ATRAVÉS EDITORA

“Que a ortografia não seja um problema para as autoras é um primeiro passo para derrubar muros”

No PGL recuperamos a entrevista de Tiago Alves Costa publicada na revista Palavra Comum às editoras de Através Editora, Valentim Fagim e Teresa C. Pilhado



entrevista extraída de Palavra Comum

Consideram-se uma equipa não profissional, no entanto são já 90 títulos editados desde a sua fundação e o consolidar de um vasto e criterioso catálogo de autores, clássicos e contemporâneos, do panorama literário galego e lusófono. A Através Editora é um selo da AGAL e editam sobretudo em galego internacional, “uma versão que não atravessa preconceitos, nem limitações“. Possuem um clube de subscritores e vários segmentos de publicação, onde se incluem: Através das Letras, Através das Ideias, Através da Língua, Através de Nós e mais recentemente a Colecção Alicerces onde se abordam as áreas do pensamento, arte ou sociedade, num estilo breve e directo. Afirmam ter vontade de atravessar a fronteira política, e muitas vezes a mental, que separa a Galiza da Lusofonia. Para conhecer um pouco mais este vital e corajoso projecto entrevistamos os seus editores, Teresa Crisanta Pilhado e Valentim Fagim.

valentim fagim teresa crisanta

Cumprem-se 10 anos desde o nascimento da Através Editora, que balanço fazem do vosso projecto?

TP: Através é, sobre todas as coisas, uma editora necessária. Acho que há lacunas no sistema cultural galego ligadas nomeadamente com o debate ortográfico, debate que é o centro de muitas das nossas publicações. Porém, embora sejamos uma editora bastante especializada onde o peso do linguístico continua a ser grande, começa a haver uma presença significativa de livros não ligados com a questão reintegracionista, como a nova coleção Alicerces ou os textos literários que têm uma qualidade imensa. Como já tenho dito, gostaria de publicar mais literatura e que a nossa existência não fosse necessária, sintoma de que a situação está mais normalizada e não é necessário fazer constantes reivindicações e defesas, mas infelizmente esse dia vai tardar em chegar.

VF: A Através nasceu para dar um salto qualitativo nas publicações que gerava a AGAL com a vontade, numa primeira fase, de que a produção em galego internacional na Galiza tivesse um espaço de confiança, uma casa. Passados 9 anos, olhamos para trás, e para além dessa missão inicial, fomos capazes de outras abordagens. Por exemplo, traduções ambiciosas como o Guia das Nações sem estado e Uma história das línguas, ou editar um Guia do Caminho Português ou um livro de divulgação feminista de autoria brasileira. Pessoalmente tenho muita confiança nas possibilidades da coleção Alicerces, dirigida por Teresa Moure, que, tocando temas do mais diverso, permite seduzir [email protected] para o lado escuro da norma que, na verdade, é bastante luminoso. A resposta para perguntas deste teor costuma ser uma nova pergunta: valeu a pena o investimento de energia? Valeu, com certeza.

Lembram-se da sensação de ter nas mãos o primeiro livro saído do prelo?

VF: Através nasceu à grande e à francesa com quatro livros criteriosos, Sempre em Galiza, de Castelao, Animais, de Séchu Sende, Parecia não pisar o chão, treze ensaios sobre a vida de Fernando Pessoa, de Carlos Taibo, e Noente Paradise de Ugia Pedreira. Foi um começo ambicioso e lembro as apresentações no Festigal e as boas sensações que deixou o nosso nascer de quatro ângulos. O pessoal estava abismado, eu também.

E como é que surge a ideia de construir uma editora num tempo onde, segundo as estatísticas, se lê cada vez menos?

TP: Repete-se como um mantra que cada vez as pessoas leem menos, nomeadamente a juventude. Não é assim. O facto de não vermos gente com um livro na mão não significa que não estejam a ler. Aliás, a noção de leitura está a ser modificada por causa dos novos meios que o mercado e as tecnologias oferecem. Em relação com isto também está o culto ao livro como objeto. Há tantas pessoas a comprarem livros que nunca leem apenas porque está socialmente bem visto a mera posse deles. Existe a falsa premissa de que ler supõe a necessidade de um livro.
Mas Através não é uma editora normal. Não surge para publicar títulos e as pessoas lerem. Surge para criar um espaço em que as autoras que escrevem numa ortografia não hegemónica possam publicar os seus textos já que as grandes editoras galegas, as que publicam num mês o mesmo número de livros do que nós ou outras editoras pequenas ao ano, banem a ortografia reintegracionista. Embora seja lindo trabalhar na Através, a realidade é que existimos por necessidade.

“A literatura galega atual está num bom momento e há escritoras magníficas a publicarem textos maravilhosos”

A Através é uma entidade sem fins lucrativos. Poderiam falar-nos sobre o modelo editorial utilizado, o papel do clube de subscritores e dos sócios da AGAL para a viabilidade do projecto?

TP: Uma coisa muito importante para nós é a avaliação dos livros. Os ganhos de cada texto servem para publicarmos outros, pelo que não podemos arriscar demasiado. Aliás, o nosso processo editorial tem um percurso que finaliza rápido. Quase todas as pessoas da editora somos filólogas, sabemos de livros, mas não temos formação na parte mais comercial. No momento em que o livro sai do prelo deixamos de ter recursos para a sua promoção. A isto temos que ligar que o sistema não propicia precisamente que os nossos livros tenham difusão. É por isso que termos uma rede é tão importante e os clubistas são essa rede, pessoas muitas vezes militantes ou afins ao reintegracionismo que fazem possível o projeto. No entanto, temos leitoras ocasionais que não são desse perfil, o que com certeza é também uma alegria.

VF: A Através é uma editora associativa, ligada à AGAL. Esta é a sua grande fortaleza, há quem ache também ser uma limitação. Julgo ser uma fortaleza porque a Através é capaz de gerar relações amorosas, onde as pessoas dão, muito, sem retorno lucrativo. Há uma rede imensa de pessoas que doam tempo, saberes, até dinheiros. Pessoalmente isto é o que me liga intimamente à editora, a generosidade dos outros que alimenta e potencializa a nossa. Capas, paginações, revisões, avaliações, lançamentos… envolvem muitas pessoas, dezenas de pessoas, que (se) dão. É a magia de ser uma editora associativa. Temos ainda quase 100 clubistas que são um trampolim que confiamos tenha cada vez maior altura para dar saltos mais arriscados e elaborados.

Com tantos livros à disposição e tantas plataformas de auto-publicação, qual o papel do editor atualmente no mercado editorial?

TP: Seja qual for a plataforma onde o texto seja publicado, a editora é uma figura que deve estar presente no processo de edição textual, sobretudo em textos galegos por causa da deturpação linguística. Quando essa figura não está presente o texto sofre, as leitoras percebem-no e isso influi na receção. O facto de que um livro não passe os critérios de qualidade ou comerciais de uma editora e acabe por publicar-se em plataformas on-line não deve supor uma falta de rigor por parte da autora, tanto linguística como formal. Desconheço as estatísticas sobre auto-publicação, mas seguindo a linha do que dizia anteriormente considero que os livros são percebidos como objetos de culto, o que sem dúvida promove edições com uns padrões mínimos de qualidade e estilo. Aliás, para uma escritora é também importante a figura da editora que, para além da função textual, tem muita importância em termos sociais (promoção do texto, ligação com outras autoras, criação de espaços dentro do sistema cultural…).

VF: Numa primeira fase a nossa atitude foi de paciente espera. Os livros chegavam. E eram enviados pola comunidade lusógrafa galega. Lentamente fomos mudando o esquema e agora não apenas esperamos como procuramos os livros, pensamos em temas que queremos abordar, tocamos pessoas que achamos interessantes (é o caso mais claro de Alicerces) e fazemos que o livro ocorra. Essa é a função, acho, do editor(a), decidir que livros são nutritivos para o público leitor galego e português. Essa procura pode ser de vários tipos. No caso de Galiza, um povo sentimental?, de Helena Miguelez, um leitor avisa-nos da sua existência na versão original, em inglês, e abordamos a autora que, por sinal, facilita todo o processo. Esse livro fora oferecido a outras editoras galegas mas recusaram. Nós, não. Outras vezes o mecanismo é “criar” o livro. É o caso de Bolcheviques ou Abadessa, oí dizer, ambos eclodidos por Teresa Moure. Ser editor é também, na espera, decidir que se vai publicar e que não, decisão que muitas vezes é complexa.

Susana ArinsTeresa MoureCarlos Quiroga, Ondjaki (referindo alguns) são autores reconhecidos e premiados tanto no panorama literário galego como lusófono, o que é notável para uma editora independente e com tão poucos anos. Qual é o segredo para um catálogo tão vasto e de tanta qualidade?

TP: Nenhum segredo. A literatura galega atual está num bom momento e há escritoras magníficas a publicarem textos maravilhosos. Algumas dessas escritoras são reintegracionistas e por desgraça as suas opções de publicação são mais bem poucas. Felizmente há editoras sem veto ortográfico (Axóuxere, Laiovento, Baía Edições, etc.), mas ao publicarem em ambas as ortografias deixam um espaço menor para o reintegracionismo. No entanto, é necessário também sublinhar de novo a questão da difusão. Publicamos uma autora como Teresa Moure, com muitos textos escritos na ortografia isolacionista e todos eles com várias edições, mas connosco não tem mais de uma. És repentinamente pior escritora por escreveres com “ç” ou há um sistema que pune quem se afastar da norma?

VF: O desafio não é tanto que publiquem com a Através uma primeira vez mas sermos capazes de criar o ambiente amigável, amoroso, para que as [email protected] tenham vontade de repetir. Um dos pontos fortes das escolas Semente é que os pares galego-falantes que pensam em ter filhos sentem-se “protegidos”, ou talvez melhor, apoiados, acompanhados. A Através aspira a que @s a[email protected] [email protected], quando estiverem empolgados com uma obra, sequer com uma ideia de obra, saibam que nós acompanhamos.

A Coleção Alicerces ampliou os vossos segmentos em áreas como o pensamento, arte ou sociedade, num estilo bastante breve e direto. Visto que hoje em dia há leitores cada vez mais exigentes e selectivos, consideram importante poder diversificar os conteúdos e chegar assim a mais público?

TP: Considero a diversificação dos conteúdos um elemento chave por vários motivos. Um deles é o meramente comercial. Tens de ser uma editora muito boa e importante para poder publicar apenas um tipo de textos sem que isso suponha momentos de fraqueza. Ter diferentes públicos é fundamental para crescer e penso que Através começa devagar a se achegar a esse modelo editorial. Já o fazia antes da coleção Alicerces com um incremento de textos não linguísticos, mas a coleção da Teresa Moure foi, penso, um antes e um depois. Acho que a ideia é brilhante, nova e necessária. Por outra parte, essa diversificação supõe, como dizia antes, achegar-se a uma fase de normalização que, longe de estar perto de se consolidar, cria a base para o que num futuro poderá ser uma coisa normal: ler um romance, um ensaio ou uma revista em qualquer normativa e sem preconceitos.

VF: Um dos livros que me deixou mais satisfeito dos inícios da Através foi O pequeno é grande, em volta do minifundismo agrário. Os autores fizeram um monte de lançamentos que ajudaram a que os livros encontrassem um lugar em moradas onde provavelmente fossem os pioneiros na ortografia portuguesa. A nossa aspiração, já desde o início, com Séchu Sende e Ugia Pedreira, era okupar espaços novos. Alicerces, com certeza, é um aliado para este desafio. Através aspira a atravessar… tanta cousa…

Numa passagem pela feira do livro de Lisboa deste ano encontrei os livros da Através bem visíveis. Como tem sido a entrada no mercado português? Existe muita aceitação?

VF: O mercado português exige, em grande medida, livros para o mercado português. Nós, por enquanto, não temos grande capacidade prescritora na república. O nosso público alvo é o galego mas tentamos todos os anos editar textos que possam entremear-se nas prateleiras do sul. Para além dos já citados Guia do caminho português ou Uma história das Línguas, é o caso de São galego e português a mesma língua? do divulgador linguístico Marco Neves. Ora, é preciso, e tentamos fazer cada vez mais, rumar até Portugal com @s [email protected] [email protected] dançando com as aliadas que lá temos e conseguindo novas cumplicidades. É um trabalho sinuoso e agradecido. É uma dança, na verdade.

“O galego internacional convida a viver o galego como uma língua partilhada por várias sociedades e convida também a que partilhemos o que elas geram”

E a distribuição de livros entre a Galiza e Portugal, apresenta desafios?

VF: Não é difícil contratar os serviços de uma distribuidora, no nosso caso é a Companhia das Artes. Tampouco é difícil que os nossos livros estejam nas livrarias. Ora, o desafio é, afinal o desafio de todas as editoras, conseguir que o público possível de cada livro saiba que este existe. Aí o papel dos prescritores é importante, pessoas com capacidade de comunicar e que divulgam a obra, meios de comunicação impressos ou on-line, blogues, publicações sectoriais, etc. Essa é a chave, como fazer com que o possível leitor, por exemplo, do já dito livro de Marco Neves, saiba que este existe. Cada dia são editados muitos livros, e alguns deles interessam-nos e sabemos deles quase por acaso. Portanto, temos que criar “acasos” na Através.

Chegam-vos muitas propostas de publicação do âmbito lusófono?

TP: Chegam, sim. Para mim foi muito surpreendente ver que recebíamos textos de escritoras brasileiras ou portuguesas porque fora da Galiza somos espanhóis e a nossa editora é modesta. No entanto, chegam propostas de ensaio, narrativa e poesia, nem só de pessoas com ligação com a Galiza, também de autoras que não conhecemos e que têm vontade de publicar connosco.

Editam sobretudo autores que escrevem em galego internacional. Podem contar-nos um pouco sobre esta opção editorial e, para quem não conhece, o que é o galego internacional?

VF: É uma forma atrativa, e que não deixa indiferente, de denominar uma das maneiras de viver a língua da Galiza. Fomos e somos educados em que o galego é local (enquanto o castelhano é internacional, seja dito de passagem). E é assim como a maioria das galegas e galegos, falem a língua que falarem, vivem a nossa língua. É uma versão que não atravessa preconceitos, nem limitações, nem fronteiras, nem marasmos. O galego internacional convida a viver o galego como uma língua partilhada por várias sociedades e convida também a que partilhemos o que elas geram (arte, literatura, música, cinema, software, redes sociais…) bem como a partilhar o que nós criamos. Neste sentido, os livros da Através podem atravessar.

Como vêm o futuro do galego?

TP: Na Galiza, mal. Não gosto de ser pessimista, mas os dados estão sobre a mesa. Às vezes vou a palestras ou lançamentos de livros de pessoas que fazem parte de instituições oficialistas e saio escandalizada por duas coisas. A primeira, pelo discurso de lamentação e não de luta. Para [email protected] já não se pode fazer mais, queimara-se o último cartucho. A segunda, por causa da qualidade linguística. A presença do castelhano no léxico e nas estruturas sintáticas é esmagadora. Como posso ver o futuro do galego na Galiza se os membros encarregados de defendê-lo e promovê-lo são os mesmos que a deturpam?

VF: Tudo depende do modelo, do alvo. Se este for a nossa língua em Portugal ou no Brasil, ou mesmo o catalão, uma das poucas línguas sem estado com “certa” saúde social, vejo o futuro ruim. Ora, e é uma regra básica de gestão, é melhor colocar objetivos assumíveis, ambiciosos mas que se possam morder. O processo de substituição linguística está muito avançado e não deixa muito espaço, se formos observadores atentos e conscientes, para as miragens. A questão é: seremos capazes de criar uma comunidade, do maior tamanho possível, que viva em galego, que tenha um ambiente vital na nossa língua? Eu consigo com facilidade mas sou um ativista linguístico e, ainda, professor de português. Não tem mérito. Seremos capazes de que pessoas menos marcadas, falantes de galego a tempo completo ou parcial, criem laços entre si, com as sociedades que falam a nossa língua e com as suas produções? Seremos capazes de que a comunidade que já existe agora cresça até se tornar visível e um modelo em si?

E dentro de 10 anos como será a Através Editora?

TP: Em dez anos provavelmente será a editora que agora se está a formar. Um referente em questões filológicas e linguísticas, mas com uma vasta publicação literária. Seria fantástico que o literário ganhasse terreno e, aliás, que muitas autoras não reintegracionistas publicassem ocasionalmente connosco. Já aconteceu com pessoas como Helena Miguélez, a quem devemos um dos melhores textos ensaísticos da Através e eu diria que mesmo da cultura galega, Brais Arribas, Rebeca Baceiredo, Natalia Poncela, Jorge García Marín, Emma PedreiraMaría Lado, Rexina Vega… que a ortografia não seja um problema para as autoras é um primeiro passo para derrubar muros.

VF: A casa [email protected] [email protected] lusógrafos, a casa [email protected] [email protected] [email protected] que querem atravessar a fronteira e um referente editorial galego para a comunidade leitora portuguesa.

“…num futuro poderá ser uma coisa normal: ler um romance, um ensaio ou uma revista em qualquer normativa e sem preconceitos”


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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Bem interessante.
    O PGL em entrevista é mais que referência