‘Os Lusíadas’ em Mirandês

A literalidade como forma de preservação da língua



 

Neste ensaio, trataremos da tradução para o mirandês do épico de Luís de Camões. O tradutor Fracisco Niebro procurou preservar as características próprias da língua, sua oralidade, sem arriscar-se a produzir novos vocábulos, a introduzir na língua mirandesa palavras estranhas a ela, a incorporar-lhe neologismos. O cuidado tomado por ele corresponde a uma visão purista da língua. Se por um lado essa visão pretende proteger a língua de influências estranhas a ela, sobretudo em se tratando de uma língua que tantas interferências recebeu do português e do castelhano, por outro lado enfraquece-a, pois é o contato entre as línguas que permite a elas a expansão de seu léxico e a aquisição de novas ideias, sem o que elas se perdem no tempo e desaparecem.

Introdução

O teórico da tradução Antoine Berman (1942-1991), em um ensaio intitulado “Chateaubriand, traducteur de Milton”1, menciona que a penetração das literaturas de língua inglesa e alemã na França, durante o romantismo, fez com que os tradutores rompessem com a tradição tradutória francesa das belles infidèles, traduções que buscavam produzir um texto em francês como se nessa língua fora escrito. O resultado era um texto bem escrito, mas pouco fiel ao original.

O interesse dos românticos pelas literaturas de outros países exigia traduções mais fiéis, mais próximas ao original. Isso demandou uma mudança nas técnicas de tradução e, também, afetou a língua para a qual os textos eram traduzidos. Nesse caso, o francês.

A tradução que o romancista francês François-René de Chateaubriand fez do Paradise Lost de Milton é uma tradução que, para reter as ideias do original, sacrifica a estrutura da língua francesa. Adota estrangeirismos, não apenas para traduzir o inglês de Milton, mas para traduzir também os estrangeirismos do próprio Milton, o qual adotara latinismos, italianismos e hebraísmos em seu próprio poema.

O que Chateaubriand fez não foi novidade. A Bíblia de Lutero serviu-lhe de exemplo. Mas foi graças à tradução de Lutero que o alemão tornou-se uma língua literária, incorporando elementos e vocábulos de outras línguas (hebraico, grego e latim).

O contato entre as línguas é o que permite a expansão cultural e o vigor delas. Sem esse contato, a língua morre.

Os estudos da tradução

A tradução é uma atividade humana muito antiga e antiga é também a teorização dessa atividade. Autores como Cícero e São Jerônimo já escreviam sobre o assunto. Mas essa teorização só começou a se transformar em ciência de umas décadas para cá. No entanto, desde sempre, o ponto mais importante da teoria da tradução foi este: a tradução deve aproximar o texto original da língua e da cultura para as quais ele é traduzido ou, pelo contrário, deve aproximar essa língua e essa cultura da língua e da cultura do texto original. Em outras palavras, o texto traduzido deve parecer um texto traduzido ou um texto original?

Definitivamente, não há resposta para essa questão. Ou melhor, há muitas respostas, mas todas elas lançam mais dúvidas sobre ela do que a solucionam. Muitos tradutores, por exemplo, pensam que o texto traduzido deva parecer uma produção original. Outros pensam ao contrário. E há também os que pensam que o texto traduzido seja uma coprodução entre autor e tradutor.

O importante a saber é que toda teoria da tradução desliza de um lado para outro entre uma concepção e outra. E toda tradução também o faz.

O ensaio de Berman sobre a tradução francesa do Paradise Lost faz corpo com outros dois ensaios em que o autor comenta a tradução da Antígona de Sófocles feita pelo poeta alemão Hölderlin e sobre a tradução da Eneida de Virgílio pelo poeta francês Pierre Klossowski. Todas essas traduções são consideradas traduções que subverteram a língua para a qual foram traduzidas por incorporarem elementos semânticos, prosódicos e morfológicos das línguas originais. Segundo o autor dos ensaios, são essas as grandes traduções, aquelas que subvertem a língua na qual são feitas. Elas promovem um verdadeiro diálogo entre as culturas e são um fator de enriquecimento tanto para a língua, quanto para o pensamento do povo que recebe esse tipo de tradução.

Berman chama essas traduções de traduções feitas à letra. A literalidade é o objetivo das melhores traduções.

Os Lusíadas em mirandês

Parece-nos que o labor de fazer da língua de Miranda do Douro uma língua culta, traduzindo-se para ela os clássicos da literatura mundial e portuguesa, é obra de uma única pessoa: Fracisco Niebro.

Fracisco Niebro é um dos pseudônimos de Amadeu Ferreira, nascido em Sendim, no Concelho de Miranda do Douro, em 1950. Com esse pseudônimo, publicou diversos livros de poesia em mirandês ou em edições bilíngues, além de traduções de poetas portugueses (Mensaige, de Fernando Pessoa), espanhóis, franceses, alemães e de língua inglesa. Traduziu, também uma edição em quadrinhos (banda desenhada) de Os Lusíadas.

Com o pseudônimo de Marcus Miranda, publicou Poetas Lhatinos, traduções de Horácio e Catulo.

É de sua autoria a conhecida tradução dos quatro evangelhos, Ls Quatro Eibangeilhos, que fez com o nome de Amadeu Ferreira, e dos dois volumes das histórias de Asterix existentes em mirandês.

A tradução integral de Os Lusíadas, de Camões, para o mirandês, feita por Niebro, demandou oito anos de trabalho e foi publicada em setembro de 2010.

É uma tradução que surpreende não apenas pelo trabalho árduo que consiste na transposição dos 8816 versos do poema, mas também pela magnífica qualidade da tradução. Ela é tão bem feita que se poderia crer que o poema fora escrito originalmente em mirandês. Apesar da proximidade que há entre o português, língua do original, e o mirandês, língua da tradução, uma tradução entre as duas línguas não é tarefa fácil, sobretudo quando se trata de uma tradução em versos e com rimas. Ainda que pareça simples verterem-se estes versos,

Que da Ocidental praia lusitana,

Por mares nunca dantes navegados,

para estes,

Que, d’Oucidental praia Lusitana,

Por mares datrás nunca nabegados,

não será tarefa fácil traduzirem-se estes outros:

E entre gente remota edificaram

Novo reino que tanto sublimaram.

O tradutor procurou sinônimos para os termos “remota”, “edificaram” e “sublimaram”, por entendê-los demasiado eruditos, e optou por sinônimos de uso mais popular, como “construíram”, “longe” e engrandeceram”, os quais seriam mais adequados a uma língua que vinha, até então, sendo formada por aldeães e camponeses isolados em um mundo rural. Fracisco Niebro resolveu essas dificuldades com a seguinte versão:

I antre giente de loinge custruírun

Nuobo reino, que tanto angrandecírun;

Outras dificuldades, de difícil contorno, devem ter atrapalhado o serviço do tradutor. Por exemplo, como tratar os termos náuticos que se encontram por toda parte em Os Lusíadas, uma vez que grande parte deles deve ser desconhecida a um povo que vive dos frutos da terra e não dos frutos do mar? E quanto ao vernáculo?

Não há bons dicionários de mirandês. Parece que o mais completo deles seja o Pequeno vocabulário mirandês-português, de Moisés Pires, que abrange pouco mais de 12 mil palavras. Como, então, lidar com a riqueza vocabular do poema de Camões?

Quase todas as palavras que se encontram na tradução de Niebro, como em todo texto literário escrito atualmente em mirandês, são termos próprios comuns na língua de Miranda do Douro. Alguns, no entanto, provêm do português, como o nome de deuses pagãos, de instrumentos de navegação, topônimos, etc. Nesses textos, evitam-se palavras de origem duvidosa, palavras que nenhum mirandês teria dito. Mas é certo que muitos vocábulos novos poderiam ser introduzidos nessa língua por meio das traduções sem, contudo, afetar-lhe a prosódia.

Palavras poderiam ser forjadas em mirandês aplicando-se determinadas regras, como, por exemplo, substituindo-se o prefixo des- pelo ç-: “çtruir” (destruir), “çpuntar” (despontar), etc.; ou substituindo-se o prefixo em- por am-: “ampalhar” (empalhar), etc. Há ainda muitas outras formas, como a palatalização da L inicial latina, “llobo” (lobo), e manutenção da N intervocálica latina, “lluna” (lua; latim luna).

A utilização dessas regras permite o uso de termos que talvez nunca tenham existido na língua mirandesa. No entanto, essa língua sempre foi uma língua de camponeses e sua cultura expressou-se sempre em linguagem oral. Com o início dos estudos da língua, surgiu também uma literatura escrita, ainda que recente, de pouco mais de cem anos. Essa literatura retirou a língua de sua pré-história e ela começou a engrandecer-se com a produção de textos e, sobretudo, com a tradução das grandes obras da literatura.

A tradução é um processo radical, que altera sensivelmente o patrimônio primitivo de uma língua. A língua se transforma e é apenas essa transformação que lhe permite continuar a existir. Todas as línguas vivas passaram por essa transformação. Aquelas que, em determinado momento, deixaram de transformar-se, extinguiram-se.

O filólogo português, José Leite de Vasconcellos, foi um dos pioneiros do estudo da língua mirandesa. Em 1882, publicou a obra O dialeto mirandês. Quatro anos depois, viajou para Miranda do Douro para estudar a língua localmente. Em 1901, surgiu uma obra mais completa intitulada Estudos de filologia mirandesa. Ela contém uma pequena antologia de literatura mirandesa, inclusive algumas traduções que o próprio Leite de Vasconcellos fez de Camões. Há, ali, algumas estâncias de Os Lusíadas.

A tradução de Leite de Vasconcellos evita, como a de Niebro, uma terminologia erudita. A primeira estrofe do poema ficou desta forma:

Las armas e les omes afamados

Que fur de la tierra Lusitana,

Por mares d’atrás nunca nabegados,

Inda pr’ alhá de l’ ilha Taprobana,

Á peligros i guerras biẽ sforçados,

Más de l que prometie la força oumana,

O antre gente de lõge stabelecirῦ

Nobo reino que tanto angradecirῦ.

Se compararmos essa tradução com a de Niebro,

Aqueilhas armas i homes afamados

Que, d’Oucidental praia Lusitana,

Por mares datrás nunca nabegados,

Passórun par’alhá la Taprobana,

An peligros i guerras mui sforçados

Mais do que permetie la fuorça houmana,

I antre giente de loinge custruírun

Nuobo Reino, que tanto angradecírun,

percebemos, em primeiro lugar, uma mudança ortográfica, a qual evidencia, não uma influência portuguesa mas, apenas, que a língua busca uma normatização e que vem, portanto, sendo tratada como uma língua culta.

Mas, no que diz respeito à tradução, percebe-se que os dois tradutores evitaram os seguintes termos: “barões” ou “varões”; “assinalados”; “remota”; “edificaram”; e “sublimaram”. Esses termos não se encontram nos glossários e dicionários mirandeses. Por que não?

São palavras que se encontram em diversas línguas românicas e têm origem no latim. Em castelhano, temos varón; em italiano rimota; em francês signaler; etc. O fato de não os encontrarmos muitas dessas palavras em línguas minoritárias como o mirandês, o leonês, o aragonês, o romanche, etc., é um indício de que elas não se encontram em um estádio de evolução.

Termos eruditos são, geralmente, incorporados à língua tardiamente, quando ela já se encontra formada. Tomemos um exemplo. A palavra “mancha”, em português, deriva do latim macula, ae, a qual originou em português também as palavras “malha” e “mágoa”. Tardiamente, contudo, eruditos incorporaram ao glossário português o termo “mácula”. Esse processo de formação de vocábulos resulta, amiúde, em termos esdrúxulos.

Quando Leite de Vasconcellos procurou traduzir algumas estâncias de Os Lusíadas, não lhe era possível criar ou incorporar vocábulos, uma vez que o trabalho dele foi pioneiro e tinha como propósito tirar o mirandês de seu estádio pré-histórico. Fracisco Niebro rejeitou também a incorporação de vocábulos, embora ela lhe tivesse sido bastante útil.

Formação de palavras

Há vários processos de formação de palavras no português, mas ressaltaremos os dois mais comuns (a ele e às línguas latinas em geral): derivação e composição. Derivação consiste, basicamente, no acréscimo de morfemas a uma determinada palavra (afixos); composição, na união de duas ou mais palavras ou radicais para formar um novo termo. Por meio desses dois processos, formam-se novos vocábulos em todas as línguas românicas, ainda que esses processos não lhe sejam exclusivos. Eles se repetem nas línguas germânicas, eslavas, etc. Mas, para aquilo de que tratamos aqui, temos que esses dois processos, por serem encontrados em todas as línguas românicas, encontram-se também no mirandês. Funcionam, na maioria das vezes, de forma natural e acompanham a evolução da língua oralmente. É o falante da língua quem os cria. Mas esses processos também definem a formação de neologismos, sejam eles naturais ou literários.

Analisemos algumas palavras formadas por prefixação, que é uma das modalidades da derivação.

O prefixo des-, que exprime negação, oposição ou carência, é, certamente, de origem latina. Encontramo-lo em vocábulos como destapar, desprezar, despontar, destruir, etc. Ainda que nas línguas românicas não haja um prefixo único para indicar essas formas,2 o prefixo des- (ou de-) é, nelas, bastante prolífico, como podemos ver nestes exemplos: despuntar, despreciar (castelhano), débander, détruire (francês), distruggere, disprezzare (italiano), a distruge, a dispretui (romeno). Em aragonês, por exemplo, há diversas palavras iniciadas pelo prefixo des-. Em leonês, no entanto, esse prefixo é es- (estruyire, “destruir”; espreciare, “desprezar”). Em mirandês, devido ao parentesco dessa língua com o grupo arturo-leonês, o prefixo des- é também representado por uma fricativa sibilante, mas sem a vogal: ç-. Dessa forma, temos os vocábulos çtapar, çtruir, çpreziar, etc.

Há, porém, diversos prefixos de origem latina ou grega que se acomodam perfeitamente em mirandês e que são os mesmos em português: ab-, ad-, pré-, re-, etc. Mas, devido à evolução própria da língua, alguns prefixos mirandeses diferem de seus equivalentes portugueses, como por- (em vez de pro-) e ç- (em vez de des-).

O prefixo inter-, por sua vez, torna-se anter- no mirandês,3 mas é comum nessa língua que se iniciem em an- aquelas palavras que, em português, iniciam em in- (ou en-): anteirado, anteiriço, anterditar, anterferir, anterrar, etc.

Uma outra característica evolutiva do mirandês é a aceitação natural de metaplasmos: arrecelar, arrecular, arrefundar, arrenegar, etc.

Conhecendo-se esses mecanismos, podem-se criar palavras em mirandês sem corromper a estrutura da língua. E, se o tradutor que trabalha com um texto de erudição tiver dúvidas acerca da existência desse termo e de sua adequação à língua, pode sempre ocorrer ao leonês ou asturiano.

Evolução da língua mirandesa

O mirandês é uma língua românica, cuja gênese ainda não está totalmente esclarecida. José Leite de Vasconcellos afirmou, em seus Estudos de filologia mirandesa, que essa língua derivava diretamente do latim. Ramón Menéndez Pidal, por sua vez, afirmou ser o mirandês derivado do leonês. Seja como for, o que parece certo é que o mirandês cedo se estabeleceu e se isolou no lado português do rio Douro e que, a partir daí, passou a receber mais influência do português que do leonês ou do castelhano.

Apesar de a região de Miranda do Douro estar mais próxima da Espanha do que do restante de Portugal, o acesso a ela desde a Espanha sempre foi difícil. Se os leoneses lá chegaram centenas de anos atrás, lá ficaram isolados, e seu povo, a partir de então, passou a ter mais contato com os portugueses do que com os espanhóis. É por isso que encontramos no mirandês radicais leoneses e um vocabulário e uma articulação vocálica bem próximas ao português.

Assim como no leonês, o mirandês palatalizou a L inicial latina. Palavras como luna e lupus evoluíram para lluna (lua) e llobo (lobo). Palatalizaram-se também os grupos pl-, cl- e fl-: pluvia, clave e flamma deram chuvia (com o ch forte como no castelhano: tch), chabe (chave) e chama. As vogais O breve e E breve, do latim, ditongaram-se, como no castelhano: puôrta, tiempu. A inicial F, que no castelhano se transformou em H, foi mantida no mirandês (como em português): facer, forno, fondo.4 A consoante N, em posição intervocálica, manteve-se em mirandês, como no castelhano, e ao contrário do que ocorreu no português: rana (rã) e lluna.

O mirandês tem outras características evolutivas, como a palatização das consoantes duplas (castielho, anho e danho) e a ditongação da breve tônica (ferrum > fiêrro).

Esse quadro resumido mostra-nos que a língua mirandesa se comporta, evolutivamente, ora como o português, ora como o castelhano e ora como o leonês, não se podendo, portanto, atribuir a ela uma origem única.

Os eruditos que estudaram a língua mirandesa ­– e os tradutores que para ela verteram textos importantes de outras literaturas com o propósito de enriquecê-la – certamente conheciam bem o comportamento evolutivo da língua e sabiam em que ela se diferenciava das línguas mais próximas a ela. Os tradutores, contudo, não se atreveram a criar palavras e a emprestar ao mirandês termos de outras línguas, procedimentos que poderiam enriquecê-la. Temiam agredir a língua, contaminá-la com neologismos e elementos estranhos a ela.

As línguas rejeitam os neologismos quando eles são desnecessários ou malformados. Quanto aos estrangeirismos, o processo de aceitação ou rejeição é um pouco distinto. Em um primeiro momento, a língua, sempre se abre a novos vocábulos, aceitando-os. Com o tempo, eles são esquecidos ou assimilados foneticamente; razão pela qual se mantiveram, em português, termos como “futebol” e se rejeitaram outros como “goalkeeper” (ou quíper) ou “guarda-metas”.

Todavia, uma língua impermeável a novos termos é uma língua em extinção. É como um ser vivo que, se não se nutre, morre. A língua se nutre de palavras, e as palavras refletem os pensamentos e as ideias do falante da língua. Se não há termos novos, não há ideias novas. A paralisia do pensamento é a morte do ser pensante.

Os tradutores que se atreveram a verter Os Lusíadas para o mirandês esbarraram em um problema seminal para a língua: ou mantinham intactas as características dela ou a subvertiam com elementos estrangeiros. No primeiro caso, arriscavam-se a deixá-la estanque; no segundo, a descaracterizá-la. A decisão era difícil. Por que não deixar, então, que o próprio autor, e não o tradutor, decidisse qual o melhor caminho a ser seguido?

Uma das características de Os Lusíadas é a erudição de seu autor. A riqueza vocabular que o poema apresenta demonstra que se trata de obra de erudição e não de um poema popular, ou de uma obra do folclore. Por que, então, traduzi-lo para uma forma popular?

Por causa disso, a tradução de Os Lusíadas para o mirandês feita por Fracisco Niebro parece mais uma paráfrase do que uma tradução propriamente dita. Uma análise dos termos substituídos por ele, comprovam essa hipótese.

Se tomarmos as 20 primeiras estrofes do poema, encontramos nelas, aproximadamente, 25 termos de reduzida ocorrência em obras literárias e de reduzidíssima ocorrência na linguagem falada. Relacionamos esses termos, abaixo, mostrando como Niebro os verteu para o mirandês.

Canto Primeiro

1

As armas e os barões assinalados,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;

2

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando;

E aqueles, que por obras valerosas

4

Um estilo grandíloquo e corrente,

5

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mas de tuba canora e belicosa,

6

Vós, ó novo temor da Maura lança,

7

Cesárea ou Cristianíssima chamada;

8

E quando desce o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

9

Os olhos da real benignidade

10

Por um pregão do ninho meu paterno.

Daqueles de quem sois senhor superno,

12

Por estes vos darei um Nuno fero,

13

Outro Joane, invicto cavaleiro,

14

Um Pacheco fortíssimo, e os temidos

16

Em quem vê seu exício afigurado;

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tethys todo o cerúleo senhorio

18

E vereis ir cortando o salso argento

19

Os ventos brandamente respiravam,

Das naus as velas côncavas inchando;

20

Pisando o cristalino Céu formoso,

Convocados da parte do Tonante,

1

Homes afamados

Custruírun

Angrandecírun

2

Oumentando

Perdidosas

Arrasando

Balerosas

4

Grandioso

5

Alblidosa

Pastoril

Guerreira e afruntosa

6

Moura

7

Cezária ou Crestianíssema

8

Redadeiro

Mal

9

Bundade

10

Pregon

Supremo

12

Fiero

13

Baliente

14

Fortíssemo

16

Findar repersentado

Jugo

Mar _

18

19

Criançosos

Cóncabas

20

Fremoso

Tonante

*

Comentários:

Estrofe 1

O termo mirandês barão refere-se não a homens nem a nobres, mas ao aumentativo de “vara”.

Niebro, assim como Leite de Vasconcellos, evitou a palavra “assinalados” por entender que em mirandês não teria o sentido de “determinados”, “famosos”.

A explicação por terem os dois tradutores evitado o termo “sublimaram” é o desejo de evitar o duplo sentido que ele tem no original. Camões não se refere apenas ao engrandecimento do reino de Portugal, quando escreve “sublimaram”, mas também ao engrandecimento do reino de Cristo, o qual é sublime.

Estrofe 2

Embora os glossários existentes não registrem o termo dilatar, ele aparece em asturiano e castelhano. A opção por oumentar, com o mesmo número de sílabas, deve-se, acreditamos nós, à decisão do autor de simplificar o vocabulário do texto.

O termo “viciosas”, no entanto, está registrado em diversos glossários do mirandês como “biciosas”. Traduzi-lo por perdidosas, ao invés de diminuir-lhe o campo semântico, amplia-o.

Quanto a “devastando”, os glossários não registram a forma debastando, ainda que seja plausível sua existência.

O termo “valeroso”, em português, é a forma arcaica de “valoroso”. O mirandês conserva essa forma arcaica. O tradutor escolheu-a por ser a forma corriqueira da língua.

Estrofe 5

Alblidosa (habilidosa). O tradutor preferiu um sinônimo iniciado por vogal, pois usara anspiraçon para verter “fúria”. Alongando o número de sílabas dessa palavra, teve de fazer uma elisão entre a penúltima e a última palavra do verso.

“Avena”. Ao usar pastoril, o tradutor substitui um termo específico por um genérico, empobrecendo o texto.

Estrofe 6

Outra característica de Os Lusíadas é a diversidade de termos usados para se referir aos muçulmanos e a Maomé: Mauros, mouros, Mafoma, Maoma, etc. O adjetivo “mauro” está, por exemplo, no topônimo “Mauritânia”. Percebe-se, por esse e por outros exemplos, como a simplificação vocabular restringe o sentido dos termos e empobrece o texto.

Estrofe 8

O termo redadeiro é comum em mirandês. “Vitupério”, no entanto, não consta dos glossários. Mas o termo caberia bem no mirandês, visto que é bem aceito por outras línguas românicas: vituperio (castelhano), vitupero (italiano), vitupère (francês), etc.

Estrofe 13

A palavra latina invictus é composta do particípio passado do verbo vinco, is, ere (vencer), acrescido do prefixo in- (não). Invicto era aquele que não podia ser vencido. Sua incorporação ao português é tardia e tomada por via erudita. É perfeitamente adequada ao mirandês. O tradutor não arriscou-se a escrever algo como inbicta, porque, nesse caso, usaria uma palavra sem registro em sua língua ou corromperia a grafia latina dessa palavra.

Estrofe 14

Grande parte dos termos esdrúxulos existentes no português foram forjados por via erudita. O superlativo sintético quase não é usado na língua falada e ocorre pouco em textos literários anteriores ao século XVIII. Era mais comum, entretanto, no italiano. Quanto ao mirandês, não temos como sabê-lo, devido à falta de literatura escrita nessa língua antes do final do século XIX. Mas, com a normatização da língua e elaboração de uma gramática, o mirandês reconhece essa forma do superlativo.

Estrofe 16

O registro mais antigo do termo “exício” está em Os Lusíadas. Não parece, porém, que tenha sido um termo cunhado por Camões. Se foi, é bem possível que por empréstimo do italiano esizio. Palavras próximas a essa ocorrem em abundância nas línguas românicas: êxito em português e seus equivalentes em outras línguas; exit (inglês); etc. Todas elas derivam do latim exitus (ação de sair). O termo não deve existir em mirandês, e sua prosódia dificulta-lhe a introdução nessa língua.

Em relação ao termo jugo, é necessário discorrer um pouco sobre o uso dele no contexto. Camões diz que o bárbaro gentil inclina o pescoço à simples visão do rei de Portugal. O bárbaro tem, diante dessa visão, “o pescoço ao jugo já inclinado”. Camões trabalha aqui com diversos sentidos. A palavra “jugo” tem, no verso, sentido metafórico: peso, submissão. Mas tem, também, um sentido mais concreto, o do próprio jugo que se coloca na cerviz do boi, do animal de carga, do animal submisso. É a luta da civilização cristã contra a civilização do bárbaro. Não vem ao caso o fato de esse bárbaro, o mouro, ser, à época de Camões, mais civilizado do que o cristão.

Niebro utilizará cachaço, que é a forma mais comum de se dizer “pescoço” em mirandês. Mas é também a forma mais comum de se referir ao pescoço dos animais.

Estrofe 18

O “salso argênteo” do poema transformou-se em seu sentido: “mar”. A metáfora da folha de prata e de sal desapareceu na tradução. É esse um procedimento de paráfrase.

Estrofe 19

A palavra “brando” existe em mirandês e é homógrafa do português. A escolha do tradutor embeleza o texto, embora lhe modifique um pouco o sentido.

Estrofe 20

O adjetivo “formoso”, em português, tem muitas formas: formoso, fermoso, fromoso, fremoso, sendo, essas duas últimas de cunho popular. Em castelhano, o termo correspondente é hermoso. Transpondo-o para o leonês, teríamos fermoso, como no mirandês. Entretanto, o registro dessa forma no interior do Brasil (fenômeno conhecido como insulamento), indica que ela era usada no português antigo.

As escolhas feitas por Niebro revelam que, em geral, ele se absteve de enfrentar o problema da tradução de termos eruditos ou de baixa ocorrência, preferindo, sempre, sinônimos mais corriqueiros. Com isso, como já dissemos, ele evitou incorrer em estrangeirismos ou grafar termos inexistentes em mirandês. Mas o seu texto, embora seja uma tradução interlinear do texto de Camões e busque corresponder a ele verso por verso, destoa do texto do poeta português pela falta de erudição vocabular ou, se quisermos, pela simplicidade das palavras utilizadas.

Conclusão

Fracisco Niebro realizou uma belíssima tradução de Os Lusíadas para o português. Malgrado as escolhas que fez, simplificando o vocabulário do original e não se arriscando a usar neologismos e estrangeirismos, acabou por realizar um belo trabalho. Essa tradução é um texto musical, agradável de se ler, declamar e ouvir. É poesia. Mas poesia de cunho popular. O resultado dessa tradução foi transformar uma obra de literatura erudita num poema popular. Mas isso aproxima-o de Homero.

A literatura épica antiga era feita para ser cantada, memorizada. Não era trabalho escrito. O poema de Camões, por sua vez, é obra de uma sociedade moderna, comercial, que presava o valor da escrita. O problema com a tradução de Niebro é que um poema moderno foi transformado em literatura oral, quando a intenção de traduzi-lo foi justamente outra: a de preservar, por meio da escrita, uma língua que se aproxima do exício.

 

Bibliografia

Almeida, Napoleão Mendes (1986). Gramática metódica da língua portuguesa, São Paulo: Editora Saraiva.

Berman, Antoine (1999). La traduction et Ia lettre ou l’auberge du lointain. Paris: Éditions du Seuil.

Camões, Luís Vaz de (2010). Ls Lusíadas, traduçon para mirandés de Fracisco Niebro, Lisboa: Editora Âncora.

Herculano de Carvalho, J. G. “Por que se fala dialecto leonês em terra de Miranda?” in Estudos Linguísticos I, B. N.: L. 34618-19 V.

Pires, Moisés (2004). Pequeno vocabulário mirandês-português, Miranda do Douro: Câmara Municipal de Miranda do Douro.

_____ (2009). Elementos de Gramática Mirandesa. Miranda do Douro: Câmara Municipal de Miranda do Douro.

Rodrígruez, Eugênio Miguélez (2000). El dialecto leonés y el nombre de las cosas. León: Ediciones leonesas.

Vasconcellos, José Leite de (1901). Estudos de Philologia mirandesa, Lisboa: Imprensa Nacional.

NOTAS:

1 Berman (1999).

2 Por exemplo, “desprezar”, em francês é mépriser; “despontar”, em italiano, é spuntare.

3 Anterbenir, anterceder, anterditar, antermear, anterpretacion, etc.

4 Em castelhano, hacer, horno e hondo, respectivamente.

Afonso Teixeira Filho

Afonso Teixeira Filho

Bacharel e Doutor em Letras, na área de Linguística, pela Universidade de São Paulo; Pós-doutorado em Teoria da Tradução pela Universidade de São Paulo, com estágio na Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica;
Bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

Tradutor e lexicógrafo, com mais de 40 livros traduzidos.
Articulista do Diário Causa Operária e ensaísta nas áreas de música, línguas e literatura.
Afonso Teixeira Filho

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  • abanhos

    Excelente trabalho Afonso.
    O mirandês pode ser também, de facto é se nos achegamos com olhos abertos um espelho de “construtos” que há na Galiza

    Será muito bom ter-te aqui no PGL.gal como um colaborador mais a achegar-nos conhecimentos

  • Galego da área mindoniense

    Que nostalgia esse “antre”. Umha mágoa que agora seja tam pouco utilizado.

    • Ernesto V. Souza

      Acho que há que começar a diferenciar:

      – recetor/público

      – modo académico, culto e popular

      – estilo literário, formal, neutro, informal, familiar

      – registo, adequação

      Em muitos deles um “antre” ou o que che-nos pete (regionalismos, formas calão, fonética marcada, morfologia verbal, arcaismos literários…) podem e até devem ser usados… noutros seriam interpretados como significativos pelo leitor… o mesmo com o leitor/recetor… em função dele podemos escrever umas ou outras cousas… ou non …?

      Essa é a diferença entre uma língua a sério, rica e plena e uma caralhada…

      Saúde

  • Galego da área mindoniense

    E é por isso que o galego reintegracionista está aproximando-se à extinçom. Rejeita o que é exclusivo da Galiza, e cada vez semelha umha cópia da variante lusitana.

    • Ernesto V. Souza

      Parvadas… lê o que escrevi antes…

      • Galego da área mindoniense

        Falava em geral. Por sorte, há várias pessoas que nom fam assim. Mais, si que começa a haver alguns sujeitos que nom fam mais ca copiar tudo da variante lusitana.
        Há que ter coidado com estes últimos.

        • Ernesto V. Souza

          Por que há que ter coidado?

          Para mim é ótimo que haja escritores que tenham por base de leitura e modelo de referencia o português, mesmo que seja marcadamente: autores como Alfredo Ferreiro, Carlos Garrido, Eduardo Maragoto, Bea Bieites, Mauricio Castro, Valentim Fagim, Carlos Quiroga… deste jeito compensam com autores mais enxebristas como Alexandre Banhos, Joam Facal, Martinho Montero, Isaac Estraviz, Concha Rousia ou eu próprio…

          • Galego da área mindoniense

            Bem, admito que tens razom.

  • Galego da área mindoniense

    Os livros traduzidos adoitam ser mais doados de ler cós livros originais. Porém, os livros originais têm uã mor riqueza léxica e sempre aprendes várias verbas e vocabulário coa sua leitura.

    • abanhos

      ûa,
      N’é?