Pilar García Negro: “O expediente grave que temos entre mans é, como afirmava Ricardo Carvalho Calero, conseguir o uso do galego para tudo”



Xurxo Lobato

Xurxo Lobato

Neste 2021 cumprem-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerado língua co-oficial na Galiza, passando a ter um status legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, iremos realizar ao longo de todo o ano umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom para o futuro. Desta volta entrevistamos a escritora e sociolinguista Pilar Garcia Negro.

 

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?

Permitam-me, antes de mais, umha pontualizaçom: nom é adequado falarmos de “oficialidade” do galego e, portanto, do 40º aniversário da mesma. Tal efeméride, neste 2021, leva-nos à promulgaçom de umha lei orgânica espanhola, o “Estatuto de Autonomia da Galiza” (Abril 1981), dependente, a fortiori, da Constituiçom aprovada e promulgada em 1978. O que em ambos textos legais se permite é um regime de cooficialidade. A tal cooficialidade (verbal, terminológica) nem sequer é real, quer na sua modalidade territorial, quer como direito pessoal. E nom existe, como exercício possível, porque a supremacia da língua oficial do Estado, o espanhol, elimina de raiz qualquer possibilidade de igualdade ou de equiparaçom legal.

As melhores iniciativas (em plural) para melhorarem o status do galego nascerom (des)de abaixo, quer dizer, do mesmo povo galego organizado em diferentes porçons políticas, sindicais ou associativas. Reluzem de jeito singular a atividade, propostas, denúncias de incumprimento de mínimos legais e relaçons internacionais, da Mesa pola Normalización Lingüística. O grande paradoxo-drama é que levamos décadas acumuladas dumha actuaçom governamental-“juntística” que agita com frequência o cocktail da passividade-indiferença-hostilidade-agressom no tratamento sociopolítico da língua galega, com particular ênfase negativa na última década, onde se chegou a conceituar o galego como “barreira” ou a proibi-lo, diretamente, em várias disciplinas do temário escolar.

Reluzem de jeito singular a atividade, propostas, denúncias de incumprimento de mínimos legais e relaçons internacionais, da Mesa pola Normalización Lingüística.


Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situaçom na atualidade fosse melhor?

Várias cousas. A principal: a utilizaçom da cativa (no duplo sentido) legislaçom e competências autonómicas a prol do galego, para o fazer mais visível e audível socialmente; para ir conquistando e consolidando espaços de uso público; para lhe procurar asociaçons novas e rupturistas; para soldar sentimentos de galeguidade tradicional com pensamentos e atos de galeguidade consciente. Também mudaria táticas de sociopedagogia, que, se calhar, utilizamos com a melhor intençom mas sem a devida inteligência. E, por suposto, encareceria muito mais a necessidade dumha nova didática no ensino da língua, no ensino em geral, e na procura de usos nom redundantes ou consabidos (literatura, efemérides…).

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?

A resposta a esta pergunta bem compreendedes que ocuparia um tempo e um espaço de que nom dispomos nem vós nem eu. Em síntese apurada: do ponto de vista oficial, cumpriria fazer justamente tudo o contrário do que se fijo: cortar as constantes liçons diglóssicas; utilizar toda a megafonia da rádio e da televisom públicas para normalizar-prestigiar o idioma; programar mínimos de uso (incrementáveis de ano em ano) no ensino regrado, em todas as disciplinas e níveis; generalizar o uso do galego em todas as instituiçons públicas e em todas as competências; associar cada euro público ao uso da língua previsto como tal (de jeito clamoroso nos meios de comunicaçom, mas, igualmente, em contratos, nóminas, subvençons, subsídios de todo tipo, patrocínios…); converter, enfim, o assunto do idioma galego em assunto político de primeira ordem, sempre em aliança e colaboraçom estreita com todas as entidades sociais e de base ativas no trabalho de normalizaçom da língua galega.

Cumpriria fazer justamente tudo o contrário do que se fijo: cortar as constantes liçons diglóssicas; utilizar toda a megafonia da rádio e da televisom públicas para normalizar-prestigiar o idioma; programar mínimos de uso (incrementáveis de ano em ano) no ensino regrado, em todas as disciplinas e níveis; generalizar o uso do galego em todas as instituiçons públicas e em todas as competências; associar cada euro público ao uso da língua previsto como tal.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

Neste ponto som partidária do seguinte. Umha “injeçom” constante e mantida, entre nós, de textos em português, em qualquer das suas nacionalidades de procedência e no sentido mais amplo de “textos”: literários, científicos, jornalísticos, radiais, televisivos, artísticos, musicais, audiovisuais, cinematográficos. Tal estratégia visa familiarizar-nos devidamente com o nosso consanguíneo e devera ir acompanhada dumha campanha “diplomática” igualmente constante e sustida no tempo de introduçom e promoçom da produçom cultural galega em Portugal e demais países de língua portuguesa. Temos (algumhas, alguns) idade dabondo como para lembrarmo-nos de um relacionamento Galiza-Portugal (e vice versa) –a despeito de pretensos progressos e “desaparecimento” de fronteiras– muito mais fluído e intenso há décadas (tardofranquismo incluído). Assemade, som partidária de o galego incorporar (nom vetar, portanto, nem limitar) todas aquelas formas lexicais e fraseológicas que o português pudo desenvolver modernamente e que ajudem a galeguizar o próprio galego e a limpá-lo dos elementos contaminantes procedentes da língua oficial do Estado, o espanhol, tam naturalizados na fala galega atual.

Som partidária dumha “injeçom” constante e mantida, entre nós, de textos em português, em qualquer das suas nacionalidades de procedência e no sentido mais amplo de “textos”: literários, científicos, jornalísticos, radiais, televisivos, artísticos, musicais, audiovisuais, cinematográficos.

Tudo isto leva ou levará tempo. Nom existem os automatismos nem a magia. Por isso falamos de açom continuada no tempo, vinculada ao reconhecimento de povos, de naçons com direito a sermo-lo, nom como porçons de Estados ou de um mundo global que nos nega. Cuido que o proposto arriba é mais importante e efetivo que o denominado binormativismo. De por parte, cumpriria definir bem os objetivos da nossa luta linguística, da nossa atividade e da nossa propaganda. Por exemplo: para definir o português (europeu e/ou mundial) como variedade internacional do galego, precisaria-se que este, para começar, existisse como matriz, como genética daquel seu desenvolvimento histórico e territorial, quer dizer, que exista como sujeito linguístico reconhecido como tal e identificador dumha naçom chamada Galiza e dum povo e umha sociedade galegos. Se nom, movemo-nos no terreno do simbólico (desprovido de conteúdo real), na compensaçom verbal ou na satisfaçom por umha assunçom retórica. O exemplo mais claro, por cínico, temo-lo na utilizaçom das bondades da “lusofonia” por parte de autoridades autonómicas ou a mençom dumha lei como a Paz Andrade que é umha enteléquia sem desenvolver normativamente nem aplicar.

20200520_202945De por parte, cuido que por vezes se aplica à língua umha série abusiva de metonímias: a conversom dela em gramática, a da gramática em ortografia e a da ortografia em código normativo. Quero significar com isto que a imagem gráfica tem toda a importância para a própria identidade dumha língua, mas nom é a língua. A nossa, a galega, deve melhorar muitíssimo em recuperaçom de vocabulário genuíno perdido; em adopçom de formas históricas adaptáveis; em muito maior conhecimento da produçom escrita-literária; em diálogo, por suposto, com as outras variedades do sistema. Som todas as subestruturas da língua as que cumpre desespanholizar, limpar de aderências espúrias: a fonética-fonologia; a morfossintaxe; a semántica-lexical. Tudo o que for típico galego (com tal de que seja galego, nom castrapo, claro está) nom deve ser rejeitado se nom coincidir com outros padrons do comum sistema. A ninguém sensato se lhe ocorreria proscrever formas-fórmulas familiares ao português do Brasil ou de Angola polo facto de nom existirem em Portugal, como ninguém excluirá formas habituais do espanhol da Argentina ou de qualquer outro lugar do mundo por nom coincidirem com as castelhanas ou espanholas. Neste painel de línguas de amplíssima territorialidade, cumpre incluir onde corresponde o galego, no seu sistema histórico-genético-tipológico, o galego-português, e reconhece-lo como tal, como matriz do mesmo, nom como crioulo ou “fotocópia” ruim das variantes com Estado detrás. Para fazer certa esta pertença, é preciso, como necessidade premente e urgente, fortalecer o próprio galego.

Tudo o que for típico galego (com tal de que seja galego, nom castrapo, claro está) nom deve ser rejeitado se nom coincidir com outros padrons do comum sistema.

Em resumo: ou agimos para frenar a acelerada míngua do galego no seu uso tradicional e para o normalizar em todos os âmbitos de que falta, com particular ênfase na necessidade de o fazer visível na escrita, ou inscrevemo-nos num mantimento biográfico-endogâmico que nada soluciona, por estático e sem efeito multiplicador. Escuso aclarar que chamo GALEGO (oral, escrito) a qualquer das suas possibilidades territoriais. Ora bem, em metáfora biológica, que as filhas ou filhos (o português no país vizinho e no mundo) vivam normalmente, com todas as prestaçons que umha língua deve possuir, nom soluciona per se, por milagre ou magia, que a mãe (o galego) tenha boa qualidade de vida. Insisto, é metáfora: as línguas nom vivem ou morrem. Usam-se ou desusam-se e finam (residualizam-se ou ritualizam-se).

O expediente grave que temos entre maos é, como afirmava com a sua proverbial sapiência Ricardo Carvalho Calero, conseguir o uso do galego para tudo. Para o galego viver, deve sobreviver, se o sintetizamos de novo com palavras suas. Eu, que del fum aluna e por el considerada discípula, partilho umha posiçom ao respeito como a por el explicada e expressada em tantas ocasions, sempre atenta, nas suas innovaçons, à receptividade social, a umha boa didática sociopolítica e cultural e, desde logo, à admisom, em livre existência, de todas as modalidades de galego, algo, por certo, que pratica com toda a naturalidade o único jornal existente em galego, o diário Nós, que fai um ano neste início de 2021 e que recolhe, com invejável equanimidade, manifestaçons bem variadas do debate linguístico.

[Este texto foi adaptado ortograficamente polo PGL com o permisso da autora. As suas respostas foram remetidas o dia 2/01/2021]


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  • Arturo Novo

    Com certeza, uma língua é muito mais que a sua ortografia. Mas se concordamos em que devemos desbotar do galego toda classe de castelhanismos, por que tantas reticências a mudar a ortografia do galego-castelhano pola do galego-português? Se a ortografia carece da importância que nos querem dar a entender, por que tanta resistência para mudá-la?

    • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

      No fundo e na superfície, porque o português é língua estrangeira e porque a gente galega não quer nem parecer estrangeira em EspaÑa, quer dizer, em “Galicia”.

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Se vestes de pailão, a gente considera-te; se vestes como pessoa de bem, a gente acabará tomando-te como pessoa de bem.
    Se vestes farda militar, a gente à partida considerar-te-á militar …
    A grafia é a farda da língua. Se a grafia do galego está tomada do castelhano, a gente galega, mas nacional espaÑola, acabará, acaba adotando o original castelhano, sobretudo porque assim demonstra que é española. Mais?