ALDEIAS DE ORDES

Onde o mundo se chama Vila Gudim



para Ramón Muñiz

Ramón Muñiz na II Marcha da Memoria das Encrobas, no 2018, falando da loita contra o encoro de Vilagudín.

Ramón Muñiz na II Marcha da Memoria das Encrobas, no 2018, falando da loita contra o encoro de Vilagudín.

Dizia Eduardo Iglesias Regueiro que tinha umha grande curiosidade por conhecer a origem de Vila Gudim, aldeia de Lesta que, quando Eugénio Carré Aldao escrevera o seu contributo para a Geografía General del Reino de Galicia, era a mais grande da paróquia, com 84 habitantes1. Também devia ter essa curiosidade o carteiro de Poulo que, em 1971, respondera ao inquérito de Camilo José Cela para o seu Diccionario Geografíco Popular Español comentando que; “Hay dos aldeas en la parroquia de LESTA, que se llaman VILLAGODIN DE ARRIBA y VILLAGUDIN DE ABAJO que en Gallego son algo groseros estos nombres”. Lamentavelmente o topónimo nom fai referência a nengumha erótica-festiva “Vila Fodim”, senom a umha medieval *Villa Godini, isto é, a umha exploraçom agropequária de um senhor da terra chamado Godinus (nome germánico talvez formado apartir do étnico Goth ‘godo’). Na paróquia de Messia há a aldeia quase homónima de Gudim, de cujo topónimo caiu o “Vila” inicial. Se quadra foi o mesmo terratenente Gudinus o que fundou no seu dia as duas vilas impondo-lhes o seu nome.

Casa em Vila Gudim de Lesta.

Casa em Vila Gudim de Lesta.

Mapa de Vila Gudim de Lesta.

Mapa de Vila Gudim de Lesta.

Os dous som, em qualquer caso, dous topónimos mui frequentes dentro do território do antigo Reino Suevo, contabilizando Josep M. Piel umha outra Vila Godim em Braga; dous Gudim em Ourense, três na Corunha e um em Ponte Vedra; outros três Godim no Porto, um em Braga e um outros em Vila Real2. Como costuma suceder, primeiro o topónimo deu apelido diretamente à gente que vivia nestes lugares, para posteriormente desterritorializar-se e viajar polo mundo da mao dos fluxos magratórios. Por exemplo, Antonio Gudín, um dos doze “mártires de Arján” fusilados polas tropas napoleónicas no 12 de fevereiro de 1810, solteiro e filho de Melchor, seguramente fosse vizinho de Gudim. No entanto, Diego Godín, defesa central do Atlético de Madrid e da seleçom uruguaia (sempre copada de apelidos galegos) nado do outro lado do Atlântico, seguro que tem as suas origens em umha das aldeias assim chamadas aquém-mar. Diego Armando Maradona sempre di que prefere o nosso Godín a Sergio Ramos, simpatia que em Aldeias de Ordes compartimos com entusiasmo. O apelido do Pelusa, a propósito, também provém do nome de umha aldeia galega, neste caso da Marinha.

Barragem de Vila Gudim.

Barragem de Vila Gudim.

A história recente de Vila Gudim está marcada polo trauma da construçom da barragem de Vila Gudim, iniciada a finais da década de 1970 para abastecer a ingente demanda de água da Central Térmica de Fenosa. A empresa pretendia usurpar as terras (e o seu universo microtoponímico) por uns preços mui por baixo do mercado, mas a vizinhança deu umha liçom de dignidade. Nesta resistência exemplar, que se deu entre 1976 e 1979, o Campo de Vila Gudim foi o campo de batalha onde a gente se agrupou para deter o embate de máquinas pesadas e tricórnios armados. Graças à amabilidade de Pablo Viz, naqueles anos reporteiro de A Nosa Terra, podemos incorporar as imagens da luita de Vila Gudim à nossa memória coletiva. Dera-me o endereço o recentemente falecido Ramón Muñiz, sociólogo e militante do movimento nacional-popular mui querido nas Encrovas pola sua solidaridade. Baixo o pseudónimo de Xosé Fernández Roupar publicara Muñiz, há já umhas quantas décadas, o livro Os labregos diante da loita de liberación nacional, com pensamentos tam vigentes como este: Así como os labregos recoñecen perfeitamente aos seus inimigos, saben moi ben como son explotados, pro medo fainos vacilar e actuar moitas veces contra os seus propios intereses, incluso sabendo que iso é así. Por isto o labrego vota ao cacique, ao todo o mais abstense nas eleccións, aínda que se o cacique desaparecera celebraríao; o labrego paga a Cota Empresarial a pesar de que saiba que as Comisións Labregas (CC.LL.) teñen razón cando din que ninguén debería pagala. Non é a despolitización ou a ignorancia o que fai que isto suceda así, senón o medo”3.

1 Eugenio Carré Aldao, “La Coruña”, em: F. Carreras y Candi (dir.), Geografía General del Reino de Galicia, Vol. VII, Tomo 4º, facsimilar, Corunha, Edicións Gallegas, 1980, p. 615.

2 Joseph-M. Piel, 1989.

3 Citado em: Emilio López Pérez, A Terra sabe a loita, Santiago de Compostela, Fundación Bautista Álvarez, 2012, p. 13.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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