«Se a língua de Afonso Henriques algum nome pudesse ter tido, era só este: galego»

Originalidades da língua portuguesa

Texto íntegro da conferência proferida por Fernando Venâncio em Bruxelas a 15 de maio de 2014 numa sessão solene de Embaixadores da CPLP, no edifício da Embaixada de Portugal



Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam

Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam

A língua portuguesa é um sistema dúctil, gracioso e inventivo. Nele se exprimiram, e continuam a exprimir, para deleite e proveito universais, muitos homens e mulheres pelo Planeta afora. Na fala e na escrita. É bom, é uma felicidade, que este idioma exista.

Acerca da língua portuguesa contaram-se sempre muitas verdades e alguns mitos. Tanto os mitos como as verdades são de interesse, e, mais do que isso, são instrutivos. As verdades porque nos levam a conhecer e entender melhor a realidade, a começar pela realidade à nossa volta. Os mitos porque denunciam concepções complexas, quando não singelamente irracionais, mas mesmo assim motivadoras. Todos os idiomas têm os seus mitos. De alguns deles se afirma que foram a língua do Paraíso terrestre. De alguns mais, que nasceram na noite dos tempos, estando entre as línguas originadas na confusão de Babel. Possivelmente todas a línguas têm falantes convencidos de que a sua é ‘a língua mais difícil de todas’. Vendo bem, trata-se de um elogio em causa própria. Porque, se a minha língua é a mais difícil de todas, então eu sou, desculpem lá, um fulano superdotado.

Estamos, aí, no domínio dos mitos folclóricos, inofensivos. Outro mito, também ele inofensivo, além de recentíssimo, mas já mais problemático, é aquele que atribui à língua portuguesa a idade de 800 anos. Alguém, há poucos meses, se deu conta de que em certo dia do próximo mês de Junho se completam oito exactos séculos do testamento de um rei português, Afonso II, não precisamente o primeiro documento exarado em português, mas o primeiro ‘apresentável’. Noblesse oblige. A língua portuguesa teria, assim, nascido em Junho de 1214. É engraçado como ‘relações públicas’, mas jamais um historiador da língua portuguesa afirmaria tal coisa. Por dois ou três motivos.

O primeiro motivo é de natureza extralinguística. Um documento escrito é um testemunho de um estado de coisas, nada tem de ‘fundador’. Mais ainda, é um testemunho inteiramente fortuito. Amanhã, ou daqui a dez anos, descobre-se um documento, também ele ‘apresentável’, mas cinquenta anos mais antigo, e lá se foi, a posteriori, a grande comemoração.

Mas ele há questões mais decisivas. A primeira é que nem 1214 nem cem anos para diante ou para trás indiciam o começo ou o fim de qualquer fase da língua portuguesa. Os historiadores mais argutos do nosso idioma concordam, sim, em que à volta de 1400 se assiste, no Sul de Portugal, e mais precisamente em Lisboa, a um conjunto de fenómenos que vão mudar a face da língua. É o momento em que toda a acção política, legislativa e cultural se vai centrar na capital, na ‘corte’, como se dizia. Isto implica uma ruptura com o Norte, também territorial, ao abandonar-se o velho sonho de anexar a Galiza. Desenvolve-se, então, uma norma linguística nova, onde se aglutinam características dos falares do Centro e do Sul, ao mesmo tempo que começa uma rejeição das marcas nortenhas, quase todas coincidentes com as galegas. Em suma: o ano de 1400 serviria bem melhor como momento simbólico do surgimento do português.

Existe, contudo, um motivo ainda mais crucial para esquecermos estes ‘800 anos de língua portuguesa’. Vejamos. Em 1143, início do Reino de Portugal, portanto mais cedo que 1214, já este idioma apresentava particularidades de toda a ordem (fonéticas, morfológicas, lexicais, fraseológicas) que o distinguiam, de modo irredutível, de toda a restante romanidade, e mais particularmente do vizinho castelhano. Essas particularidades eram tão únicas, e envolviam processos elaborativos tão complexos e tão vastos, que só uma conclusão se impõe: as feições desse idioma estavam desde há séculos definitivamente marcadas. Por outras palavras: o português ‒ aquilo que hoje chamamos português ‒ é um produto linguístico mais antigo, bem mais antigo, do que o Reino de Portugal. Ele nasceu e desenvolveu-se num vasto território do noroeste peninsular, a Galécia Magna, que (segundo Joseph Piel, o maior estudioso destas matérias) descia obliquamente da costa do Cantábrico até ao vale do Vouga, abarcando, portanto, só uma pequena parte do futuro reino português. É certo que era uma parte nuclear dele. Mas para todo o resto ‒ Trás-os-Montes, grande parte das Beiras, a Estremadura, o Alentejo, o Algarve ‒ era um idioma geográfica e historicamente estrangeiro. Que nome tinha ele, então? Chamavam-lhe linguagem, uma designação neutra, que significava, simplesmente, ‘não latim’. Mas, se a língua de Afonso Henriques algum nome pudesse ter tido, era só este: galego.

Estátua de Afonso Henriques (Guimarães, Portugal)

Estátua de Afonso Henriques (Guimarães, Portugal)

Tudo isto ‒ ser a língua portuguesa séculos mais antiga do que o próprio Portugal ‒ é, reconheçamo-lo, contra-intuitivo, e mesmo inaceitável para as concepções tradicionalmente reinantes entre nós, para a auto-imagem do cidadão português, e fere-lhe profundamente o orgulho. Mas esta é, também, uma tremenda originalidade do português: ter sido língua de comunicação numa comunidade economicamente desenvolvida, como era a da Galécia, e continuar a sê-lo, com naturalidade, sem estados d’alma, agora também no reino que os ricos senhores da Maia e do Porto, na sua empenhada e bem-sucedida conquista de espaço económico, foram estendendo para Sul. Foi esse idioma, agora já chamado português, que, nos séculos de Quatrocentos e de Quinhentos, os portugueses levaram pelo mar fora.

 

Artigo completo

Fernando Venâncio

Fernando Venâncio (Mértola, Portugal, 1944) é escritor, crítico literário e académico. Mudou-se à Holanda em 1970. Na Universidade de Amesterdão completou os estudos de linguística em 1976.Dois anos depois, começou a leccionar no departamento de estudos de Português na Universidade de Nijmegen. De 1984 a 1988 leccionou na Universidade de Utreque; acabou tornando à Universidade de Amsterdam para ensinar Português e cultura, até hoje. É colaborador de numerosas publicações em papel e formato digital, entre as quais o PGL.

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  • Ernesto V. Souza

    Como dizia Lupe Gomez, naquele magnífico poemário (Pornografia) em todo aspecto:

    Galiza

    Galiza non son
    imaxes. Son
    restos.

    • Venâncio

      Neste texto, a Galiza pode ter ficado em ‘restos’. Para aquele auditório diplomático e burocrático, e num contexto de ‘língua portuguesa’, mesmo esse estatuto já eram chocante… O mesmo autor, para diferente auditório, tinha, dias antes, feito outra conferência, de que aqui se acha o resumo. O extenso texto completo (ainda em produção) destina-se a uma publicação brasileira.

      http://www.ciberduvidas.com/controversias.php?rid=2962

      • Ernesto V. Souza

        Não, Fernando, o texto é magnífico e certeiro… é Galiza mesma que é apenas restos… e já era restos de restos antes de vir existir Portugal…

        • Venâncio

          Ernesto, não sei se a mítica, ou o ‘topos’…, da decadência são muito motivadores.

          • Ernesto V. Souza

            Em história e pátria tudo são tropos e eu gosto deste antiquíssimo “Blues da desfeita” …

            saúde

          • Joám Lopes Facal

            Galiza é um estado frustrado mas umha cultura irredutível, o primeiro é contingente e potencialmente reversível, o segundo é um facto que segue convocando os galegos geraçom após geraçom. “Hoy es siempre, todavía”

          • Venâncio

            À volta desse conceito de «cultura irredutível» poderiam congregar-se, creio eu, muitos galegos. Depois… era entenderem-se para dar-lhe forma política.

          • Ernesto V. Souza

            Somos galegos e nao nos entendemos… e parte do show 😉

          • Ernesto V. Souza

            Penso que era Otero em Morte e resurreicion que dizia alfo como que Galiza a diferenca doutros velhos estados e reinos da europa conservava-se moca no seu pato com a morte..

  • Joám Lopes Facal

    Admirável como sempre, mestre

    • Venâncio

      Aprendemos uns com os outros. Eu também com o Joám.

  • carrazedo

    Depende, em minha opinião a língua portuguesa não é mais antiga do que Portugal. O problema é a falta de transparência das palavras Galiza e Portugal. A pergunta é: são sinónimos? Que teria acontecido se aquando da divisão do território, Afonso Henriques, o pérfido galego (como chamavam os muçulmanos), psicopata assassino (diria eu) nomeasse o seu território como Galiza do Sul? E se passando os séculos o Reino da Galiza do Norte ficasse integrada nos territórios reinados por Castela, conformando posteriormente Reino de Espanha e o Sul chegasse a ser República Galega do Sul? E ainda haveria gente que dissesse: «não, não, os galegos setentrionais somos um povo diferente dos meridionais, não temos nada a ver!» Portanto, em minha humilde opinião, Galiza, Portugal, galego, português… a mesma merda é, como dizem alguns por aí fora. Portugal existe desde que existe a Galiza, com outro nome e outra extensão territorial, como também não é o mesmo o Portugal colonialista no seu nome e na sua extensão territorial que a República portuguesa do século XXI, insisto, IMHO!

    • Venâncio

      Carrazedo, eu não afirmo – exactamente não afirmo – que «a língua portuguesa é mais antiga do que Portugal», e sim que a língua que DEPOIS se chamou «portuguesa» é mais antiga, e bem mais antiga, do que Portugal. Claro: afirmar tal coisa só tem picante, ou só ‘choca’, em contexto português. Os mais lúcidos historiadores portugueses do idioma já o deixaram implícito. O que eu faço é, singelamente, explicitá-lo.

      Outra coisa: o «psicopata assassino» que fundou o Reino de Portugal não poderia tê-lo chamado «Galiza do Sul». Historicamente, é uma designação sem sentido nenhum. «Galiza» designava ou a Galécia ou o Reino da Galiza. O núcleo original de Portugal – Portucale, ou o Condado Portucalense – pertencia geograficamente à Galécia e politicamente ao Reino galego. Mas seria impensável que os separatistas portucalenses dessem ao seu território um nome diferente de «Portucale» ou «Portugal».

      • carrazedo

        Com licença, espero não ser demasiado extenso. Compreendo o que formula. Eu entendo que independente do nome que tenha a língua ao longo dos séculos, continua a ser a mesma. O português nasceu à vez que o galego, porque são dois nomes diferentes para o mesmo conceito. Até aqui acho que podemos estar a falar do mesmo, se não percebi mal.
        O problema que deteto é quanto à terminologia política dos territórios. Se bem é verdade que, geograficamente a Galiza, Galécia ou Gallaecia, é uma região mais abrangente do que hoje é a Região Autónoma; Portugal, ou Portucale, surgiu de um território galego. O nome desse território foi esse, como poderia ser qualquer outro.
        Hoje todo o mundo conhece a Irlanda do Norte, região autónoma do Reino Unido. O Úlster, ou Uladh, pode ser bem identificável com a Galécia como região histórica, salvando todas as distâncias políticas e históricas, parte do seu território é independente, na República da Irlanda e a outra parte dependente do Reino Unido. É fácil pensar que o norte-irlandês seja o mesmo povo que o irlandês, porque o leva no nome.
        Historicamente, claro que não tem sentido a designação Galiza do Sul/Norte, porque estava a fazer história-ficção. Mas teria sido possível? Pode. No momento em que se divide o território poderia ter sido nomeado Condado do Douro, Reino do Minho, Nova Galiza ou Reino de Braga, por que não? Portucale não deixa de ser uma localidade que deu nome a um território mais extenso.
        Mais claramente, a Irlanda foi dividida em dois territórios (Irlanda e Irlanda do Norte), assim como a Galiza (Galiza e Porto da Galiza). Afirmar que a língua que depois se chamou portuguesa é mais antiga do que o Porto da Galiza, ao meu ver, não tem sentido nenhum, porque o Porto da Galiza, obviamente, é a Galiza, como o Norte da Irlanda é a Irlanda. Se o «pérfido galego» era galego, os súbditos e os filhotes e netos dos súbditos, seriam também galegos tiranizados por um galego diferente aos vizinhos galegos do Norte. Nalgum momento começaram a se designarem portugueses? Sim. Que aconteceria se começamos a chamar-nos «lugueses» por causa de uma cruel expansão político-militar no Arde Lucus? Deixariamos de ser galegos? Não.
        Sei que é tema controverso, e que a intenção é outra, não pretendo incomodar. Está bem explicitar que a língua da atual República Portuguesa nasceu na Galécia e é anterior ao que comummente se considera o nascimento da nação portuguesa. É só a minha opinião quanto à terminologia e o que é ocultado trás dela. Respeitosamente.

        • Venâncio

          Concordo interiramente com o que escreveu: «a língua da atual República Portuguesa nasceu na Galécia e é anterior ao que comummente se considera o nascimento da nação portuguesa».

          Já tenho mais dificuldade com uma tese sua anterior: «Afirmar que a língua que depois se chamou portuguesa é mais antiga do que o Porto da Galiza, ao meu ver, não tem sentido nenhum, porque o Porto da Galiza, obviamente, é a Galiza». Vamos aceitar que Portucale significou «Porto da Galiza», como é proposto pelo Luís Magarinhos. Mesmo assim, eu não afirmei, em momento nenhum, que a-língua-que-depois-se chamou-portuguesa é anterior ao surgimento desse sítio, ou território. Já não é pouco dizer publicamente, em contexto português, que ela é anterior ao Reino de Portugal, e que o próprio nome de língua portuguesa só surge documentado séculos depois.
          Moral da história: os portugueses vão levar muito tempo a acostumarem-se a essas realidades, e o melhor que podemos fazer é usar de pedagogia, afirmando talvez um pouco menos do que gostaríamos que fosse de geral aceitação, mas com a vantagem de não desenvolver demasiados anticorpos.

          • Joám Lopes Facal

            Sábia sentença o último parágrafo, porventura aplicável cá.

          • Luís Magarinhos

            Cale (S. I a.C.) -> derivou em Galiza
            Portucale, Porto de Cale (S. V d.C.) -> derivou em Portugal

            E ambos topónimos estão na mesma cidade do Porto. Mas falamos apenas de topónimos e lugares concretos não dos territórios que posteriormente seriam nomeados a raíz desses topónimos ou lugares.

  • madeiradeuz

    Mais uma vez, cabe agradecer a Fernando Venâncio a decisão de querer compartilhar connosco este valioso texto. Fernando é um bom conhecedor e amigo da Galiza e dos galegos.

  • ranhadoiro

    Muito gostei do seu artigo

  • Luís Magarinhos

    Parabéns Fernando polos teus sempre pedagógicos e acertados textos…

  • Venâncio

    Um breve ponto da situação:

    No meu mural do Facebook, a ligação para este artigo do PGL reuniu 37 «gostos» e estimulou 13 partilhas. Ao todo (como acima se vê) o «post» gerou 135 «gostos».

    Para além desta numerologia, importa salientar a genérica adesão ao conteúdo do artigo, mais a ausência de atitudes discordantes. Sem dúvida: o meu microclima facebookiano não é representativo de nada. Só assinalo o facto.

    Ninguém sublinhou uma coisa: que, falando perante um auditório da CPLP, eu não tenha referido uma única vez a ‘Lusofonia’. Fi-lo conscientemente. Como muitos outros portugueses, considero este conceito inapropriado na relação entre os países de língua oficial portuguesa. E não por acaso, em Portugal (a ele me cinjo), a defesa da ‘Lusofonia’ é feita predominantemente, se não exclusivamente, por gente conservadora. Não é esse o meu mundo.

    • Ernesto V. Souza

      Não percebo bem, Fernando, o que nos quer dizer… A Lusofonia não é a Francofonia, espelho do centralismo francês e desse absurdo de projetos de uniformismo nacional. Pensar que os portugueses, com o que alenta profundamente deles de galegos, vão fazer nada com isso, para além de reuniões, debates, piadas e desencontros, parece mesmo loucura.

      Porém, declare-se ou não adesão ao conceto, o importante é a prática: qualquer pessoa alfabetizada em português, mesmo um galego, pode pegar em escritores Brasileiros, Africanos, Asiáticos, Portugueses regionais, em textos históricos e em textos escritos por pessoas com português como segunda ou terceira língua… e pode tratar de ler… a língua… compreender… isso já é outro cantar… mas nem sempre se pode compreender se se carece dos códigos e dos contextos. Saber que não se entende é já muito saber.

      Penso eu, e me desculpe a desconexão a esses mundos e tertúlias de amigos e afins do facebook, talvez apenas os galegos com essa nossa dupla capacidade de sentir e sonhar a universalidade dos humanos e compreender a infinita divisão a detalhe das variantes como necessidade sejamos dos poucos preparados para desfrutar desta globalização que tanto aterra as nações a sério, e perceber que os conjuntos possíveis estão – e isso é o bom quanto maiores, maior a variedade – formados de múltiplos universos, à sua vez divididos em conjuntos de sistemas e mundos com os seus satélites e variedades internas nos que as pessoas podem nem mesmo entender e concordar com os seus próprios parentes, como para ir entender-se com os das paróquias de perto… tão diferentes de língua e estrangeiros de costumes como os das antípodas.

      A língua portuguesa é um código de universalidade, uma das línguas comuns, isso é algo que qualquer galego adora, nela há infinitas variantes, algumas extraordinariamente cultas e até só para eruditos, outras propositadamente vinculadas a variedades locais, sociais ou grupais e também estão aqueloutras bem populares, marginais e mestiças…

      • Venâncio

        Ernesto: a culpa é minha, que fiz um breve, e sobretudo negativo, apontamento. Vou tentar emendar a mão.

        Se olhas a questão da Lusofonia pelo lado do puro entendimento através da língua, é como descreves. Dou o meu testemunho pessoal: convivi com brasileiros desde os 10 anos, foi um brasileiro o meu melhor professor de Português, já na universidade ensinei cultura e literatura brasileiras, escrevi muito nos anos 80 sobre a voga de brasileirismos na fala e escrita dos portugueses.

        Se a ‘Lusofonia’ fosse só ENTENDIMENTO (como pareces propor), não precisava sequer de existir o conceito.

        Acontece que a ‘Lusofonia’ nasceu, e prolonga-se, como DOUTRINA. Foi inventada, nos anos 80, por um professor da universidade de Lisboa, Fernando Cristóvão. É uma doutrina essencialmente retórica, que atrai sobretudo os espíritos simples. Os portugueses mais lúcidos vêem alertando para a inconsistência, o essencial voluntarismo e a fragilidade histórica dessa retórica.

        Cito em particular Eduardo Lourenço («A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia») e Alfredo Margarido («A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses»). Hoje mesmo, num artigo no Público, outro importante ensaísta, Diogo Ramada Curto, refere «as tretas oficiais da lusofonia — uma espécie de discurso oficial que de tão recorrente já não convence ninguém».

        É isso: a Lusofonia é um constructo ideológico, um «discurso oficial», e um discurso conservador, com um cheiro de saudosismo colonialista. Não encontras, nos círculos portugueses ‘lusofonistas’, uma única pessoa de esquerda ou com algum currículo progressista.

        A fórmula é, pois, errada. A começar por ter sido uma iniciativa pós-colonial portuguesa (!). Não, os nossos bons contactos com outros falantes do nosso idioma nunca precisaram duma construção ideológica.

        Desaconselho vivamente os meus amigos galegos a enfileirarem nesses vários movimentos portugueses que os tentam aliciar. São movimentos sem qualquer projecção na cidadania portuguesa, apesar dos «congressos», dos «colóquios internacionais», das «revistas», dos «prémios de personalidade lusófona». São, repito, movimentos ideológicos de raiz conservadora.

        • Ernesto V. Souza

          Fernando, não se esforce em nos convencer… os mais dos galegos nem chegamos a acreditar no conceito de nação… já imagine o que realmente podemos chegar a acreditar do resto dos construtos identitários… por mais que andemos nessas com toda a nossa galegagem…

          Portugal, Iberismo, Lusofonia… não sei, podem ser marcos de identidade se por acaso ou por interesse cairmos dentro (mas a identidade e as crenças são uma cousa privada) ou construtos de ordem prático estabelecidos… para uma elite, ou para a gente… depende…

    • Joám Lopes Facal

      Para galegos conscientizados tampouco é umha expressom cómoda, mas, CPLOP talvez seja pior polo seu frio tom burocrático. Haverá que perguntar os poetas. Aproveito a ocasiom para agradecer ao professor a clara compreensom da especificidade galega, ramo menor da “lusofonia” –perdoe a imprecisom– porque é raiz maior.

      • Venâncio

        Joám, «CPLOP» é ainda menos prático, mas tem uma vantagem: põe em evidência a «língua oficial». Com efeito, no âmbito da CPLP, só no Brasil e em Portugal o português é língua materna. Por isso todo esse fogueteio com centenas de milhões é um espectáculo deprimente, e, na realidade, um sintoma de insegurança.

        Importa, decerto, reflectir muito bem sobre o modo eficaz de colocar a «questão galega» na mesa da CPLP. Se é que isso é desejável num clube que, como saberá, contará muito em breve no seu seio com um Estado – vou dizer simpaticamente – ditatorial.

        • Joám Lopes Facal

          Propriamente um Estado de sítio, Santo António nom o permita. Antes já foi, creio recordar, francófono e, infelizmente, em todo tempo iletrado e policial. Em fim, dim que o dinheiro nom cheira, mas depende obviamente da capacidade olfactiva

          • Venâncio

            Os dirigentes portugueses (honra lhes seja), mesmo de direita, aguentaram durante anos a pressão, sobretudo brasileira, para admitirem esse Estado dentro da CPLP. Mas acabaram por ceder.

            Digo-lhe sinceramente: perante isto, uma entrada da Galiza na CPLP nunca seria uma vitória da democracia, ou sequer do bom senso. A partir de hoje, está tudo inquinado.

  • Venâncio

    Atenção: eu admito um emprego “neutro”, não ideológico, para Lusofonia (como o admito para Portugaliza, outro conceito problemático). Esse uso neutro, na boca ou na pena de não portugueses, pode ser simplesmente prático, indicando o “espaço da língua portuguesa”. Em contexto português, porém, ‘Lusofonia’ é um conceito carregado de ideologia, e decerto não a mais saudável… Os meus comentários acima devem ser vistos nessa perspectiva.

    • Ernesto V. Souza

      Isso fica claro… sabemos que há que tratar com cuidado os Portugueses e ter olho com palavras, conceitos e discursos, têm muitos traumas nacionais… 😉

      • Venâncio

        Sim, os traumas e os mitos nacionais não nos faltam… embora estejamos, nisso, muito bem acompanhados a leste e a norte na Península.

        Penso que conheces, mas nunca é de mais recomendar as primeiras cinco ou seis páginas de «Psicanálise mítica do destino português», o primeiro ensaio de “O Labirinto da Saudade” (sempre reeditado) de Eduardo Lourenço. Lê-se com um arrepio de incredulidade e de susto.

        • Ernesto V. Souza

          Ninguém é perfeito… Fernando, e menos os estados… são fantasias de quita e põe para ajuste de convenções e estabilidade de poderes…

  • Arthur Tarouco De Lima Fiss

    Um texto para descobrir como nasceu a Língua Portuguesa, ou idioma de Luís de Camões como meu pai costuma dizer, sempre que alguém fere essa linda e romântica língua o pai fica irado porque ama demais a língua que fala e sabe muito dela como o professor Jorge Moraes e gosto quando comentam as belezas dessas palavras que muitas estão nas mais de 2000 poesias que o paí já escreveu sendo 200 só para mim. Que bom ser a língua falada no meu amado Brasil.