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“Os outros galegos”: Epílogo galego

9. Epílogo galego

9.1. Introdução

Esta viagem partiu da Galiza à procura de razões para a nossa fala e deverá terminar na própria Galiza e na sua língua que é alvo de discussão. São quatro as perguntas que nos fazemos à partida: O que entendemos por Galiza e quais são seus limites? E o que entendemos por galego e quais são seus limites? Tentaremos respondê-las neste epílogo, que se apresenta como desfecho dos artigos anteriores.

9.2. História e limites da Galiza

9.2.1. A Gallaecia romana e os galaicos

Entre 138 e 136 a.C., o general romano Décimo Júnio Bruto, conhecido como “O Galaico”, liderou a primeira expedição para subjugar o noroeste da Península. Após sucessivas campanhas de Públio Licínio Crasso (96-94 a.C.), Júlio César (62 a.C.) e, por fim, César Augusto (39-24 a.C.), a conquista foi finalmente completada1. Começava a Pax Romana. No ano 27 a.C., Augusto estruturou a Hispânia em três províncias: Hispânia Citerior Tarraconense, Hispânia Ulterior Bética e Hispânia Ulterior Lusitânia. Esta última abrangia, em princípio, também a Galécia e a Astúria, mas numa reorganização posterior do mesmo imperador, a Galécia e a Astúria passaram a integrar a Hispânia Citerior2. É por isso que o grego Estrabão situa os kallaikói ou galaicos entre os antigos povos da Lusitânia, ainda que já circunscreva esta ao território compreendido entre a Bética e o rio Douro, até à sua foz, e esclareça que “o território para lá do Douro, a norte, cujo povo alguns antigamente designavam como lusitanos, mas a que agora chamam galaicos” 3, diferenciando-os dos ástures e cântabros. No ano 77 d.C., Plínio, o Velho, geógrafo e naturalista romano, confirma-nos que a fronteira entre a Lusitânia e a Galécia está no rio Douro4. O mesmo autor descreve as províncias divididas em conventus. A Hispânia Citerior estava dividida em sete: Carthaginensem, Tarraconensem, Caesaraugustanum, Cluniensem, Asturum, Lucensem e Bracarum5. A criação destas províncias terá provavelmente ocorrido durante a reorganização efetuada por Augusto entre 16 e 13 a.C., aquando da sua segunda viagem à Península Ibérica6. O limite entre os Conventos Lucense e Asturicense estava no rio Návia, “et deinde conventus Lucensis a flumine Navia7.

No início do século III d.C., mais concretamente no ano 214, o imperador Caracala criou uma nova província denominada Hispania Nova Citerior Antoniniana, que teve uma vida efémera e onde foram agrupados galaicos, ástures e cântabros. Esta seria o antecedente da Gallaecia8. No final do mesmo século, no tempo da tetrarquia de Diocleciano, a Hispânia foi dividida em cinco províncias, duas das quais novas: a Galécia e a Cartaginense. A nova província recebeu o nome de Gallaecia, talvez por o território dos galaicos ser o mais populoso e de maior importância, com limites que excediam a soma dos três conventos anteriores: Asturicensis, Lucensis e Bracarensis. Tudo indica que os limites provinciais meridionais, que marcariam as fronteiras com os lusitanos, ficariam no rio Douro e na parte alta da sua bacia, no seu afluente Eresma. Isto poderia explicar porque é que, no século V, Idácio, bispo de Chaves e natural de Ginço, afirmou que o imperador Teodósio era galaico de nação, tendo nascido em Cauca (supostamente a atual Coca, em Segóvia). Os limites provinciais ficariam no sudeste, na Serra de Guadarrama. A fronteira oriental é a mais controversa, pois não há unanimidade entre os historiadores sobre a inclusão ou não, na Galécia, do conventus Cluniensis, habitado polos váceos. Que o limite leste abrangesse apenas as tribos cântabras e não as váceas, corresponderia melhor ao desenvolvimento eclesiástico e político da Galécia tardo-medieval, nomeadamente do Reino Suevo, mas esta é uma questão por resolver9.

Por conseguinte, podemos concluir que, na época romana, as tribos galaicas povoavam o território compreendido entre os rios Douro e Návia. No entanto, a Gallaecia administrativa excedia largamente essa área.

9.2.2. A Gallaecia sueva ou o Galliciense Regnum

Com o Império Romano do Ocidente já em decadência, no final do ano 409, povos germânicos entraram na Península Ibérica10. No ano seguinte, os suevos instalaram-se no território galaico e fundaram o que o bispo Gregório de Tours (538-594), entre outros, denominou Galliciense Regnum (História dos Francos, VI, 43) 11, com capital em Braga. Tratou-se dum dos primeiros reinos europeus independentes de Roma e, na sua máxima extensão, em 455, ocupou toda a faixa ocidental peninsular, após sucessivas conquistas aos romanos. Segundo muitos autores, seria esta monarquia sueva, designadamente, o Segundo Reino ou período católico do século VI, com a figura proeminente de Martinho, metropolita de Dume, e o seu Parochiale Suevorum ou Divisio Theodemiri, a que daria ao território uma entidade unitária, logo assumida polo reino visigodo, após a anexação do ano 58512. Neste ano, o reino galaico abrangia os três Conventus (Asturicensis, Lucensis e Bracarensis) que inicialmente conformaram a Gallaecia, bem como o Conventus Scallabitanus, o mais setentrional da Lusitânia13.

Outra prova de que o Galliciense Regnum continuava a manter a sua singularidade dentro da monarquia visigoda é o facto de, no ano 694, o rei Égica ter deixado ao seu filho Vitiza o governo do Reino da Galécia14 (regni concordia), com residência real em Tui15. Em 702, Vitiza herdou o reino visigodo do seu pai, vindo a falecer oito anos depois, o que foi aproveitado por Rodrigo, neto do rei Quindasvinto, para usurpar violentamente o trono de Toledo. As guerras internas polo poder na monarquia visigoda levaram os partidários de Ágila II, rei da Tarraconense e da Septimânia, a conspirar contra Rodrigo, pedindo ajuda a Muça ibne Nuçáir, vice-rei do Norte de África16.

9.2.3. De Yillīqiya à Coroa de Castela.

No ano de 711, tropas berberes comandadas polo general Tárique ibn Ziade desembarcaram em Gibraltar. Iniciou-se, assim, a invasão islâmica da Península Ibérica, que duraria oito séculos. Desconhecem-se as razões últimas que impediram os muçulmanos de alcançarem o domínio pleno da Gallaecia e de se estabelecerem de forma duradoira, tal como aconteceu na maior parte da Península. De facto, há autores que discutem a existência duma presença muçulmana significativa na maior parte do território galaico17.

No século XIX, a historiografia espanhola inventou o termo “Reconquista” 18, como forma de legitimar uma Espanha nação19, que supostamente teria nascido com a monarquia visigoda e renascido em Covadonga (mito que o historiador andalusino Ibn Ḥayyān situa em Yillīqiya20).

O nome que as fontes árabes dão à Gallaecia (entendida no sentido geográfico que os romanos davam ao termo) é o de Yillīqiya, até ao século XI, em que começa a aparecer a forma Galīsiya 21. Além das lendas e dos mitos nacionalistas, nesse espaço geográfico que resistiu, de alguma forma, à invasão muçulmana entre os séculos VIII e X, desenvolveu-se progressivamente um reino cristão denominado Reino das Astúrias na historiografia espanhola, por os seus soberanos, desde Afonso II, o “Casto”, terem a corte em Oviedo. No entanto, esta designação de Reino das Astúrias contraria a maioria das fontes medievais da época, que continuavam a designá-lo maioritariamente como Gallaecia22,23. Contraria também o próprio Afonso II, verdadeiro consolidador desta monarquia, que se intitulava “regni totius Galletiae24. E até o próprio Claudio Sánchez Albornoz, um dos historiadores de referência desse suposto “Reino de Asturias”, reconheceu que “en Cordoba llamaban Galicia al solar del reino astur” e que durante o século IX “en la España musulmana y mas allá de los Pirineos se acostumbraba a llamar reyes de Galicia a los de Oviedo25. Porém não deveríamos confundir esta vasta região da Galiza medieval, herdeira da Galécia romana, com a Galiza administrativa atual, nem sequer com o território povoado polas tribos galaicas, que, como vimos, se situava entre os rios Douro e Návia.

No reinado de Afonso II (791-842), segundo a Concórdia de Antealtares, um documento de 1077, ocorreu a inventio do sepulcro do apóstolo São Tiago Maior26. Compostela tornou-se a capital religiosa do reino e um dos centros da Cristandade.

Afonso II morreu sem deixar filhos que pudessem herdar o trono, o que deu origem a um conflito sucessório entre Nepociano, apoiado pola aristocracia oriental (ástur e basca), e Ramiro, filho de Vermudo I, que saiu vencedor desta guerra com o apoio da nobreza do ocidente galaico27.

Em 910, à morte de Afonso III, o “Grande” o reino foi dividido entre os seus filhos: Leão para Garcia, a Galiza para Ordonho e as Astúrias para Froila. Em 914, Ordonho II herdou o resto do reino e estabeleceu a corte em Leão28. Com Ordonho II, a Galiza, etnicamente galaica, alcançou uma entidade política própria como reino, em relação ao resto da Gallaecia.

O seu filho Sancho Ordonhes reinou num Reino da Galiza, do Cantábrico ao Minho, entre 926 e 929, ano em que faleceu sem deixar descendentes. À sua morte a Galiza foi reintegrada pacificamente no reino do seu irmão Afonso IV “o Monge”, rei em Leão. Outro irmão, Ramiro II, foi o primeiro a proclamar-se, em 925, rei da terra portucalense, entre Minho e Mondego, com capital em Viseu. Em 931, herdou a Coroa de Leão, quando Afonso IV abdicou29.

Vermudo II, um neto de Ramiro II, foi proclamado rei da Galiza pola nobreza galega e portuguesa em Santiago de Compostela em 982, sucedendo ao seu primo Ramiro III em 985, após a morte deste. Tal ocorreu no decurso duma longa guerra em todo o território da Coroa Leonesa, em aliança com os exércitos muçulmanos de Almançor, que foram posteriormente expulsos. Almançor vingou-se com a sua famosa razia sobre Compostela30.

Entre 999 e 1028, seria sucedido como rei da Galiza e de Leão polo seu filho Afonso V. O filho deste, Vermudo III, viria a morrer enquanto combatia contra o seu cunhado, Fernando I, conde de Castela, que o destronaria em 1037. Castela começava a desempenhar um papel relevante entre os reinos peninsulares. Com a morte de Fernando I, em 1065, os seus reinos foram divididos entre os filhos, tendo Garcia recebido o reino da Galiza, cujos domínios se estendiam entre o Cantábrico e o Mondego. Em 1071, foi derrubado por uma conspiração dos seus irmãos, Sancho de Castela e Afonso de Leão. Em 1073, este Afonso VI foi proclamado rei da Galiza e de Portugal e, em 1077, passou a intitular-se Imperator totius Hispaniæ. Foi sucedido pola sua filha, Urraca, que se casou com Raimundo de Borgonha, conde da Galiza, uma Galiza que se estendia do mar Cantábrico até ao rio Minho. Outra filha, Teresa, casou-se com Henrique de Borgonha, que recebeu do rei o Condado Portucalense31.

O filho de D. Urraca I, Afonso, foi coroado rei da Galiza em 1111, aos seis anos, polo arcebispo Gelmires na Sé Compostelana. Em 1126, com a morte da mãe, foi proclamado rei de Leão e, em 1127, de Castela e de Toledo. Em 1135, foi coroado Imperator totius Hispaniae na Catedral de Leão. Em 1143, foi forçado a assinar o Tratado de Zamora, que consagrou a independência de Portugal, com o seu primo Afonso Henriques, filho de D. Teresa32. Este seria o acontecimento histórico mais decisivo para o futuro da Galiza e para a sobrevivência da sua língua.

Em 1157, o filho de Afonso VII, Fernando II, herdou os reinos da Galiza e de Leão, enquanto o outro filho, Sancho, herdava Castela e Toledo. Em 1188, foi sucedido polo seu filho Afonso, conhecido como “o Galego”. O filho deste, Fernando III, acabaria por unir novamente as duas coroas ao herdar Castela e Toledo em 1217, e a Galiza e Leão em 1230. Em 1252, o seu filho Afonso, o “Sábio”, recebeu estes reinos.

Em 1369, um trineto do rei “Sábio”, Pedro I, alcunhado de “Justo” polos partidários e de “Cruel” polos inimigos, foi assassinado por ordem do seu meio-irmão Henrique de Trastâmara, após um longo conflito dinástico. Pedro tinha casado três vezes, a última com Joana de Castro, filha do conde de Lemos e irmã da famosa Inês, que se tornou rainha de Portugal após a sua morte. Na guerra entre Pedro e Henrique, a alta nobreza galega tomou partido por Pedro, com o apoio de portugueses e ingleses, enquanto Henrique foi apoiado pola aristocracia castelhana, polos franceses e, na Galiza, polo clero e pola baixa nobreza. Com a morte de Pedro I em 1369, Fernando I de Portugal foi aclamado rei da Galiza. O seu maior valedor era o conde Andeiro. Em 1373, Henrique de Trastâmara recuperou o controle da Galiza, com a ajuda dos mercenários das Compagnies Blanches. Em 1379, Henrique de Trastâmara morreu, tendo sido sucedido polo seu filho, João II. Este seria derrotado polos portugueses em Aljubarrota, em 1385. A debilidade castelhana foi aproveitada polo duque de Lancastre, João de Gante, que reivindicava para si toda a Coroa de Castela por ter casado com Constança, uma das filhas de Pedro I. Invadiu a Galiza, tendo sido aclamado rei pola nobreza galega, mas o seu breve reinado durou apenas entre 1386 e 138733. A consequência política final de todos estes acontecimentos foi a consolidação da hegemonia castelhana na Galiza, com importantes mudanças na aristocracia galega.

Após a morte de Henrique IV, em 1474, eclodiu uma guerra sucessória entre Joana, filha de Henrique IV, e a sua tia Isabel, meia-irmã do pai. D. Joana estava casada com o seu tio, Afonso V de Portugal, ao passo que Isabel estava casada com Fernando, herdeiro da Coroa Aragonesa. Os reinos de Portugal e de França, bem como a aristocracia galega, apoiaram Joana, enquanto a Coroa Aragonesa e grande parte da nobreza castelhana tomaram partido por Isabel, que saiu vencedora34. A isto juntou-se o facto de o poder nobiliárquico na Galiza estar debilitado após a Segunda Guerra Irmandinha (1467-1469), o que resultou num reino descabeçado que acabaria por ser submetido pola rainha Isabel I a uma “doma e castração”, em afortunada expressão de Castelao35.

Formalmente, o Reino da Galiza continuou a existir até à reforma jacobina de 1833. Durante os reinados dos Áustrias e dos Bourbons, a Galiza foi governada por uma Junta Geral do Reino, que foi perdendo progressivamente competências36, e pola Real Audiência, presidida por um Capitão-General com funções de Vice-Rei37.

9.2.4. Do século XIX ao século XXI

No decurso da Guerra Peninsular ou Francesada (1808-1814), após a revolta de maio de 1808 contra o invasor francês, em junho foi constituída uma Junta Suprema del Reyno de Galicia38, que assumiu o governo, tanto no interior como no exterior da Galiza, até dezembro de 1808. Durante este período, estabeleceu alianças militares com Portugal e a Grã-Bretanha. A ocupação francesa ocorreu em janeiro de 1809, após a derrota britânica na Batalha de Elvinha. Asinha, os exércitos napoleónicos foram derrotados por milícias populares galegas lideradas por juntas locais, que exerceram o poder real no território. Em maio de 1809, o Capitão-General regressou à Galiza, recuperando as suas competências e, em dezembro de 1809, foi criada uma Junta Superior de Subsidios, Armamento y Defensa de Galicia, já subordinada à Junta Central espanhola, que funcionou até março de 1813, altura em que cedeu todo o seu poder ao rei absolutista Fernando VII39.

Em 1833, o liberal afrancesado Javier de Burgos promoveu a divisão provincial de Espanha, que transformou o nosso reino nas atuais quatro províncias40. Com esta medida, Espanha consolidou-se definitivamente como um estado-nação unitário, um processo iniciado com a chegada dos Bourbons no século XVIII41.

Na década de 1840, surgiu na sociedade galega um movimento provincialista que pretendia recuperar a Galiza como unidade administrativa, de modo a defender os seus interesses políticos, económicos e culturais. Em 1846, os líderes provincialistas aderiram a um levantamento militar liberal protagonizado polo coronel gaditano Miguel Solís em Lugo42. Após o fracasso do golpe, doze oficiais foram fuzilados e os principais líderes provincialistas, como Antolín Faraldo, Secretário da designada Junta Provisional de Gobierno de Galicia, viram-se forçados a exilar-se em Portugal.

O Provincialismo evoluiu, na segunda metade do século XIX, a um Regionalismo com vultos como o tradicionalista Brañas, autor de EL Regionalismo, ou o liberal Murguía43. O Regionalismo, progressivamente, virará em Nacionalismo e assim, em 1916, criam-se na Crunha as Irmandades da Fala, que, em 1918, se reunem em Lugo numa I Assembleia Nacionalista. A reivindicação linguística unia-se à política44.

A Ditadura de Primo de Rivera (1923-1930) causou uma certa paralisação deste movimento, que se reorganizaria com a chegada da Segunda República Espanhola e que culminaria, na sua VII Assembleia Nacionalista (Ponte Vedra, 1931), com a criação do Partido Galeguista45, do que Risco e Castelao seriam os principais ideólogos. Em 1929, Casares Quiroga e Vilar Ponte fundaram na Corunha a Organización Republicana Gallega Autónoma (ORGA), uma organização política de ideologia republicana, federalista e de esquerda, que viria a transformar-se no Partido Republicano Gallego, já sem o setor galeguista nas suas fileiras, e integrado na Izquierda Republicana de Azaña. Este partido foi criado com a participação da Irmandade da Fala local46. A coligação do Partido Galeguista (PG) com a Frente Popular espanhola resultaria na rutura interna do partido47. A maior vitória política do PG ocorreu em junho de 1936, com a realização dum referendo que culminou na aprovação dum Estatuto de Autonomia. Foi aprovado com uma percentagem de votos favoráveis de 99,24%, um valor que não corresponde à realidade e que evidencia as circunstâncias anómalas que envolveram o referendo em questão. A direita, que se opunha à autonomia, concentrava-se em conspirar contra a República.

O golpe militar de julho de 1936 culminou no domínio da Galiza por parte das forças nacionalistas espanholas, lideradas polo ferrolano Francisco Franco. Em Madrid, presidia o Conselho de Ministros Casares Quiroga, um crunhês. A vitória militar franquista, subsequente a um período de três anos de guerra especialmente sangrenta 48, assenta, de forma significativa, no papel desempenhado polos “mariscos’, o Corpo de Exército da Galiza49. “Mariscos” foi a denominação pejorativa da propaganda republicana, assumida com orgulho polas tropas galegas50.

A ditadura de Franco (1936-1975) reprimiria violentamente o movimento político aderente à Frente Popular na Galiza. Também o Partido Galeguista foi reprimido, com a morte, cadeia e/ou exílio (interior ou exterior) de muitos dos seus militantes. Bóveda foi fuzilado, Carvalho Calero foi preso e depurado, enquanto Castelao converteu-se no primeiro Presidente do Conselho da Galiza, o governo autónomo no exílio. Entretanto, destacados vultos da direita galeguista, como Risco, Cunqueiro ou Filgueira colaborariam com o regime franquista. Piñeiro responsável do Partido Galeguista na Galiza da ditadura, acabou preso e distanciado politicamente de Castelao e dos outros exilados e, ciente da debilidade do galeguismo e das suas diferenças políticas internas, decidirá construir um movimento culturalista, em torno da Editorial Galaxia, que ele próprio vai dirigir desde 195051. Em 64, jovens comunistas fundam a Unión do Povo Galego, núcleo e vanguarda da frente conhecida atualmente como Bloque Nacionalista Galego.

Morto Franco em 75, começa a chamada “Transição Democrática” de “la ley a la ley” em palavras de Torcuato Fernández-Miranda, um dos seus principais ideólogos. O rei Juan Carlos I, nomeará para liderar esta “Transição” a Adolfo Suárez, ministro-secretário geral do Movimiento, quer dizer, do partido único franquista. A Unión de Centro Democrático (UCD), o seu partido, era fundamentalmente o aparelho político do regime “democratizado”. O processo partitocrático de bipartidismo imperfeito consolidar-se-ia com o que, segundo as lições da estasiologia, foi o auto-golpe palaciano de 23 de fevereiro de 8152.

Em 80, aprova-se em referendo, com pouquíssima participação (28,27%), um estatuto de autonomia que reconhecia a Galiza como “nacionalidade histórica”, por ter aprovado um estatuto de autonomia em tempos da II República. Mas o “café para todos”, diminuiu o seu alcance político.

O “piñeirismo” coalhou em Realidade Galega, um grupo de intelectuais que infiltraria os seus membros nos partidos estatais e no nascente entramado autonómico: Albor foi o primeiro presidente da “Xunta” por Alianza Popular (AP); García Sabell, presidente da Real Academia Galega, foi delegado do Governo Espanhol polo Partido Socialista Obrero Español (PSOE) e o próprio Piñeiro foi deputado do PSOE e primeiro presidente do Consello da Cultura Galega.

Fraga seria o político determinante na autonomia galega. As expetativas políticas do vilalvês de chegar a presidir ao Governo Espanhol foram frustradas. Em primeiro lugar, foi preterido polo Bourbon em relação a Suárez. Em segundo lugar, foi derrotado em sucessivas eleições por Felipe González (PSOE), após ter unificado a maior parte do centro-direita no Partido Popular (PP). Isto leva-o a retirar-se para a Galiza, onde foi Presidente da “Xunta” durante 15 anos num equilíbrio, quase feudal, com os seus “barões” provinciais. Dentre eles, Romay Beccaría, o mais discreto e poderoso, acabaria por designar o seu sucessor, Feijóo, que presidiria a “Xunta” entre 2009 e 2022.

Em 2023, Feijóo deixou a “Xunta” para se candidatar à presidência do Governo espanhol, seguindo a tradição galega dos séculos XX e XXI de querer governar Espanha, com figuras como Montero Ríos (1905), Canalejas (1910-1912), Dato53 (1913–1915, 1917, 1920–1921), Portela Valladares (1935-1936), Casares Quiroga (1936), Franco (1936-1975) e Rajoy (2011–2018)54. Candidatos à presidência, também de origem galega, foram Pablo Iglesias (fundador do Partido Socialista Obrero Español, PSOE), José Calvo Sotelo (líder de Renovación Española), Manuel Fraga (fundador de AP e do PP) e Yolanda Díaz (fundadora do Movimiento Sumar).

O nacionalismo galego oscilou entre líderes carismáticos, como o socialista Beiras e o social-democrata Nogueira, que careciam duma estrutura partidária adequada e tinham pouca penetração social fora dos ambientes urbanos, e o trabalho silencioso da Unión do Povo Galego (UPG), liderada por Francisco Rodríguez, que foi tecendo à sua volta uma estrutura organizativa que conseguiu penetrar na sociedade galega (Confederación Intersindical Galega, Sindicato Labrego Galego, A Mesa…). No período compreendido entre 1997 e 2005, com Beiras como porta-voz, o BNG alcançou a chefia da oposição no Parlamento Galego. Entre 2005 e 2009, com Quintana como porta-voz, atinge a vice-presidência da “Xunta” num governo de coaligação com o PSOE. Em 2019, a Confederación Intersindical Galega (CIG) tornou-se no sindicato mais representativo da Galiza. Em 2020, Ana Pontón recuperou para o BNG a liderança da oposição no Parlamento Galego.

Todos os partidos que detêm representação no Parlamento Galego, bem como os três principais partidos espanhóis da atualidade, foram fundados por galegos.

9.3. História da nossa língua

Na faixa ocidental da Península Ibérica, mais concretamente nos antigos conventos lucense e bracarense, o latim vulgar sofreu uma evolução que deu origem a uma nova língua. Os primeiros documentos escritos nesta língua romance surgiram no século XII: “O Pacto dos irmãos Pais”55 está datado em 1175. No último terço do século XII, nasceu na Galiza a lírica medieval galego-portuguesa, “que seria cultivada no âmbito dos reinos centro-ocidentais da Península Ibérica (Galiza, Portugal, Leão e Castela) até o primeiro quarto do século XIV”56.

O rei Afonso, o “Sábio”, apesar de lhe ser atribuída, polo menos em parte, a autoria das “Cantigas de Santa Maria”, escritas na nossa língua, foi o que tornou oficial o castelhano na corte de Toledo, em detrimento do latim. Com este rei, Castela somava à prevalência política a linguística57.

Com a vitória trastamarista de 1373 e a derrota de João de Gante de 1387, bem como com as consequentes mudanças no poder nobiliárquico galego, a língua castelhana começou a difundir-se lentamente no nosso país, com a chegada de funcionários e clérigos desta origem.

Por fim, a imposição do castelhano na Galiza ocorreu durante o reinado de Isabel de Castela (1479-1504). A partir daí, a nossa língua foi excluída da esfera pública, ficando relegada apenas para o âmbito doméstico. A decadência cultural do Reino da Galiza acompanhou a sua decadência política. A este respeito, a Galiza dos Áustrias e dos Bourbons é a dos alcunhados como “séculos obscuros”.

Contudo, a partir do século XV, Portugal fundou um império ultramarino que espalhou a nossa língua por África, Ásia e América, tornando-a uma das mais faladas do mundo.

Foram dous religiosos iluministas do século XVIII, frei Martin Sarmiento e o padre Feyjoo, os primeiros a reividicarem na Galiza dos “séculos obscuros” a nossa fala, à qual identificaram como sendo semelhante à portuguesa.

No século XIX, o movimento regionalista propiciou o renascimento do cultivo literário do nosso idioma. A data considerada como o início do chamado “Rexurdimento” é a de 1863, ano da publicação do livro de Rosalía de Castro, “Cantares Gallegos”58. Rosalía foi elevada à categoria de mito, mito este assumido pola maior parte da sociedade galega. No ano de 1906, o seu marido, o historiador Murguia, foi o fundador e primeiro presidente da Real Academia Gallega (RAG)59. Este “Rexurdimento” literário, vai estar acompanhado, como já vimos, duma reivindicação linguística, cultural e política.

Em 1936, o golpe de estado franquista na Galiza representou um salto qualitativo no declínio histórico do nosso idioma. Durante a ditadura franquista, esfumaram-se as expetativas que a aprovação do Estatuto de Autonomia tinha gerado para a língua e a sua proibição no âmbito administrativo foi reforçada. Contudo, em 1946 é reeditada a obra poética “Do Ermo”, de Noriega Varela, com o apoio de várias instituições, nomeadamente Câmaras Municipais e Deputações. No ano seguinte, é publicada a obra “Cómaros Verdes”, de Iglesia Alvariño, outro escritor franquista. Já em 51, Carvalho Calero publica “A Xente da Barreira”, o primeiro romance após a guerra civil. Porém os usos reservados polo franquismo para a nossa língua eram apenas os folclóricos e literários.

No ano académico 65-66, levantada a sua inabilitação por motivos políticos, Carvalho começa a lecionar a cadeira de Língua e Literatura Galegas na Universidade de Santiago de Compostela, tornando-se en 72 no primeiro catedrático desta disciplina na história da USC60.

Na Lei Geral de Educação de 1970, impulsionada polo ministro Villar Palasí, foi introduzida pola primeira vez o estudo das “línguas nativas espanholas” no sistema educativo, embora como matérias optativas61.

Em 71, foi criado na USC o Instituto de la Lengua Gallega62 (ILG), dirigido polo ovetense Constantino García. De tendência isolacionista, o ILG viria a ser o organismo determinante na normativização do galego e na sua separação artificial do resto da área linguística galego-portuguesa.

En 1979, o conselheiro Fernández Barreiro (UCD) da “Xunta” pré-autónoma nomeou Carvalho Calero para presidir uma comissão de normativização, com representantes das tendências isolacionista e reintegracionista. A normativa de consenso aprovada por esta comissão optou por uma ortografia fundamentalmente castelhana, mas com uma discreta orientação lusófona na estandardização léxica. Por fim, o primeiro governo galego autónomo, eleito em 1981 e de Alianza Popular, com Filgueira como conselheiro de Cultura e com Fraga na sombra, aprovou em 82 uma normativa isolacionista e castelhanizante, elaborada polo ILG e sancionada pola RAG, que rompia com a retórica da unidade linguística galego-portuguesa, que historicamente tinha mantido a tradição galeguista63.

A Lei 3/1983, de 15 de junho, de normalização linguística, marco legal fundamental que regula o uso e a promoção da língua galega na Galiza, define que o galego é a língua própria da Galiza e reconhece o direito ao seu conhecimento e uso. Originalmente, o “dever” de o conhecer estava incluído, contudo, este ponto foi declarado inconstitucional em 1986, após um recurso do Delegado do Governo Espanhol na Galiza, García-Sabell, por acaso, também presidente da RAG…

Em 2003, os chamados “mínimos” reintegracionistas (a Asociación Socio-Pedagóxica Galega e o Departamento de Filologia Galega da Universidade da Crunha), opção normativa maioritária dentro das organizações vinculadas ao nacionalismo galego, aderiram finalmente à normativa oficial, após um pacto normativo em 2001, que se traduziu em assimilação.

Em 2014, a “Iniciativa Legislativa Popular Paz-Andrade” foi aprovada por unanimidade no Parlamento. Mas esta “Lei 1/2014, de 24 de março, para o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a lusofonia” pode dizer-se que praticamente não foi desenvolvida.

9.4. Entre-ambas-águas

A região conhecida durante grande parte da época medieval como Terra de Riba Deu (das ribeiras do Eu)64, Entre-ambas-águas ou Entre-rios, quer dizer, o território ocidental das Astúrias, aproximadamente entre os rios Eu e Návia65, separou-se do resto da Galiza num processo de pleitos e rivalidades entre os bispados de Lugo e Oviedo polas terras que outrora pertenceram à Sé Britoniense66, já na altura desaparecida, ficando vinculada desde o século IX à Sé Ovetense. Por concessão do rei Afonso II, em 832, foi criado o bispado de Oviedo67. Os conflitos territoriais entre os bispados de Oviedo e Lugo foram finalmente dirimidos no Concílio de Salamanca de 1154, no tempo do imperador Afonso VII68.

Segundo Arias del Valle, a diocese de Oviedo, foi-se configurando territorialmente em oito arcedianatos, tal e como aparecem no Livro Becerro (1385) do scriptorium do bispo D. Gutierre, incluindo o arcedianato de Riba Deu os seguintes arciprestados: Pravia (Pravia de Allende), Los Valles (Navelgas), Luyna (Luinna, Lluarca), Valdés, Navia, Ribadeo (Castropol), Miranda (S. Martinho de Taramúndi), Grandes (Grandas de Salime), Burón (Fonsagrada), Castiel de Navia (Návia de Suarna)69. Estes dous últimos abrangiam territórios da atual Galiza administrativa, ao contrário desse Ribadeo, que se correspondia mais bem com a ribeira oriental do Eu e não com a vila do mesmo nome. Em 1954, por consequência do Concordato os limites diocesanos de Oviedo, Mondonhedo e Lugo foram alterados para os fazer coincidir com os provinciais70.

Os limites da nossa língua no território do atual Principado das Astúrias já foram estudados por Menéndez Pidal em 1906 que, com grande acerto, fixou a fronteira entre ambas as línguas nas ribeiras do Návia: “(…) el gallego se extiende por una faja de unos ocho kilómetros al Oriente del Navia. Probablemente este límite estará determinado por razones históricas tan antiguas, que tendrá algo que ver con el límite de los conventos jurídicos Asturicense y Lucense; el río Navia, según Plinio, separaba á los astures pésicos de los gallegos lucenses71.

A área em questão abrange 18 concelhos da província de Oviedo, quatro dos quais só parcialmente, com um total de menos de 40 000 habitantes. Xavier Frias define detalhadamente estes limites, que se estendem aproximadamente do rio Frejulfe, no concelho de Návia, até à Serra do Ranhadoiro72. Como o próprio autor assinala, esta fronteira é “máis ou menos nítida”, apesar de que exista “unha zona que vén desde o oriente de Lugo e chega ata moito máis alá da vila asturiana de Luarca onde as isoglosas se entrecruzan”73.

Podemos concluir que, ainda que estas falas pertençam inequivocamente ao diassistema galego-português, a transição entre estas falas e as asturo-leonesas não é brusca, tal como não o será no Bierzo, o que é lógico entre línguas tão próximas. No entanto, apesar de apresentar alguns traços comuns com o asturo-leonês, não se trata duma língua de transição como afirmam na Academia de la Llengua Asturiana (ALLA), mas sim de falas que a romanística, desde Menéndez Pidal a Dámaso Alonso, sempre incluiu no diassistema galego-português74. Se aceitarmos a hipótese de que este dialeto é uma língua de transição, então, utilizando o mesmo raciocínio, poderemos afirmar que o asturo-leonês é uma língua de transição entre o galego-português e o castelhano-andaluz, com os quais partilha um elevado número de características comuns.

Foram numerosos os vultos eu-naviegos relacionados com a Galiza nos últimos séculos, como Antonio Raimundo Ibáñez, marquês de Sargadelos, nascido em Santalha de Oscos, ou o catedrático Cotarelo Valledor, literato galeguista, natural da Veiga.

9.5. O Bierzo ocidental e as Portelas

No artigo anteriormente citado, Menéndez Pidal estabeleceu os limites das falas galego-portuguesas na província de Leão, mais concretamente na região do Bierzo Ocidental, nas bacias dos rios Cua e Sil: “En León, en el Bierzo bajo ú occidental (hoy partido de Villafranca), se habla una variedad del gallego, mientras en el Bierzo alto ú oriental (partido de Ponferrada) se habla leonés. Nótese que el nombre Bierzo Bĕrgidum, es de derivación leonesa (como lo indica su diptongo) y no gallega. La divisoria entre las cuencas del río Cua y del Sil debe marcar poco más ó menos el límite del gallego y del leonés, en esta región.”75

Em primeira análise, estes limites linguísticos devem-se, muito provavelmente, às mesmas razões observadas no Principado. Compreendem 19 concelhos da província de Leão, três dos quais apenas parcialmente, com um total de menos de 30.000 habitantes. Jesús García afirma que a zona plenamente galego-portuguesa do ponto de vista linguístico coincide com os limites da diocese de Lugo no século VI, ou seja, estendendo-se às ribeiras do Búrbia e desde a sua desembocadura no rio Sil até ao rio Cabreira. Durante a Idade Média, o galego-português terá, assim, avançado por territórios que eram, anteriormente, asturo-leoneses, como os situados entre os rios Búrbia e Cua, conforme parece indicar a toponímia76. Mas neste território, a fronteira linguística não só marcava a velha divisão entre tribos galaicas e ástures, como também a influência, durante a Baixa Idade Média, dos senhorios eclesiásticos ou civis; de mosteiros como Samos e Sobrado dos Monges, de arcebispos compostelanos como Gelmires, ou das poderosas linhagens galegas dos Castros e dos Ossórios, origem do Condado de Lemos77, que expandia os seus domínios polo Bierzo e polas Portelas. Em 1486, Isabel de Castela enfraqueceu a Casa de Lemos ao conceder à vila de Ponferrada78 o estatuto de realengo e ao criar o Marquesado de Vila Franca (oficialmente, Villafranca del Bierzo)79. Este marquesado acabaria por ficar, primeiro, vinculado ao Ducado de Benavente e, por fim, à Casa de Alba

Mesmo assim, sabemos que a Real Audiência da Galiza, criada em 1480, nos tempos dos Reis Católicos, abrangia territorialmente o Bierzo e a Terra de Valcarce, e que, em 1521, após a Junta de Melide, o imperador Carlos V da Alemanha encarregou o vice-rei da Galiza de defender militarmente a fortaleza de Ponferrada80.

A região berciana continuou ligada à Galiza, tanto linguística como culturalmente, nos séculos seguintes. Chegue como exemplo o do erudito frei Martin Sarmiento, que nasceu em Vila Franca em 1695.

Na província de Samora a região das Portelas é de fala galego-portuguesa81. São os concelhos de Porto (156 hab.), Pias (111 hab.), Luvião (oficialmente, Lubián) (304 hab.) e Ermesende (oficialmente, Hermisende) (221 hab.), aos quais, segundo Xosé-Henrique Costas, haveria que somar a aldeia de Parada82, atualmente desabitada, no concelho de Requeijo. Está separada da zona de fala galego-portuguesa de Leão pola serra da Cabreira, que era maioritariamente de fala asturo-leonesa.

Segundo López Mira, esta região das Portelas foi desligada da Galiza em 1789, tendo regressado a esta em 1822, até ser definitivamente integrada na província de Samora em 183383.

Maria José de Moura e outros autores afirmam que Ermesende e outras duas aldeias do mesmo concelho, São Cibrão (oficialmente San Ciprián) e Teixeira (oficialmente La Tejera), pertenceram ao Reino de Portugal até à Guerra da Restauração da Independência, em 164084. Porém, segundo Luís Seixas, o abade de Baçal mostra num documento, que estas terras já não eram portuguesas no último quartel do século XVI85. Durante o Antigo Regime, Ermesende pertencia à diocese de Ourense86.

9.6. Descrição destas variedades linguísticas

Todas as variantes dialetais populares galego-portuguesas da atual Galiza administrativa e dos territórios limítrofes apresentam uma profunda hibridação com o castelhano, um processo que tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas. Esta hibridação manifesta-se no léxico, na sintaxe, na morfologia, na fonética e na prosódia.

  • Hibridação léxica: em geral, todos os termos ligados com estamentos oficiais (a Administração, a escola e a Igreja) ou os neologismos. Por exemplo: Galicia, galhego (galego sobreviveu apenas em zonas minoritárias e montanhosas, mas atualmente recuperou-se por via culta), Dios (Deus conservou-se apenas nos apelidos), coche, teléfono
  • Hibridação morfossintática: sufixos e terminações em -ción, -sión, –ble (as tradicionais -çom e –som, sobreviveram residualmente até ao século XX), -eo/-ea tónicos ou átonos (frente às terminações tradicionais -eio/-eia, que ainda usam alguns dos falantes mais velhos), -eria (a terminação tradicional –aria manteve-se em algumas palavras patrimoniais como “romaria”); formação dos plurais acabados em –l (por exemplo animales, papeles, caracoles, quales, soles, fáciles…), as formas tradicicionais sobeviveram em parte no território mais a leste e estão-se a recuperar, em parte também, por via culta; perda da ênclise dos pronomes do futuro do presente e do pretérito do indicativo (ênclise que ainda encontramos em Rosalía de Castro e na construção do futuro sintético em Entre-ambas-águas); perda do infinivo conjugado (residual na atualidade, mas ainda comum até há poucas décadas). Mesmo construções que eram habituais estão a desaparecer (como “ir + infinitivo” por “ir a + infinitivo”).
  • Hibridação fonético-prosódica: perda da entoação galega, perda do vocalismo galego, perda do chamado “sesseio”, transformação da nasalização final velar em alveolar…

Para além destes fenómenos de hibridação, há muitas características que são comuns a quase toda esta área. As principais são87:

  • A ausência do fonema [v] do português padrão, como nas falas setentrionais portuguesas.
  • A grafia “ch” é pronunciada, como nas falas tradicionais do norte de Portugal, com o fonema africado palatal surdo[¢], em vez do fonema [ƒ], registado apenas em falantes idosos do Morraço e noutros locais do sul-oeste da Galiza e, possivelmente, já extinto.
  • Verifica-se a ausência do fonema fricativo palatal sonoro [Š], simplificado no fonema palatal surdo [ƒ], conservado nos concelhos de Lóbios e Entrimo e até há pouco, nas Portelas. Daí a tendência a abusar do uso do x, com formas tão aberrantes no conjunto das línguas internacionais como, por exemplo, “xeoloxía”.
  • Falta do fonema alveolar fricativo sonoro [z], realizado como [s]88, o qual apenas se preserva nos concelhos de Lóbios e Entrimo.
  • As terminações nasais em -ão, -ãos, -ões, -ães, -ã, -ãs do português padrão, por exemplo: coração, corações, Cristovão, capitão, capitães, irmã, irmão, irmãs, realizam-se na Galiza (de oeste para leste), como coraçom; coraçons/ós/oes/ões, Cristovam/o, capitám, capitáns/ás/aes/ães, irmám/á/ã, irmám/ao/ão, irmáns/ás/ãs. É importante salientar que as vogais nasais só são atualmente registadas nos Ancares Orientais e pontos isolados de Entre-ambas-águas, onde eram comuns até ao século XX.
  • O numeral feminino “uma” (e os pronomes indefinidos alguma e nenhuma, bem como os seus plurais) têm, na maior parte da Galiza, uma realização como [‘u~.a], coincidente com a de muitas das falas tradicionais portuguesas, hoje em retrocesso devido à pressão do português padrão. Nos territórios mais orientais, incluindo Entre-ambas-águas e o Bierzo Ocidental, pronuncia-se [‘u.a] e nos Ancares Orientais [‘ũ.a].
  • Permanência da contração “pola/o” em vez da arcaizante “pela/o”.
  • Ditongos “-ou-” e “-oiro” (por exemplo cousa, miradoiro), comuns no português dialetal e ainda culto (Camões, Pessoa, Saramago…), face aos ditongos mais habituais no português padrão “-oi-” e “-ouro”.
  • Imensa variedade dialetal, que se explica por uma orografia montanhosa e pola ausência, ao longo de séculos, dum padrão educativo formalizado tanto no contexto escolar como no religioso, com o castelhano a operar como “língua teito” ou de referência para a maior parte dos falantes.

9.6.1. Traços dialetais das falas de Entre-ambas-águas

Muitas características dialetais destas falas das Astúrias são comuns às falas marinhãs ocidentais. No entanto, algumas outras, comuns à maior parte deste território asturiano e, que penetram ainda no concelho de Negueira e nas aldeias lucenses de Porto (Riba Deu), Pántaras (Fonsagrada) e Peliceiras (Návia de Suarna)89, são de transição entre o galego-português e o asturo-leonês, sendo, por conseguinte, diferenciais relativamente à maioria das outras regiões lusófonas, por exemplo:

  • Artigo masculino singular “el” que convive com “o” (o).
  • Aumentativos do tipo “casua”, “mulherua”…
  • Sufixos como “-im” “-ia”, por exemplo “camim” (caminho), “mia” (minha).
  • Perda das nasais palatais: “cocía” (cozinha), “espia” (espinha), etc.
  • Deformação do vocalismo, por exemplo “cia” (ceia).
  • Possessivos: “tou” (teu) e “sou” (seu).
  • Demonstrativos: “este/estos” (este/estes), “esse/essos” (esse/esses) e “aquel’/aquelos” (aquele/aqueles).
  • Simplificação do ditongo “-ai-“, por exemplo “caxa” (caixa), comum com o Bierzo Ocidental e partes do extremo oriental da Galiza.
  • Conservação de ditongos antigos, por exemplo “esqueicer” (esquecer).
  • Manutenção do -l- intervocálico, por exemplo “avolo” (avô), como em partes do Bierzo mais ocidental, Calabor e Trás-os-montes.
  • Aliás, na metade oriental o “-l-“ inicial é palatizado, por exemplo “lheite” (leite), pronunciado com “ieísmo”, e a degeminação do “-lh-” é mantida, por exemplo “vilha” (vila).

9.6.2. Traços dialetais das falas do Bierzo Ocidental e das Portelas

As características dialetais comuns à maior parte do território berciano ocidental podem ser encontradas em áreas limítrofes das províncias de Lugo, Ourense e Oviedo, apresentando uma forte semelhança com as falas galegas orientais90. Nas falas ancaresas conservam-se as vogais nasais em palavras como, por exemplo, “tardῖa” (tardinha), “gῖesta” (giesta), “ũa” (uma) ou, tal como no português padrão, “chão” (chão). Ainda assim, existem alguns traços diferenciais em relação ao que é comum na Lusofonia e na própria Galiza administrativa:

  • Artigo masculino singular “ l’ ”, por exemplo “l’amigo” (o amigo).
  • Sufixos como “-im” “-ia”, por exemplo “camim/caminhos” (caminho/caminhos), “mia” (minha).
  • Simplificação do ditongo “-ai-“, por exemplo “caxa” (caixa).
  • Na fala dos Ancares orientais existem os possessivos “tou” (teu) e “sou” (seu) e os demonstrativos: “estos” (estes), “essos” (esses) e “elos” (eles).

A região das Portelas (Samora) apresenta grandes afinidades dialetais com as falas galegas sul-orientais e transmontanas, bem como algumas influências asturo-leonesas91. Em Ermesende, a distinção entre sibilantes e sonoras encontra-se em retrocesso devido à influência do castelhano 92, podendo, inclusive, já ter-se tornado um fenómeno extinto na atualidade, tal e como aconteceu na maior parte da Galiza administrativa. De facto, quando Leite de Vasconcelos visitou Ermesende em 1884 conclui “que a lingoagem de Hermisende é fundamentalmente portuguesa”93.

9.7. Análise sociolinguística

A partir do século XV, foram inúmeras as medidas adotadas polo Estado e por instituições sob a sua intervenção, como a Igreja Católica, para fazer do castelhano a língua da administração e da cultura no nosso país94. Felizmente, durante séculos, os Estados eram fracos e a sua influência social muito limitada. No entanto, o castelhano foi penetrando devagarinho na Galiza, substituindo ou hibridando a nossa língua. O processo começou nas elites sociais, tendo a Administração, a Igreja e, nas últimas décadas, a escola e os média, desempenhado um papel relevante.

Deste modo, o nosso idioma foi excluído da esfera pública oficial, permanecendo restrito ao âmbito doméstico e privado, numa sociedade que, até o século XX, se manteve maioritariamente monolingue, com exceção das elites dirigentes, tanto na esfera política como na cultural, que se expressavam predominantemente em castelhano, quer por origem, quer por adoção.

Paradoxalmente, os vultos galeguistas, os defensores do “galego”, falavam habitualmente castelhano devido à sua origem social. Os primeiros “galeguistas” a adoptarem um certo “monolinguismo social em galego” foram, nos anos cinquenta, a pedagoga Antía Cal e o médico Antón Beiras, um casal de Vigo.

Lamentavelmente, a expetativa criada com o término da ditadura e a restauração dum certo grau de autogoverno não se traduziu em avanços reais para o nosso idioma. Passados mais de quarenta anos de governo autónomo, de cooficialidade da língua, de “normalización” linguística e de “galego normativo ILG-RAG” subsidiado, os resultados são evidentes:

  • Pola primeira vez na história, o castelhano tornou-se a língua maioritária no nosso país 95.
  • A hibridação com o castelhano avançou enormemente, com uma perda evidente da qualidade linguística, mesmo em registos, supostamente cultos, ou em instituições tão emblemáticas como a CRTVG (a rádio e a televisão da Galiza) , o Parlamento Galego ou a própria “Xunta”.
  • A transmissão intergeracional reduziu-se, nomeadamente, em áreas rurais e vilas. Nas zonas urbanas, esta já era residual anteriormente.
  • O castelhano continua a ser a “língua teito” para a maior parte dos nossos falantes.
  • O português é agora considerado um idioma diferente do “galego” pola maioria da população.

Sem dúvida, a escolarização massiva em castelhano, a concentração da população em áreas urbanas, os média, nomeadamente a televisão, e nos últimos anos a popularização da internet e das redes sociais explicam esta aceleração da mudança linguística produzida nas últimas décadas.

Por outro lado, entre os limitados progressos alcançados neste período, destacam-se:

  • Um aumento da autoestima entre os falantes, ao qual contribuiu a existência duma televisão e duma radio galegas (apesar da sua péssima qualidade linguística) e o uso da língua em contextos cultos, como a escola, ou por parte de certas elites intelectuais e da classe política (mesmo que, neste último contexto, seja principalmente um uso ritual).
  • A existência duma minoria da população linguisticamente consciente. E mesmo dentro desta minoria, a presença dum número reduzido, mas significativo, de pessoas, associações e instituições (como a Associaçom Galega da Língua e a Academia Galega da Língua Portuguesa, entre outras) que têm interiorizado a realidade internacional do nosso idioma.
  • Uma sociedade organizada e mobilizada em volta de entidades normalizadoras em defesa dos direitos dos falantes, como A Mesa pola Normalización Linguística e a Plataforma Queremos Galego. Há também múltiplas associações culturais (A. C. Alexandre Bóveda, A. C. O Facho, A. C. O Galo, S. C. Medulio…) e centros sociais (A. C. Xebra, Ateneo Ferrolán, C. S. A Pedreira, C. S. A Revolta, C.S. Mádia Leva!, C.S. O Pichel, C. S. Torna-Xeira, F. Artábria, Piruchela Colectivo…) nas diferentes cidades e vilas do país.
  • A presença em várias cidades da Rede de Escolas Semente, um número muito reduzido de infantários e escolas de ensino primário que possibilitam, pola primeira vez, uma imersão linguística das crianças sob uma perspetiva reintegracionista.
  • A existência de média em galego(-português): CRTVG, Nós TV, Nós Diário, Novas da Galiza… ou os digitais Campo Galego, GCiencia, Galicia Cinexética, Galicia Confidencial, GalizaLivre, Sermos Galiza, Portal Galego da Língua, Praza Pública, De Norte a Sul… E assim até uns 140 média.

9.7.1. Análise sociolinguística em Entre-ambas-águas

A utilização e promoção do “galego-asturiano” são reconhecidas no Principado das Astúrias através da Lei de Uso e Promoção do Asturiano. Se na Galiza administrativa os poderes públicos se esforçaram em separar a língua do Aquém e do Além-Minho, nas Astúrias, o Governo do Principado e a Academia de la Llingua Asturiana (ALLA) tentaram e tentam fazer o mesmo com o idioma do Aquém e do Além-Eu, chegando a inventar ultimamente o termo “fala eonaviega”, para se referir a esta nova língua de transição. Em 2007, a ALLA elaborou uma normativa própria e isolacionista a respeito das falas galego-portuguesas, as Normas ortográficas del gallego-asturiano, que substituíram a Proposta de normas ortográficas y morfolóxicas del gallego-asturiano (1993), feita por dous professores do ensino secundário como reação às Normas ortográficas e morfolóxicas del galego de Asturias da Comisión Lingüística da Mesa prá Defensa del Galego de Asturias (1990), com participação de académicos do ILG. Esta outra normativa era reintegracionista em relação ao “galego oficial”, mas isolacionista no que diz respeito ao português96. Até a toponímia oficial emprega a ortografia do asturiano.

Em 1986, foi fundado o já desaparecido e pioneiro Grupo de Eilao Pro Defensa da Nosa Lingua, em 1988, surgiu a também desaparecida Mesa prá Defensa del Galego de Asturias e da Cultura da Comarca (MDGA) que, tal como as posteriores Abertal (2003) e Axuntar (2022), advogava a preservação do “galego de Asturias”. Em 1989, nasceu Xeira defensora do “galego-asturiano”. O movimento associativo nesta região é muito débil e ainda está dividido.

Nas Astúrias, os falantes não têm, de facto, quaisquer direitos reconhecidos legalmente. Só os mais velhos mantêm a língua, não existindo praticamente transmissão intergeracional, polo que a situação pode ser qualificada como quase agónica.

9.7.2. Análise sociolinguística no Bierzo Ocidental e nas Portelas

O estatuto de autonomia de Castela e Leão, vigente desde 2001, reconhece de forma mais retórica que real, o uso e promoção da nossa língua no Bierzo Ocidental e nas Portelas, onde é ensinada de forma voluntária em vários centros de ensino infantil, primário e secundário, bem como na Escola Oficial de Idiomas de Ponferrada, através de convénios entre a Junta de Castela e Leão e a “Xunta”97. No entanto, nestas áreas, como na asturiana, os falantes carecem, de facto, de quaisquer direitos linguísticos reconhecidos legalmente que lhes permitam usar o seu idioma com normalidade.

No Bierzo Ocidental, o associacionismo linguístico-cultural galeguista tem contado com coletivos como: a Escola de Gaitas de Vilafranca do Bierzo (1989), a desaparecida Mesa pra Defensa do Galego do Bierzo e da Cultura da Comarca (1990), Fala Ceibe (1998), Comisión Cultural Martín Sarmiento (2001), Xarmenta (2005)… Ou o próprio Instituto de Estudios Bercianos (1959) de Ponferrada também se tem dedicado à nossa língua. Dum modo geral, o movimento é bastante fraco, à exceção das bandas de gaitas98.

Os quatro municípios que integram as Portelas enfrentam o desafio primordial do despovoamento. Não se trata tanto da perda de falantes, quanto de residentes. Entre as associações de defesa da língua e da cultura, contamos com: Xente Nova que nasce nos anos oitenta em Luvião e a Banda de Gaitas As Portelas (2007). Estas associações explicam-se, em boa medida, polo ativismo de Felipe Lubián autarca de Luvião (PSOE) desde 1979. Ainda assim, um maior dinamismo cultural e uma maior consciência linguística não impedem que a situação seja comparável à do Bierzo Ocidental, uma fala principalmente de anciãos, com pouca transmissão intergeracional, que caminha para a extinção.

9.8. Conclusão

O futuro da nossa língua no seu próprio berço norte e especialmente naqueles territórios que não são administrativamente galegos, não poderia ser mais sombrio.

A recuperação duma língua tem, historicamente, estado ligada a um projeto para um país, que nem sempre está associado à sua soberania política, como se demonstra em Flandres ou no Quebeque. Como ilustração paradigmática deste fenómeno, podemos evocar o caso do gaélico, no qual a proclamação da independência acarretou a decadência do idioma, que atualmente se encontra em vias de extinção.

Por outro lado, para evitar a sua diluição numa sociedade em que já são minoritários, o núcleo de falantes jovens, paleofalantes e neofalantes, deveria ser compactado mediante escolas imersivas, à procura duma culturização na sua língua dos primeiros e duma nativização na mesma dos segundos99.

No caso do galego, virar as costas à Lusofonia e insistir no “galego-castelhano”, como diria Carvalho Calero, representa um suicídio em termos idiomáticos, para além dum desperdício inútil de recursos económicos. A estratégia lógica seria que, num futuro próximo, os nossos estudantes adquirissem competências plenas em três idiomas internacionais: o galego, conhecido polo mundo fora como português, língua que aqui deverá ser naturalizada, incorporando todas aquelas variantes dialetais legitimamente galegas, o castelhano, que a história nos legou, e o inglês, que a geopolítica mundial nos impõe. As tácticas para conseguir este objetivo podem ser diversas, mas sem competência linguística não pode haver uma livre escolha na procura das “mil primaveras mais” cunqueirianas100.

(Fim)

1 Torres Rodríguez, Casimiro (1982). La Galicia Romana. Fundación Pedro Barrié de La Maza. La Coruña, págs. 22-100.

2 Santos Yanguas, Narciso (1988). El ejército y la romanización de Galicia. Servicio de Publicaciones de la Universidad de Oviedo. Oviedo, págs. 49-64.

3 Deserto, Jorge; Pereira, Susana da Hora Marques (2016). Estrabão, Geografia. Livro III: introdução, tradução do grego e notas. Imprensa da Universidade de Coimbra. Coimbra, págs. 60, 81.

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/39957/1/Estrabao.pdf

4A Durio Lusitania incipitin Plinius Secundus, Gaius (77 d.C.-79 d.C.). Naturalis Historia IV, XXXV, 113.

https://la.wikisource.org/wiki/Naturalis_Historia/Liber_IV#IV

5 Plinius Secundus, Gaius (77 d.C.-79 d.C.). Naturalis Historia III, IV, 18.

https://la.wikisource.org/wiki/Naturalis_Historia/Liber_III#III

6 Sancho Rocher, Laura (1978). “Los «conventus iuridici» en la Hispania romana” Caesaraugusta, 45-46. Zaragoza,págs. 187-188.

7 Plinius Secundus, Gaius (77 d.C.-79 d.C.). Naturalis Historia IV, XXXV, 111.

8 Rodríguez Ennes, Luis (2004). “El proceso romanizador territorial y jurídico de Gallaecia”. Anuario da Facultade de Dereito da Universidade da Coruña, Nº 8. A Coruña, págs. 721-723.

9 Rodríguez Ennes, Luis (2004), op. cit., págs. 723-725.

10Gallaeciam Wandali occupant et Suevi sitam in extremitate Oceani maris occidua. Alani Lusitaniam et Carthaginiensem provincias, et Wandali cognomine Silingi Baeticam sortiuntur.” in Hydatius, Chronicon: Olymp. CCXCVII, XVII.

11 Díaz, Pablo C. e Menéndez-Bueyes, Luis R. (2021) “Elites Locales vs Monarquía: El Ejemplo de la Gallaecia Tardoantigua”.Heródoto, Revista do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Antiguidade Clássica e suas Conexões Afro-asiáticas 6(2). Unifesp, Guarulhos. Págs. 238-240.

12 Díaz, Pablo C.; Menéndez-Bueyes, Luis R. (2021), op. cit., pág. 222.

13 Díaz, Pablo C.; Menéndez-Bueyes, Luis R. (2021), op. cit., pág. 242.

14 Palao Vicente, Juan J. (Ed.) (2010) Militares y civiles en la antigua Roma: dos mundos diferentes, dos mundos unidos. Ediciones Universidad de Salamanca, pág. 249.

15Filium suum Vvittizanem in regno sibi socium fecit eumque in civitatem Tudensem havitare precepit, ut pater teneret regnum Gotorum et filius Suevorum.” (Adefonsi Tertii Chronica).

16 Roger Collins (2005) La España visigoda, 409-711. En Historia de España IV. Editorial Crítica, Barcelona, págs. 142-156.

17 “La ocupación musulmana del cuadrante noroeste peninsular nunca se dio (no hay prueba de que en los primeros años de la conquista llegara ejército alguno por Galicia o áreas adyacentes) y el poblamiento bereber no tuvo apenas consecuencias por su brevedad”. Maíllo Salgado, Felipe (2011). Acerca de la conquista árabe de Hispania. Imprecisiones, equívocos y patrañas. Editorial Trea. Gijón.

18 Pérez Barredo, R. “La Reconquista es um mito”. Diario de Burgos, 2 de novembro de 2013.

https://www.diariodeburgos.es/noticia/zd86b418d-dd64-5400-8fba1220e9a23524/201311/la-reconquista-es-un-mito (consultado em março de 2026)

19 Confundindo o reino de Espanha, o estado-nação que nasce com Filipe V de Bourbon e os seus decretos de “Nova Planta” no século XVIII, com o termo geográfico Espanha que designa a toda a Península Ibérica já desde o tempo dos romanos.

20 García Sanjuán, Alejandro (2013) La conquista islámica de la península Ibérica y la tergiversación del pasado. Del catastrofismo al negacionismo. Marcial Pons Historia. Madrid, págs. 412-413.

21 Barbosa, José Manuel (2021) A Evolução Histórica dos Limites da Galiza (Volume I). Através Editora. Santiago de Compostela, pág. 100.

22 Carriedo Tejedo, Manuel (2019). “Gallaecia y Galicia (1)” (PDF). Revista Rudesindus (12). Academia Auriense-Mindoniense de San Rosendo, págs. 37–92.

https://www.scribd.com/document/445066999/037-092-carriedo-gallaecia-y-galicia-rudesindus-2019-12-pdf

23 Carriedo Tejedo, Manuel (2020). “Gallaecia y Galicia (2)” (PDF). Revista Rudesindus (13). Academia Auriense-Mindoniense de San Rosendo, págs. 115–234.

https://mondonedoferrol.org/wp-content/uploads/bo/310.pdf

24Dei Adefonsus Rex Froilani Regis filius, postquam auxiliante Deo regni totius Galletiae” em Masdeu, Juan Francisco (1804). Diploma de Ramiro I. Pág. 299.

25 Sánchez Albornoz, Claudio (1981). Estudios sobre Galicia en la Temprana Edad Media. Fundación Barrié de La Maza, La Coruña, págs. 26 e 523.

26 Domínguez García, Javier (2008). Memorias del futuro: Ideología y ficción en el símbolo de Santiago Apostol. Iberoamericana Editorial Vervuert, Frankfurt , pág. 53.

27 https://el.tesorodeoviedo.es/index.php?title=Nepociano_D%C3%ADaz (consultado em março de2026)

28 Suárez Fernández, Luis (1976) Historia de España antigua y media (Vol. I). Edit. Rialp. Madrid, pág. 253.

29 Sáez Emilio (1949). Notas y documentos sobre Sancho Ordoñez Rey de Galicia. Editora: Facultad de Filosofía y Letras, Buenos Aires.

30 Díez, Gonzalo Martínez (2005). El condado de Castilla, 711-1038: la historia frente a la leyenda. Tomo II. Marcial Pons Historia. Valladolid, págs. 504–505.

31 Reilly, Bernard F. (1982). The Kingdom of León-Castilla under Queen Urraca, 1109-1126. Princeton University Press. New Jersey.

32 Reilly, Bernard F. (1982). The Kingdom of León-Castilla under Queen Urraca, 1109-1126. Princeton University Press. New Jersey.

33 González López, Emilio (1980). Historia de Galicia. Ed. La Voz de Galicia, La Coruña, págs. 168-181.

34 González López, Emilio (1980), op. cit., págs. 213-224.

35 Castelao atribuíu, em discurso parlamentar, esta frase ao cronista Jerónimo Zurita A expressão inexata do ponto de vista da sua literalidade, julgamos que resume bem o acontecido com o Reino da Galiza em tempos de Isabel I. Zurita, narrando a visita a Santiago em 1486 dos Reis Católicos, literalmente afirmou “En aquel tiempo se comenzó a domar aquella tierra de Galicia, porque no sólo los señores y caballeros della pero todas las gentes de aquella nación eran unos contra otros muy arriscados y guerreros, y viendo lo que pasaba por el conde -que era gran señor en aquel reino- se fueron allanando y reduciendo a las leyes de la justicia con rigor del castigo”.

36 González López, Emilio (1980), op. cit., págs. 266-267.

37 González López, Emilio (1980), op. cit., págs. 200-205.

38El Reyno de Galicia congregado en la ciudad de La Coruña por medio de sus representantes ha reasumido en sí la Soberanía y toda la Autoridad Suprema de su Rey el Sr. D. Fernando VII, por su ausencia y detención en Francia, habiéndose declarado independiente del actual Gobierno de Madrid.”.

Díaz Otero, Antón (1981) “Orígenes, estructura y evolución de la Junta Suprema de Galicia, 1808-1813”. Memoria de Licenciatura. Santiago: Universidade de Santiago de Compostela, Facultade de Xeografía e Historia, pro ms., pág. 162.

39 Barreiro Fernández, Xosé Ramón (1982) Historia Contemporánea de Galicia. I. De la Guerra de la Independencia al Postfranquismo (1815-1893). La Coruña: Ediciones Gamma, págs. 45-130.

40 González López, Emilio (1980), op. cit., págs. 197-199.

41 Ainda que os seus antecedentes estejam associados à união dinástica das Coroas de Castela e de Aragão, resultante do matrimónio dos Reis Católicos, bem como à conquista da Alta Navarra por Fernando de Aragão.

42 Beramendi, Justo G., Núñez Seixas, Xosé M. (1995). O Nacionalismo Galego. Edicións A Nosa Terra, Vigo, págs. 18-26.

43 Beramendi, Justo G., Núñez Seixas, Xosé M. (1995), op. cit., págs. 41-43.

44 Beramendi, Justo G., Núñez Seixas, Xosé M. (1995), op. cit., págs. 93-99.

45 Beramendi, Justo G., Núñez Seixas, Xosé M. (1995), op. cit., págs. 143-148.

46 Bozzo, Alfonso (1976). Los partidos políticos y la autonomía en Galicia 1931-1936. Akal editor. Madrid.

47 Castro, Xavier (1985). O galeguismo na encrucillada republicana (Vol. II). Deputación Provincial de Ourense.

48 Thomas, Hugh (2003). The Spanish Civil War. Ed. Penguin. Londres.

49 Junto com o Exército de África (as Fuerzas Regulares Indígenas, os chamados “mouros”, e a Legión), o Requeté basco-navarro (as Brigadas de Navarra constituídas por voluntários carlistas) e a a Legião Condor da Alemanha nazista. Em termos qualitativos, a contribuição do Corpo do Exército de Castela, das Centurias falangistas, do Corpo de Tropas Voluntárias da Itália fascista ou dos Viriatos portugueses foi inferior. Ah! Também foram imprescindíveis os subministros petroleiros da Texaco (Texas Company) norte-americana. (Hochschild, Adam (2016). Spain in Our Hearts: Americans in the Spanish Civil War, 1936–1939. Hachette Book Group Inc. Nova Iorque).

50 Armiñán, Luis de (1939). Bajo el cielo de Levante: La ruta del cuerpo de ejército de Galicia. Ediciones españolas, Madrid.

51 https://academia.gal/letras-galegas/2009/ramon-pineiro (consultado em fevereiro de 2026).

52 Miguel Bastos com. pess.

53 Nado na Crunha, mas filho dum murciano e duma basca.

54 Outros presidentes do governo espanhol com ascendência galega foram Adolfo Suárez (1976-1981) filho dum crunhês e Leopoldo Calvo-Sotelo (1981-1982), que tinha três avós galegos.

55 Souto Cabo, José António (2005). O Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais. Quasi.Vila Nova de Famalicão.

56 Frateschi Vieira, Yara; Morán Cabanas, Maria Isabel; Souto Cabo, José António (2025). A Santiago em romaria vem: a lírica galego-portuguesa e Compostela. Através Editora. Santiago, pág. 17.

57 Barbosa, José Manuel (2021) A Evolução Histórica dos Limites da Galiza (Volume II). Através Editora. Santiago de Compostela, págs. 49-56.

58 Johán Manuel Pintos, já tinha publicado em 1853 “A Gaita Gallega”, mas o impato da obra rosaliana foi muito superior.

59 Máiz Suárez, Ramón (1984). O rexionalismo galego: organización e ideoloxía (1886-1907). Publicaciós do Seminario de Estudos Galegos – Ediciós do Castro. Sada.

60 Montero Santalha, José Martinho (2020). “Vida de Ricardo Carvalho Calero” em https://carvalho2020.gal/vida/ (consultado em fevereiro de 2026).

61 https://www.boe.es/buscar/doc.php?lang=es&id=BOE-A-1975-13948 (consultado em fevereiro de 2026).

62 Atualmente, “Instituto da Lingua Galega”.

63 Herrero Valeiro, Mário (2011). “Guerra de grafias, conflito de elites”. Através Editora. Galiza.

64https://es.wikipedia.org/wiki/Tierra_de_Ribadeo(consultado em março de 2026).

65 Na verdade, é o pequeno rio Frejulfe que marca a fronteira linguística.

66 No extremo norte da Galiza, supostamente fundada polo bispo Maeloc, que liderava um grupo de emigrantes britões.

67 Llorente, Juan Antonio (1822). Disertación sobre el poder que los reyes españoles ejercieron hasta el siglo duodécimo en la división de obispados y otros puntos conexos de disciplina eclesiástica. II ed. Imprenta de Ibarra. Madrid, págs. 33-34

68 Calleja-Puerta, M. (2019). “La delimitación entre las diócesis de Lugo y Oviedo. Escritura diplomática y territorialidad diocesana a mediados del siglo XII”. Hispania Sacra, 71(143). Editorial CSIC. Madrid, págs. 39–57.

69 Arias del Valle, Raúl (1996): “Presentación de curatos por el obispo y cabildo de Oviedo según el Libro Becerro (s. XIV)”. Memoria Ecclesiae VIII: Parroquia y Arciprestazgo en los Archivos de la Iglesia (I) Santoral Hispano-mozárabe en España : Actas del X Congreso de la Asociación de Archiveros de la Iglesia en España, Salamanca, 12-15 setembro 1994, Volume I. (Agustín Hevia Ballina, editor) Oviedo / Salamanca, pág. 201-205.

70 A diocese de Oviedo cedeu às dioceses de Mondoñedo e Lugo as suas freguesias e filiais na província de Lugo: os arciprestados de Taramúndi à diocese de Mondonhedo, e os de Návia de Suarna, de Burão e de Grandas de Salime à diocese de Lugo. https://es.wikipedia.org/wiki/Archidi%C3%B3cesis_de_Oviedo (consultado em março de 2026).

71 Menéndez Pidal, Ramón (1906) “El dialecto leonés”. Revista de archivos, bibliotecas y museos. Madrid, pág.131.

72 Frías Conde, Xavier (2001). “Os límites entre galego e asturleonés en Asturias”. Revista de Filología Románica. Vol. 18. Madrid, págs. 58-59.

73 Frías Conde, Xavier (2001), op. cit., pág. 52.

74 Frías Conde, Xavier (2001), op. cit., págs. 51-57.

75 Menéndez Pidal, Ramón (1906), op. cit., pág.131.

76 García García, Jesús (1984) “Los límites lingüísticos en El Bierzo, vistos en la toponimia”. Tierras de León: Revista de la Diputación Provincial. Vol. 24, Nº 56. León, págs. 77-88.

77 García García, Jesús (1984), op. cit., pág. 88.

78 Esta vila, no território de fala asturiana do Bierzo (as falas galego-portuguesas chegam a Campo Naraia), fora tomada polos Irmandinhos em 1467 e recuperada polo Conde de Lemos em 1469.

79 García Oro, José (1991) “La vieja y nueva nobleza en la Galicia bajomedieval. La nobleza medieval gallega”, em Ramón Villares (dir.): “Historia de Galicia”. Faro de Vigo. Vigo, págs. 392-403.

80 Fernández Vega, Laura. (1983) “La Real Audiencia de Galicia, órgano de gobierno en el Antiguo Régimen (1480-1808)”. Diputación Provincial de A Coruña. A Coruña, pág. 254.

81 E a vila de Calabor, situada na região da Seabra, concelho de Pedralba de la Pradería, tratada num artigo anterior.

82 Costas González, Xosé-Henrique (2016). “Os xentilicios de Galicia e dos outros territorios de lingua e cultura galegas”. Universidade de Vigo. Vigo, pág. 38.

83 López Mira, Álvaro Xosé (1998). “A Galicia irredenta”. Edicións Xerais de Galicia.Vigo, pág 52.

84 De Moura Santos, Mª José (1967). “Os falares fronteriços de Tras-os-Montes”. Sep. De Revista Portuguesa de Filologia, Vols. XII, XIII e XIV, tomo II. Coimbra, Págs. 86-89.

85 http://historiasdaraia.blogspot.com.es/2011/01/fronteiras-guadramilriomanzanas.html(consultado em março de 2026).

86 Castro Redondo, Rubén (2013). “Una reflexión sobre a fronteira da Galicia moderna”. Fronteira: Mateus, 18, 19 e 20 de outubro 2013. Instituto Internacional Casa de Mateus. Vila Real, pág.113.

87 Maceira Rodríguez, Alfredo (1996). “Galego e português modernos: um estudo comparativo”. Revista Philologus. Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. Ano 2, n.° 06. Rio de Janeiro, págs. 30-37. Disponível em: http://www.filologia.org.br/revista/artigo/2%286%2930-37.html (consultado em março de 2026).

88 Talvez, também por influência do castelhano.

89 Exceto os concelhos de Taramúndi e Santisso de Abres e as aldeias de Abres e Guiar (Veiga) e Santa Comba de Coutos (Íbias).

90 Fernández Rei, Francisco (2002). “O galego do Bierzo e a súa situación actual”. Boletín da Real Academia Gallega, nº 363. A Coruña, págs. 327-353.

file:///C:/Users/Usuario/Downloads/242.pdf (consultado em março de 2026).

91 https://open.spotify.com/episode/0ftQGuXBzVBw86OKa0TK5x (consultado em abril de 2026).

92 González, Xosé-Henrique (2011). “A lingua galega no Eo-Navia, Bierzo Occidental, As Portelas, Calabor e o Val do Ellas: Historia, breve caracterización e situación sociolingüistica actual”. Cadernos de Lingua, Anexo 8, Real Academia Galega. A Coruña.

https://publicacions.academia.gal/index.php/rag/catalog/view/242/238/135 (consultado em abril de 2026)

93 Leite de Vasconcellos J. (1902) “Linguagens Fronteiriças de Portugal e Hespanha”, em Revista Lusitana, vol. VII . Lisboa, pág.145.

94 Callón, Carlos (2022). “O libro negro da lingua galega”. Xerais. Vigo.

95 Segundo os dados do Instituto Galego de Estatística de 2024.

96 Miragaia, Manuel (2024), op .cit., págs. 48-49.

97 Mais de 1.200 alumnos (2025).

98 https://obierzoceibe.blogspot.com/2006/06/o-movemento-galeguista-no-bierzo.html (consultado em abril de 2026).

99 Sánchez Carrión, José María (1991). “Un futuro para nuestro pasado: claves de la recuperación del euskara y teoría social de las lenguas”. 2ª ed. Seminario de Filología Vasca “Julio De Urquijo” e “Adorez eta Aseginez”. Mintegia, págs. 203-205.

100 “Mil primaveras mais” é uma expressão de Álvaro Cunqueiro inserida nun discurso que deu em Vigo em 1980.

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