Pam, ‘pam’; norma lusitana, ‘norma lusitana’!



«O livro utiliza o Acordo Ortográfico», «eu escrevo no Acordo Ortográfico» ouve-se e lê-se com freqüência desde há algum tempo nos círculos reintegracionistas quando o respetivo falante ou redator se está a referir em exlusivo à norma lusitana, ao modelo de língua (escrita) do galego-português surgido e regulado em Portugal para codificar a variedade lusitana da nossa língua. É esta, com efeito, umha norma que umha parte do movimento reintegracionista utiliza na Galiza para plasmar (por escrito) a língua galego-portuguesa. Dessa plasmaçom, desse modelo, fam parte grafias, formas verbais, traços morfológicos e sintáticos, elementos lexicais… A outra norma utilizada por reintegracionistas galegos é, claro, a norma galega da AGAL, progressivamente estabelecida e regulada pola Comissom Lingüística da AGAL para codificar a variedade galega do galego-português, porque já a norma brasileira, polo seu considerável afastamento geográfico, morfossintático e lexical da variedade galega da língua, nom tem sido objeto, em geral, de aproveitamento codificador por parte do reintegracionismo galego. Para além dessas duas normas —umha, a lusitana, surgida e institucionalmente regulada fora da Galiza, e outra, a galega da AGAL, surgida e institucionalmente regulada na Galiza—, nom há, nos usos lingüísticos hodiernos do reintegracionismo galego, mais normas, mas, antes, polimorfas tentativas individualmente improvisadas e ensaiadas que, em diferentes proporçons, combinam traços da norma lusitana e traços da norma galega da AGAL [1], umha vez que a Academia Galega da Língua Portuguesa, que poderia ser chamada a produzir umha segunda norma reintegracionista da variedade galega do galego-português, a tal tem renunciado de facto e de iure (essa possibilidade nom é prevista nos seus atuais estatutos) [2].

Neste contexto, é correto designarmos a norma lusitana como (norma do) Acordo Ortográfico (da língua portuguesa, ou galego-portuguesa, de 1990)? Clara e absolutamente, nom! Para entendermos esta rotunda negaçom, tenhamos em conta, em primeiro lugar, que, além de afetar a norma lusitana, o AO também foi incorporado, em cada caso com as suas particularidades, à norma brasileira e à norma galega da AGAL (a esta, através do documento codificador de abril de 2010 intitulado Atualizaçom da Normativa Ortográfica da CL-AGAL conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, publicado como suplemento do número 99/100 da Agália e também disponibilizado em PDF no espaço internético da CL-AGAL), norma na qual, de facto, o AO já está a ser aplicado (neste texto, por exemplo!).

Que a mera referência ao AO nom serve, na Galiza, para designar a norma lusitana, frente à norma galega da AGAL (e frente à norma brasileira), é algo que todo o mundo deve entender. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é, como di a sua denominaçom, unicamente ortográfico, e nom vem a alterar qualquer aspeto prosódico, morfológico, morfossintático ou lexical de cada variedade da língua galego-portuguesa. A CL-AGAL pensa que vale a pena configurar umha norma galega da língua galego-portuguesa, que reflita as particularidades prosódicas, morfológicas e lexicais do galego comum, da variedade galega da língua, polo que a convergência do padrom galego da AGAL com o padrom lusitano (e com o brasileiro) suscitada pola aplicaçom do AO tem, necessária e convenientemente, um limite. Tal convergência é ortográfica, mas nom prosódica, nem morfológica, nem lexical. Observemos, a este respeito, o seguinte exemplo:

  • Norma galega da AGAL: Os escaravelhos estabelecêrom-se ativamente na horta, o seu ganha-pam, e, sem oposiçom, dérom cabo dela.
  • Norma lusitana: Os besouros estabeleceram-se ativamente na horta, o seu ganha-pão, e, sem oposição, deram cabo dela.
  • Norma brasileira: Os besouros se estabeleceram ativamente na horta, seu ganha-pão, e, sem oposição, deram cabo dela.

Neste exemplo, os três enunciados, cada um correspondente a umha norma ou variedade nacional do galego-português, estám escritos em AO, ou seja, utilizam a mesma ortografia (neste exemplo, o AO véu a unificar a escrita da palavra ativamente, que antes era escrita assim no Brasil, mas com c, activamente, nas normas lusitana e galega da AGAL). Todavia, os enunciados nom som idênticos, claro, porque o padrom de cada variedade nacional continua a refletir com naturalidade as legítimas particularidades do ámbito respetivo: particularidades prosódicas (Pt. [+ Gz.] facto, Br. fato), particularidades morfológicas (distinçom na variedade galega entre as terminaçons –ám, –om e –ao [pam, oposiçom, irmao], frente à confluência em lusitano e brasileiro na terminaçom –ão, pronunciada [ãw] [pão, oposição, irmão]; distinçom na variedade galega entre o pretérito perfeito estabelecêrom e o pretérito mais-que-perfeito estabeleceram, frente à confluência formal em lusitano e brasileiro [estabeleceram]), particularidades morfossintáticas (colocaçom do pronome átono na norma brasileira contrastante com a própria dos padrons galego e lusitano: ela se foi, face a ela foi-se; freqüente elisom na norma brasileira do artigo a anteceder o possessivo: seu ganha-pão, face à soluçom galega e lusitana o seu ~) e particularidades lexicais (no nosso exemplo, os coleópteros som designados na Galiza, em conjunto, mediante a voz escaravelhos, enquanto que, nas normas lusitana e brasileira, eles, em conjunto, costumam ser designados por besouros [3]).

Por conseguinte, a mera referência ao AO nom delimita o uso na Galiza da norma lusitana frente à norma galega da AGAL. O AO restringe-se a questons ortográficas e, na prática comunicativa, tem pouca incidência (grupos consonánticos, uso do hífen, alguns casos de acentuaçom…). Dizer de um texto escrito em galego-português que segue o AO é dizer bem pouco, é como referir umha determinada especialidade culinária, um dado prato, aludindo exclusivamente à natureza da sua guarniçom: é um prato com salada (e nom com patacas, ou legumes, por exemplo), sim, mas ficamos sem saber se se trata de peixe, de carne ou de caça, ou seja, se o texto corresponde à norma galega, à lusitana ou à brasileira!

Como explica o parecer recentemente publicado pola CL-AGAL no seu Consultório, refletirmos na escrita da variedade galega do galego-português a distinçom que nela se regista entre as terminaçons –ám, –om e –ao é natural, e um forçamento esbatermos na escrita do galego esse traço morfológico mediante a utilizaçom constante da terminaçom –ão. Introduzirmos esse forçamento na escrita do galego, procurando umha maior confluência com o lusitano e com o brasileiro, poderá ser julgado conveniente por alguns reintegracionistas, já agora ou num futuro de maior consciência social na Galiza da unidade lingüística galego-portuguesa, mas, em todo o caso, trata-se de um alvitre codificador que, em contra do que algumhas pessoas, com atitude ingénua ou interesseira, proclamam, nom está intrinsicamente vinculado à aplicaçom do AO à norma galega. E, cingindo-nos àquilo que nos temos de cingir quando de ortografia se fala, devemos observar que a aplicaçom do AO à norma galega da AGAL se revela impecável, até porque, na confluência ortográfica com as outras vertentes da língua, ela, nalgum caso, vai mesmo além do que alcança a aplicaçom do AO nas normas lusitana e brasileira: assim, no capítulo dos grupos consonánticos, quando em lusitano e/ou brasileiro som admitidas, em cada norma, duas soluçons (o que poderia ter sido evitado!), a norma galega da AGAL seleciona a forma comum a essas duas vertentes da língua (ex.: AO-Pt. infetar, AO-Br. infetar/infectar, AO-Gz. infetar) [4].

Por que causa, entom, é hoje tam freqüente ouvirmos em círculos reintegracionistas referirem-se as pessoas à norma lusitana, com exclusom da norma galega da AGAL (e da norma brasileira), como (norma do) Acordo Ortográfico? Por ignoráncia ou falta de reflexom, claramente, nalguns casos; por eufemismo, noutros casos. Nom será preciso explicar aqui por que cabe qualificarmos, nestas circunstáncias, de uso eufemístico essa denominaçom, AO, mas sim, porventura, se revelará esclarecedor relatar, para findarmos este artigo, umha experiência pessoal. Há já bastantes anos publiquei na AGAL um dicionário de zoologia. Como o meu público-alvo principal fosse constituído por galegos, compugem a introduçom e as definiçons da obra, naturalmente, na norma galega (o que nom foi empecilho para o dicionário ter desfrutado de umha cómoda receçom em Portugal e no Brasil). Há dous anos concluim um novo dicionário de zoologia e desejei publicá-lo em Portugal, de modo que o seu público-alvo principal (mas nom exclusivo!) fosse constituído por portugueses, polo que redigim a introduçom e as definiçons, naturalmente, na norma lusitana do galego-português, e já com o AO. Infelizmente, a crise económica e o volume da obra figérom com que nom conseguisse achar editora para este dicionário em Portugal. Provei sorte, entom, no Brasil. O dicionário que enviei ao Brasil estava escrito, polo que à introduçom e às definiçons di respeito, na norma lusitana com AO, e a receçom foi, felizmente, ótima: em breve sairá dos prelos da Editora da Universidade de São Paulo. No entanto, a minha obra nom será publicada no Brasil exatamente como eu a enviei, mas sim um tanto retocada, porque, por muito que ela tivesse sido escrita seguindo o AO (a guarniçom do prato!), a sua base normativa original (a base do prato!) era lusitana, e nom brasileira!

NOTAS

  1. Pola inconveniente (e injusta) ideia de caos expressivo reintegracionista que podem transmitir entre o público galego, é claro que se devem evitar estes modelos de galego individualmente improvisados, como recomenda a Comissom Lingüística da AGAL num dos seus últimos pareceres publicados no Consultório da CL-AGAL.
  2. Isto, na prática, significa que a Academia Galega da Língua Portuguesa renuncia a que na Galiza se configure um padrom galego da língua galego-portuguesa, que assinale a existência na Galiza de umha variedade nacional da pluricêntrica língua (galego-)portuguesa (a qual já apresenta duas variedades nacionais consolidadas, a lusitana e a brasileira), advogando, portanto, o uso na Galiza, nos ámbitos formais, da norma (morfológica, sintática, lexical…) lusitana.
  3. O vocábulo galego, muito próximo, abesouro, na codificaçom lexical da variedade galega efetuada pola CL-AGAL (em O Modelo Lexical Galego), é declarado elemento dialetal sinónimo da voz supradialetal abelhom.
  4. É verdade que numha questom ortográfica a adaptaçom do AO efetuada pola CL-AGAL nom prioriza a confluência com o lusitano e com o brasileiro: a manutençom na norma galega da AGAL do trema (ausente agora em lusitano e em brasileiro). No entanto, para tal decisom nom falta umha razom de peso, como é o aspeto pedagógico (difusom na Galiza da correta realizaçom fónica de palavras como questom [em que o u nom deve ser proferido] e tranqüilo [o u deve ser proferido]), e, em todo o caso, este particularismo ortográfico tem algum correlato na norma brasileira (na qual, ainda com a aplicaçom do AO, a palavra húmido continua a escrever-se, por tradiçom, como úmido, sem o agá etimológico presente nas normas lusitana e galega).

 

Carlos Garrido

Carlos Garrido

Estudioso da língua especializada, lexicógrafo e tradutor científico, Carlos Garrido (Ourense, 1967) é professor titular de traduçom técnico-científica na Universidade de Vigo e autor, entre outras obras, do Manual de Galego Científico (2000 e 2011) e de Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom (2011). Desde 2009 é presidente da Comissom Lingüística da AGAL.
Carlos Garrido

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  • Joám Lopes Facal

    Magnífica liçom, Carlos. Obrigado pola claridade conceptual e o respeito aos dados da realidade socio-lingüística.
    Na irmandade reintagracionista reina, afortunadamente, a toleráncia e cabe a experimentaçom, contodo, nom seria óptimo especializar a AGAL na promoçom da SUA norma específica e reservar para a AGLP o cultivo e promoçon do formato internacional? Seria bom explicitar preferências sen excluir a “dobre militáncia”; trabalhamos para o galego do futuro e o futuro das espécies, como tu bem sabes, professor, premia a adaptabilidade e castiga a inovaciom prematura. Forte abraço

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Inovação “prematura”? Pff: eu diria passada de data, mas ainda necessária. Enfim, teimas.

  • madeiradeuz

    Como tenho dito em público e privado, acredito na plena vigência da
    norma da AGAL (mesmo não sendo utente dela nos meus usos pessoais), mas
    também acredito que não pode ser alheia às práticas maioritárias (ou
    cada vez mais frequentes) das pessoas reintegracionistas galegas. Neste senso, julgo inevitável (e aliás desejável) uma maior convergência no médio prazo.

    Embora a história, a filologia e a pedagogia são poderosas razões que justificam que o galego possa escrever «cançom» e não «canção» ou «capitám» e não «capitão», cuido que a própria via dos factos, exemplos noutras latitudes e sobretudo o cada vez maior conhecimento do reintegracionismo dentro da sociedade galega acabarão por tornar secundárias as tais justificações e darão carta de natureza ao -ão em todos os casos.

    Provavelmente a acentuação e morfologia diferente dos pretéritos seja um ponto um bocadinho mais insalvável, pois desfaz ambiguidades bastante frequentes (para um galego não é o mesmo dizer «papá, morderam-nos» do que «papá, mordêrom-nos»). Também pode ser um bocado difícil socializar a morfologia portuguesa dos verbos irregulares (pus/pujo, esteve/estivo, fez/fijo~fizo, vi/vim… e ainda o ambíguo «eu/ele disse», que pode ser «eu dixem» ou «ele dixo»).

    Mas bom, tudo será passinho e passinho e serão (seremos) as pessoas reintegracionistas galegas a marcarem (marcarmos) os usos e os tempos da convergência. Seja como for, sempre deverá feito com a tolerância (tal e qual disse o Joám Facal) como bandeira da causa.

    • Ricard Gil

      E digo eu nom há um só reintegracionista que admita a nossa intrínseca escrita castelhana? ?
      Por apostar no futuro eu por exemplo escolho escrever em brasileiro porque a grande maioria dos filmes e seriados que assisto seguem essa norma ( tam afastada da lusitana que mesmo podemos falar de dous sistemas) . Além disso bem eu tampouco direi que há problema em grafar sistematicamente ão desde que conheçamos bem o português

      • madeiradeuz

        Não percebi bem a tua pergunta, Ricardo…

      • Zé de Oíncio

        A norma padrão do português no Brasil não está tão afastada doutras normas. Já agora dentro do Brasil no existe “uma variante nacional”, aliás existem muitas variantes, como acontece em Portugal e na Galiza. As “normas-Estado” têm pouco a ver com a realidade da língua. Infelizmente, Estados, políticos e funcionários públicos parece que adoram “normas-Estado”.

        • Ricard Gil

          Desculpe a demora em responder senhor , estava na Irlanda ( onde a situaçom do gaélico é infelizmente muito pior , como exemplo nos livros para aprender o idioma próprio recomenda-se Falar com CRIANÇAS!! por estarem alfabetizadas na língua) Bem , como sempre repito eu esteve morando 10 meses com brasileiros em Coimbra e sempre comentavam as dificuldades que tinham por causa da ortografia e estamos a falar do ano 2011-2012 , aliás rejeitavam lêr em Português de Portugal (algúns dos portugueses chamavam o brasileiro pejorativamente de pretoguês e diziam que era outra língua) Eu sempre recomendo lêr Marcos Bagno e a sua Gramática Pedagógica do Português Brasileiro , desculpem se teimo na ortografia , porque se calhar leva você razom , mas por muito que a ortografia tente disfarçar , as diferências fam com que escrever em galego ou português ou brasileiro dá nas vistas e nom tem a ver com mania de norma-estado como algúns lá comentaram/comentárom , mas com realidades psico e socio-linguísticas

          • Zé de Oíncio

            Ricardo Gil, ignorantes tem em todo lugar. Imagine ter “dificuldades… por causa da ortografia e estamos a falar do ano 2011-2012 , aliás rejeitavam lêr em Português de Portugal (algúns dos portugueses chamavam o brasileiro pejorativamente de pretoguês e diziam que era outra língua”.
            Com certeza, que além de ignorância deve ser má intenção e preconceito, pois esses mesmos se iriam vangloriar de ler ou balbuciar algumas palavras em francês, inglês ou alemão.
            A espanholada faz o mesmo com as outras línguas ibéricas: afirmam não entende-las para que lhes falem em “castelhano”.
            Desculpe, mas não existe o “brasileiro’ e sim muitas variantes dialetais no Brasil. Marcos Bagno vende uma ideia que ele almeja porém não é real.

  • Venâncio

    Muito bom artigo, caro Carlos.

    Como saberás, sou frontalmente oposto ao AO90, que considero um mau instrumento. Ao erigir, e bem, a pronúncia culta como primeiro critério da ortografia, ele renega estupidamente esse princípio na grafia agora oficializada em Portugal. (É muito difícil explicar isto a galegos e brasileiros, e eu já desisti de o tentar…).

    Facto é que tu, dentro da lógica reintegracionista, fazes a única opção inteligente.

  • Venâncio

    Dou só uma pequena ideia da inadequação do AO90 à pronúncia portuguesa.

    Diferentemente do galego e do brasileiro, o português europeu distingue duas pronúncias do A. Isto é, uma e outra pronúncia criam palavras (!) diferentes. Dito doutro modo, é uma distinção com valor fonológico. Assim, distinguimos, na sonoridade, “más” de “mas”, “pára” de “para”, “pagámos” de “pagamos”, e todas as centenas de casos semelhantes de verbos em -ar.

    Os brasileiros e os galegos, que têm outro sistema fonológico, não precisam de tais distinções gráficas (e poderiam, coerentemente, eliminar também a grafia “más”…).

    Também a eliminação das consoantes mudas «c» e «p» em português europeu é medida de pura insanidade, já que elas têm (diferentemente do galego e do brasileiro) uma função indicadora (e por vezes distintiva) da sonoridade da vogal átona precedente. “Coacção” não soa como “coação”… e tantos outros casos.

    Moral da história: o unitarismo ortográfico é o último refúgio dos loucos.

    • Marcos Celeiro

      O unitarismo ortográfico num Estado é o refúgio dos loucos mais perigosos de todos: os ultra-nacionalistas exaltados ao mais puro estilo salazarista. Amais do isolacionismo no âmbito internacional, leva consigo a UNIFORMIZAÇÃO das falas e das variantes, impondo a «norma culta» que quatro ignorantes elaboram fechados num quarto.

      • Marcos Celeiro

        Um exemplo? Pois lá vai: confundir uma representação ortográfica unificada («estabeleceram-se») com a existência de «normas nacionais» (galega, lusa, e brasileira neste artigo) que negam (e proibem, e não ensinam, e consideram erro) as realizações nas falas brasileiras e portuguesas com a terminação -OM para esse tempo verbal (establecerom-se) numa uniformização cara a «norma nacional».

      • Venâncio

        Inteiramente de acordo. Folgo por tropeçar com almas gémeas.

        • Marcos Celeiro

          Pois não parece. Não sei se os alentejanos padecem qualquer disfunção mental que não lhes permite diferenciar uma vogal fechada duma aberta sem uma marca gráfica. A realidade indica que não, pois sabem diferenciar «eu como» (ô) e «tu comes» (ó). Se calhar o problema é de hábito, e não é tal problema, pois hoje sabem pronunciar «filosofia» apesar do supostamente catastrófico abandono do «philosophia». Ainda aceitando a burrice alentejana, o que faria precisa essa marca gráfica, se não lembro mal nesta língua a apertura das vogais não se marca com «consoantes mudas», senão com acentos gráficos.

          Todos sabemos qual é realmente o problema de fundo: querer dar a ortografia um caráter simbólico de identidade nacional. Assim os isolacionistas ao sul do Minho defendem com unhas e dentes os CÇ, PÇ, PT, etc como MARCA ORTOGRÁFICA SIMBÓLICA NACIONAL, e os issolacionistas agálicos de aquém Minho o ÇOM, MH, etc. Também os isolacionistas galegos fizeram «carambolas» para que a sua neolíngua se neo-ortografara à espanhola, mas com o «ï» nalguns verbos como marca diferenciadora do castelhano.

          Desde critérios estritamente linguísticos, um alentejano não precisa ler o C de COACÇÃO para saber ler a palavra, nem um compostelano precisa do H de UMHA para saber ler a palavra, mas ambos reivindicam essa marca gráfica SIMBÓLICA desde critérios linguísticos desnecessária, para criar «incompatibilidade» entre a sua ortografia e a ortografia de outras nações que falam a mesma língua, e assim pretendem «dar visibilidade» a que essa nação existe. Bom, sem falar do negócio dos «conversores de incompatibilidades», pois curiosamente os «adaptadores da norma brasileira para a portuguesa» do negócio editorial são o lobby anti-acordista por excelência.

          Se calhar, em vez de tanto fetiche ortográfico e tanta caralhada, seria bom que se procurasse dar visibilidade a essa nação no âmbito internacional da língua por outras vias. Por exemplo, um tal Mário Herrero, com literatura galeguíssima (e universal ao mesmo tempo) vem de ganhar um certame literário…

          A estratégia reintegracionista dalguns é encerrar-se no seu gueto a masturbar-se com o fetiche ortográfico. Logo vão de manife de «Queremos Galego» com a tropa do ene tildado defenderem políticas linguísticas anti-reintegracionistas, reacionárias e demonstradamente fracassadas (PXNL, Decretiño linguístico do BNG, sistema cultural a golpe de subvenção xunteira,…).

          Evidentemente, cada quem é livre de fazer o que lhe peta, ora bem, também não «contar milongas»: a Comissom Linguística da AGAL não assume, nem em filosofia nem em forma o AO1990, assim que não digamos que existe qualquer «adaptaçom» ao AO, o que existe é uma mudança arbitrária e unilateral de critérios gráficos copiando parcialmente aquilo que o AO define. A norma ortográfica da AGAL não é já uma norma provisória de transição, porque a norma ortográfica cara a qual se queria transitar já está aqui (para bem e para mal) e hoje é uma reminiscência do passado desnecessária à qual se aferram algumas pessoas por relações pessoais afetivas com ela, é compreensível. Ora bem, não é aceitável que num cenário, queiramos ou não é PÓS-ACORDO, se assobie e olhe para o céu e se viva fazendo como se estivéssemos no cenário PRÉ-ACORDO com uma ortografia brasileira, outra portuguesa e outra galega, jogando a confundir ortografia, norma, e estilo formal. Se em vez de tanto esforço investido em trapalhadas e anacronismos, se investisse em contribuir ativamente no CENÁRIO ATUAL REAL cara a normalização da Galiza no seu espaço linguístico e no afiançamento de relações entre pessoas com a mesma língua, talvez nos iria melhor.

          Bom, a alternativa é continuardes outros 30 anos a esfregar-vos no vosso fetiche, sem dúvida mais sexualmente excitante… 😀

          • Venâncio

            Que pena, Marcos, que um fulano prendado, como tu, leia tão mal o que se escreve. Vou tentar explicar – te alguma coisa, neste horrível ‘tablet’ em que te escrevo de Lisboa.

            Um português distingue entre “Nós compramos” (hoje) e “Nós comprámos” (ontem). Não há aí nada de nacionalismo, percebes? Há o simples direito de continuarmos a escrever de modo que nós nos entendamos. Continuas a seguir-me? Como existem centenas de verbos nesta situação, imaginas que não é uma birra nossa… ou achas que é?

            Como esse exemplo verbal, há outros, muitos, de variada espécie. Espécie sonora, meu, ‘nacionalista’ o caralho, percebeste?

          • Marcos Celeiro

            O que tinha pra dizer, já o disse. Corto e fecho.

            (Desfrutem com o fetiche. Desfrutem com o fetiche.)

          • Venâncio

            E quanto a como/comes… devias preocupar-te com esses neofalantes de galego que não produzem uma única metafonia, que não usam uma vez adequadamente um futuro conjuntivo, que não empregam jamais um infinito pessoal. Deixa os portugueses com anseios que não atinges, nem a isso és obrigado.

            E agora vou ‘jogar’ o Santo António nas ruas de Lisboa, o que nunca fiz nos últimos 70 anos… Tem juízo, sim?

          • Zé de Oíncio

            Deve ser mesmo burrice lusitana/alentejana porque no inglês não precisam de marcas gráficas para saber pronunciar as palavras ou entender-se entra as pessoas de diferentes países e variantes.

          • Venâncio

            Zé,

            Em certa vida anterior, já combinámos que tu me respeitarias um nadinha mais. Vejo que te esqueceste dos teus bons propósitos, e que continuas o mesmo brutamontes. Assim não dá, mano.

          • Zé de Oíncio

            Apenas saliento que algumas culturas, como as nações britânicas, não precisam de “bengalas” para saber pronunciar uma palavra e outros, como no seu caso, parece que precisam.
            Se é burrice, fetiche para masturbação ou afeto pessoal a ortografias que cada um aprendeu na escola, não me interessa.
            Estou sendo objetivo, não se faça de vítima!

          • Venâncio

            Não sou vítima. Sou linguista. Talvez percebas a diferença.

  • João

    Há muita coisas com que discordo, caro Carlos. Em primeiro, na identificação de “norma lusitana= AO90”. Há norma lusitana sem Acordo, e mesmo que receio que só haja norma lusitana sem Acordo. Precisamente o Acordo, em teoria, pretende criar uma norma comum, e daí que já não haja (ou não devesse haver) mais “norma lusitana” nem “norma brasileira”. Que o não tenha conseguido, já é farinha de outro saco, e precisamente uma das críticas mais demolidoras, no aspecto da coerência interna, que se lhe possam fazer. Hoje em dia em Portugal, e já nem se diga em Angola, Moçambique etc., a norma que as pessoas utilizam é a anterior ao famigerado Acordo, sistematicamente rejeitado em todos os países em que se pretende implementar. É essa a única norma lusitana que se pode chamar de tal. E, que eu saiba, há apenas um galego que a utilize, que sou eu. Estive há pouco na entrega do prémio de poesia Glória de Sant’Anna ao poeta Mário Herrero e fiquei surpreendido ao ver que ele ficava surpreendido de que todas as pessoas que participaram no acto fossem contra o Acordo. Penso que os galegos temos uma relação demasiado teórica ou demasiado “mediatizada” (pelos “media”) da actual situação do assunto no conjunto da Lusofonia. O AO é uma norma que utilizam apenas as instituições, não as pessoas. Não sei se este divórcio vos lembra alguma outra situação normativa delirante… Parece que vamos exportar para a Lusofonia precisamente as páginas mais gloriosas da nossa linguística normativa. Se é que existe alguma outra nestes pagos. Porque outra das confusões que parece que exportamos é a de norma linguística e norma ortográfica (que é o que pretende ser apenas o AO, e nem consegue, dada a duplicidade de formas que grassa por ele, não sei se isto vos lembra também alguma coisa). O uso ou não uso de artigo à frente dos possessivos nada tem a ver com o AO. Nem sequer no Brasil é “normativa” a sua ausência (antes de copiar os seus modos ortográficos foneticistas, podiam deixar-se contagiar um pouco, e só um pouco, de uma certa lassitude normativa que os caracteriza, ou pelo menos da sua falta de “obsessão normaitva”, que é o que sempre pareceu caracterizar a filologia galega de todas as laias e agora a portuguesa). No Brasil simplesmente pode-se escusar o uso do artigo, mas na mesma pode aparecer também. O mesmo, embora em menor medida, para a colocação do pronome (ou então Machado de Assis, e mesmo Vinicius, de quem me vêm vários exemplos à memória, a vantagem de pôr musica à literatura) não são autores brasileiros, mas portugueses. Mas insisto, nada disso tem a ver com AO. Item mais, se, como se pretende, vai existir a partir de agora uma “Norma Galega AO”, “Norma Portuguesa AO”, Norma Brasileira AO”, ao lado, é claro, das suas correspondentes “Norma Galega antes de AO”, “Norma Portuguesa antes de AO” e “Norma Brasileira antes de AO”, para além das consecutivas normas galegas não reintegracionistas, mas que, pela mesma lógica da aceitação do AO por ser “oficial”, deveríamos aceitar. Se seguirmos assim, daqui a pouco o português vai ser a primeira língua do mundo que tenha mais normas que utentes. Por favor, todos os dias, antes de sairmos de casa, certifiquemo-nos de termo-nos dado um bom banho de realismo. Falemos em coisas que existem. Existe o português do Brasil real, existe o português real do resto da lusofonia, existe o AO, não vou negar, como textos sem alma, existe uma mixórdia não menos teórica chamada de “Norma Galega Oficial” e existe o crioulo real de castelhano e português que ouço e falo no meu dia-a-dia. Por favor, não inventem mais coisas, que já há invenções a mais em todo este assunto. E aliás, não sei o que adianta “unificar” a enésima norma galega com a norma brasileira em assuntos tão “sofisticados” como a simplificação dos grupos cultos, quando se mantém diferenças bem elementares (como os finais nasais) que tornam impraticável qualquer unificação. Bom, e haveria ainda muito mais que falar…

    • Venâncio

      O João diz algumas coisas muito acertadas.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Caro João, eu não fiquei surpreendido. Sinto ter(-te) dado essa impressão. Conheço perfeitamente essa oposição. É normal. Compreendo-a. É esperável, mesmo lógica. E a determinadas idades, mais. Todos somos conservadores e temos medo à mudança, mesmo aqueles que se sonham progressistas. Há muitas pessoas na Galiza que não são reintegracionistas porque é difícil re-aprender a escrever, implica um trabalho que não estão dispostas a realizar… porque conhecem perfeitamente as normas escritas do castelhano e é apenas aplicá-las ao galego. São conservadores nesse sentido. Vivemos no mundo do fácil… E eu vou também ao fácil, para mim é muito mais fácil escrever em AO. Eu marco a diferença de outras múltiplas formas. Textualidade. Ir além do superficial, dos significantes. Suponho que sou um reacionário por isso. Piores cousas me têm chamado na vida. Maiores imbecilidades tenho lido e ouvido na minha vida, também é certo. Saúde. Não intervirei mais neste fio, não quero que o Gerardo vença uma aposta.

      • Venâncio

        Todo o artigo do Carlos se destina a mostrar que “escrever em AO” nada significa.

        Não sei se sabes, Carlos, mas tal expressão só tem uso na Galiza…

        *

        Eu aguardo o dia em que alguns galegos (por exemplo o comentarista anterior) vão descobrir quanto as Normas gramaticais do Galego normativo e do Português europeu estão, hoje, mais próximas entre si do que as do Português brasileiro e do Português europeu.

        • Zé de Oíncio

          <>
          Pronto, eu sou galego que mora no Brasil e apenas quero dizer que a assertiva anterior é falsa.

          • Venâncio

            Pronto, o arquitecto (a tua profissão, não é?) falou.

          • Zé de Oíncio

            O teu “argumento de autoridade” é ridículo. Este não é um confronto entre linguistas vs. outras profissões.
            Já agora, nem a língua é dos linguistas nem tu és a voz dos linguistas, nem mesmo dos lusitanos.

          • Venâncio

            “Argumento de autoridade”? Então eu não investigo, não publico, não tenho o ‘contraditório’ dos meus colegas? Tu achas que só escrevo aqui e no ‘face’? Em que mundo mental vives tu, pá?

          • Zé de Oíncio

            Tudo bem! Desejo-lhe sorte e espero que o senhor receba o prêmio Nobel por todas as suas pesquisas e publicações!
            Ainda bem que muitos outros colegas linguistas pensam diferente do senhor…

          • Louredo

            Non é preciso vivir no Brasil para saber que a asertiva é verdadeira. A túa percepción non ten base científica

          • Zé de Oíncio

            É apenas resultado da observação empírica ao conviver 365 dias ao ano com brasileiros e também de conversas com amigos brasileiros gramáticos e linguistas.
            O que não tem base científica é a tua afirmação e menos BASE CIENTÍFICA tem o castrapo ou “galeÑol” no que tu escreves!

  • Marcos Celeiro

    Se o âmbito duma norma (há quem joga a confundir «convênios ortográficos» com «convênios de linguagem formal» para definir «norma») se define com critérios políticos, eu não quero nem normas «lusitanas» nem «galizanas», eu quero a norma da minha freguesia! Viva a norma vila-velhesa!

    Para mim tão alheia e opressora é a «norma lisboeta» (merda, nem chega a portuguesa!!!) como a norma paulista (merda, nem a brasileira alcança!!!) como a norma compostelana. A doença estatolátrica dalguns é tão grave que até para um país nas circunstâncias da Galiza se adore a «Norma-Estado».

    Por muito nh que leve, o isolacionismo é isolacionismo, e por desgraça, vejo que no fundo continua instalado nele. Artigos «ao redor de si», que não levam cara nenhures, estão a criar-me sérias dúvidas sob a minha condição de sócio da AGAL.

    • Jlvalinha Jlvalinha

      Ao meu ver a chamada norma AGAL e a chamada norma lusitana som a mesma norma… eu posso escrever essa norma com mais ou menos peculiaridades galegas (-om, formas verbais…) dependendo do contexto. Sei que a minha pronúncia habitual “nom”, pode ser grafada nom ou não. Emprego uma ou outra consoante me parecer mais oportuno. Sei que as formas verbais que me som familiares -dixo, soubo, tivem…- têm variantes empregues noutros países em que se fala a minha língua -disse, houve, tive…- conheço léxico exclusivo da Galiza, léxico do Brasil, de Portugal… mas nom vejo essa oposiçom tam ferrenha entre norma AGAL e lusitana. Na minha opiniom som a mesma norma e, como nom estudei na Galiza, essa é a única norma galega que domino porque tal é a única que aprendi. A Escrevo e leio como sei…
      Quanto ao AO, nom o emprego porque, baseado na pronúncia culta da língua, como nom sei qual é a pronúncia culta galega porque nom se acabou de definir uma ortofonia p ola AGAL ou pola AGLP , nom posso empregá-lo e para andar copiando o AO à portuguesa ou à brasileira prefiro esperar..

    • Zé de Oíncio

      É mesmo uma “doença estatolátrica”: os Estados estão na moda desde há 200 anos.
      A norma padrão do português no Brasil não está tão afastada doutras normas. Já agora dentro do Brasil no existe “uma variante nacional”, aliás existem muitas variantes, como acontece em Portugal e na Galiza.
      As “normas-Estado” que todos pretendem criar, porque parece que não têm o que fazer, têm pouco a ver com a realidade da língua e das falas. Infelizmente, Estados, políticos e funcionários públicos parece que adoram “normas-Estado”. Acredito que deveríamos lutar por diminuir o peso do fardo dos Estados.
      O problema do Brasil, como acontece noutros países latinos, é a péssima qualidade do ensino público junto a ideologias linguísticas que pouco se preocupam com a qualidade — segundo eles, falar bem é das elites — o importante agora é “o que o povo fala” segundo predica um novo “esquerdismo infantil” cada dia mais espalhado.

      • Carlos Alberto De Souza

        Epa caro Zé! Trabalho em sala de aula e a realidade aqui no Recife não é tão drástica como estás a pintar!
        O Brasil é maior que a Europa e infelizmente há distritos, cidades, vilas e várias outras localidades onde o ensino é precário e os “representantes/responsáveis” pelo educar, visam apenas lucrar com o dinheiro destinado a Educação.
        “Quem não junta espalha”. Em todo canto, Galiza, Portugal, África, Brasil, Timor Leste, há quem lute por um ensino/aprendizagem digno, gratuito e expansivo, como os que estão no barco apenas para fazer número e peso.

        • Zé de Oíncio

          Sei que existem e existirão pessoas e funcionários, como no seu caso, que ensinarão da melhor maneira possível. Isso nem sempre é um problema de dinheiro senão de atitude.
          Contudo, o nível de português da população é baixo — muito mais baixo que o nível de alemão na Alemanha, por exemplo — e organismos públicos e empresas privadas têm que incluir “prova de português” nos seus processos de seleção.
          A minha crítica pretendia ser construtiva.

  • Joám Lopes Facal

    Instalar-se em A ou B é tam legítimo como inoperante, transitar de A para B, além de mais difícil, é umha dinámica colectiva e consensual. No percurso, nom som de muita ajuda os maos modos nem a estridência de quem possui o roteiro verdadeiro. Persoalmente prefiro o oferecido por Carlos Garrido, nom perde de vista os pontos cardinais e ademais procede mediante pesquisa e argumentaçom. Nascim galego, isso é tudo.

  • Venâncio

    Aos galegos que nos afirmam “Eu escrevo em AO”, importa perguntar-lhes: “Pois, mas em qual AO escreves?”

    Para facilitar-lhes a eles a resposta, aqui vai um textozinho meu, publicado há um ano numa rede social. Encontro-o alojado aqui:

    m.facebook.com/paraportuguesler/posts/639802892721484

    • Venâncio

      Escusado dizer que nenhum ‘acordista’ se deu por achado. O fanatismo, mesmo em amigos nossos, não aceita esse acto humilhante de… parar e pensar.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Que maçada de tema e que obsessão inútil com desprestigiar outrem em termos de B.I. Que se a AGLP está vendida ao estrangeiro, que se não é “galega”… A nota 2 a rodapé, por exemplo, é um sem-sentido, além de irrelevante. A AGLP não é um organismo “nacional”.

    É evidente, exceto para uma pessoa fanática, que a norma da AGAL não é a do AO. Nesse acordo, não se contempla a palavra “umha”. Não se diz que a variação ditongo – monotongo final nasal em inúmeras palavras da língua (coração / coraçom, vamos) e m inúmeras variedades dela se possa escrever segundo a pronúncia local ou “nacional”. E assim por diante.

    A norma ortográfica da AGAL é a norma ortográfica da AGAL. Fantástico. É galega, exatamente igual que a adatação do AO à escrita galega por pessoas galegas é galega. Eu não escrevo “lusitano”, nem sequer sei o que é isso. É triste que, com todo o que choveu, se utilize o mesmo argumento do ILG quando afirma que a própria escrita AGAL não é galego.

    Em resumo: a norma da AGAL não é o AO, nem é a sua expressão galega. Seria-o se escrevesse “uma” e “coração”, mesmo se também escrevesse “digem”, “nengum” (como palavras teóricamente diferentes) e, obviamente, “escaravelho”, que não tem nada a ver com o assunto.

  • Marcos Celeiro

    Só mais uma cousa: substituam no artigo «lusitana» por «europeia» ou «continental» e aperceberão o absurdo.

  • luiz

    Colo aqui o comentario que fiz em diarioliberdade:

    Sinceramente, vaia flipada.
    A norma do Acordo é …. a norma do acordo.
    Saiu no Diario da República publicada por se a queres ver. Tem esse nome e é a que é.
    Se
    não queres não a utilizes, mas por ” adequar” a norma AGAL aos
    elementos que vós considereis que aceitais da norma comum nem por isso
    passa a ser comum.

    Norma comum implica que se reunem pessoas de países diferentes e acordam e depois adotam o que “em comum” decidiram.

    Vós
    para fazer a norma AGAL ou as suas modificações não chamais a
    brasileiros, angolanos, portugueses, etc. por isso o que dis neste
    artigo é simplesmente uma flipada persoal, e desculpa que o diga assim.

    A
    norma do Acordo foi discutida por pessoas de todos os países (acho que
    só faltou Timor que na altura andava com outras prioridades) incluídas
    pessoas da Galiza, incluídos nessa nossa delegação vultos como Ernesto
    guerra da Cal, Marinhas e Carvalho que apoiaram desde cá.

    Eu não tento convencer-te de nada, mas não gosto de ouvir cousas distorcidas, enrevesadas e sinceramente raras raras.
    se não gostas não utilizes.
    Eu
    até gosto da norma AGAL para utilizar em depende que contextos. Mas
    vejo que neste artigo não sei com quem estas enfadado mas vê-se
    irritabilidade, não sei meu, relaxa e disfruta. Os lusistas ou
    reintegratas ou como queiras estamos ganhando. disfruta de tudo que já
    conseguimos e de todo o que está por vir. Disfruta
    Eu pessoalmente
    utilizo apesar de não gostar totalmente, mas é assim quando se põem
    coisas em comum, cede-se um pouquinho do teu e aceitam um pouquinho do
    teu. Vai disso.

  • luiz

    Aproveito para comentar mais um pouco, visto todos os coments que há feitos falam de mais cousas:

    Porque não deixar esta linha de pensamento estranha que propõe o artigo e pôr-se a trabalhar AGAL, AGLP e quem quiser e souber disso de mãos dadas em pensar uma NURC (norma urbana culta) como fizeram os brasileiros, mas a respeito de mofossintaxe, fonética, etc.

    A minha opinião é que pela parte ortográfica estamos com suficientes ferramentas e, finalmente, respeitos mútuos.
    (quem quiser AO, pronto, AO, quem quiser AGAL, pronto, AGAL)
    Mas há muita coisa pra fazer a respeito de que escolhas preferentes, que não excludentes de morfologia, lexico, sintaxe, etc…..

    • Venâncio

      Luiz: esta sua última afirmação faz todo o sentido. Eis uma tarefa para a Agal.

      Mas onde Você se engana é ao falar em “NORMA DO ACORDO”. Não existe nenhuma ‘norma do Acordo’… Leia a ligação no meu último comentário. Continua a haver uma importante diversidade ortográfica (!) entre o Brasil e Portugal. O AO, ele mesmo, veio criar novas divergências, como já foi suficientemente demonstrado.

      Quanto mais alguns galegos persistirem em negar essa diversidade, mais põem a ridículo a sua própria causa. Mas, no fundo, é lá com eles. Há quem prefira ser insignificante.

      • Venâncio

        Falo só de mim, e é injusto. Outros portugueses mais bem-apetrechados (António Emiliano, Francisco Miguel Valada) já desmontaram impiedosamente, em livros e artigos, o AO90, pondo a nu as suas incríveis fragilidades.

        • Joám Lopes Facal

          Falo por mim, naturalmente. A minha estreita concordáncia com Carlos Garrido e as recomendaçons da CL-AGAL é manifesta. Assi e todo, gostaria explicitar o meu desacordo com a supressom dos grupos consonánticos etimológicos (-ct-, -pt- etc.) tam naturais para um galego letrado (todos nós), ou inglês, ou francês… sob a hipótese da sua alegada mudez. Persoalmente as pronuncio e afirmo a sua persistência na fala popular mesmo nas suas formas vocalizadas (auto/acto, pauto/pacto, etc). Que é um arcaismo? na Galiza nom e de qualquer modo um maravilhoso arcaísmo a conservar. Como consequência, opino que a “revissom AO” da norma AGAL é supérflua e, seguramente, instável. Nom sei o que opinarám os mestres deste Portal, tam doutos/doctos como numerosos mas é bom que contem com esta dissidência, talvez mais ampla do que esta opiniom persoal sugira.

          • Venâncio

            Em linguagem processual, Joám, dizemos “as alegações”. A língua é preguiceira? Boa!

          • Louredo

            Non é un arcaísmo, é o noso ensino en castellano

          • ranhadoiro

            Louredo, o povo galego é tão inteligente que posto a usar o castelhano está optando pelo castelhano simples que lhe apreendem, e agradece sempre o esforço (subliminal) dos que parabenizam isso de um modo ou de outro.
            Que trabalhão termos de apreender a nossa língua bem, quando o estado se encarrega, e bem, de que apreendamos a língua que vale e é a verdadeira, o castelhano

            http://oque.gal/55/porque-galega-aparece-nenhum-documento-nenhum-escrito-galego

  • Venâncio

    Caros amigos,

    Para um historiador do idioma, poucas coisas são tão fascinantes como o encantamento, a autêntica adoração, em que alguns galegos vivem do ditongo ão. E porque é fascinante? Porque esse ditongo é uma invenção lisboeta e, mais ainda, a sua omnipresença nas língua dos portugueses (e depois na dos brasileiros) deve-se a um processo antigalego. Parece léria? Pois bem, não é.

    Recuemos a uma época algures por volta de 1350. Onde os mesetinos diziam ‘no son tan sanos’. galegos e portugueses diziam, e escreviam, nom som tam saos. Nesta última palavra, havia 2 sílabas, e o ‘a’ era levemente nasalizado.

    Essa era a grafia dominante na época, e tenha-se em atenção que as edições portuguesas, de séculos seguintes, tendem a projectar, indevidamente, grafias posteriores.

    O conjunto ao rapidamente se ditongou em ão. As distinções nortenhas om e am começaram a confundir os lisboetas (Esperança Cardeira explica isso bem), e eles cada vez as misturavam mais. E assim pam (olá, Carlos) passou a pronunciar-se pão, com esse ditongo novo, chique e lisboeta, e o mesmo aconteceu a nom, que passou a soar não. Deste modo, os lisboetas, uniformizando as três terminações numa só, distinguiam-se dos usos do Norte.

    Hoje, alguns galegos sonham com importar para a Galiza um processo desgaleguizador. E o historiador do idioma olha para isso com a sábia conclusão de que a loucura tomou conta deste Mundo.

    • ranhadoiro

      eu fico fascinado com estes debates, nos que sempre apreendo algo, mas o Fernando Venâncio é português, cousa que acho magnífica, e nós na Galiza estamos troquelados pela forma (imposta ambientalmente de Castela/espanha, a pesar nosso) que é uma cousa tão distinta de Portugal em tudo, que os portugueses crendo que é um estado como o seu, nadinha entendem, e claro não nos entendem, pois falamos em universos paralelos.
      Fernando olha uma cousa distinta da que lhe amossam e o mesmo passa ao contrário

      • Venâncio

        Olá, Ranhadoiro.

        Eu não creio (mas ardentemente o desejo) que a Galiza seja um Estado como é o meu. Mas estamos aqui a falar de factos de língua. Fiquemos neles, para já.

        Existem no reintegracionismo duas propostas. Uma propõe que se grafe “nom som tam saos”, a outra propõe “não são tão sãos”. O oficialismo propõe “non son tan sans”.

        Pergunto: qual delas te parece galega? E porquê?

        E assim também eu vou aprendendo alguma coisa… 😉

        P.S.
        Eu contei detidamente a longa e interessante história do ditongo “ão”, numa revista galega. Não digo qual, pois isso ofenderia algumas virgens vestais.

        • Venâncio

          Há umas semanas, ergueu-se em Portugal uma briga pública (multiplicada nas redes sociais…), porque o presidente da República, num discurso, falou em «cidadões».

          O público não sabe História da língua. Mas qualquer conhecedor dela compreende que, uma vez abandonadas formas como capitám e cidadao (tornadas “capitão” e “cidadão”), as suas formas plurais se tornaram problemáticas, já que o habitual é o plural etimológico em “ões” (canções, razões, ilusões).

          Como saber, pois, qual o plural daquelas formas? Desde há séculos que existem gramáticas dando esta indicação: Veja-se como é em espanhol (mostro isso no meu artigo). E assim já se sabe que deve dizer-se «capitães» (como ‘capitanes’) e «cidadãos» (como ‘ciudadanos’).

          É esta humilhação que alguns galegos desejam introduzir na Galiza?

          Quem vai ficar muito feliz com uma Galiza ‘lisboeta’ é o Reino de España.

          • Joám Lopes Facal

            Respeitado amigo Venâncio, as tuas agudas e descontraídas intervençons em PGL som sempre elementos para a reflexom, potenciados ainda pola habitual irritaçom que despertam.
            Desde os esclarecedores artigos “Uma proposta portuguesa para o léxico galego” e “O indesejado ditongo ão”, publicados em Grial, acho que as posiçons por ti defendidas som congruentes com as de Carlos Garrido e de Freixeiro Mato e, em geral, com a mais estrita ortodoxia reintegracionista.
            Este amador do português, praticante por conviçom do galego reintegrado, acha que a tua implicaçom manifesta no debate reintegracionista é umha clara prova da tua adscripçom ao movimento. Só o reiterado e acrítico tributo ao formato institucionalizado do galego actual é o que mim me surpreende quando a tua posiçom, e talvez vocaçom implícita, seja a de exercitar um papel transacional e mediador como o desempenhado em forma exemplar por Rodrigues Lapa.
            Se a música que interpretas tem para mim tam excelente qualidade, porquê é que a letra que percebo resulta tam dissonante, amigo reintegracionista?

          • Venâncio

            Caro Joám,

            Compreendo inteiramente a questão que expões, e ela já me foi exposta de vários modos, nos últimos 12 anos de conversa que levo convosco, não raro com uma destemperada alusão aos meus “amigos isolacionistas”. Parece-vos haver uma incoerência no desabrimento que dedico ao radicalismo lusista e na tolerância com que poupo os círculos linguísticos autonomistas.

            A primeira coisa que devo dizer-te é que não divido os galegos em “bons” e “maus”. E a segunda é que considero o teu galego e o galego oficialista, um e outro, formas do meu idioma.

            Conheces o meu mantra: «Provai-me que jeitinho e xeitiño pertencem a idiomas diferentes». Não, não é a ortografia o que distingue idiomas, mas a vontade política. Só e só ela. Um dia, que já não virá longe, os brasileiros decidirão que o seu idioma não é “português”, e então irão chamar-lhe outra coisa. O comum dos mortais vai erguer brados d’alma, mas o historiador sabe que as leis da política e as dos idiomas não coincidem.

            Eu já contei por aqui um episódio autêntico, mas não resisto a repeti-lo. Numa conversa no estrangeiro com um prócere do oficialismo galego mais oficial, falávamos sobre quem domina, na expressão falada, o galego e o português. Perguntei-lhe eu: «E conheces portugueses que falam galego?» Nessa altura, ele olhou-me, e de tal modo que eu pediria à terra que me tragasse.

            Outro episódio. Há dias, em Lisboa, falava eu com um conhecido (talvez o mais conhecido) ensaísta cultural português, sobre o meu interesse pelo galego. Qual não é a minha surpresa ao ouvir-lhe dizer, com a maior naturalidade, que os galegos falam a mesma língua que nós… Não foi o primeiro nem o segundo de portugueses influentes que assim se exprimiram comigo. Não o dizem em público? É pena. O outro, o galego, também não no faz.

            Ora bem: o processo de lisboetização do galego às mãos de certo reintegracionismo vem frustrar, frontalmente, um reconhecimento na cena pública que eu acho possível, em que laboro, e que seria incomparavelmente mais vantajoso (além de espectacular), de serem “galego” e “português” (e, um dia, “brasileio”) nomes históricos para o mesmo idioma. E é por isso que a lisboetização do galego tem de ser denunciada, aqui, onde algumas das suas potenciais vítimas nos lêem.

            Para mim, caríssimo Joám, o fundamental é esse reconhecimento, o reconhecimento público, explícito, de que, por cima das nossas exóticas ortografias (e, para um brasileiro, a grafia que de nós herdou é cada dia mais exótica…), nos exprimimos na mesma língua.

          • Louredo

            Rodrigues Lapa propuña que a forma culta do galego debía ser o portugués, portanto a disolución da variadade galega na do sur do Miño

          • Joám Lopes Facal

            Certo, mas também é verdade que naquela altura o único paradigma do galego era o muito pragmático de Editorial Galáxia e o interlocutor consagrado Ramom Pinheiro.
            Hoje existe um sólido, embora minoritário, movimento reintegracionista, e umha consciência difusa e geral de que o português é o sócio ou referência imprescindível do galego.
            O diálogo GZ PT está por abrir e seriam bem vindos precursores e arautos da tarefa pendente

          • Louredo

            Se un pensa que o portugués é a norma culta, ou a base dela, poderíanse introducir as pronuncias nasais. Mais compensa esta diglosia ao estilo andaluz? penso que non. Alén diso -om non obstaculiza a comunicación. Ora ben lémbrome un meu amigo portugués que se sentía incómodo coa norma AGAL (habituado a ler galego). Sobre todo nos aspectos léxicos cultos: “cando leo galego penso no significado en castellano e entendo, mais nesta norma non sei se as palabras teñen o sentido castellano ou portugués”. Non propoño nada, só informo, Alguén estudou en serio os problemas de comprensión dos textos galegos para portugueses?

          • Venâncio

            Louredo: em princípio, um português não tem dificuldade nenhuma em ler a Norma Agal. Deve, sim, ter em conta que o galego tem formas verbais próprias:

            dades (dais)
            sodes (sois)
            andaches (andaste)
            dea (dê)
            estea (esteja)
            fai (faz)
            fijo (fez)
            di (diz)
            puido (pôde)
            tenhem (têm)
            etc.

            Isto não perturba a leitura ou a audição (o contexto é habitualmente esclarecedor) e, mais importante ainda, as coincidências das formas verbais entre galego e português são bem mais numerosas que as diferenças.

            É verdade: para ler a Norma Agal, é preciso para um português aprender alguma coisa de galego… tal como os miúdos galegos vão poder, dentro de pouco tempo (esperemos), aprender também a morfologia do português.

          • Heitor Rodal

            Fernando,

            é curiosidade, mas dadas as disfunções que provoca a convergência das terminações -ám, -om e -ao em -ão que você aponta e que parece ser que tampouco essa convergência fonética não se verificou em todo o território português (Norte, etc.), há alguma proposta conhecida ou no mínimo alguém nalguma parte de Portugal a defender a reversão dessa convergência ortográfica e voltar para as formas antigas?

            Obrigado!

          • Venâncio

            Heitor: responderei abaixo.

        • ranhadoiro

          Lamento, Fernando, mas você não entendeu patavina do que eu escrevim….teríamos que demorar cuns copos horas, para tentarmos falar na mesma frequência

          • Venâncio

            Ranhadoiro: estarei em Santiago na última semana de Julho, num congresso (oficialmente ‘de homenagem’), em que espero apresentar um novo paradigma para o entendimento histórico e actual do Galego-Português. É provável que vá gerar alguma surpresa, alguma perplexidade, e mesmo alguma irritação. Mas paciência.

            O Gerardo do PGL tem o meu contacto. Gostaria de tomar uns copos contigo.

          • ranhadoiro

            se poso será um prazer. Eu tenho o teu contato, somos amigos acho. Abraço

          • Louredo

            Esperamos ese artigo Sr Venâncio. Só humildemente unha suxestión. O portugués pode escribirse con ortografía da RAG, substituíndo as palabras só portuguesas ou case portuguesas por palabras galegas. É un modelo que non impide a comunicación, pois só se diferencia en trazos fonéticos asentados e modelos morfolóxicos paralelos

          • Ricard Gil

            Desculpem por me intrometer , agora o mantra de ” a ortografia comum fará com que nos entendam ” nom sei se é realmente bem pensado , se eu falar em “caixão” um galego pensará em “gaveta” e nom em “ataude” , se eu falar em “arranjar” uns pensarão em “consertar” e outros em “arrumar” ( arranjar um problema) ; se eu falar em “rapazinha” os portugueses que souberem pensaram em “rapariga” , os brasileiros numha vadia ou prostituta ( porque eles dizem garota) e se eu falar em “bico” eles pensarão em “boquete” e nos em “beijo” . O quê quero dizer é que estamos na GALIZA tentado ?!( acho eu) que os galegos aprendam bem a sua língua , por isso sinto saudades de livros como 101 falares com jeito , Manual galego de língua e estilo , Léxico Galego degradaçom e regeneraçom , Manual do ñ para o nh …………. A norma AGAL acho eu esta nessa linha , queremos AO ? ótimo/+optimo? eu sou o primeiro a escrever o que os galegos “reintegrados”?? quiserem desde que haja respeito e diálogo , mas tendo umha ortografia o suficientemente comúm , nom era bem melhor trabalharmos numha fonética , numha gramática ( que lindo se nessa gramática galega aprendéssemos as variantes brasileira e portuguesa ) e nas diferência do nosso sistema face o castelhano ?? Obrigado

    • Louredo

      Penso que algunhas pronuncias populares portuguesas con õ non son arcaísmos, mais pronuncias reducidas do ditongo ão. Digo isto porque raramente son sistemáticas e mesmo un elemento pode alternalos no seu discurso. Excepto no extremo N e nalgunhas áreas rurais talvez

      • Venâncio

        Louredo: tanto em Lisboa como no Norte, as terminações galegas -am, -om e -ao foram uniformizadas. Mas foram-no de modo diferente.

        Lisboa uniformizou-as em -ão: razão, mas também capitão e cidadão. No Norte, a uniformização (posterior!) fez-se em -õu: razõu, mas também capitõu e cidadõu.

        Em Lisboa ouve-se: «Vou comprar um pão». No Porto: «Vou comprar um põu».

  • Ernesto V. Souza
  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    65 comentários a isto… em 2015… justo neste ano andar a dar-lhe voltas ao MESMO DE SEMPRE dá ideia do desnorteados que andamos. Pensamento novo para novos tempos é o que precisamos!

  • Venâncio

    O amigo Heitor Rodal escreveu-me algures acima:

    «Fernando,

    é curiosidade, mas dadas as disfunções que provoca a convergência das terminações -ám, -om e -ao em -ão (confusão nos plurais, etc.) que você aponta e que parece ser que tampouco essa convergência fonética se verificou em todo o território português (Norte, etc.), há alguma proposta conhecida ou no mínimo alguém nalguma parte de Portugal a defender a reversão dessa convergência ortográfica e voltar para as formas antigas?

    Obrigado!»

    Olá, Heitor.

    Uma primeira precisão: também no Norte se deu uma convergência das três terminações galegas (e latinas!), só que aí foi em -õu (razõu, cidadõu, põu), quando no Sul, e no padrão, ela se realizou em -ãu, escrito -ão (razão, cidadão, pão).

    Como eu disse acima, e tu lembras, isto originou (e continua a originar) uma tremenda confusão nos plurais, em todos os países de língua portuguesa. Como solução, foi sempre apontado “Veja-se como se faz em espanhol”.

    Eu conto tudo isso, em pormenor, num artigo de que acabo de enviar o PDF ao Gerardo, e que foi publicado na Grial (n. 192, 2011), sob o título «O indesejado ditongo ão». Podes pedi-lo a ele.

    Não houve nunca (que eu saiba) um apelo à reversão às formas antigas, e ainda bem, pois seria inteiramente impraticável. Houve, sim, apelos a ‘soluções’ ainda mais drásticas. E existe um difuso incómodo, aliado ao sentimento generalizado de o som ‘ão’ ser inestético. Está tudo no artigo.

    Um abraço.

    • Venâncio

      P.S.

      Existe toda uma literatura sobre o fenómeno histórico da «desgaleguização» do nosso galego. Só que não houve, ainda, uma visão de conjunto. Eu trabalho nela, estando a sua publicação programada para uma editora no Brasil. Talvez eu consiga tê-la pronta no ano que vem.

      • Heitor Rodal

        Nem faz mal, Fernando: “desgaleguizarem-se” é a maneira natural de evoluirem/mos os galegos. 😉

        Até nisso poderíamos dizer que fostes/sodes uns galegos aperfeiçoados e adiantados. ;))

        Saúde!

    • Heitor Rodal

      Obrigado pola resposta, Fernando.

      Então entendo que o processo de convergência de -ám, -om e -ao em -ão é irreversível e que isso pode provocar concordantemente uma igual uniformização de todos os plurais correspondentes em -ões (verões, cidadões, capitões).

      Dados os exemplos já apresentados aqui, a pergunta então é se isso deve ser combatido ou antes aceitado e assumido como a evolução natural, espontânea e lógica da Língua, partindo da sua própria lógica interna.

      Porque acho que concordaremos que é bem bizarro que os falantes nativos de uma Língua como o português tenham a necessidade de conhecer uma língua estrangeira -neste caso o espanhol-, para saber como falar ou escrever corretamente a própria. De facto, fico muito curioso por saber se se conhece algum outro caso no mundo.

      Saúdos.

      • Venâncio

        Caro Heitor,

        Escreves: «Então entendo que o processo de convergência de -ám, -om e -ao em -ão é irreversível»,

        e, quanto ao português, concordo. Mas acrescentas:

        «e que isso pode provocar concordantemente uma igual uniformização de todos os plurais correspondentes em -ões (verões, cidadões, capitões)»

        e aqui digo que não, que nada aponta nesse sentido (recorda a violência com que se criticou o «cidadões» ao presidente da República portuguesa…). Sendo certo que, historicamente, a solução «ões» veio tomando o espaço (como em «verãos», que se tornou «verões») , esse processo está muito longe de concretizar-se, e antes surgiram, aqui a além plurais múltiplos (!), criando um cenário – o actual – de imensa insegurança e instabilidade.

        A pergunta é, pois: querem os galegos, que já têm os seus própios problemas regionais, importar, de olhos abertos, a desordem do português? Se sim, é porque sois loucos. E é verdade: há no lusismo radical um elemento de cegueira, de loucura, de desespero.

        Mas, sobretudo, há entre vós, reintegracionistas, uma enorme deficiência em conhecimento da História da língua. Assim como (já vo-lo disse) vos falta um grande gramático, falta-vos igualmente um grande estudioso da história do idioma. Tendes, é verdade, um grande medievista, o José António Souto Cabo, mas não lhe dais valor.

        Eu não me lembro dum só estudo de reintegracionistas sobre a História da língua nos últimos 30 anos. Se souberes, ou alguém souber dalgum, agradeço a informação.

        Toda a vossa fixação está, e esteve, na ortografia (veja-se um fio paralelo a este), e chegastes ao ponto de chamar «ortografia histórica» a uma ortografia portuguesa estabelecida em 1911!

        Mais ainda: até há uns anos, alguns de vós cantáveis hossanas à «ortografia etimológica». Mas, logo que o AO90 erigiu a ‘pronúncia’ como primeiro critério da ortografia, acabaram imediatamente esses hossanas, e começaram outros.

        A impressão que se tem de fora é, no atinente à Linguística, a de pouca seriedade científica e dalgum (às vezes, muito) oportunismo.

  • Venâncio

    Caros amigos e senhores:

    Ides desculpar, mas tenho de deixar uma coisa bem clara: a difusão da grafia uniformizadora ão na Galiza é um passo inteiramente gratuito, nitidamente ideológico e linguisticamente irresponsável.

    Essa gente que advoga a grafia «ão» para o galego (a chamada «norma coração»…) simplesmente não sabe o que está a fazer. Mas eu sei: está a tentar repetir, na Galiza, um processo que em Portugal se demonstrou profundamente desestabilizador da morfologia.

    E que aconselharam sempre, que aconselham, os gramáticos portugueses para quem (quase toda a gente) não sabe ao certo como formar os plurais? Pois recomendam que se olhe para os plurais espanhóis (!).

    Será esse o futuro para a Galiza? Não, é já o seu presente. Eis o que escreve o Valentim Fagim no seu Do Ñ para o NH, pág. 46:

    Para as palavras acabadas em ÃO, basta conhecer os plurais dessas palavras em castelhano.

    man > manos
    pan > panes
    razón > razones

    Feito isto, é tirar o N e escrever em seu lugar um Til.

    manos > maos > mãos
    panes > paes > pães
    razones > razoes > razões

    Haverá – pergunto eu – maior humilhação para os galegos que esta culinária espanhola?

    • ranhadoiro

      Caros amigos e senhores:

      Ides desculpar, mas tenho de deixar uma coisa bem clara: a difusão da grafia do castelhano -paralela da imposição do castelhano na Galiza- e banimento social do galego-, é um passo inteiramente gratuito, nitidamente ideológico e linguisticamente irresponsável.

      • Venâncio

        Ranhadoiro:

        Uma das duas: ou queres pôr-me a ridículo para risota dos alarves, ou me tomas a sério.

        Acho que escolheste a primeira.

        Então ouve: jamais eu advoguei para a nossa língua na Galiza a «grafia do castelhano», e sempre, sempre, a Norma Agal. E não só como ‘grafia’, mas como gramática, que o é. Fi-lo sempre como amigo, e como linguista.

        Mas, sim, eu ouço os alarves a rirem do que tu aí sugeres. E, por piedade, não venhas com a história de que eu te entendi mal…

        • ranhadoiro

          Não se trata de nada do que apontas. Simplesmente queria apontar que esse remedo da tua frase, em realidade podia ser teu, e não só isso, sei que compartes o que na frase se aponta.
          Na Galiza não há nenhum problema com o lisboês, infelizmente isso é cousa de muitos poucos.
          Bom, o galego tudo e já minoritário-sem entrarmos em qualidade- e perfeitamente apagado nos menores de 25 anos. Não existe a transmissão inter-geracional etc.
          No quadro no que estamos, os teus posicionamentos, cheios de interesse e com os que se apreende cousas, resultam muito esquisitos. Estamos-nos afogando e falas-nos da qualidade da água.

          O que queria dizer eu, era que se afirmasses primeiro o que eu digo, logo poderias acrescer o que tu dizias pois o panorama já seria outro…se não a gente afogando-se não te entende, pois não dá nem pra isso

          abraço amigo

          • Venâncio

            Olá, Ranhadoiro.

            Numa coisa tens razão: eu devia ter dito, logo de entrada, que concordo contigo. Digo agora: concordo contigo.

            Mas também te direi que o uso algo paródico que fizeste do que eu escrevera não me dispôs a uma compreensão amigável.

            Gosto da tua expressão: «Estamos-nos afogando e falas-nos da qualidade da água». Pois aos lusistas radicais precisarias de dizer: «Estamos-nos afogando e vós falais-nos duma ilha de areia branca com palmeiras».

            A situação da nossa língua na Galiza é dramática, sim. Mas exactamente por isso todos os meios devem ser postos em marcha para travar o aniquilamento. Vou indicar-te um.

            Dizes tu que os meus posicionamentos são esquisitos? Pois tenho mais um, que já não é novidade, e que é esquisitíssimo (em todos os sentidos):

            Na Galiza, a miña lingua, aínda que escrita á castellana, é, e será sempre, a miña lingua.

            E eu desafio-vos a todos – espanholistas, oficialistas de máximos e de mínimos, reintegracionistas e lusistas – a convencer-me de não me exprimi na minha língua.

            Digo-te mais: no dia em que a Agal, sem renunciar à sua magnífica Norma, me der publicamente razão, o panorama linguístico galego mudará radicalmente.

            O abraço vai de volta.

          • ranhadoiro

            Caro, vou tentar esclarecer-te algo, refiro-me ao que tu escreves, e ao que vão ler os leitores galegos, nos teus escritos.

            eis um ex.

            “Dizes tu que os meus posicionamentos são esquisitos? Pois tenho mais um, que já não é novidade, e que é esquisitíssimo (em todos os sentidos):

            Na Galiza, a miña lingua, aínda que escrita á castellana, é, e será sempre, a miña lingua”.

            Olhemos que leitura fazem disso os teus leitores, dos que primeiro vou dizer algo: Para todos os reintegracionistas isso que tu diz, é tautologia, se não fosse assim como ia ser que o reintegracionismo faz sentido. Mas isso sim, para o reintegracionismo a escrita segundo o modelo do castelhano é fulcral no processo de banimento da língua (e sobre isso há um monte de informação sociolinguística bem contrastada que tu normalmente esqueces (da uma leitura aos livros do Mário). é modelo que se segue em mais lugares do mundo -o da estatalização linguística- sempre prévio ao banimento e desaparição da língua minorada,

            Que afirmas tu, segundo o meu entender, que as falas da Galiza são tão língua tua como qualquer outras falas da língua portuguesa, independentemente de como forem ortografadas

            Que entendem

            a) reintegracionistas: Este homem -esquece sempre o role fulcral que contra as falas da Galiza tem um modelo de escrita- e tudo lhe vale. Mistura sempre alhos com maçãs e mete cousa boa em argumento errado. Tirar-nos ilusões, sempre parece o seu trabalho. -e graças as ilusões quanta revolução não se tem feito-

            b) Isolatas. A este guicho pode-se convidar a qualquer lado pois para ele bem serve o modelo da escrita à castelhana, (passam por alto que tu afirmas, como os reintegrantes- que são a mesma língua. e eles afirmam que é uma língua espanhola diferente, mais distinta da estrangeira português), além disso gozam ao olharem como o Venâncio esmaga (reintegrantes) nos fóruns. Que bom é termos de mão um português que não critica o que fazemos, e até odeia sobre todo a malfadada Academia Galega, enquanto pode compartir xícaras feliz com esse elemento útil ao banimento da nossa língua que é Alonso Montero

            https://chuza.org/comment.php/77495

          • Venâncio

            [Respondo abaixo]

        • Heitor Rodal

          Fernando, o certo é que eu penso sinceramente que nesta altura a única opção que têm as galegas e galegos e optarem por se uniformizar em -ção ou em -ción.

          Acho que talvez foi isso o que o Ranhadoiro quis exprimir.

          Saúde.

    • Heitor Rodal

      Fernando, mas polo que comentou e apontou você aqui, esse recurso -ou excurso- necessário ao espanhol para saber como escrever e falar corretamente a Língua própria não seria só ou principalmente humilhação galega, mas antes a de qualquer falante nativo de português, não é?

      Saúdos.

      • Venâncio

        Caro Heitor,

        A resposta é ‘sim’. Também para o falante nativo de português é uma humilhação ir ver ao espanhol como são os plurais de substantivos (e, não esquecer, adjectivos), e só assim produzir um português correcto.

        A diferença está em que, para o falante de português, essa é uma humilhação digamos ‘técnica’, ela não toca na sua segurança interna. Para um galego, pelo contrário, recorrer ao espanhol para poder ser correcto na sua própria gramática seria ultrajante.

        Saudação cordial.

        • Heitor Rodal

          Não tinha escuitado nunca a expressão “humilhação técnica”, mas sempre há alguma cousa nova a aprender por estes lares. Obrigado.

          De resto, Fernando, o certo é que para a maioria dos galegos (entendidos aqui como “habitantes da Galiza”) recorrer ao espanhol não é nada humilhante e ainda menos ultrajante: tanto é assim, que a maioria passa para o espanhol direito, poupando-se mesmo a passagem por etapas e soluções intermédias que, por muito promovidas que estiverem polos “poderes públicos”, nada adiantam.

  • Venâncio

    Caro Heitor,

    Escreves: «Então entendo que o processo de convergência de -ám, -om e -ao em -ão é irreversível»,

    Nisso, quanto ao português, concordo. Mas acrescentas:

    «e que isso pode provocar concordantemente uma igual uniformização de todos os plurais correspondentes em -ões (verões, cidadões, capitões)».

    Aqui, tenho a dizer que não, que nada aponta nesse sentido (recorda a violência com que se criticou o «cidadões» ao presidente da República portuguesa…). Sendo certo que, historicamente, a solução «ões» veio tomando o espaço (como em «verãos», que se tornou «verões») , esse processo está muito longe de concretizar-se, e antes surgiram, aqui a além plurais múltiplos (!), criando um cenário – o actual – de imensa insegurança e instabilidade.

    A pergunta é, pois: querem os galegos, que já têm os seus própios problemas regionais, importar, de olhos abertos, a desordem do português? Se sim, é porque sois loucos. E é verdade: há no lusismo radical um elemento de cegueira, de loucura, de desespero.

    Em geral, existe entre vós, reintegracionistas, uma enorme deficiência em conhecimento da História da língua. Assim como (já vo-lo disse) vos falta um grande gramático, falta-vos igualmente um historiador do idioma. Tendes, é verdade, um excelente medievista, o José António Souto Cabo, mas não lhe dais valor.

    A sério, Heitor: eu não me lembro dum só estudo dum reintegracionista sobre História da língua, aparecido nos últimos 30 anos. Se souberes, ou alguém souber dalgum, agradeço a informação.

    Toda a vossa fixação está, e esteve, na ortografia (veja-se um fio paralelo a este), e chegastes ao ponto de chamar «ortografia histórica» a uma ortografia portuguesa estabelecida em 1911!

    Mais ainda: até há uns anos, alguns de vós cantáveis hossanas à «ortografia etimológica». Mas, logo que o AO90 erigiu a ‘pronúncia’ como primeiro critério da ortografia, acabaram imediatamente esses hossanas, e começaram outros.

    A impressão que se tem de fora é, no atinente à Linguística, a de pouca seriedade científica e dalgum (às vezes, muito) oportunismo.

    Um abraço,
    Fernando

    • Heitor Rodal

      Fernando,

      corrija-me se não ando enganado, mas penso que em linguística se diz que ‘chaque langue forme un systéme ou tout se tient’. Isto é, que essa instabilidade no português deverá ser resolvida de uma forma ou outra, ora voltando às formas antigas (improvável), ora uniformizando os plurais (possível, apesar das críticas que houvesse se essa é a lógica interna própria da Língua), ora inventando alguma outra nova solução.

      Bom, vámos vendo então em que dá: quer a ‘via galega’, quer a ‘via portuguesa’ ou quer uma outra via por aparecer. Suponho que a partir disto é desnecessário dizer que sou mais partidário das gramáticas descritivas antes que das prescritivas.

      Abraço.

      • Venâncio

        Heitor,

        Escreves: «Vamos ver então em que dá…»

        Ouve: a Galiza já é suficientemente um laboratório (se não um desarranjo) para se porem agora um senhoritos a importar um sistema que se provou gerar a desordem. Pega num «prontuário» da língua portuguesa, e vê as listas (que ninguém consegue fixar, nem eu) dos plurais de substantivos em ão, listas que, por sua vez, diferem de «prontuário» para «prontuário».

        Claro que esses senhores, essas damas e cavalheiros, não têm a mínima noção do que se propõem fazer. Isso desculpa-os? De maneira nenhuma. Se até fundaram, caramba, uma Academia (!) para a façanha!

        • Heitor Rodal

          Numa cousa concordamos ao 100 %, Fernando: a Galiza é um desarranjo que nesta altura ninguém sabe se terá arranjo algum.
          Saúdos.

    • Nicolau

      Comento aqui algo que já ficou atrás. E é que se as cousas fossem como tinham que ser, em lugar de “veja-se como é em espanhol” (referido aos plurais mentados), deveria ser “veja-se como som os singulares em galego”. Seria menos humilhante para os portugueses e motivo de orgulho para os galegos.
      Saudações.

      • Venâncio

        [respondo abaixo]

    • ranhadoiro

      Fernando, acho que o teu ordenado de aposentado holandês da pra viveres bem na Galiza. Vem para estares connosco, até podes levar vida anónima e tranquila se for conveniente e com percursos por todo lado de intensa pesquisa, passa um bom tempinho, e depois repara para saberes se as perguntas que nos faz e que tu nos respondes, iam ter logo sentido

      • Venâncio

        Ranhadoiro: eu conheço o essencial da Galiza. É esse estranho país em que eu me dirijo, na rua, a duas pessoas que falavam entre elas num galego delicioso, lhes faço uma pergunta em português e recebo a resposta em castelhano.

  • Venâncio

    Caro Ranhadoiro,

    Aprecio a forma como tentas expor claramente as tuas ideias. Mas tenho que dizer que fazes das minhas uma tremenda caricatura.

    Começo por dizer que a ortografia (portuguesa, agálica ou oficialista) tem para mim muito menos importância do que pareces atribuir-me. Importante para mim é o reconhecimento de que, qualquer que seja a sua ortografia, o galego é uma realização da minha língua, da nossa língua, da língua de brasileiros, de moçambicanos, de angolanos, de… portugueses.

    É esse reconhecimento – público, explícito, incondicional – que a AGAL poderia fazer, com todas as vantagens imediatas e de longo prazo que isso traria. Mas nunca o fez, e hoje está, mais do que nunca, impossibilitada de fazê-lo devido à pressão do radicalismo lusista.

    Repara bem: quando Luís Lindley Cintra em 1970 publicou a sua «Nova proposta de classificação dos dialectos galego-portugueses», não o fez com base numa ortografia. Quando linguistas afirmam que galego e português são a mesma língua porque as suas estruturas identificadoras (fonológicas, morfológicas, semânticas, etc.) são comuns, não o fazem com base numa ortografia.

    A vossa fixação na ortografia começa a ter foros doentios, e está a impedir um entendimento entre galegos, que teria repercussão na Galiza e no mundo inteiro. Eu sei: há alguns de vós que antes furarão os olhos do que darem o mínimo passo dum entendimento pan-galego. E é essa cegueira, esse desespero mental, essa paranóia, que vos hão-de sair muito caros.

    Mas há outra coisa. Não sei se leste alguma vez o Freixeiro Mato. Ele é não só autor da melhor (se não única) gramática reintegracionista após Carvalho Calero, mas também fez e faz propostas, que julgo do maior interesse, também para vós, em livros como Lingua de calidade (2009, Xerais) e Estilística da lingua galega (2013, Xerais).

    E por que falo eu nisso? Porque a ‘qualidade de língua’ do galego-português em boa parte da escrita reintegracionista, e mais ainda da escrita lusista radical, é de bradar aos céus. Em geral, o galego-português do ensaio publicado por oficialistas é gramaticalmente e lexicalmente mais autêntico que o de reintegracionistas, e, repito, mais ainda que o redigido em ‘português da Galiza’.

    Sim, o ‘português da Galiza’ é, na pena dos que o praticam, uma língua geralmente correcta, mas laboratorial, asséptica, sem nervo, sem relevo nenhum. É um idioma muito bem penteado, muito bem passadinho a ferro, mas na realidade uma língua de ninguém. É, em suma, um idioma sem alma, sem futuro, que cairá de inanidade. É, citando Pessoa, um “cadáver adiado que procria”.

    Nunca me ouvirás advogar a ortografia à castelhana. Considero que a Norma Agal reflecte a pronúncia e a gramática do galego, e que por isso é, e continuará a ser, a melhor escolha para a nossa língua na Galiza.

    • Venâncio

      Só mais isto: longe de mim desvalorizar alguém por não saber ‘funcionar’ na minha variedade de galego-português. Eu também não saberia funcionar em galego, ou em brasileiro.

    • Venâncio

      Ranhadoiro,

      Não atentei suficientemente no teu último parágrafo:

      «Só mais uma cousa, o recurso ao castelhano do Fagim é por algo muito simples, pois em realidade -o castelhano- é a única língua que conhecemos na Galiza a sério (Castela/espanha é muito eficiente nisso). O livro do ñ ao nh trata aos seus destinatários como o que em realidade são -em grande medida neofalantes cheios de ilusão».

      É absolutamente incrível. Aos neofalantes de galego vai-se ensinar a morfologia… portuguesa? É que a morfologia galega não precisa do recurso ao castelhano. Até onde ides levar o desvairo?

      E depois: «ilusão», em «cheios de ilusão», é um puro castelhanismo semântico. É verdade que também o português (sobretudo o futebolístico) já começou a ficar contaminado. Mas convirá combater isso, e dizer, também em galego, «entusiasmo», «esperança», «expectativa», etc.

      • Ricard Gil

        Caro Venâncio eu Nunca tenho umha resposta quando escrevo à gente como Ranhadoiro , já lim cousas tipo “evolucionar “(evoluir) ” em troca”( pelo contrário) “ilusão” ( esperança /arela /ânseio) almofada ( por travesseiro) justo depois ( logo após) pegada digital ( impressão digital , as pegadas som dos pés) de muita gente e mesmo enviei umha listagem de falsos cognatos espanhol-português mas…NADA! . Outra cousa muito grave é que afinal muitos estam a mostrar a sua IGNORÂNCIA SUPREMA de galego explico : Quando umha pessoa que SABE galego quere “falar português” utiliza palavras tipo “mercar” ( e nom comprar que é o “padrão) abraiar ( e nom espantar) usa a partirES de ( e nom o padrão a partir de ) ceive ( e nom livre) inquedança , ajôujere …. PORQUE ACHA que o galego é umha ferramenta para se comunicar com o português e É A PARTIR DESTE GALEGO e deste léxico que umha pessoa pode trabalhar , mas às vezes eu como filho de galegofalantes , neto de galegofalantes e com amigos galegofalantes sinto que os que escrevem este neo-portunhol som da Extremadura espanhola e nom da Galiza , porque banem bem antes os “galeguismos” no português do que as palavras , estruturas e fraseologia espanholas

        • Venâncio

          Caro Ricardo,

          Tu tens uma maneira desarmante de exprimir as verdades indispensáveis. Conserva-te assim.

          Um abraço

  • Venâncio

    Ninguém encontraria aí acima esta pérola, e por isso a copio aqui. Assina-a ‘Nicolau’.

    «Se as cousas fossem como tinham que ser, em lugar de “veja-se como é em espanhol” (referido aos plurais mentados), deveria ser “veja-se como som os singulares em galego”. Seria menos humilhante para os portugueses e motivo de orgulho para os galegos.»

    Um aplauso de pé e sonoro, caro Nicolau.

    • ranhadoiro

      Há uma pequena questão nesse assunto que pode parecer sem importância, mas é que, o castelhano sabem-no os galegos e galegas (um castelhano simples sem vida, formalmente bem, mas sem o que tem que ter um bom castelhano -PALAVRAS DE PROFESSOR DA ESCOLA NORMAL DE Ourense pronunciadas no final do século XIX) e pode que as palavras galegas já não…. É dura a realidade que vivemos. E além disso hoje “com o galego no ensino” reforça-se o castelhano pois na realidade, é castelhano “em galego”.

      Na Galiza passamos por muita cousa, que nos produze verdadeira vergonha (cousa que não ocultamos), mas excelentes pedagogos como o Fagim tem sucesso maravilhoso com sua prática docente.

      Louvado seja o nosso pai Breogão, por estas benções que reparte

      • Venâncio

        Ranhadoiro, se tens aí à mão «Do Ñ para o NH», do Valentim Fagim, talvez possas elucidar-me.

        1. Achas que tudo quanto diferencia a norma inculcada pelo Fagim e uma gramática do Galego (como a do Freixeiro) se deve ao castelhano?

        2. Achas que “o Galego” não é mais que 30 galeguismos léxicos arrolados nas 114-115?

        Eu suponho que, arrastado pelo radicalismo lusista, o Reintegracionismo está a entrar, sem esperança de recuo, numa realidade paralela, onde ninguém já saberá achá-lo.