma. Bem, o caso é que com este texto inicio para o PGL um conjunto de artigos que espero que se prolonguem durante bastante tempo. Serão cada duas semanas e com eles gostaria de introduzir esta dimensão da filosofia sapiencial que tanto pode implicar os velhos presocráticos, Sócrates, os estoicos, estórias dos índios lakota ou as reflexões da sabedoria africana, de Pérsia ou da Índia. Quer dizer, uma dimensão global da sabedoria humana que nos ajude aqui e agora a compreender um aceso mais próprio ao nosso ser e que também nos ajude a ter uma visão mais formativa, ausente maioritariamente da cultura contemporânea. Como a distância mais curta entre nós e a verdade é um conto começarei por aí.

Deveis saber, amigos e amigas, que houve uma vez um rei que decidiu recrutar todo o conhecimento disponível. Mandou que se buscassem arquitetos, médicos, mecânicos, físicos (teóricos e práticos), espertos em computação quântica, engenheiros, biólogos e mesmo astronautas…Foi incrível a receção. Todos esses génios do conhecimento mais desenvolvido da terra estavam agora diante do rei quem perguntava polos seus sucessos, características dos seus conhecimentos, utilidades para o reino, e assim por diante. O rei sentia que agora o seu trabalho se completava. Pretendia ser um rei justo e levar o progresso ao seu reino e estava a cumprir a sua palavra. O primeiro ministro falou para o rei:

– Majestade, ainda fica por falar o velho sábio!. Não lhe perguntou nada sobre os seus conhecimentos!

– O velho sábio? Ah, sim, é certo! Que se acerque ao trono para poder ouvi-lo!

Convidado polo primeiro ministro o sábio inclinou-se gentilmente perante o rei.

– E bem, assim que és o sábio, não é?. Poderias dizer-nos em que consistem os teus conhecimentos, que utilidades podes oferecer ao reino?- falou o rei

– Majestade, todos os meus conhecimentos consistem em ser, todos os meus esforços estiveram centrados na arte de ser.

O rei estalou numa grande gargalhada.

– Ser? Insinuas que os que estamos aqui não somos?. Que os cientistas que nos acompanham carecem de ser? Porque, sinceramente, nunca ouvi maior vacuidade que essa!. Espero que isso tenha algum sentido porque do contrário terei que punir tamanha insolência.

– Majestade, só digo que a minha arte consiste em ser aquilo que realmente sou. Desconheço a sabedoria que sobre essa questão tenham os presentes mas ao longo da minha vida experimentei que os seres humanos não são aquilo que acreditam ser.

– Cada vez és mais abstruso. Que palavreado tão falacioso!. Comparado com os engenheiros e os cientistas pareces um bufão. Pensa bem: eu sou rei!. Pretendes dizer que não sou o que sou?. Pretendes dizer que não sou rei?

– Majestade, todos podemos ver que o senhor exerce como rei, que pode forçar a um velho a estar aqui a dar explicações abstrusas que ninguém pode ou quer compreender. Mas o senhor já foi mendigo?

– Mendigo eu? Pretendes ir diretamente à cadeia? Que classe de velhaco és?

– Majestade, não é a minha intenção ser insolente. Só fago o meu trabalho.

– Pois explica-te. Que queres dizer com isso de ser mendigo?

– Majestade, se do que se trata é de ser rei a condição primeira será “ser”, não é assim?

– Evidentemente

– E só depois poderemos ser isto ou aquilo

– Não necessitamos sábios para saber isso, é óbvio.

– Nesse caso também será óbvio que “ser” envolve as diferentes possibilidades e os seus contrários. Compreendemos algo a partir da oposição com aquilo que se lhe opõe. Por exemplo: macho/fêmea, par/ímpar, dia/noite. Não pensa que justamente para compreender o que significa ser rei, o seu poder e soberania, devemos fazê-lo através do seu oposto, o mendigo, que implica carência de poder e dependência.

– Não vejo que se aplique ao meu caso. Eu sou rei e nunca fui mendigo.

– Majestade, se é rei, será rei dos mendigos do seu reino, não é assim?

– Que ninguém o duvide!

– Como pode governar algo sem conhecê-lo?. Se não sabe o que é ser mendigo, como pode governá-los?

– Insinuas que não conheço as minhas funções como rei?

– Só aplico a minha ciência baseada na arte do ser. Pode que a condição de rei não seja agora plena pois acaba de reconhecer que há deficiências na realidade do seu ser. Como pode então “ser rei”?

Chegados a este ponto o rei sentiu tal ira que desejava cortar-lhe a cabeça ao sábio, pois tinha a sensação de que se tinha deixado enlear em sofismas ridículos, diante de toda a corte e diante de todos os espertos. A tensão apalpava-se, podia-se cortar com uma faca. Mas contivo-se e usando das suas dotes diplomáticas falou com gravidade.

– Para ser sincero não estou convencido de essa dialética que como um prestidigitador tira um coelho de onde não há nada. Poderia oferecer-nos uma demonstração prática do seu conhecimento de jeito que todos podamos avaliar esse saber que dizeis professar através da experiência e não de simples argúcias retóricas?

– Sem dúvida, majestade, mas tenha em conta que não podo prescindir completamente das palavras, pois são parte da minha técnica. O que sim podo fazer é oferecer um jogo.

– Um jogo?

– Sim. Não se trata de razoar. Trata-se de que a cada cousa que eu diga, a sua majestade diga “acredito”. Qualquer outra palavra que utilize e perderá o jogo.

– E pensa que com isso vai mostrar algo?. É bem fácil. Comecemos já.

– Antes preciso a garantia de que se o senhor não passa a prova eu poda deixar a corte sem represálias e baixo a sua proteção para mim, a minha família e a minha aldeia.

– Isso está feito. Mas se for ao contrário não me sinto obrigado a cumpri-la!- E deixou cair um riso cínico.

– Comecemos com o jogo -dixo o sábio.

– Estou preparado – falou o rei

– Tenho cinco mil anos e reencarnei centos de vezes. Fui um inseto, uma prostituta e um rei.

– Acredito

– Podo estar presente em vários lugares ao mesmo tempo

– Acredito

– Conheço onde se ocultam tesouros e maravilhas que fariam rico a um homem durante milhões de anos.

– Acredito.

– Viajei às estrelas e visitei outros planetas em segundos que pareceram anos.

– Acredito.

– Caminhei por mercados e cidades de todo o mundo e conheço mais pessoas que habitantes do seu reino.

– Acredito.

– Numa das viagens conheci ao seu pai e a sua mãe.

– Acredito.

– Seu pai era um vulgar proxeneta e a sua mãe uma puta dos arrabaldes.

– Prendam ao infame! Miserável traidor! Veneno das cloacas!

– Majestade, só se trata de um jogo, uma brincadeira de crianças. Mas não passou a prova!. Deve cumprir a sua palavra e deixar sair a este velho que nada tem que oferecer à corte.

E assim foi como o sábio deixou a corte do rei que se sentiu aliviado de liberar-se de tão inútil fardo. O sábio perdeu-se aginha confundido entre os mendigos. Quanto ao resto dos espertos e saberes? Bom, foram rapidamente empregados para o bem do Estado, louvados e engrandecidos com uma grande festa que durou dez dias.

Por certo que o velho se chamava Pir-i-Lampo e alguns dizem que ainda está vivo.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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  • Luis Mazás López

    Parabéns, Chíqui.