-om vs. -ão… E um corolário sobre coesão galega



I. ón, ón, om, ão, percursos…

til-nasalidadeNunca imaginei que acabaria publicando textos, livros incluídos, na Galiza e em galego com a forma –ão, como em tempos recentes acabei de fazer. Como reintegracionista, e assim o manifestava muitos anos atrás a algum colega nas minhas aprendizagens, esse era o elemento linguístico, gráfico, que considerava a principal baliza, ou umha das mais relevantes, para umha unificação plena com as outras variantes do galego (,) no mundo dito português. Mais que pelo, que dois, e que todo o conjunto de irregularidades dos verbos.

Mas mudei de posição, ao menos temporária e pontualmente; talvez de modo indefinido e sistemático, não sei ainda.

Obviamente, não interessa aqui a minha particular trajetória normativa, per se, mas vou utilizá-la, na sequência do artigo anterior, para definir algumhas posições e mais algumhas dúvidas.

O meu quadro de situação é, aos efeitos que aqui importam, o do nacionalismo de finais da década de setenta e inícios de oitenta, vinculado ou dependente, digamo-lo assim, do Bloque, nas suas diversas expressões partidárias ou entornos associativos. Quanto à língua, eu ao menos, sem ensino regrado, não sabia como escrever ou que palavras utilizar (hoje continuo consultando) e até olho com ternura inevitável e algum corar de rosto escritos meus daquela (incluindo algum poema de concurso colegial); suponho que tudo era eclético, em função das leituras, entre as quais, o Sempre en Galiza, Memorias dun neno labrego, Xente de aquí e de acolá, e as Farsas para títeres com que estudávamos, em tempo fora do horário escolar, aqueles estudantes (poucos, por não dizer quatro) que, no colégio, pedíramos aulas de galego quando estas ainda não estavam introduzidas no ensino de modo oficial e estendido. Ainda lembro quando quigem fazer um exame em galego em COU e o professor me fizo notar (ou me ameaçou, ao menos no meu sentimento) que levaria o meu exame ao Instituto da Lingua Galega e que, se tinha mais de três erros, reprovaria (não, penso que as minhas diferenças com o na altura para mim incógnito ILG venham dessa circunstância…).

Depois, na faculdade, a esfera, em geral, do Bloque, era de mínimos (reintegracionistas). Algumha lógica indicava que, se havia mínimos era porque se aspirava aos máximos, ainda que, depois, passou(-se) o que (se) passou… Mas aquilo dos máximos, de que havia já primeiras pessoas partidárias, ficava mui longe, ao menos para mim… E ameaçador, até, por senti-lo distante, desnaturante, em tempos politicamente convulsos, vividos de perto no ambiente da USC e no da Faculdade de Filologia. Em geral, no âmbito da esquerda galeguista, cada âmbito político-partidário tinha a sua norma… e as NOMIG estavam fora de foco para muitas, pertenciam a outro quadro, ou âmbito… Deixemos isto aqui, porque do que trato é de explicar as lógicas. O contato com os estudos de língua e literatura portuguesa melhorarom em gente a opinião reintegracionista, embora as propostas de Rodrigues Lapa a que se acedia provocavam rejeitamento por serem sentidas como umha pura absorção e desnaturar, mais ainda, a afetividade identitária com que, ao menos eu, me movia e geria…

Em geral, no âmbito da esquerda galeguista, cada âmbito político-partidário tinha a sua norma… e as NOMIG estavam fora de foco para muitas, pertenciam a outro quadro, ou âmbito… Deixemos isto aqui, porque do que trato é de explicar as lógicas. O contato com os estudos de língua e literatura portuguesa melhorarom em gente a opinião reintegracionista, embora as propostas de Rodrigues Lapa a que se acedia provocavam rejeitamento por serem sentidas como umha pura absorção e desnaturar, mais ainda, a afetividade identitária com que, ao menos eu, me movia e geria…

Na verdade, no meu caso, fum recuperando e ganhando afeto polo mundo português e, ao ir estudando cousas e acontecimentos passados, reparei em que o galeguismo só avançara quando dera e praticara passos audazes; e, assim, passei para a prática reintegracionista, da Norma (histórica) da AGAL, fazendo evoluir aquela afetividade identitária para outros lados… Bom, há mais complexidade nisto, mas, como indicava, do que quero tratar é dumha lógica…

A partir de aí, dedicado profissionalmente ao estudo da literatura e da cultura em língua galega/portuguesa, fundamentalmente da Literatura Portuguesa, escrevim e publiquei, sempre que pudem e a algum custo, os meus trabalhos na Norma AGAL, também fora da Galiza, praticando oralmente a nossa variante, mesmo quando tivem responsabilidades diretivas em diversas atividades, entre as quais, a presidência dumha sociedade científica internacional dedicada a estes estudos. Ali, mesmo defendim a possibilidade de colegas da Galiza poderem publicar os seus textos conforme as NOMIG da RAG-ILG (fruto, entretanto, dumha leve reforma resultado do acordo político entre entidades sustentadoras dos NOMIG, que, polos visto, não implicavam máximos e sim outras cousas, por outras lógicas), cousa que assim aconteceu.

E o tempo passou e apareceu no horizonte a prática do Acordo Ortográfico e a sua eventual assunção por parte dos membros da CPLP (eu não gosto do AO90 mas, como galego e reintegracionista, valoro mais o acordo que o acordado). Nesse novo estado de cousas, tornava-se para mim pertinente e perentório que a AGAL fixase um inventário cultural e político de formas linguísticas genuínas que manteríamos num futuro de maior aproximação e assim o manifestei quando e a quem tivem oportunidade, insistindo em que estávamos perante um desafio que não era linguístico mas cultural e político. A ideia de que havia três normas, portuguesa, brasileira e galega (bem manifestada pola adaptação de textos entre Portugal e Brasil), podia, em parte, desfazer-se com a implementação do acordo, ao menos no âmbito ortográfico, e convinha reagir. Havia mais um fator conjuntural, caminho de estrutural: os mínimos desapareceram; a possibilidade de acordo normativo com a RAG-ILG não estava nem no espaço dos possíveis; e o galego perdia, a cada dia, utentes e defensores; o conceito de normalização como processo de recuperação estava já, passadas décadas de liberdade de escolha, obsoleto: esse, para o galeguismo, pareceria que deveria ser o verdadeiro e mui concreto drama; que, e por parecer, parece não ter muita solução; mas ninguém, a começar por responsáveis no âmbito da política cultural (não só da Xunta ou dos partidos), parece ter umha solução e, não a tendo, parece que não quer cruzar o corredor e petar noutra porta, a perguntar se @ [email protected] a tem; porque, parece, é mais importante a própria posição que a solução que toda a gente diz invocar ter e procurar, com generosa atitude para o povo (que, dito seja de passagem, pouco parece importar-se em geral com o assunto); parece, tudo parece; porque parecer e aparência parecem ser a matriz de tudo…

E o tempo passou e apareceu no horizonte a prática do Acordo Ortográfico e a sua eventual assunção por parte dos membros da CPLP (eu não gosto do AO90 mas, como galego e reintegracionista, valoro mais o acordo que o acordado). Nesse novo estado de cousas, tornava-se para mim pertinente e perentório que a AGAL fixase um inventário cultural e político de formas linguísticas genuínas que manteríamos num futuro de maior aproximação e assim o manifestei quando e a quem tivem oportunidade, insistindo em que estávamos perante um desafio que não era linguístico mas cultural e político.

II. O Acordo Ortográfico de 90 e o binormativismo

Enfim, voltemos: era tempo de avançar (para algumhas pessoas, fugir para a frente; para mim, ser audazes). E se o –ão era para mim avesso, vale a pena pensar que onde hoje uns lêem ditongo nasal, outros não o farão e que, dentro de duas gerações, já não se interrogarão sobre o assunto nem sobre ele problematizarão e normalizarão a pronúncia à galega (e à perdida de parte portuguesa), pronto, acabou (ou não, e acontece o que historicamente aconteceu em Portugal, pola imposição, sobretudo a partir do século XVIII, do ão e a sua pronúncia ditongada; mas isto é outro tema; e seriam pequenas perdas…). Pior é o caso dos verbos irregulares, por exemplo, ou soluções que exigem incontornavelmente pronúncias estranhas ao comummente aceite como genuíno galego… Afinal, tudo será pedagogia de pertença e elaboração de afetividades identitárias.

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Nesse quadro, o uso do ão na Galiza por parte de galegas/os atinge, para mim, um instrumento de elaborar normalidade galega a respeito das outras normas do português, em parte o fomento dum continuum. Sem por isso afastar a dúvida ou a incerteza; mas com vontade propositiva do que acho melhor coletivamente… Quer dizer-se: apesar de não gostar e de dificilmente me identificar com essa forma, praticá-la como veículo, ponte, achegamento. Para mim, essa solução, como outras, implica renunciar, conscientemente, a aspetos da norma que melhor espelha o galego e a sua relação como co-dialeto (para utilizar umha expressão de Leite de Vasconcelos formulada há mais dum século) com os outros dialetos da língua conhecida no mundo como português: a (histórica) Norma da AGAL.

E, nestas, apareceu a proposta de binormativismo. Umha proposta audaz, que tem valor já de seu por propor, por formular umha nova possibilidade, voltada à defesa e promoção do galego e com proclamado sentido inclusivo frente ao imobilismo e ao evidente impasse, já quase estrutural, em que estamos. Salta por cima do conflito normativo nos termos historicamente colocados e enfrenta umha legitimidade a outra já legitimada (o português), não por legitimar (caso da Norma histórica da AGAL): boa! Provavelmente, dum ponto de vista racional, de futuro da língua como elemento estendido na Galiza e com capacidade coesiva, deveria-se esperar um abraço franco à proposta. Deveria-se… E até, se calhar, no futuro (como o futuro é incerto também na sua extensão, pode falar-se nestes termos), será assim.

E, nestas, apareceu a proposta de binormativismo. Umha proposta audaz, que tem valor já de seu por propor, por formular umha nova possibilidade, voltada à defesa e promoção do galego e com proclamado sentido inclusivo frente ao imobilismo e ao evidente impasse, já quase estrutural, em que estamos. Salta por cima do conflito normativo nos termos historicamente colocados e enfrenta umha legitimidade a outra já legitimada (o português), não por legitimar (caso da Norma histórica da AGAL): boa! Provavelmente, dum ponto de vista racional, de futuro da língua como elemento estendido na Galiza e com capacidade coesiva, deveria-se esperar um abraço franco à proposta.

Mas essa formulação condena à ilegitimidade a razão de ser da nova legitimidade (e não é um jogo de palavras): a razão de ser da proposta do uso do português standard assenta no reintegracionismo precisamente representado pola AGAL desde 1981 e da sua consequente proposta normativa. E, enquanto houver utentes da mesma, qualificadamente, ela é opção que deve estar presente; também porque não representa umha codificação que pudesse ser invocada como incógnita para o galego nem distante daquele standard: se se pensar, como penso, que a proposta visa capacitar as pessoas nas duas normas e que elas podam ser usadas polas pessoas nas suas relações com a administração ou mesmo no quadro escolar, além das outras circunstâncias sociais que desejarem, naturalmente, com independência de que a norma usada pola administração ou a escola sejam as NOMIG. Aliás, nunca se sabe o que o pessoal pode decidir se o informam e o deixam (ainda que parece claro que, em questões de uso linguístico, a decisão até o momento é clara: espanhol, de uso monolingue).

Mas, enfim, este é um escrito utópico, de ciência ficção. O galego continua o seu caminho residual, absorve muitas das energias galeguistas, despista, impede enfrentar outros problemas (mesmo alguns culturais, de enorme importância, como a nossa mais ou menos comum visão do mundo ou de modos de vida, veiculados também linguisticamente). Convém, acho eu, irmos passando para primeiro plano outras afetividades identitárias e afetivizando identidades (tenho já falado da alimentação/gastronomia ou do território) e outros items e esforços de coesão, mesmo alguns mais cívicos e menos orgânicos (por exemplo, exercer soberania tomando decisões económicas, políticas, sociais, etc., sem esperar a queixar-nos a/com Madrid) e valorizar toda a nossa histórica e presente produção científica, tecnológica ou artística, de elites e populares.

Mas, aqui estamos, nos nossos parece, [email protected], sempre no imaginário, e parece que chega.

E, frente a isso, acho que há um caminho, mais inclusivo e integrador por percorrer, mais plural e coesivo, mais otimista e mais satisfatório, se integrarmos e fomentarmos algumhas dessas ou outras ideias valiosas, como identidades afetivas, como afetividades identitárias, se relativizarmos (atitude que acredito é mesmo caraterística da nossa comunidade), que estão já, ou algumhas podem vir a estar, no sustento da nossa coesão.

[Este artigo foi publicado originariamente em vivacerzeda.com ]

Elias J. Torres Feijó

Elias J. Torres Feijó

Professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura. Foi presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (2008-2014) e vice-reitor da USC, onde coordena o Grupo de Investigação GALABRA.
Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais.
Elias J. Torres Feijó


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  • Ernesto Vazquez Souza

    Eis, efetivamente, ou quando menos tal como eu também o vejo… o estado da questão… antecedentes mais ou menos comuns, contextos, percorridos, hesitações e presentes audazes que se abrem…

    Saúde,

  • Paulo Mouteira

    Á volta de oitenta e noventa, nas manifestações do 17 de maio chegava eu carregado de folhetos em três normas: RAG; AGAL e AS-PG; esta última era a norma da “Mesa”, mais ou menos d´”A Nosa Terra”, mais ou menos do BNG e dos sindicatos da sua órbita.

    Era frustrante, na verdade, para um “gamino” ,XD

    Hoje posso tolerar qualquer norma, mas não gosto da falta de unidade textual da que adoecem algumas publicações agálicas; a mestura da norma AGAL com o português mais ou menos padrão, por vezes no mesmo texto.

    Há mesmo incongruências terroríficas como o livro do Séchu Sende “A República das palavras”, surpreendente quando na capa figuram uma boa cheia de supostos corretores/revisores do texto.

    Em definitivo: norma AGAL, Galego-português AGLP, padrão brasileiro ou galego “Nós Diario”, estou a vontade em todos, desde que não saltitemos de um lado para outro presenteando textos esquisitos.

    Falo, claro, dentro do mesmo texto; nada que objetar à admisão de diferentes opções numa mesma publicação, naturalmente.

    Ps:
    Adorei o livro do Séchu, literariamente falando 😉

  • Venâncio

    Caro Elias,

    Serei breve, brevíssimo, embora me apetecesse escrever-te outras 300 páginas.

    1,
    Um português standard, ou padrão, não existe. Se ele existisse, haveria traduções “luso-brasileiras” de literaturas estrangeiras, e não nas há. Nem uma sequer, e publicam-se centenas, no Brasil e em Portugal, todos os anos. E tu sabes que não é uma questão “ortográfica”.

    2.
    Uma Galiza bilingue já é a complicação, se não o desespero, que se conhece. Imagine-se uma Galiza factualmente trilingue. O vencedor, Madrid, chegaria ainda mais cedo à meta.

    3.
    Termino com um enigma: o persistente silêncio dos linguistas da área reintegracionista nestes debates, Estraviz, Iriarte, Corredoira, Gamalho. Só ouvimos, em matéria “normativa”, a activistas. Sois excelentes nos vossos domínios, mas simplificais enormemente em terreno linguístico. Por que se calam eles, então?

    O abraço de sempre.
    Fernando

    • Ernesto Vazquez Souza

      Fernando… como diz o dito: Se não é boi… é vaca.

      é dizer talvez é momento de considerar… como tantos consideramos… que se não é uma questão linguística… vai ser que é política…

    • Paulo Reis

      Creio que quando existe compreensão mútua, seja escrita, ou oral, algo se passa. Isto quando estamos a falar de um estado, o espanhol, cuja apetência para línguas estrangeiras é baixíssima, porque o castelhano é omnipresente em tudo. Mas, que carago, o que estou para aqui a argumentar…. Acho que o Prof. Fernando Venâncio sabe disso tão bem quanto eu. Claro que, como disse o caro Ernesto Souza, aí em baixo, estão sobretudo em causa opções políticas para a língua na Galiza. E aí, todas as propostas e opções são à partida válidas e legítimas. Uma língua não é um museu! E voltamos ao mesmo, não é?

      • Paulo Reis

        E algo que o caro Prof. Fernando Venâncio omite, ou ignora, é o contexto político da Galiza, que nada tem a ver com o do País Basco, ou da Catalunha. Os activistas galegos que menospreza, e hostiliza, fazem um trabalho de sapa notável, num contexto extremamente hostil.

  • Joám Lopes Facal

    “E se o ão era para mim avesso (…) dentro de duas gerações já não se interrogarão sobre o assunto nem sobre ele problematizarão […] apesar de não gostar e de dificilmente me identificar com essa forma, praticá-la como veículo, ponte, achegamento […] implica renunciar conscientemente, a aspetos da norma que melhor espelha o galego […] E, nestas, apareceu a proposta de binormativismo […] Salta por cima do conflito normativo nos termos historicamente colocados e enfrenta umha legitimidade a outra já legitimada […] razão de ser da proposta do uso do português standard assenta no reintegracionismo…
    Lúgubre relato post mortem do abandono do galego dez vezes centenário que nos identifica como naçom cultural por um rutilante português standard de impossível socializaçom e que, aliás, nom existe.
    Nom é esta a história de umha demissom colectiva, caros?

    • Ernesto Vazquez Souza

      Homem… que o -OM é um detalhe de nada e foi uma proposta alternativa, dos anos 80… é portanto mais nova ca mim… e até diria do que eu lendo em galego…

      Tu tens aí uma ofuscação afetiva ou sentimental… o artigo anterior do Elias em vivacerzeda tratava nisso:

      https://vivacerzeda.com/norma-linguistica-e-afetividade-identitaria-identidade-afetivizada/

      Como já comentamos, por muito que -om identificasse e identifique hoje um setor no reintegracionismo, é bastante evidente que foi um erro estratégico (originado nesse rejeitamento a dissolver-se no português e por nacionalismo que tão bem descreve o Elias); mas é, para além, possível que fosse um erro interpretativo originado na precipitação e urgência de dar uma resposta alternativa mais reintegracionista da do ILG, mas também não igual (por isso do nacionalismo e identidade) à escolhida pelo português no decurso dos séculos e baseada na análise do que se pensava na altura ser o galego-português medieval e o conhecimento que se tinha da tradição manuscrita do século XIV.

      Saúde,

      • Ernesto Vazquez Souza

        P.s. Com isto não quer dizer que eu rejeite essa alternativa. Simplesmente trato de a explicar e também de contextualizar, sem dramatismos.

        Pessoalmente, nunca a considerei (por pouco prática), mas acho perfeitamente válida num esquema que pretenda criar uma Norma nacional, convergente por tradição, com o isolacionismo e divergente por nacionalismo, do português atual.

        E perdamos cuidado. Essa forma não vai desaparecer sempre que haja utentes dela.

        • Joám Lopes Facal

          Se o –om foi um lamentável erro estratégico na marcha triunfal do pan-lusismo, qual pode ser o motivo que o Estraviz venha a adoptar a estas alturas o formato galego de conjugaçom verbal (tam vivo e persistente, por sinal) e decida conservar as formas –com?
          Um tributo sentimental póstumo ao incómodo cadáver insepulto do idioma dos galegos? Um devaneio arqueológico extemporáneo?
          O galego, Ernesto, vai seguir sendo por muitos anos — brindo polas mil primaveras de coraçom — umha a presença espectral do nosso lento naufrágio cultural para aviso de geraçons vindoiras, como a figura do Comendador do Dom Giovanni.
          Esperarei por aquela capaz de resgatá-lo da existência provinciana que arrasta e do delírio lusómano que pretende servir-lhe de mausoléu.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Na Marcha do Pan-lusismo… enfim…

            Neste assunto é impossível razoar contigo… não posso entender a tua teima. E abandono.

            P.s.

            O estraviz é para além de obra e propriedade de Estraviz, um projeto nestes momentos da AGAL, da AGLP e da Meendinho… A AGAL dá como opcional e válida esta terminação na sua atual proposta normativa e acha importante que se mantenha nele…

          • Joám Lopes Facal

            O projecto Estraviz tem tanto valor como o rico núcleo de galego genuíno que contém, quanto ao resto, abonda-me com o Houaiss.
            Por enquanto,ambos, junto com Álvaro Iriarte, presidem o meu escritório. Significativamente, o dicionário RAG só me sirve de prontuário de silêncios e insuficiências.
            Nom é pouco o que temos avançado, Ernesto.

          • Venâncio

            Joám,

            Uma coisa é o Dicionário RAG, de facto simplezinho, outra é o Gran Dicionario Xerais da Lingua, em dois pesados e informadíssimos volumes.

            Serve-nos também o Dicionario Etimolóxico da Lingua Galega, de Eligio Rivas Quintas.

            Questão de não ser tão selectivo na indignação.

    • Venâncio

      Caro Joám,

      É desesperante ter de lembrar a quem se está a lixar para a língua, e só pensa em identificar-se “galego” por via portuguesa.

      O ÃO foi uma invenção tardia portuguesa, de mais tardia disseminação (achas por 1800 ainda “nom”, “tam” e quejandos), e uma disseminação absurda, criadora dum caos nos plurais, de que nunca mais nos libertaremos. Dediquei a isso um capítulo inteiro de “Assim nasceu uma língua”.

      Vou-te dizer: acho criminoso introduzir no Galego esse caos, só por esse vezo exibicionista que move a tantos reintegracionistas.

      • Ernesto Vazquez Souza

        Pois é curioso que cada dia seja mais gente (e gente não precisamente arroutada, ignorante, nem descuidada) a que opte por esse caminho…

        • Venâncio

          Ignorante, exibicionista, e desprezadora do que é seu.

        • Venâncio

          Enquanto viver, hei-de denunciar, onde quer que seja, essa teima irracional, exibicionista, anti-científica, puramente “identitária”, em que o Reintegracionismo galego se meteu. Para um linguista interessado no Galego, é um dever.

          Mas que alguém ponderado como o Elias Torres tenha desistido é, francamente, um toque a finados.

      • Venâncio

        Seja lembrado que o ÃO português foi, objectivamente, uma opção anti-galega, inserido naquele pacote gramatical que se pôs o afastar a Português do Galego.

        Os portugueses deixaram de saber distinguir -AO, -AM ou -OM (irmao, capitám, nom), e uniformizaram tudo no ÃO.

        • Paulo Mouteira

          Reconhece-se bem um amigo da Galiza: os amigos não estão là para dizer apenas coisas lindas. Agradece-se a honestidade, a dedicação ao país que a nós próprios dói, quando não nos é indiferente.

          Li o livro e, graças a youtube, assisti por duas vezes à apresentação na libraria Cartabón: obrigado por fazer-me ficar umas boas horas mais sábio e feliz.

          Pronto, tinha de dizer e disse…hummmm.

  • Paulo Mouteira

    Eu gosto imenso do til e até dos triplos plurais: quanto mais difícil for a minha língua eu fico mais contente.

    Esse til e esses verões ficam lindissimos !!!!!

  • Paulo Mouteira

    Daquela, insisto: vê-se na AGAL, no PGL e mesmo nalguns livros d’Através umha incoerência textual desacougante: nom é raro empregar soluçons diferentes no mesmo parágrafo; nom falo da escolha pessoal dum autor que muda dependendo do lugar ou do público, falo do mesmo texto. E essa ideia de que qualquer cousa vale fica dolorosamente reforçada.

    E por vezes mesmo se fai crer que por trás há umha cheia de revisores a pôr lupa.

    Nom gosto. É feio isso.

  • Elias Torres

    Boa tarde,
    Agradeço as críticas, observações e comentários feitos a este texto que, como indica Ernesto, a quem agradeço a leitura e a remissão, gostaria que se lesse na sequência do anterior, que publiquei também no vivacerzeda.com.
    Seja como for, intervenho, pedindo desculpas porque outros afazeres não me permitirão dedicar tempo a responder ou contestar as cousas que aqui se comentarem, tendo agora vagar para poder escrever algumhas notas.

    Antes de mais, respondo algumhas questões que o Fernando Venâncio coloca, indicando que, para começar, se a ti che apeteceria escrever-me mais 300 páginas, se calhar a mim mais 3.000 para ti sobre estas questões, das que devo de levar escrito polo menos outras 3.000… (e, já agora; provavelmente, sou o galego que mais tem publicado na norma histórica da AGAL no mundo luso-brasileiro; norma que, reitero, me parece a melhor para o galego e cuja vigência defendo neste mesmo artigo). Por isso, meu caro, quando desejares, estou disponível para um debate público sobre estes assuntos, que são políticos e sociolinguísticos.

    1,
    Um Português standard, ou padrão, não existe.
    Não, não há standard, no português; e dificilmente o iremos encontrar em qualquer língua, podemos acrescentar; por isso escrevim a palavra em itálico, não por se tratar dum estrangeirismo (aceite, aliás, nos dicionários portugueses), mas precisamente para referir-me a um constructo que costuma funcionar sob esse rótulo.
    2.
    Uma Galiza bilingue já é a complicação, se não o desespero, que se conhece. Imagine-se uma Galiza factualmente trilingue. O vencedor, Madrid, chegaria ainda mais cedo à meta.
    Não sei onde falo eu de umha Galiza factualmente trilingue. O que sim sei é que o galego perde uso e importância progressivamente e que convém debruçar-se na procura de soluções, que não podem ser as já ensaiadas e fracassadas. Quanto ao de Madrid… A única vez que cito essa cidade é exatamente para o contrário do que anotas.
    A menos que… se conseguisse substituir o Galego pelo Português. Mas uma coisa não percebo: culpais o espanholismo de querer suprimir o Galego, enquanto esse é, ao que parece, o vosso sonho dourado.

    Basta, Fernando; chega de referir-te às pessoas com esse genérico vós para, na continuação, desacreditar; onde trato eu disto: culpais o espanholismo de querer suprimir o Galego, enquanto esse é, ao que parece, o vosso sonho dourado, quando, aliás, sempre tenho sustentado que outras ideias ao respeito? Repara, Fernando, que, nisto como noutras cousas, primeiro fixas a definição e depois apões o objeto, se che vinher a talho de fouce para o teu objetivo, tudo num processo preconceituoso que convinha revisares. Sugiro que refreies o teor desacreditador que utilizas (vezo exibicionista, por exemplo), que nunca utilizei contigo, e que costumas utilizar nestes foros. Umha das razões que me movem a neles não participar.

    “Não vale responder que G e P são, hoje ainda, a mesma língua. Nunca nenhum linguista o demonstrou.”:
    Nengum demonstrou o contrário. Esta é a via, caro Venâncio, que, sinceramente, che foge: que esta é umha questão política e de planificação.
    3.
    Termino com um enigma: o persistente silêncio dos linguistas da área reintegracionista nestes debates, Estraviz, Iriarte, Corredoira, Gamalho. Só ouvimos, em matéria “normativa”, a activistas. Sois excelentes nos vossos domínios, mas simplificais enormemente em terreno linguístico. Por que se calam eles, então?
    Eu sou lingüista; cuidado com o jogo de auctoritates, que costuma ser utilizado para ganhar capital simbólico e passar potestas… Aqui intervenho não como técnico mas como “ativista”, polas razões que comentei antes. Lamento que continues a pensar e a perspetivar as cousas como se dum problema técnico se tratasse. Não o é. E todas as hesitações e dúvidas que nos vão nutrindo, a mim e a muitas pessoas nisto envolvidas, tenhem a ver com o desejo de propor as melhores soluções para o nosso património lingüístico e para o seu caráter instrumental; e com colocar com honestidade (ao menos como tentativa) os problemas. E já que falas da tua vida inteira, direi-che que, no plano de trajetórias com auctoritas neste assunto, tenho bastante percurso feito. Bastante. Mas não tanta para que a minha posição, que pretende ser inclusiva (aquilo que nos foi negado ab initio) seja o toque de finados que auguras. Ora, tampouco, umha “teima irracional, exibicionista, anti-científica, puramente “identitária”” que expressas, mais umha vez com essa pouco elegante retórica (que eu me contenho para não usar, dito seja com toda a sinceridade), o que, para um linguista interessado no Galego, como é o meu caso, é um dever denunciar nestes debates (tu, que, por outro lado, podes fazer e fazes um uso bem elegante do teu português).
    De resto, acho que conheço a opinião das quatro pessoas referidas; e acho que não me engano que, do teu ponto de vista, ainda vão além dos meus inclusivismos…
    (só por se servir de algumha cousa: como Decano da Faculdade de Filologia da USC, costumo usar a norma RAG; não porque seja oficial, mas para evitar conflitos que perturbem os conteúdos, as intenções e desloquem os problemas; e afastem mais que vinculem em objetivos comuns; nesse quadro de situação, dou, pois, prioridade a outras cousas; no uso oral, não)

    Esses livros a que aludo vão introduzidos por esta NOTA:
    NOTA: A ortografia do texto aproxima-se do Acordo Ortográfico da Língua
    Portuguesa de 1990; não está no galego que eu desejaria porque decidim introduzir
    algumhas variantes ortográficas e morfológicas comuns no restante universo
    de língua galega, no mundo conhecido como português. Continuo pensando
    que a melhor solução para codificar a nossa variante linguística teria sido a
    histórica Norma da AGAL; mas não foi. Infelizmente. E ela ficará, infelizmente
    também, preterida no novo horizonte que se abre, no qual, tarde ou cedo, as
    diversas normas do português circulantes polo mundo serão reconhecidas e,
    até, terão pleno direito na Galiza, como não poderia ter sido doutro modo mas
    foi e ainda é… E convém agora preparar-se para essa nova fase; e definir quais
    fórmulas do nosso património linguístico e cultural queremos conservar nesse
    quadro, sem melancolia: o bom é inimigo do ótimo e, mesmo no mais afastado
    uso linguístico que seja feito da língua que compartimos, reconhecerá-se com
    plenitude o nosso património comum e gerações vindouras nem repararão em muitas das cousas que hoje nos (pre)ocupam: pois, é um desejo…

    não foi, infelizmente, porque triunfou politicamente umha linha diferente, cuja orientação é antitética em muitos casos da histórica da AGAL e que foi utilizada como instrumento repressor contra umhas (e benéfico para outras) de modo contundente e que explica hoje o domínio de instituições públicas e privadas (já agora, lembremos que a RAG é umha instituição privada, a que umha Lei deu “critério de autoridade”: o que opinas, Joám, disso, apoiada por um partido em que militavas?) por pessoas e organizações ligadas a essa orientação.

    E eu quero dedicar alguns esforços a tentar procurar caminhos, também na questão da língua, sobre a base do que indico em carregado (e eu, que tivem, como muitas outras pessoas, que sofrer tanto sectarismo, tento procurá-lo sem ele). Ora, não podemos operar com o que já está fracassado nem com a melancolia, Joám. Pode ser que, para ti, as minhas procuras suponham um “lúgubre relato post mortem do abandono do galego dez vezes centenário, que nos identifica como naçom cultural, por um rutilante português standard de impossível socializaçom e que, aliás, nom existe”. Pergunto: que (é) galego? Quem o define e determina? Acho, aliás, que a “demissom colectiva”, já se produziu há bastante tempo; que restam elites a tentar manter, por diferentes vias, o nosso idioma e que quem nunca tivo voz nisto tudo foi a gente no seu conjunto na escolha de possibilidades. E acho também, já o tenho insinuado e escrito, que a nação não pode alicerçar-se apenas (nem fundamentamente, polo caminho que levamos) na língua tal como hoje operamos. Rogo, neste sentido, que se leia a parte final deste texto aqui republicado.

    Este não é um artigo apenas sobre -om vs. –ão (já agora, Fernando, qual achas melhor solução para o galego: -ión, -on ou om?). Sobre isto escrevim:
    Nesse quadro, o uso do ão na Galiza por parte de galegas/os atinge, para mim, um instrumento de elaborar normalidade galega a respeito das outras normas do português, em parte o fomento dum continuum. Sem por isso afastar a dúvida ou a incerteza; mas com vontade propositiva do que acho melhor coletivamente… Quer dizer-se: apesar de não gostar e de dificilmente me identificar com essa forma, praticá-la como veículo, ponte, achegamento. Para mim, essa solução, como outras, implica renunciar, conscientemente, a aspetos da norma que melhor espelha o galego e a sua relação como co-dialeto (para utilizar umha expressão de Leite de Vasconcelos formulada há mais dum século) com os outros dialetos da língua conhecida no mundo como português: a (histórica) Norma da AGAL.

    Esse uso é tático, ao menos, para contribuir para esses objetivos. Precisamente, entre outras cousas, porque faz parte da elaboração a contrario, da língua em Portugal relativamente às falas galegas (e nortenhas, não o esqueças, Fernando), de soluções anti-galegas ou não galegas gráficas espelhando orientações orais distantes dessas falas que ainda contenhem Monçom, que temos que saber integrar no nosso quadro cultural, pratiquemo-las ou não.
    E pode ser umha renúncia conjuntural, que acabe por converter-se em estrutural, não sei (oxalá fosse essa a única renúncia para salvarmos todo o nosso património linguístico, que é muito mais que umha forma ortográfica!)

    Mas penso que om ão é umha leitura sumária… Este quer ser um artigo (apelo para a leitura da última parte do mesmo) que procure novos rumos.
    Em todo o caso, continuo duvidando, mesmo da utilidade de toda a energia investida nestes assuntos. Todas as pessoas que aqui intervimos procuramos as melhores soluções, para o conjunto nacional (que não está neste debate) ou, mais em concreto, para setores dele. Mas, aí fora, não estão nisto. E nós, [email protected], tenho a impressão, e mais [email protected], parece-me, em defender as próprias posições e combater as alheias que em entender a lógica que as pode alimentar.
    E acho que, escreva-se o que se escrever, bastantes estão (provavelmente eu também, não sei) [email protected] num labirinto, devido de que o avanço que se pretendia linear, passou para sinuoso, depois para espiralar e acaba sempre nisso, num labirinto.
    Dito tudo o que antecede, com o ceticismo, ponto de dúvida e necessária humildade e com
    um abraço cordial para todo/as
    Elias

    • Venâncio

      Caro Elias,

      Antes de mais: a larga maioria do epítetos que aqui usei não estavam dirigidos a ti. O único que usei para ti foi o de “ponderado”.

      Perguntas-me de que sou a favor: de -ión, -on ou -om. Sou decididamente a favor de -om (sempre fui fã da Norma Agal, sim, a tradicional. achando-a, como escrevi “um bom início de conversa”). Mas isso, atenção, só quando se trata realmente de -om, e não quando se trata de -ao (como em irmao) ou de -ám (como em pam).

      É uma irresponsabilidade (não é de mais chamar-lhe crime, tão anti-social é) importar para os usos galegos a confusão histórica portuguesa das três terminações, com o perfeito caos (!) em que se tornaram os nossos plurais dos substantivos.

      Falas na diferença nortenha. Não te enganes. Também os nossos nortenhos abandonaram as três terminações galegas, unificando-as em -om. pronunciam irmóm, pom, nom. Além disso, crescentemente vão trocando essa universal -om por um universal -ão à lisboeta.

      Há algum tempo alguém afirmou aqui: «Se os portugueses galegos são, nos também, legitimamente, podemos nos reclamar de portugueses.»

      Isso, caro Elias, é puro delírio. Os portugueses não são galegos. Só supô-lo de um povo inteiro é um imenso desrespeito. E tu sabes quanto aprecio os galegos.

      Cito isso para te fazer ver a que extremos estais a chegar (e este “estais” inclui aqueles de vós que se calam perante essa loucura desatada). O extremismo “identitário” de que alguns reintegracionistas bem-falantes, impunemente, dão prova fornece a medida do descaminho em que o vosso belo movimento se vai tornando, e do labirinto em que vos ides perdendo.

      É tudo isso que, como observador amigo, me preocupa e que denuncio.

      Abraço firme.

      • Venâncio

        Ah, esquecia-me.

        Respondeste-me: «Não, não há standard, no português; e dificilmente o iremos encontrar em qualquer língua».

        Isto é um pontapé no cu de todos nós, falantes de Português, utentes da Norma brasileira e da Norma europeia. Este é o desprezo que nos votais, para salvardes a vossa “identidade lusófona galega”.

        • Elias Torres

          Caro Fernando,
          (e dá-lhe, Fernando, com o vós! Qual pontapé no cu? qual desprezo? O que é isso de “identidade lusófona galega”? Se te referires a se alguns/umhas nos reconhecemos como utentes dumha mesma língua, lusó[email protected] somos, ainda que em luso não nos reconheçamos. Certamente, devim escrever “não há standard português e não no português, desculpa, mas bem se entende..:!. Ora, também pode ser discutida a existência dumha Norma Brasileira unificada, por exemplo: em quais registros, cada vez, aliás, mais entrecruzados? Em todo o país?)
          Mantenho a minha sugestão de refreio não por me sentir atingido mas porque penso que pode ser insultante, ensombrece o debate, é desnecessário e cria más sensações para dialogar. E pido-che que penses nisso.
          Em questão de ons, estamos conversados, porque coincido plenamente; a minha dúvida quanto ao uso não é de correção mas de planificação. E para nada desejo a introdução da que denominas confusão histórica portuguesa no uso do galego
          Claro que os vossos nortenhos abandonaron as três terminações galegas, unificando-as em –om, mas por causa de similares razões à elaboração a contrario coimbrã-lisboeta em relação à Galiza. E crescentemente vão trocando esse seu universal -om por um universal -ão à lisboeta por similares razões e pressões.
          Eu sou galego, Fernando, galego. Não digo mais sobre isso. Também digo que, em muitas aldeolas, aldeias e lugares do norte de Portugal, e não só, me tenho sentido como parte dumha comunidade cultural que transcende outras fronteiras; e que é, em muitos casos, mais galega essa aldeia, no meu conceito de cultura, que o que encontro em cidades, vilas e, também, algumhas aldeias da Galiza. Este é outro debate, não sociolingüístico mas alargadamente cultural, que é o que realmente me interessa e o que tento estudar, vendo a língua como umha parte dessa cultura.
          Como vês, não calo (mais dumha vez, tens pedido que me pronuncie; pois aqui está). Não coincido com alguns caminhos, certamente, mas não acho que empreendê-los seja efeito da loucura nem nutro desrespeito por quem os percorre. É, segundo os casos, efeito da derrota, da perceção da passagem do tempo, da perceção da cultura mesma, do entendimento de que não há saída ou de que é o único remédio. Vê, por favor, também generosidade onde vês apenas loucura.
          E, agora, não te enganes tu: o stablishment, não esqueças, é, primeiro, stablishment, e, depois língua e política lingüística, se calhar e muitas vezes apenas pro domo sua. (Alguns, algumhas) não temos vocação de [email protected] nem de relíquia, nem para inglês ver. Pensamos que a nossa profunda castelhanização está tornando inservível este precioso bem e esta insubstituível ferramenta. Queremos viver numha língua que não esteja perenemente ameaçada e, para isso, há que tomar soluções duras. Porque nos interessa o futuro da nossa gente também. Convém ir tecendo consensos e práticas inclusivas, esta é a minha opinião e a mina proposta. Por isso, defendo todas as opções, para que a prática acumule mais energia e mais pessoas se sintam convocadas; e para que a dinâmica social poda ir ditando soluções sem mais imposições daquelas que derivam do relativo livre uso das opções.
          Aquele abraço
          Elias

          • Venâncio

            Caro Elias,

            Talvez te admires, mas existe realmente aquilo que chamas uma “Norma Brasileira unificada”. Chama-se lá a Norma Urbana Culta, a célebre NURC, incrivelmente uniforme naquele imenso país. Ela anda a ser observada e descrita, há decénios, por aturados investigadores.

            É a existência dela que não permite (insistirei) que haja traduções “luso-brasileiras” de literaturas alheias. E mesmo as (infelizmente poucas) obras portuguesas que o Brasil edita são (a não ser que os autores a isso se oponham) “reescritas” para a Norma brasileira. Exemplo máximo foram as recentes traduções da Ilíada e da Odisseia do português Frederico Lourenço, que levaram uma lavagem “gramatical” brasileira.

            Mas tudo leva a crer que o Reintegracionismo galego tem de negar estas realidades, criando para si um Português único, mesmo se irreal. Será maldade minha supor que esta é uma visão espanhola indesmentível? Que, sem maldade minha, sois intimamente mais “espanhóis” do que quereis fazer supor?

            Já repetidamente tenho lembrado: a história linguística colonial de Portugal e de Espanha foram radicalmente diferentes. A Espanha cedo fundou universidades na América. Portugal não fundou nenhuma em qualquer colónia sua. Para cúmulo, até 1806 (quando o rei português se refugiou no Brasil, fugindo aos franceses), a imprensa era proibida no Brasil, enquanto por 1550 florescia no Oriente.

            Em suma, os brasileiros foram, linguisticamente, abandonados à sua sorte, e isso criou (vemo-lo já por 1900) uma Norma própria, que só os retrógrados tentaram travar.

            Amigo, isto são realidades históricas que nunca conseguem entrar em mentes reintegracionistas. Tudo leva a crer que elas atentariam contra a auto-imagem do Reintegracionismo galego.

            Tens outra explicação? Dá-ma.

            Abraços,

          • Elias Torres

            Caro Fernando,
            “Talvez te admires”, “Talvez te admires”! Deixa essa retórica, por favor! Porque, ou me força a qualificar as tuas atitudes no debate ou, talvez melhor, sair e acabou.
            Não me admira nada, conheço, conheço o que é um Projeto, o que se apresenta como um projeto, e de dialetologia urbana!
            A própria denominação Norma Urbana Culta brasileira não che parece eloquente?
            A NURC é devedora dum Projeto, o Projeto NURC, para determinar umha NUC brasileira! E bem polémico, certamente: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/roteiropedagogico/publicacao/4703_noticia.pdf.
            O NUEC espelha bem a realidade social brasileira; umha realidade, que conheço, que leva muitas pessoas académicas a fixar variedades orais como elementos quase identitários (“tu vais” ou “tu vai”?) e outra a falar abertamente, como bem sabes, de 2 línguas: português brasileiro, português europeu. Essa pretensa norma culta real é, obviamente, a norma dum grupo social, assente, como todas em, e cito Faraco, “práticas culturais, valores sociais e elementos propriamente linguísticos”. Quanto mais elitista, mais uniforme, claro.
            De todos os modos, este não me parece o miolo da questão. Não tenho nengum interesse em dar pontapés no cu nem cousa que se pareça.
            Coincido, naturalmente, com esse abandono linguístico de que falas. A questão da constituição da evidência das diferenças entre português do Brasil e português de Portugal está bem fixada, já, no século XIX, mesmo na perspetiva de intelectuais portugueses sobre compatriotas retornados do Brasil, como sabes.
            Conheço mal a história das adaptações de textos de português europeu para português brasileiro e vice-versa; e gostava de conhecer: tens algumha bibliografia relativamente a esse processo? não sei quando começou e como foi construindo-se. Mas a minha hipótese é que as diferenças linguísticas forom um bom pretexto de mercado. E a repetição gera hábito e o hábito acaba por interiorizar-se como a-histórico e natural. Ora, o Saramago, como também sabes, proibiu essas adaptações dos seus textos e ele constituiu “um excelente negócio”, sendo, no ano da sua morte, o mais vendido de literatura estrangeira, como indicava Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras: https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2010/06/753243-jose-saramago-e-campeao-de-vendas-no-brasil.shtml
            As cousas, pois, da língua são-che sempre mais complexas e persistentemente necessitadas de adjetivos (económica, social, política, cultural, psicológica, etc.) para entendê-las, não achas? Por isso, por exemplo, ainda não temos muitos casos de adaptações de documentos oficiais entre os genéricos português do Brasil e português de Portugal.
            Acho que “o Reintegracionismo galego” não pode ser tomado como um todo, como qualquer outro movimento destas caraterísticas ou outras, tem pluralidade; e não é o mesmo o esquematismo coloquial que a necessidade de matiz noutros contextos. Ora, aí vens: “sois intimamente mais “espanhóis” do que quereis fazer supor?”
            Fernando, eu, assim, não discuto. Mantenho a minha amizade, porque devemos estar por cima mesmo de cousas que achamos transcendentes ou importantes. E continuo a ler os teus trabalhos e das pessoas que podo, porque aprendo; aprendo sempre; e tento aplicar, ideias, novidades, conhecimentos. Não tenhas dúvida, por exemplo, de que dos comentários críticos com o meu texto, aqui, tenho aprendido; como também daqueles que fazem (eu agradeço muito ao Ernesto a sua perspetiva, por caso) outros comentários concordantes, o que me ajuda a fixar também núcleos de encontro e proposta. E a compreender melhor. SInceramente. E não sou pessoa que recorra a modéstias falsas.
            E não discuto, não porque me ofenda essa de “sois intimamente ‘mais espanhóis’”, não. É por essa teima de atacar argumentos tentando ferir sentimentos; de misturá-lo tudo; de querer ter razão em função de que a outra pessoa ceda perante quem detém sabedorias ou conceções morais excelsas. Não, caro Fernando, essas piruetas, que não são conceituais nem argumentais, não. Significa isso, poderia eu argumentar, que as pessoas que tenhem umha visão unificada do português são espanholas? Quantas pessoas portuguesas contas, pois, como espanholas? Não, não vale a pena. Eu aprendo mais quando ensinas, ouves, refletes, aceitas, contra-arrestas que quando pretendes ferir. Nestes âmbitos reintegracionistas, aliás, que são os teus desde há tantos anos, onde, tu como eu, pudemos sempre discutir à vontade, o que, provavelmente, não teria acontecido noutros.

            Abraço,
            Elias

          • Venâncio

            Mas, Elias, foste tu próprio a perguntar-te se existiria essa tal “”Norma Brasileira unificada”. Eu não o inventei. Era mesmo uma formulação que, decerto exacta, eu não usaria.

            Não percebo agora como podes admirar-te de eu te ripostar “Talvez te admires” por ela existir, e chamares a isso “retórica” minha.

            Eu odeio estas minhoquices, pá.

            Vou ler o resto. Mas primeiro um cafezinho.

          • Elias Torres

            Não. Tu fazes equivaler NURC e Norma Unificada Brasileira, eu não. E eu, depois deste breve recesso, torno ao trabalho: bom cafezinho!

          • Venâncio

            Depois, hás-de dizer de onde desencantaste essa “Norma unificada brasileira”, ou “Norma brasileira unificada”, de que não acho rasto.

            Se, por acaso, se tratar do Acordo Ortográfico de 1990, que chegue a Compostela uma grande gargalhada alentejana.

          • Elias Torres

            Não, homem, é umha expressão minha! Posta em letra grande para singularizar a sua eventual solenidade!

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Nom sei se ajudará a esclarecer esta leia, mas na minha experiência no Reino Unido poido dizer que:

            — Cidadão portugueses, luso-africanos e brasileiros interagem entre eles como se fossem falantes da mesma língua, nom tenho observado problemas de intercompreensom aí. Emporisso, cumpre dizer que muitos desses lusófonos emigrárom pro Reino Unido após terem morado em Portugal (mormente na Grande Lisboa).

            — Hai ofertas de emprego pra falantes de português brasileiro, especificando que tenhem de ser falantes dessa variedade de português:
            https://www.totaljobs.com/job/customer-service-advisor/bet365-job90975599

            — Outras ofertas de emprego porém nom fam a distinçom entre variedades de português:
            https://www.totaljobs.com/job/representative/mtrec-commercial-job90976857

            — Manuais e métodos de aprendizagem de português normalmente venhem num só de dous formatos, ou bem o européu, ou bem o brasileiro. Tenho visto apenas um manual pra iniciantes que incorpora as duas variedades, tudo por duplicado.

            — Um livro (pra falantes de francês) de fraseologia comparada francês-português, intitulado «Le portugais en un clin d’oeil», apresenta, prà maioria das mais de 1000 expressões, a variedade portuguesa e mais a brasileira. Tenho esse livro, eu estimaria na ordem de nom mais do 30% as expressões coincidentes entre as duas variedades de português. Talvez a fraseologia mais usada em ingles nom seja tam diferente entre as variedades britanica e americana, mas nom saberia dizer polo de agora.

            Dá-me o corpo que, a nom existir umha norma precisa brasileira, sim hai nesse pais uns usos comuns que nos permitem falar de norma brasileira, ou de português do Brasil num senso mais largo, e claramente diferenciado (mais nuns casos, por exemplo no dos vernaculares, do que noutros) do português.

            Ora, se hai norma (larga) culta brasileira, se hai europeia, ele-porque nom haveria umha norma galega, se nós nos reclamamos da mesma língua? E se sim queremos essa norma de nós, que adianta negar a existência das outras normas?

            Nom será que, pola contra, a existência dumha norma brasileira e dumha europeia, nos dá mais legitimidade, pra nós colocarmos aí a norma galega de português?

          • Venâncio

            Caro X.,

            Se o Velho PGL estivesse acessível, verias que isso exactamente eu tentava mostrá-lo aqui há 15 anos. Que precisamente a existência das Normas brasileira e portuguesa dava pé para uma Norma Galega no mesmo âmbito.

            Eram, então, interlocutores, nestes cafundós, os sociolinguistas Gil, Cáccamo e Herrero. Receberam sempre a minha sugestão (esta mesma tua, de 2020, a que eu chamava uma “Norma galega forte”) com risadas valentes.

            Não, amigo, discutir com a Ortodoxia só nos esfacela o espírito. Eu desisti.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Alguns estamos «trabalhando», seguimos «trabalhando» (trabalhando no senso de escrever livros), em prol dessa norma forte. Daqui a um ano, se os deuses quigerem, mais detalhes …

          • Venâncio

            Ao reintegracionismo galego faltou um dom precioso: o da auto-crítica. Repara como nunca se disse “Poderemos ter-nos enganado” aqui ou ali, e semelhante.

            Mas se fosse só isso… Também tem a mania de bater na peitaça, tipo “Isto foi vitória nossa”.

            Acredita: macacos me mordam se o estar a Lei Paz Andrade emperrada não se deve ao triunfalismo que logo, mesmo aqui no PGL, se ergueu.

            Claro que a Outra Parte não continuará apoiando uma “vitória reintegracionista”.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Tamém é possível que o radicalismo e «triunfalismo» derivados da Lei Paz Andrade tenham tido os efetos negativos que dis, nom sei. Mas tampouco vou condenar o triunfalismo dos que conseguírom, co seu trabalho contra tudo e contra todos, trazer a dita lei … mesmo que nom serva na prática …

          • Venâncio

            Eu sei, X. A.

            Publicaste recentemente dois livros em Norma Agal, que são duas jóias. Venham mais.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Esses «lusistas desvairados» fôrom vítimas, som vítimas, da neurose da perda da unidade da língua. Só que nom contemplárom, nom contemplam, a hipótese dumha unidade mais «frouxa», que é a que alguns consideramos mais ajeitada ao nosso caso. E nom só pra conseguirmos mais adesões do bando isolacionista (muitos deles ainda atacam a deriva cara o «lisboeta) mas tamém da Lusofonia em geral, onde hai tendências naturais tam «particularistas» como as nossas … e sem esquecermos a neurose do mal vento da Espanha!

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Ora, sem a açom dos reintegracionistas radicais, acho, Fernando, que nom estarias hoje a falar com ninguém no campo oficialista. Os teus amigos ali estariam a falar entre eles sobre as isoglossas, assi como artelhando acordos e proclamas pola defensa das línguas rexionais cos defensores do asturiano-leonês …

          • Venâncio

            Não é verdade.

            Tu saberás que houve uma cesura com a saída do Penabade da direcção da AGAL. Ele era um tipo que desafiava todos os sistemas, e isso não no pode a Ortodoxia tolerar. Um segundo e um terceiro Penabade, e hoje não estaria o Reintegracionismo galego linguisticamente na penúria. incapaz de formular materialmente o seu “binormativismo”.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Nom sei rem dessas leias e possíveis endróminas dentro da AGAL, embora sim enxergo claramente a deriva «lusista» geral, polo que se pode ler por estes foros …

            E ainda cuido que os «triunfos» dos lusistas radicais sim servírom e servem pra os oficialistas se achegarem às vias reintegracionistas. Isso seria precisamente o que eu faria, se fosse um deles, um dos «oficialistas». É a típica estratégia de esvaziamento do discurso do «inimigo», mesmo de aproveitar-se dos seus esforços … mas isto é só intuiçom … embora estou disposto a apostar algumha cousa na certeza desta minha intuiçom 😉

          • Carlos

            Caro Venâncio,

            Além de ler o aceso debate, reparei nisto:

            Acima escreveste “Se ele existisse, haveria traduções “luso-brasileiras” de literaturas estrangeiras, e não Nas há”; agora escreves “e isso não No pode a Ortodoxia tolerar”.
            O que se passa aí com esses enes? Som obrigatórios depois do não?

            Obrigado pola ajuda! Abraço.

          • Venâncio

            Caro Carlos,

            Esses “N” são só obrigatórios em casos como “Eles compram-no” e semelhantes, e até com curiosa criação de ambiguidades, do género de “eles conhecem-nos” (ele conhecem-nos a nós ou eles conhecem-nos a eles).

            Os meus usos que citaste são minoritários e na realidade arcaizantes. Mas gosto de fazê-lo.

            Reproduzo dum livro que preparo:

            No início do conhecido romance quinhentista de Bernardim Ribeiro, lemos: «Menina e moça me levaram de casa de meu pai para longes terras. Qual fosse então a causa daquela minha levada, era pequena, não na soube». Esta forma nasalizada do pronome era comum na época. Nos “Lusíadas”, Camões escrevia: «O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a pátria, não». E o romance popular “A Nau Catrineta” tem passagens como «Dar-te-ei tanto dinheiro / Que nem no possas contar» e «Tomou-o um anjo nos braços, / Não no deixou afogar».

            Mas ainda Almeida Garrett fazia, na primeira metade de Oitocentos, corrente uso dela, como em «Não no disse eu, menina?» ou «Prazer não sabia o que era. / Mas dor, não na conhecia». Bem mais perto de nós, Irene Lisboa redigia «Você não viu, sim, não na viu puxar da… faca? (em O pouco e o muito), o mesmo fazendo Maria Velho da Costa com «Grandes famílias não nas há» (em Missa in Albis).

            Esta particularidade de linguagem parece ter os dias contados na expressão ‘culta’. Continuará a ouvir-se no impagável “Meninas, vamos ao vira” : «Ai vira que vira e o vira virou, / As voltas do vira sou eu quem nas dou».

            Abraços.

          • Joám Lopes Facal

            Obrigado, Venâncio, pola oportuna liçom.
            Eles compram-no, eles conhecem-nos, nom-no soubem, nom- no dá, que nem-no possas contar, nom-na conhecia, sou eu quem-nas dou … encadeamentos habituais em galego…os arcaísmos do português som galego genuíno … penso mesmo que as citadas trascriçons deveriam ser estilisticamente normativas para representar diálogos habituais, o mesmo que com-o = co, etc
            A ortografia pode ser umha férula atroz quando se converte em opresivo exoesqueleto.
            Longa vida aos gramáticos!

          • Venâncio

            Joám,

            Claro, eu estava perfeitamente consciente da galeguidade dessas construções. Foram inicialmente galegas, e são-no ainda. Nós deixámo-las arcaizar, a não ser em formas verbais (como esse são-no).

            O galego nunca morreu. Os “séculos escuros” são uma etiqueta romântica. O galego chegou vivíssimo a 1850. Foi a partir de então que foi perdendo terreno para o castelhano.

            Mas ainda existe galego “suficiente” para viver por tantas primaveras quantas as que já conta.

            Cuidai dele. Não o contamineis de estrangeirices.

          • Elias Torres

            Concordo. Não tenho dúvida e isso defendo. Leiam, por favor, os meus dou últimos artigos em vivacerzeda ou em breve, acho, neste portal

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Obrigado pola resposta. Mas só quero apontar, sem ânimo de má vontade nem de rifas, que se nom conservamos o «–çom» vai ser difícil conservarmos o nosso léxico específico, a nossa morfo-sintaxe e a nossa fraseologia. Ficarám no âmbito oral (diglossia como ocorre no Brasil, embora no nosso caso triglossia, coa presenca do espanhol tamém) ou desaparecerám. Vai-se caminhar cara a convergência total, sempre imperfeita porém, na norma portuguesa de Lisboa … Acho melhor conservarmos as nossa velhas roupas!

            Saúde

          • Elias Torres

            Sei. E concordo. Por exemplo , à questão da fraseologia refiro-me explicitamente no artigo que pedim que se lesse e que omesmo Ernesto [aproveito: umha das pessoas com análises mais lúcidas e produtivas da história e realidade cultural da Galiza; acho sempre bom salientar cousas positivas] recomendou fazer para entender melhor o sentido da minha proposta. Publiquei isto nesse blogue e, como acontecera com outros textos meus anteriores, fica ao dispor do pgl se for, como parece ocaso, do seu interesse.

            Ora, com este artigo, ocorre como com O Capital de Marx (salve-se a distância,obviamente): se na prateleira está um exemplar na seção de Economia, é lido como um livro de Economia, se de Sociologia, como de Sociologia, se na dePolítica, na de Filosofia, etc…, e não parece haver forma humana de que seja lido em conjunto, como umha proposta inclusiva; culpa minha. Aqui, em muitos momentos, tudo é om ão que, reitero, me serve para expor dúvidas e que é utilizado como tática de ponte para a gente galega que o ler, sem saber se, no fio dos acontecimentos,será estrutural ou não; achegamento, que quer publicar que, mesmo aquilo que nos resulta mais distante, ao menos a mim, ão, está também no nosso conjunto de possibilidades e pode vir a fazer parte nossa, dum modo ou doutro (já agora, aproveito para indicar que, se calhar, num quadro como o galego, é visto com maior hostilidade om que ão em muitas receções).
            Acho que não por isso o Galego morrerá em braços alheios; se assim for ou se demonstrar, a proposta fica devaluada. Levo tempo invocando, e insisto, agora,que temos que abrir um espaço de consenso, no âmbito reintegracionista, paraquem a ele se desejar unir, no sentido de, no âmbito gramatical e léxico-semântico, fazer um inventário de formas galegas comuns a manter e a privilegiar (se alguém ler a essa luz o meu texto, verá algumhas propostas). Questão de património e utilidade. O consenso passa por sentar-se com vontade de acordo eabrir um leque de possibilidades convergente. Nesse leque, já o tenho dito, eu sinto-me mais à vontade com a Norma histórica da AGAL que, entendo, não deve preterir-se; e entendo, também, que urge dar passos e sentirmo-nos parte dumc ontinuum, porque o galego está desaparecendo.E já o tenho dito também: acho que a AGAL deve investir dinheiro num bom trabalho de campo na Galiza com perguntas-chave para saber o que a gente pensa ou para que se poderá disponibilizar, em termos de língua, reintegração ,etc.: sem dados não há estratégia. É preciso, igualmente, entender que pode haver espaços de encontro com outras opções, que eu acho também legítimas, “apesar”. E entender, igualmente, que isto é questão de poder, político, simbólico, social, económico (oxalá só fosse linguístico!), não de quem tem razão. E que, a história dos últimos quarenta anos monstrou-no, tudo conduz a estabelecer um espaço de soberania reintegracionista, investindo tempo, energia e esforços, para contribuir para que o galego não desapareça e poda reintegrar-se. Sem esperar por ninguém e nada doutros lados…
            Quero, agora e já agora, subir um pouco o tom, ao fio disto: eu, como muitas outras pessoas, levamos muito tempo, enganadamente ou não, tentando arquitetar espaços de promoção do galego. No meu caso, 40 dos meus 56 anos. Nessa promoção, trabalhamos, conscientemente, para o inglês… para um benefício de que não iríamos beneficiar, nos termos materiais e simbólicos. Conscientemente, investimos energias e tempo e perdemos dinheiro e de ganhar dinheiro (sem rubor,no meu caso, como será de outras pessoas, miles e miles de euros e muito capital simbólico). É consciente, repito, para que ninguém argua vitimismo onde pretendo explicar lógicas (esse capital, em relação ao meu trabalho tenho-o mais fora que dentro da Galiza, como o Fernando tem generosamente indicado mais dumha vez, o que lhe agradeço). Aquele “apesar” quer esclarecer o esforço consciente de tentar avançar e procurar caminhos, apesar da repressão e da preterição, e da impostura; impostura! (o mesmo aconteceu e acontece noutros campos, incluindo o político; mas é gritante no cultural)

            p.s1.: Fernando, para os teus “nos” o Camilo é bem produtivo. p.s.2: Eu coloquei-che (mesmo aqui!) e coloco-che perguntas, para contrastar, saber, aprender. Tu, em troca, só perguntas retóricas, para justificar as tuas posições. Talvez convinha revisares isso com algumha humildade, dito com a melhor vontade. Tens o meu abraço.
            (os meus sinceros pêsames ao Joám polo falecimento da Paz e o meu melhor abraço)

          • Venâncio

            Caro Elias,

            A sistemática relativização das Normas brasileira e europeia é um dado que registo nestes círculos galegos, aqui, desde que neles me movo. Ou é uma teima portuguesa, ou é uma maneira de fazer dinheiro, ou é “preguiça” (já o li aqui no PGL) de não se lerem uns aos outros.

            Para os linguistas brasileiros e portugueses, a existência das duas normas é uma realidade inquestionável, suficientemente descrita. E os leitores brasileiros e portugueses exigem ler uma tradução de Shakespeare ou de Dan Brown na sua Norma, e não na transatlântica.

            A fluência no contacto entre brasileiros e portugueses (e olho também na direcção do “conavirus”) conheço-a eu desde os 10 anos, quando comecei a ter professores brasileiros, entre eles o de Português, o melhor que tive na vida. O “brasileiro” entrou-me logo então. Só que a questão não se põe em termos de facilidade de contacto presencial (também existente entre falantes de português e de castelhano), e sim em termos de estruturas gramaticais, acrescidas dum léxico e duma pragmática diferentes.

            Sobretudo esse subterfúgio do “negócio” é curioso. A não-existência de traduções “luso-brasilerias” (nem uma, senhores) ficaria a dever-se a um ganho das editoras. Mas viremos o bico ao prego. Não ganhariam as editoras ainda mais com um mercado de dois países leitores com uma só edição? Que parvinhos, os editores portugueses e brasileiros!

            Eu poderia tentar mostrar, aqui, como a Norma brasileira e a europeia estruturalmente se diferenciam. Considero deficiente a informação a esse respeito em ambiente reintegracionista.

            Mas não teria sentido. Estais, também estruturalmente, envolvidos numa luta identitária, só marginalmente linguística. E, nessa matéria, um pobre linguista como eu é visto (e sempre aqui assim foi) como um incómodo.

            Um abraço desalentado.

  • José António Lozano

    Obrigado, Elias por tão sábia proposta, integradora e aberta. Depois de ler os comentários ocorreuse-me alguma cousa.
    O problema é que o -om, as formas que correspondem com a etimologia como g e j, o lh e nh deveriam ter sido reivindicadas polas instituições que se dedicavam ao galego (RAG-ILG, entidades culturais, editoras, etc) Porquê não fizeram? Por razões linguísticas? Não penso que haja razões linguísticas que apresentar. Seria aceitável uma norma galega nesse sentido sem problemas e poderíamos aceitar críticas que, por exemplo, realiza Fernando Venâncio. Mas o problema não somos aqui os reintegracionistas ou lusistas ou como se nos queira chamar mas aqueles que, simplesmente, elegeram a via do galego-castelhano, em expressão de Carvalho Calero, e que atuaram como cobertura de uma “normalización” mui orwelliana, por certo. Por detrás, como assinala Elias, hai toda uma conceção da cultura e de feitos que vão muito além de questões de corredores de linguística universitária.
    Galiza e Portugal simbolizam num sentido que vai além de meras conjunturas. O “Símbolo” era essa moeda que se partia na antiga Grécia e que atuava como contrassinal. Pode que o Portugal empírico esteja tão alienado de si como qualquer outro lugar do planeta, mas que problema há?. É o destino que nos tocou (a Moira dos gregos) a todos nesta época, em que a humanidade parece querer acabar consigo mesma ou buscar uma falsa saída de controle totalitário. Algo teremos que fazer os seres humanos, procurar encontros e afinidades, restaurar memórias e palavras comuns, juntarmo-nos ao redor da lareira e ouvir os nossos estranhos sotaques, aprender uns com os outros. Confundir as línguas e rir a cacholo. Desafiar um estranho sentido comum que se apresenta demasiado sensato. O mais sensato seria usar só o espanhol e esquecer o galego. Um problema menos. Por esse caminho a quanto esquecimento nos obrigaria o “sentidinho”?. Tenho comigo as “Novelas do Minho” de Camilo Castelo Branco, o “Marânos” de Teixeira de Pascoaes, os “Bichos” de Torga, o Camões na voz do Zeca, mas tenho também ao Otero Pedraio do Arredor de Si ou Reticências de Carvalho Calero . E dito isto não renuncio a Cervantes ou Valle Inclán: não podo condenar uma língua nem uma cultura. Fago-a minha e defenderei a sua dignidade, que é a dignidade dos seres humanos que a habitam. Não é só uma questão erudita. Há toda uma sabedoria humana, todo um esforço por conseguir algo digno para habitar esta terra. Deixaremos esses anseios simplesmente na “literatura”?. Não, surgem de algo mais profundo, mais poderoso. Não os pode conter uma política pequena. É a Moira, o destino, o lote que nos tocou. Que estranho que depois de tantos séculos apareçam estes estranhos seres, estes galegos (um pouco de loucura será sempre necessária) a escrever em quase- português que não é português mas que não deixa de sê-lo, numa fronteira de identidades e dores acumuladas, de génio, de inventiva, de fanatismos e violências, de lirismos e seres extraordinários. Paradoxal como a vida mesma. Pode que isto só seja um desabafo, pode ser visto com cinismo, pode ser ingénuo. Não sei. Paga a pena ter um coração. Sabedoria e amor estão próximos um do outro e, entre eles, a morte .Fica claro que é algo mais que ortografia e desculpem se me sai do rego mas tinha que dizê-lo. É bom ficar por aqui.

    • Elias Torres

      Obrigado. Concordo também, com a opinião e a perspetiva.

  • Paulo Gamalho

    Obrigado, Elias!
    Como todas as que estamos por aqui, acho prioritário normalizar e estandarizar a opçom -om frente ao castelhanismo -ión, irrelevante no galego medieval (embora considerada evoluçom interna do galego por Ramón Lorenzo e o ILG). Nesta discussão, clave para o reintegracionismo, o professor Venâncio pode talvez botar uma mão.

    Quanto a oposiçom ão / om ou om / on (esta última maioritária no galego medieval), acho que é um debate interessante quando estivermos na altura de discutir um poli-sistema LGBTAM+, é dizer luso-galego-brasileiro-timorense-angolano-mozambiquenho e mais outros), onde o galego seja um sistema “de seu” sem -ión, dentro da lusofonia. Nessa altura, eu estarei feliz de escrever o que me digam os/as linguistas: -om ou -ão.

    Um abraço!

    • Ernesto Vazquez Souza

      Pois… Eu não acho… gastar tempo em demonstrar isso ou reivindicar uma forma -çom apenas tem sentido dentro de um objetivo dialogado de reforma e confluência entre umas normas isolacionistas e umas reintegracionistas dentro de uma proposta Nacional galega e isolacionista a respeito do Português.

      Mas não podemos negociar com o isolacionismo dominante. A resposta é clara. Não vão negociar nem mudar. Portanto é ilógico continuar a a pensar num esquema de pontes ou de conversão entre os modelos galegos para criar um modelo galego nacional mais reintegracionista.

      Essa era a proposta e o propósito original da AGAL e da maior parte do reintegracionismo nos 80-90. E esse é o propósito da forma -çom. Que se recupera para harmonizar soluções no modelo ortográfico reintegracionista e para dar um sabor galego (Isso é quando menos o que diz Carvalho Calero em 1985 : “O problema ortográfico” Revista Agália nº 2 (1985), pp. 127-134

      Uso de -m final de dicçom. A harmonizaçom internormativa aconselha-a. A grafia galega histórica conhece-a. Em Prosa 3 pode consultar-se a traduçom da Legenda Aurea (pp. 165-170), a da General Estória (pp. 177-188), a da Crônica General e Crónica de Castela (pp. 189-193); a do Foro Real (pp. 214-215), a das Flores de Direito (pp. 216-219). Em todos estes textos, tardomedievais, portanto galegos indubitados, nom portugueses, achamos o —m final.

      Que rendabilidade tem hoje um esquema assim quando uma das partes, a que tem o poder institucional e os recursos nem aceita reformas, fechou a possibilidade dececionantemente em 2003?

      • Ernesto Vazquez Souza

        ah… e pragmaticamente, pelo que a mim respeita não é questão de esperar porque se nos reconheça que fazemos parte de nada…

        É o momento para já de ser audazes… não podemos esperar que Portugal ou a Lusofonia venha a nós. Se algum dia nos querem já virão eles a nós…

        Eu tenho claro que é o momento de apostar pelo português da Galiza… assim, sem mais… e ir fazendo… primeiro com hesitações, erros, enxebrismos vários e castelhanismos a eito… depois, com o tempo e o uso constante… veremos.

        Eu não espero e como dizia o meu avó o que queira vir que venha e o que não que se detenha…

        • Venâncio

          Mas, caro Ernesto, a questão do -OM não é ortográfica, é morfológica.

          Tem implicações estruturais, como seja a formação dos plurais e de algumas formas verbais. E eu não me cansarei de apontar o caos em que o Português (também o brasileiro) desembocou, ao unificar as três terminações galegas numa só.

          Mas continuo a bradar no deserto.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Eu não falo nisso…carambas… parecem surdos… Do que falo é de uma escolha ortográfica nos 80. DE 1980. Se há vivos e por perto algum dos protagonistas, gente que tomou ou ajudou a tomar essa decisão…

            Do resto digo-lhe o que a FACAL. Nestes temas não é possível razoar consigo. De facto já é quase impossível, nem eu nem ninguém tratar de falar consigo. Portanto abandono.

            Para qualquer outra questão que não seja a língua galega, o português, o galego ou os portugueses fico aberto.

            Saúde

          • Venâncio

            Ernesto, escreves:

            «falo é de uma escolha ortográfica».

            Mas, meu caro, preciso de pôr-me de joelhos para fazer-te perceber que não se trata de “ortografia”, que é uma questão anódina, mas de morfologia, que é uma questão do sistema.

            Eu penso que nada disto realmente te interessa, e que eu posso dizê-lo em élfico, com o mesmo resultado.

            Mas há por aqui mais leitores, e eles merecem que não os descaminhe alguém que, noutro domínio, tem um justo reconhecimento, mas que de linguística nada entende nem, ao que parece, quer entender.

          • Ernesto Vazquez Souza

            já claro, ganhei o título numa féria…

            De qualquer jeito não tem razão, porque está ofuscado com a sua teima. Mas neste caso é sim UMA ESCOLHA ORTOGRÁFICA e estou por dizer que estética… que sim causou em cascada uma série de problemas de representação e incoerências morfológicas (tanto internas quanto em relação a outras propostas de escrita) no modelo reintegracionista,

          • Ernesto Vazquez Souza

            e talvez na altura não havia outra que fugir do Português… mas hoje não é a mesma situação…

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            A proposta reintegracionista dos anos 80 nom só era umha ortografia alternativa à da RAG e que se definia como reintegracionista.

            Era, ainda é, a ortografia reintegracionista, e tamém a portuguesa, com apenas dous elementos diferentes (–çom, mh).

            Dous elementos diferentes num conjunto de dezenas de elementos nom nos habilitam a falar dum outro sistema, dumha outra ortografia.

            A ortografia reintegracionista inicial da AGAL é tamém mais coerente morfologicamente. E a sua diferenciaçom em apenas dous detalhes permite aplicar tranquilamente as nossas espicifidades morfolõgicas, lexicais e fraseológicas, sem que tenhamos de pedir permisso a Lisboa, ou nos sentirmos acomplexados.

            Eu nunca considerarei a ortografia original da AGAL, que é a portuguesa, como umha aberraçom ou um monstro ou umha perda de tempo. É umha ortografia fantástica, portuguesa. Só boto em manca a letra «ũ», mas isso é umha questom prática de teclados …

          • Venâncio

            Com o risco de nos perdermos num lodaçal terminológico, direi, Ernesto, que tu falas duma «escolha ortográfica» histórica, enquanto eu falo duma «questão etimológica» presente em português, esse mesmo português que o grosso do Reintegracionismo quer instaurar como coisa galega, Falamos de coisas diferentes.

            P.S.
            Estive toda a tarde a ver e ouvir o debate nas Cortes de Madrid sobre a moção de censura ao Governo por parte de Vox, com uma valente intervenção intervenção do sr. Rego do BNG. Compreendo que alguns de vós não vos sintais espanhóis. Não compreendo que não acarinheis o vosso país, importando um idioma muito próximo, muito irmão, mas estrangeiro.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Ai cona!!! … Fernando… fico realmente atordoado… Se isso é o que lhe estou eu a dizer desde o princípio… que não é que nos desentendamos ou que eu seja frivolamente comportado… é que eu falo numa cousa e o senhor noutra…

            P.s. Eu não vejo Tv, apenas filmes e series de fantasia e desde logo não tenho estómago para ver esta crise da restauração monárquica e afundamento do Parlamentarismo.

            Duvido que eu gostasse das valentias e discursos do Sr. Rego. Eu estou noutra onda política e discursiva…

            E, o que eu me sinta e deixe de sentir, vai-me perdoar, mas não é assunto seu. Quanto à minha galeguidade ou a doutra gente desconheço qualquer escala que a possa determinar.

        • Paulo Gamalho

          Ernesto, a estratégia que descreves é a que eu acho mais realista pois é improvável que se chegue a nengum tipo de acordo nacional. Mas eu só digo que, se se chegar a qualquer acordo (embora impossível) que inclua a velha norma da AGAL, eu assino logo 😉

          • Ernesto Vazquez Souza

            Meu… Os acordos são impossíveis. O mesmo que o do binormativismo. Seria possível todavia hoje se fosse o isolacionismo quem impulsasse com força, generosidade e energia…

            É até tal ponto tarde que o próprio reintegracionismo já nem trata de ir a esse acordo e quando se diz é como com a proposta reintegracionista, uma propaganda e um chamado para abalar algumas consciências dormidas.

            Esse acordo jé é um mito. Teria sido possível nos 80 se houvesse força nacionalista social e política que guiasse o processo de construção da Norma. Se daquela ganhara Carvalho e não Filgueira & cia.

            Hoje… se ainda fosse o isolacionismo a propor… mas não fará. Não pode retificar sem reconhecer e sem abrir as portas das instituições a gentes e propostas que entrariam logo em disputas pelo poder e as orientações.

            E o que é pior… o dia que faça será porque o isolacionismo estará tão socialmente debilitado que esse acordo de realizar-se, em realidade será uma derrota para o reintegracionismo.

            O mundo correu muito dos 90 a hoje. E boa parte do reintegracionismo, aos poucos, por frustração, protesto, constatação de impossibilidade de dialogar com surdos e também pela bolsa de ferramentas digitais a um click, enfiou por um carreiro, que de princípio parecia complicado, difícil e impraticável… mas que com o tempo demonstrou que conduzia a uma auto-via…

            Apertas,

    • Elias Torres

      Obrigado, Paulo!
      “Nessa altura, eu estarei feliz de escrever o que me digam os/as linguistas: -om ou -ão.” TOMARA…! E eu!

    • Venâncio

      Caro Paulo,

      Primeiro que tudo (e volto a dizer): esta não é uma discussão ortográfica, mas morfológica, dadas as implicações nos sistemas substantival e verbal. Do galego pode dizer-se tudo, menos que se acha na caótica situação do português. Seria irresponsável tentar introduzir na Galiza esta bagunça fonética e morfológica do português.

      Segundo: sim, a questão é fonética também. O reintegracionismo pode proclamar mil vezes que o galego teria garantida a sua pronúncia (e a sua morfologia), mas toda a história das ortografias, também da portuguesa, demonstra que é inevitável, numa sociedade não-ágrafa, a acção da grafia sobre a execução oral. As nossas grafias latinizantes renascentistas nascer, descer, substância, e outras mais, acabaram “pronunciadas”. É só um exemplo básico.

      Terceiro: as formas pão, não, irmão, estão, falarão (e milhentas outras) viram as suas terminações uniformizadas. Uma linda sequência é Não são tão sãos. Importa lembrar, também, as pronúncias de falam (soa “fálão”), falaram perfeito ou mais-que-perfeito (soa “falárão”), também (soa “tãobém”). Multiplique-se isso por mil.

      *

      A Reforma Ortográfica de 1911 pôs ordem nas grafias, estabelecendo (simples exemplo) falarão mas falaram, e igualmente não, tão ou são (verbo e adjectivo). Trata-se de grafias. Mas foi mais um passo, e um passo importante, na histórica desgaleguização do português.

      *

      Repito, e repetirei as vezes que necessário: acho irresponsável que, em nome dum pronunciamento “identitário” (escrevemos à portuguesa para nos mostrarmos “galegos”), se esteja a preparar um desastre gramatical, ortográfico e fonético de dimensões mais que previsíveis.

      Abraço.

      • Paulo Gamalho

        De acordo, Venâncio, mas eu estou ainda na fase -ción/çom, é dizer, na fase básica de descastelanizaçom do galego na escrita e na fala. Se amanhã conseguíssemos chegar a um consenso nacional que permitisse usar a velha norma da AGAL na administraçom, eu ficaria tam contente que te convidaria a jantar ;). Respeitaria a nova norma em todos os contextos de uso e mesmo tentaria nom utilizar a lista de castelanismos no português que identificaste na tua pesquisa. Mas, infelizmente, é mais previsível que o galego desapareça em breve neste processo irreversível de castelanizaçom maciça. É por isso que [email protected] linguistas [email protected], como Elias, resolvem (ou resolvemos) practicar o activismo e nom o academicismo. É um problema político que requer estratégias políticas. Nesta trágica situaçom provavelmente irreversível, a linguística e a filologia som secundárias.

        Um abraço

        • Ernesto Vazquez Souza

          Mas… Paulo… pensando num consenso nacional haveria que chegar a uma norma entre o IL-RAG e a AGAL.

          Sinceramente não entendo nem a lógica nem a vantagem que dades a -OM… quando marca uma pronuncia inexistente e que interfere com a tradição de leitura que a gente tem…

          Eu em caso de existir a possibilidade de um consenso Nacional e de querermos uma Norma significativamente independente e historicista apostaria por:

          -ÇON, NON e UN-A

          Tanto por história quanto por tradição… Não tem sentido nisso romper com a tradição para total não chegar a porto…ou?

          Mas pessoalmente acho que já não é possível qualquer consenso. Entre outras cousas porque a norma AGAL perde peso social e a ILG leva já décadas de uso.

          E o português da Galiza, não conta nem entra neste jogo, está noutra onda. Dado que é português, nem precisa convergir… e nem faz sombra, nem questiona as soluções do e esquema ILG… simplesmente concorre com ele…

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Mas a norma original da AGAL é o português da Galiza. Tem a mesmíssima ortografia portuguesa, com apenas dous elementos divergentes: um morfológico (-om e -ám) e outro fonético (umha). Duas peculiaridades num mar de igualdades nom nos habilitam a falar dumha outra ortografia. É a mesma, é a portuguesa, é a do português da Galiza.

            Seguindo o exemplo dumha outra língua pluricéntrica, o alemám, podemos comparar esta norma como umha variante de português. Destarte, segundo a wikipedia:

            «German is a pluricentric language. In contrast with other local varieties of German, Swiss Standard German has distinctive features in all linguistic domains: not only in phonology, but also in vocabulary, syntax, morphology and ORTHOGRAPHY. These characteristics of Swiss Standard German are called Helvetisms.»

            «there are a few differences in spelling, most notably the replacing of the German ligature ß with ss. For example:

            Strasse = Straße (Germany) = street»

            «The names of municipalities, towns, stations, and streets are often not written with a starting capital umlaut (Ü), but instead with Ae, Oe and Ue, such as the Zürich suburb Oerlikon, or the hamlet Aetzikofen, or the Bernese municipality Uebeschi»

            Portanto, temos na norma AGAL umha norma completa e consistente, aberta, inteiramente galega e portuguesa ao mesmo tempo. É o português da Galiza, nom é preciso inventar nada novo nem convergir coa norma espanholista!

            Saúde

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            E a actualizaçom da norma AGAL agora «permite» grafar «-ção» e usar a morfologia verbal-pronominal do padrom português. Isso mexe coa morfologia, como explicou o professor Venâncio, mas nom será a primeira nem a derradeira chambonada desse tipo …

            Um chisquinho mais problemático é o caso dos tempos verbais, pois onde a norma galega de português usa o mais-que-perfeito («cantaramos», «dixeramos») o português européu e brasileiro usam as suas formas compostas («tínhamos ou havíamos cantado») e nalgumhas persoas o pretérito perfeito européu e brasileiro («cantaram») semelha o mais-que perfeito galego, sem em realidade sê-lo.

            O léxico, a semántica e a fraseologia especificamente galegos tampouco som excluídos da reforma da norma AGAL, mesmo empregando o «–ção» …

            Ainda assi eu acho mais consistente, e igualmente «lusofona», a fórmula original da AGAL …

          • Venâncio

            Deixa-me rir, X. A.

            É impossível uma Norma “inteiramente” brasileira e portuguesa europeia. E tu a sonhares com duas ainda mais distantes, a galega e a “portuguesa”, numa só.

            Para começar, esqueceste as numerosas formas verbais e suas morfologias.. Ou também transformas figem-no em fi-lo?

            Se sim, manda-me a receita, pois há neste mundo muito a mudar.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Demos fora, nunca tal eu digem!

            Só digo que a norma AGAL é, ademais de galega, umha norma portuguesa, lusófona, porque tem a mesma ortografia (tirado nalguns pequenos detalhes) que a portuguesa. Isso nom significa que nom tenha a sua própria morfo-sintaxe, que como sabes eu pratico tanto na escrita como no oral, nem que a norma brasileira tenha a sua propria sintaxe, lexico, fraseologia …

          • Venâncio

            X.A.,

            Essa tua, vossa, fixação na “Ortografia”, aquilo que um idioma tem de menos importante, dá-me a volta à cabeça. Desculpa.

        • Ernesto Vazquez Souza

          Mas… Paulo… pensando num consenso nacional haveria que chegar a uma norma entre o IL-RAG e a AGAL.

          Sinceramente não entendo nem a lógica nem a vantagem que dades a -OM… quando marca uma pronuncia inexistente e que interfere com a tradição de leitura que a gente tem…

          Eu em caso de existir a possibilidade de um consenso Nacional e de querermos uma Norma significativamente independente e historicista apostaria por:

          -ÇON, NON e UN-A (contemporànea ou talvez melhor ũa medieval)

          Tanto por história quanto por tradição… Não tem sentido nisso romper com a tradição para total não chegar a porto…ou?

          Mas pessoalmente acho que já não é possível qualquer consenso. Entre outras cousas porque a norma AGAL perde peso social e a ILG leva já décadas de uso.

          E o português da Galiza, não conta nem entra neste jogo, está noutra onda. Dado que é português, nem precisa convergir… e nem faz sombra, nem questiona as soluções do e esquema ILG… simplesmente concorre com ele…

        • Venâncio

          Caro Paulo,

          Como sei que não és de essencialismos, nem de historicismos, nem de fixações identitárias, acho-te a pessoa certa para me satisfazeres (caso queiras) duas curiosidades que carrego, pesadíssimas, há 30 anos.

          1.
          Qual é materialmente o cenário linguístico para a Galiza que o reintegracionismo se propõe?

          2.
          Quais são os meios concretos de que o reintegracionismo pensa poder servir-se para isso?

          Como se dizia até há 200 anos (até à invenção da fórmula “obrigado”): beijo-vos as mãos.

          Fernando

          • Ernesto Vazquez Souza

            A ver… que me aclare…

            Ao Elias enredao-o com a norma do Brasileiro quando ele fala justamente de estratégia política, de cenários possíveis, e meios e de fazer uma política audaz.

            A mim dá-me a brasa com parvadinhas de morfemas e adequações fonéticas e irrita-se-me tudo porque falo em história política e em história política da norma…

            E ao Paulo… um professor universitário que se dedica a contar palavras, lemas e frequências de uso com computadores… exige-lhe respostas a respeito de estratégias materiais e meios concretos?

            A que joga? a tolear-nos?

            Definitivamente… acho que está aborrecido na casa e passa de medo por estas partes…

          • Venâncio

            Tens imensa graça, Ernesto.

            Que perguntas vos fariam linguistas portugueses e outros, se acaso vos fizessem perguntas e por vós se interessassem, que não fossem perguntas sobre o que não sabem a vosso respeito?

            Os linguistas, sobretudo se históricos, percebem muito pouco de estratégias e de meios. Por isso, sempre vos perguntariam a esse respeito. Não para vos tramar o juízo, mas para perceberem um pouco melhor este enigmático mundo.

            Deixo-te uma confissão. Nos 30 anos que levo de contacto com reintegracionistas galegos, alguns deles muito amigos, nunca, nunca jamais, me fizeram pergunta alguma. Nem sobre o português, nem sobre Portugal, nem sobre a nossa história, nem sobre a vossa história connosco.

            Nunca tendes nada a perguntar. Não estais interessados em nada que não seja passar a “vossa” mensagem.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Bom… eu ando com um projeto aí na cabeça ultimamente… talvez precisasse da sua ajuda ou de algum que outro historiador português… e constrastar a respeito de muotos episódios e de muitas referencias que precisaria de comprovar…

            Mágoa que perdamos o tempo por cá enchendo-nos mutuamente as bolas…

          • Venâncio

            Ernesto, sabes que admiro muito a tua visão histórica, e que não me esqueço da tua disponibilidade para projectos comuns.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Isto é fechar com proveito. 😉

            Isso é o importante… a gente vai falando… e perguntando…

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Tenho que e quero denunciar a prática sistemática de “bullying” (na sua variedade de “ignorar outrem”) que o senhor Ernesto Vazquez Souza vem fazendo ao meu respeito. Onde quer que eu coloque um comentário criticando os seus comentários ele apaga o comentário próprio e a seguido coloca-o noutro lugar. Ao mesmo tempo ele continua a discussom cos outros interlocutores do fio em questom, a aproveitando o certo “prestígio” que entre eles tem consegue apagar ou botar dessa discussom as minhas achegas.

            E porque? Pois porque eu questiono e critico as suas reflexões e o seu discurso, nomeadamente na sua crítica da norma original AGAL. Este senhor já tivera feito o mesmo noutros foros, como o facebook.

            Se quadra este senhor deveria questionar-se a conveniência de empregar ele mesmo as mesmas tácticas podres que os isolacionistas e outros ruins indivíduos tenhem empregado cos reintegracionistas e outros movimentos contestatários.

          • Carlos

            xDDD obrigado polo reconhecimento! É sempre um prazer aprender contigo.

            Deves saber que para mim fás parte, juntamente com o Hélder Guégués, de umha dupla incontornável: sodes únicos no exercício de escalpelar o idioma!
            É bom contar convosco a sul do Minho.
            Abraços!

          • Venâncio

            Carlos,

            Sim, Hélder Guégués é um monumento.

            https://linguagista.blogs.sapo.pt/

          • Carlos

            É um fora de série.
            O blogue dele vai completar umha década em breve e aí continua, em pleno rendimento, oferecendo, dia após dia, lúcidos e engenhosos comentários.
            Insubstituível.

          • Paulo Gamalho

            Respondo brevemente, como Paulo reintegrata, e nom em nome do reintegracionismo.
            Cenário material: fico contente com que a minha filha e o resto de crianças aprendam na escola o galego escrevendo com ç, nh, lh, â, etc.

            Meios concretos: activismo e teimosia (nom temos outra alternativa)
            Abraço

          • Venâncio

            Paulo,

            Uma pessoa não quer, nem pode, acreditar.

            40 anos de propostas reintegracionistas, de luta, de publicações, de congressos, de expectativas, de alvoroço…

            E para quê? Para que algo que não sabemos o que é, porque jamais no-lo definiram, passe a ser grafado «com ç, nh, lh, â, etc».

            Eu pensava que o Reintegracionismo galego conduziria a algo mais, e bem melhor.

            Mas, eis, a montanha pariu um ratinho, um bibelô, uns penduricalhos que até o mais primário dos programas do amigo Pichel saberia pintalgar em 10 segundos.

            Que desconsolo, que penúria. Que tempo que eu andei aqui perdendo.

          • Paulo Gamalho

            Precisamente, dado que existe uma funçom estupidamente simples que toma ‘pt’ com argumento e devolve gl, é possível fazer um programinha estúpido de transliteraçom como este que figem aqui (e em código aberto). E dado que esta transliteraçom é assim tam estupidamente simples, o debate reintegrata é tamém uma parvada linguística. E como é uma parvada linguística, só é, em realidade, um debate político. E aqui seguimos e seguiremos, com ou sem Venâncio.
            Um abraço

          • Venâncio

            Meus caros Joám e Paulo,

            O que me desconsola é ver que os anos passam, e o Reintegracionismo galego se mostra incapaz de formular materialmente (insisto nisso) uma proposta coerente, científica, apresentável, atraente para a sociedade a que a destinais.

            Freixeiro Mato fê-lo no seu Galego de calidade. Mostrou propostas, soluções, problemas.

            Para vós, tudo indica não haver, linguisticamente, “problema” nenhum. Mas é claro. Onde não existem propostas linguísticas concretas, coerentes, ponderadas, não existem “problemas” também.

            Paulo: uma vez abandonada a Norma Agal (que era também uma norma “gramatical”), nunca mais fostes capazes de dizer (a vós próprios em primeiro lugar) aquilo que afinal quereis. Acredita: a tua resposta chatamente “ortográfica” (e ortográfica de quê?) roubou-me a última das ilusões.

          • Joám Lopes Facal

            Caro professor, que oportuna a alusom ao meu admirado Freixeiro Mato, o mesmo que afirma no seu livro Lingua de calidade, que coincide com Rafael Dieste em que “canto mais galego for o galego mais se parecerá ao português” (pag. 154), que a “identidade fundamental entre as variantes linguísticas galego-portuguesas” conduzirá a umha maior aproximaçom mesmo ortográfica (pag. 154), chegando a augurar para dentro de quinze ou vinte anos a possibilidade de umha reforma normativa capaz de reintegrar o galego no seu ámbito próprio incluída a ortografia (pag. 156).
            Será por estes seus devaneios heterodoxos e pola sua acendrada ética nacional galega polo que o nosso melhor gramático é um ponto cego, umha sombra invisível para a RAG?

          • Ernesto Vazquez Souza

            Não homem… o Freixeiro não está na RAG pelo mesmo motivo que não estão lá: Garcia Negro, Paco Rodríguez e tanta outra gente com méritos sobrados na órbita: ANT-ASPG-MESA-BNG…

            E estar, não está aí… mas bem que está, como bem guiadinho que é, noutros sítios regalados para os que escreve a mandado e a mandado teoriza… sítios nos que outros também não podem entrar…

            não sei m’intendes…

            E, por outra banda… ele como tantos outros são como os ourives, ou miniadores medievais. Outro Senhor “pagasse”, outro trabalho faziam…

            A ver se deixamos de confundir alhos com bugalhos… a realidade política-social-academica institucional galega é sórdida, miserável e brutal… (Fernado pode não terminar de compreender e acreditar… que é de fora…. mas tu Joam conheces de sobra…)

            Tens de fazer parte de um grupo ou clã para ter caminho e tens de saber baixar as orelhas perante os amos ou o Partido quando cumpre.. nela não há qualquer perspetiva de futuro, qualquer aposta generosa ou a mínima valorização da erudição, da inteligência ou da ciência…

          • Joám Lopes Facal

            Ernesto, nom é bom deixar-se levar por filias e fobias tribais para julgar o valor intelectual e moral de qualquer um. O mesquinho código binário [amigo ↔ adversário] cedesmos-lho de bom grado a polemistas da ágora política ou religiosa, nom é?
            O meu apreço pola obra de Freixeiro é imune a este tipo de juízos. Na república das letras e o pensamento som partidário do livre exame.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Nisso a vontade, meu… se pudéssemos ser civilizados… eu também seria… até cortês…

            Eu não digo que não aprecie os trabalhos, as gramáticas, os artigos, as talhas e as filigranas, nem dele, nem doutras gentes, como as do Monteagudo e de tantos outros artistas e técnicos que andam na RAG, no ILG, no Conselho, no MPG, na ASPG, nas universidades, nas editoras ou nas escolas de idioma…

            o que digo é que outros colares e outros amos… e os cães ladrariam doutro jeito, defenderiam outras casas e ameaçariam outras gentes… e fariam igual de bem… como os artistas, os técnicos que fabricam as bombas ou os linguistas…

          • Venâncio

            Paulo,

            Sujeitei ao teu programa o primeiro parágrafo de Ernestina, romance de José Rentes de Carvalho, que acaba de fazer 90 anos. Eis o resultado.

            Texto original em português:

            Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio de 1930. E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar conscientemente a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.

            Texto transliterado:

            Deuxen criou o mundo en Vila Nova de Gaia, nunha tarde quente de Maio de 1930. E eu, cando uns catro anos despois comecei a observar conscientemente a Súa criación, non o fixen como sería de esperar, apenas cos ollos que el me tiña dado á nascenza, pero quase exclusivamente através dun binóculo.

            Comento eu:

            “Deus” foi visto, parece, como uma forma verbal.

            Aparecem “conScientemente”, “apenas” e “pero”, quando se esperaria “concientemente”, “só” e (penso eu) “senón”.

            *

            Vou-te contar uma história verídica.

            Há uns tempos, um conhecido e dinâmico reintegracionista convidou-me (pagando) a “rever” um volumoso livro galego de ensaio (!) que fora traduzido para português com a maquinaria do Pichel. Iniciei a labuta e ao fim de meia-dúzia de páginas tivemos de parar. Ele ficaria na bancarrota e eu finalmente rico.

            Ai, amigo, o que a teima da Ortografia vos põe a “tolear”!

          • Venâncio

            P.S.

            A propósito do segmento â dos filhos do Paulo Gamalho:

            Eu adoraria que ele me esclarecesse sobre a diferença, seja ela qual for, em Galego, entre á e â.

            Fico grato.

          • Ernesto Vazquez Souza

            pois com o â passa com com o -“ão”… vêm de fábrica no pacote que está a venda…

            Tratar de retirar para deixar um produto aquelado… exige um esforço e um trabalho, que carambas… para além de que retirando… depois o produto não val para o português…

          • Ernesto Vazquez Souza

            Fernando… não é um programa a sério… XD… mas a pouco que o trabalhasse…

            Mas isso… é como em qualquer indústria… os processos mais bastos fazem as máquinas… mas quando se quer dar um toque cuidado, seja a um volante forrado em coiro, seja um forjado, seja um tapizado num sofá, uma encadernação, uma marchetaria, ou um lacado a um móvel, tem de ir um operário muito especializado, um artesão a dar esse acabado que marca a diferença…

            esse artesão e esse trabalho, logicamente valem o que custam… e também marcam a diferença entre um produto de consumo e uma peça de qualidade que fica para gerações…

          • Paulo Gamalho

            Obrigado, Fernando! Corrigim o erro de ‘Deus’. É código de 2004, feito a partir duma brincadeira de Berto Garcia. Ocupa 40 Kbytes (é dizer, tem tanta informação como um ficheiro word qualquer), frente aos gigas e teras de dados que precisam os tradutores actuais.

            Por se quiseres ter o Celga 4 de galego, aqui vão algumas correcções sobre as tuas correcções: conScientemente”, “apenas” e “pero” son palavras correctas em galego RAG, e havia no texto transliterado outros erros não admitidos pola RAG nos que nom reparaste: criación (creación), através (a través), nascenza (nacenza). Já os corregim também no código, que precisa de mais uma semaninha de trabalho (é mais brincadeira que pesquisa séria). Não duvides em utilizá-lo e enviar-me os erros que encontrares. Obrigado mais uma vez 😉

          • Joám Lopes Facal

            Caro Venâncio, e-ele nom virá esse sentimento de desconsolo de um défice de compreenssom –de afecto– ante amargura de umha geraçom que assiste impotente ao apagamento do seu idioma e ao desdém que comprova pola via que podia potenciá-lo?

          • Venâncio

            P.S.

            A propósito do segmento â dos filhos do Paulo Gamalho:

            Eu adoraria que ele me esclarecesse sobre a diferença, seja ela qual for, em Galego, entre á e â.

            Fico grato.

  • Venâncio

    INFORMAÇÃO

    O meu amigo Xavier André, ultimamente activo aqui como “conavirus”, foi pela enésima vez expulso do PGL.

    Xavier é um galego vivendo na Grã-Bretanha, imenso conhecedor e cultor do seu idioma, escrevendo-o na modalidade “reintegracionista” tradicional. É um homem humilde, modesto (não nos conhecemos pessoalmente, mas é a firme imagem que dá), exprimindo-se num galego de grande genuinidade (conheço gravações suas). Mostra uma natureza rude, brigona, mas tudo indica que isso nasce dum amor desconsolado do seu país e da sua língua.

    Penso que quem o expulsou daqui, ou quem forçou a sua expulsão, ignorava tudo isto. Fica a informação.

    • Joám Lopes Facal

      Nom o podo crer! Mais além das extravagantes fantasias conspiratórias de Conavirus, que talvez podam agradar aos afins, como é possível cair em semelhantes práticas inquisitoriais inapeláveis num modesto cenáculo como AGAL obrigado a exercer a tolerância que a ela lhe foi negada desde a origem?
      Caso de se confirmar tam estúpida sentença — nego-me a crê-lo– solicito réplica pública do condenado e justificaçom convincente do virtuoso fiscal.
      Deploraria que o desenlace de tam desolador assunto seja deitar terra sobre um juízo unilateral e secreto.
      ¡Entre que gentes estamos! ¡En que cidade vivemos! ¡Que república temos! (Cicero, 1ª Catilinária)

      • Venâncio

        Sim, caro Joám.

        Também lamento que um bom espírito, como o de Xavier André, tenha encontrado uma forma de exprimir o seu desencanto divulgando uma teoria conspiratória perfeitamente delirante sobre o Covid-19.

        Mas constato que não é a única pessoa que eu presumia sensata a ter abraçado essa leitura da realidade.

    • Venâncio

      Transcrevo o texto que o Xavier André (pseud. “conavirus”) me pede que difunda. Faço-o por amizade, não porque adira ao pensamento dele. É o primeiro e será o último texto deste jaez que publico.

      Como já escrevi aqui, o ponto fraco das TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO UNIVERSAL é que eles supõem a colaboração e o silêncio de milhares e milhares de pessoas responsáveis, que ajudariam a transtornar-nos, e até a matar-nos, com a sua acção ou a sua inacção.

      É uma suposição louca, paralela à da platitude da Terra e à “mentira” da exploração lunar. Só que, no caso atinente, são a nossa saúde e a nossa vida que estão em jogo.

      Fernando Venâncio

      *

      TEXTO ENVIADO POR X. A.

      “Se o meu banimento [do PGL] for por mor das minhas achegas referentes ao IMPORTANTÍSSIMO caso da FALSA pandemia e ALEIVOSO crime contra a humanidade, chamado Covid19, nom vou culpar ninguém. E explico:

      Por enquanto este PGL é o único foro que permitiu a crítica aberta ao CRIME ARGALHEIRO (focinheiras, confinamentos, etc) em aprezo. O Praza baniu-me. O Sermos nom permite os meus comentários, ou mui raramente, o Galicia Confidencial o mesmo. Dos jornais portugueses (digo «jornais» num senso cómico) melhor nem falar. No Reino Unido os mídia som órgãos de propaganda, desde que o The Guardian e o The Independent ou a BBC se juntárom aos colegas de endoctrinaçom. Na França, cujos mídia sigo acotio, é a mesma história. Nos EEUU, na Itália tamém. Na Espanha suponho que será a mesma história.

      Só ultimamente certas figuras que denunciam a argalhada começam a ser ouvidas nos MSM: Toussaint, Perrone e Tabira na França, várias persoas públicas e cientistas no Reino Unido e nos EEUU. Ver The Barrington Declaration, por exemplo.

      Existe um «bullying» institucional contra quem denunciar este CRIME VIL CONTRA A HUMANIDADE. Muitas persoas e instituições, mesmo eu, estamos sendo coagidos e forçados, contra a nossa vontade, a achantar perante este crime imundo de encurralamento e enfraquecimento da humanidade.

      Consultar estas ligações pràs provas das minhas acusações:
      https://descochandoargalhadas.blogspot.com/
      https://swprs.org/fatos-sobre-covid-19/

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Parabéns, Elias, por passares a representar na forma comum as palavras comuns da língua comum: “não, são, irmão, lições”… Se me permites, porém, acho que che falta reconhecer que “uma” e “umha” também são a mesma palavra, e que verdadeiramente esse “mh” é supérfluo. A representação abstrata de “uma” é /u + Nasalidade + a/ . A representação abstrata de “não” é /n/ + /Vogal-posterior-semi-fechada/ + /Nasalidade/ . Por isso muitos galegos dizem não-no, ou nono. Seguro que tu o dizes também, mesmo escrevendo “não”.

    De resto, casualmente eu também escrevo normalmente o meu galego como tu: “escrevim” (nasalação), alterno entre “figem” e “fiz”, digo “veria-se” (não “ver-se-ia”…). Acho que o debate sobre o papel do galego é o debate sobre o papel destas formas, não sobre o papel das letrinhas -om, -mh- . E sendo tão heterodoxo e mal escritor, até pertenço a uma supostamente dogmática mas simplesmente modesta Academia (Galega da Língua Portuguesa) que, a propósito, esqueces mencionar na tua longa história.

    A respeito do inteiro e longuíssimo debate deste artigo, eu gocei com O Feitiço do Tempo, isto é Groundhog Day, Atrapado en el tiempo ou El día de la marmota. Vim o filme várias vezes. Vim o filme várias vezes. Vim o filme várias vezes. A respeito do inteiro e longuíssimo debate.

    Por razões de obras numa casinha que tenho, levo meses utilizando Whatsapps com trabalhadores muito afastados deste O Feitiço do Tempo. São um setor social que, decadás atrás, não utilizariam a língua escrita para os seus contatos e transações, mas agora as “redes” e whatsapp nos telemóveis são universais. E estas trocas mostram cousas que xs sissudxs linguistas não sabem. Eu utilizo sempre este mal galego nestes whatsapps, com: o alvanel, o pintor, o fontaneiro, o eletricista, outro alvanel, o das portas e madeiras, o ferreiro, o outro eletricista, o dos “canalões”. Talvez esqueça algum. Absolutamente todos eles falam sempre galego comigo. Todos. Alguns deles são quase da minha idade (61): não tiveram Galego no sistema educativo. Alguns, mais jovens, sim. Absolutamente nenhum deles afirmou nunca não compreender o que eu escrevia. Absolutamente nenhum deles comentou jamais “isso não é galego, é português”. Maioritariamente, as nossas trocas são binormativistas: eu escrevo nesta norma, eles numa escrita de base espanhola tendente à fonémica (“bou”, “y a beces”, etc.). Falando sobre as trajetórias vitais, a educação, etc., algum só me comentou alguma vez: “Claro, ti escrives tão bem, culto, eu não o estudiei na escola”, ou que escrevo “um pouco complicado”. A ideia que a ortografia portuguesa conjura é “cultura”, ou “rigor”, “seriedade”. Esse é o “binormativismo” real que tenho encontrado.

    Só uma vez uma pessoa (perguntando, com estranheza) me disse que as minhas mensagens de correio eram “português, não?, não galego”: uma trabalhadora dum Concelho, isto é, uma pessoa que tem exposição à língua escrita. Expliquei o do reintegracionismo.

    Por outras palavras: Só as pessoas que tiveram contato regular e/ou conhecem o galego-RAG ou o utilizam profissionalmente pensam que o português escrito não é galego. Ninguém mais pode imaginar que uma pessoa que fala com eles e diz, por exemplo, “A ver que solucião tês”, quando escreve “Que solução tens?” não está a escrever as mesmas palavras orais que disse antes. Ninguém o imagina, porque seria de tolos.

    Essa é a realidade das relações entre escrita e fala, aqui na Galiza, no Brasil e em Turquia. A fala das palavras comuns da língua comum precede à escrita, e portanto a escrita comum representa as formas abstratas comuns das palavras comuns. A escrita comum não é imprescindível para viver, nem cognitivamente necessária, mas seria socialmente importante em tempos de perda linguística acelerada. O resto dos detalhes são profundas e circulares masturbações mentais dos (sobretudo os) linguistas.

    • Ernesto Vazquez Souza

      O episódio e debate realmente é de Groundhog Day.

      Na realidade a novidade é apenas o próprio Elias destacando que está a atravessar a Câmara à la Churchill, para ir sentar noutro grupo… se não diz que agora usa -ção propositadamente… nem nos teríamos dado de conta… XD

      O artigo tem mais a ver com a sua biografia, por mais que acompanhem notas e comentários sempre interessantes, o que é normal nele, sempre brilhante… que com qualquer mudança no debate e nos pesos de grupo, que na realidade estão a se estabelecer sem estridências entre a gente mais nova e a cada vez mais nesses espaços – como tu exemplificas – da normalidade laboral, consumo, internet de negócio e whatsapp comercial…

      Essa é a verdadeira mudança… a gente, aquele povo que não estava nunca preparado dos mitos galeguistas, começando a flipar porque alguém lhe vem com o conto ou porque se decata que pode colocar os telefones e computadores, o google, os carros, baixar manuais ou ver videos práticos de youtube em português, se lhe peta… que pode comprar material de construção, móveis e equipamento em Portugal via internet… etc…

      Enfim, qualquer dia até nas portas da Citroën vemos alguém repartindo panfletos sindicais em lusista fechado e nada se passa. XD

      • Elias Torres

        Bom dia, Celso. Obrigado pola atenção. E agradeço muito a tua análise e críticas a partir do artigo. Certamente, não pretendim fazer umha história do reintegracionismo e das soluções propostas mas, como mui bem indicas, apoiar-me na minha própria trajetória e sensações para comentar algumhas lógicas e introduzir alguns aspetos propositivos, que são formulados de modo a submeter a quem estiver [email protected] na procura de espaços de consenso sólidos (com todas as opções), mesmo desde as diferenças. Por isso, insisto em sugerir a leitura do artigo anterior de vivacerzeda, que pretende iluminar algumhas das propostas e que, nesse blogue, antecedia este que aqui foi publicado…: https://vivacerzeda.com/norma-linguistica-e-afetividade-identitaria-identidade-afetivizada/ [dentro disso, está a manutenção de (-)umha não apenas por representar assim umha forma, bem inserida no nosso património mas sobretudo polo seu caráter representativo e simbólico: é umha proposta cultural, como a nasalidade dos pretéritos]; e agora acrescento unir a este comentário um que realizei a conavirus (a quem acho não conheço) e que reproduzo num seguinte comentário. E, por isso, agradeço poder debater sem estridências, além das próprias da audácia expressiva não lesiva, e sem andar à procura de graças por render culto a alguém ou manifestar-se contundente com um alegado inimigo de quem se está perto, se bem se vê (poupando dar o debate noutros âmbitos em que são silenciados ou silentes). Sugiro entender lógicas e pontos de partida para chegarmos a consensos construtivos e praticar algumha cortesia.
        De resto, acrescento que se o meu texto fosse arar fazer história rigorosa, não há dúvida que deveria ter referido a AGLP, com quem muitas cousas me unem, nutrida por pessoas a quem respeito, quero e admiro e que sempre gentilmente se comportou comigo..
        E, certamente também, tenho a mesma experiência que a que narras; uso em whatsapp e e-correios sempre a norma em que aqui escrevo e verifico que, quanta mais distância de pretenso conhecimento linguístico maior afetividade e normalidade, incluindo [email protected] da infância que indicam gostar (e, também, alguns, dizer que o tenhem que ler duas vezes ) desse galego que tu escreves). Por isso, acho mui valiosa a tua reflexão sobre o asssunto e haveria que explorá-la num bom trabalho de campo que, como em tantos casos, não temos nem se querem ter: muito informaria, muito.

        • Elias Torres

          (desculpa, Ernesto, que já baralhei tudo e parte do comentado ao Celso teria que ir para ti mas pensei que era umha segunda intervenção dele: imperícias…)
          Sei. E concordo. Por exemplo , à questão da fraseologia refiro-me explicitamente no artigo que pedim que se lesse e que o mesmo Ernesto [aproveito: umha das pessoas com análises mais lúcidas e produtivas da história e realidade cultural da Galiza; acho sempre bom salientar cousas positivas] recomendou fazer para entender melhor o sentido da minha proposta. Publiquei isto nesse blogue e, como acontecera com outros textos meus anteriores, fica ao dispor do pgl se for, como parece ocaso, do seu interesse.

          Ora, com este artigo, ocorre como com O Capital de Marx (salve-se a distância,obviamente): se na prateleira está um exemplar na seção de Economia, é lido como um livro de Economia, se de Sociologia, como de Sociologia, se na dePolítica, na de Filosofia, etc…, e não parece haver forma humana de que seja lido em conjunto, como umha proposta inclusiva; culpa minha. Aqui, em muitos momentos, tudo é om ão que, reitero, me serve para expor dúvidas e que é utilizado como tática de ponte para a gente galega que o ler, sem saber se, no fio dos acontecimentos,será estrutural ou não; achegamento, que quer publicar que, mesmo aquilo que nos resulta mais distante, ao menos a mim, ão, está também no nosso conjunto de possibilidades e pode vir a fazer parte nossa, dum modo ou doutro (já agora, aproveito para indicar que, se calhar, num quadro como o galego, é visto com maior hostilidade om que ão em muitas receções).
          Acho que não por isso o Galego morrerá em braços alheios; se assim for ou se demonstrar, a proposta fica devaluada. Levo tempo invocando, e insisto, agora,que temos que abrir um espaço de consenso, no âmbito reintegracionista, paraquem a ele se desejar unir, no sentido de, no âmbito gramatical e léxico-semântico, fazer um inventário de formas galegas comuns a manter e a privilegiar (se alguém ler a essa luz o meu texto, verá algumhas propostas). Questão de património e utilidade. O consenso passa por sentar-se com vontade de acordo eabrir um leque de possibilidades convergente. Nesse leque, já o tenho dito, eu sinto-me mais à vontade com a Norma histórica da AGAL que, entendo, não deve preterir-se; e entendo, também, que urge dar passos e sentirmo-nos parte dumc ontinuum, porque o galego está desaparecendo.E já o tenho dito também: acho que a AGAL deve investir dinheiro num bom trabalho de campo na Galiza com perguntas-chave para saber o que a gente pensa ou para que se poderá disponibilizar, em termos de língua, reintegração ,etc.: sem dados não há estratégia. É preciso, igualmente, entender que pode haver espaços de encontro com outras opções, que eu acho também legítimas, “apesar”. E entender, igualmente, que isto é questão de poder, político, simbólico, social, económico (oxalá só fosse linguístico!), não de quem tem razão. E que, a história dos últimos quarenta anos monstrou-no, tudo conduz a estabelecer um espaço de soberania reintegracionista, investindo tempo, energia e esforços, para contribuir para que o galego não desapareça e poda reintegrar-se. Sem esperar por ninguém e nada doutros lados…
          Quero, agora e já agora, subir um pouco o tom, ao fio disto: eu, como muitas outras pessoas, levamos muito tempo, enganadamente ou não, tentando arquitetar espaços de promoção do galego. No meu caso, 40 dos meus 56 anos. Nessa promoção, trabalhamos, conscientemente, para o inglês… para um benefício de que não iríamos beneficiar, nos termos materiais e simbólicos. Conscientemente, investimos energias e tempo e perdemos dinheiro e de ganhar dinheiro (sem rubor,no meu caso, como será de outras pessoas, miles e miles de euros e muito capital). É consciente, repito, para que ninguém argua vitimismo onde pretendo explicar lógicas (esse capital, em relação ao meu trabalho tenho-o mais fora que dentro da Galiza, como o Fernando tem generosamente indicado mais dumha vez, o que lhe agradeço). Aquele “apesar” quer esclarecer o esforço consciente de tentar avançar e procurar caminhos, apesar da repressão e da preterição, e da impostura; impostura! (o mesmo aconteceu e acontece noutros campos, incluindo o político; mas é gritante no cultural)
          p.s1.: Fernando, para os teus “nos” o Camilo é bem produtivo. p.s.2: Eu coloquei-che (mesmo aqui!) e coloco-che perguntas, para contrastar, saber, aprender. Tu, em troca, só perguntas retóricas, para justificar as tuas posições. Talvez convinha revisares isso com algumha humildade, dito com a melhor vontade. Tens o meu abraço.
          (os meus sinceros pêsames ao Joám polo falecimento da Paz e o meu melhor abraço)

          • Ernesto Vazquez Souza

            Obrigado pela parte que me toca… São muito interessantes estes comentários teus. Há sim imensa cousa prática e possível que se poderia fazer, a questão é ir fazendo… e já muito se fez.

            Para mim, na distância, é um prazer poder acompanhar tantas e tão boas ideias e palavras, de tanta gente, por tantos anos… ver tantas cousas como as que se vão fazendo, tentando, ensaiando, imaginando… mesmo que seja em espaços tão marginais e efêmeros como estes comentários soltos no PGL.

            Saúde,

        • Celso Alvarez Cáccamo

          Olá Elias, obrigado pola resposta. É inusual que nos foros internéticos galegos um articulista de renome responda os comentários dxs leitores/as de a pé.

          Há tanto tanto escrito sobre a questione della lingua, que, sincera e confessadamente, já não o leio. Insisto só na minha teima sobre o erro dxs que mantendes o diferencialismo gráfico “umha”. Quem o leia em espanhol (a imensa maiora dos galegos) vai ler /uma/, igual que como o escrevo eu. Para ler a nasal velar na Galiza, com o sistema de escolarização e alfabetização em espanhol, há que escrever “unha”. Mas quem leia “umha” em português tampouco vai ler a famosa nasal velar: lerá /u-nasal + a/. Só nós, xs reintegracionistas, leremos “umha” com nasal velar (se queremos) porque sabemos o que é. Mas é contraditório que se precise do diferencialismo “mh” para ler a nasal velar, mas que se nos pida que “canção” o leiamos com /o/ + nasal velar.

          Nada há de simbólico e próprio do galego em “mh” porque, que eu saiba, é uma invenção recente nada produtiva. Eu acho bastante mais efetivo e coerente o abraçar a ortografia portuguesa e já está.

          Outra cousa são os indefinidos com nasalação, “vivim”, porque aí a questão é se a nasalação está na representação fonológica da palavra. As realizações de “uma” são variantes fonéticas, mas entre “vivi” a “vivim” não é fácil explicar o fenómeno (sincrónico) que daria conta das variantes: nasalação da vogal final? Ou dessanalação?

          Dirá-se: então, o caso de “assim”? É diferente. Primeiro, regista-se a nasalação na Galiza. Segundo, é mais fácil ter algo representado na escrita e “não pronunciá-lo” que inseri-lo porque sim. É o mesmo caso de “virgem” ou “jovem” (mas na fala também “virge” ou “jove”).

          Em resumo: o diferencialismo “umha” diz pouquíssimo, e, em co-ocorrência com “canção”, confunde mais do que identifica. Outros diferencialismos são, para mim, os cruciais para debater(mo-los).

          Um abraço!

          • Carlos

            Boa noite, Celso:
            Embora costume usar a norma galega no meu dia a dia e continue a reconhecer-lhe aspetos positivos, concordo com o exposto. De facto, o caso concreto que referes, isto é, a manutençom do dígrafo ˂mh˃ para assinalar a pronúncia nasal velar, é, a meu ver, desnecessária. Som escassas as vezes em que fazemos uso dele. Chegaria com emitirmos a pronúncia certa nesses poucos casos e, deste modo, sermos cientes de que essa pronúncia difere da que corresponde a, por exemplo, puma.
            Relativamente aos casos de “virgem” ou “jovem” a que aludes, isto fijo com que lembrasse um trabalho de H. Monteagudo em que se descrevem as diferentes propostas normativas para o galego. Nele, o autor di que “algunhas das variantes admitidas [na proposta reintegracionista] son simplemente inexistentes en galego actual (viagem)”. Porque é que “viagem” é “inexistente” em galego atual? Aqui se adverte, como em tantas outras ocasions, a mistura/confusom entre a escrita e a fala. O facto de incluirmos esse eme final na escrita nom tem que se traduzir, necessariamente, numha dada realizaçom fonética. Enfim, é o velho debate de sempre…
            Para concluir, o principal pomo de discórdia entre os dous padrons –o lusitano e o galego– reside, para mim, no domínio da morfologia verbal. Ou seja, antes da conveniência de usarmos ou nom o ditongo -ão está, a meu ver, o debate sobre as particularidades que apresentam, na Galiza, certos verbos. No teu texto vejo, por exemplo, pida (peça) e dirá-se (dir-se-á). Qualquer pessoa galega com conhecimentos das outras variedades do idioma pode advertir que “pida” e “dirá-se” som marcas galegas, claro. É evidente que tu as usas sendo conhecedor das suas respetivas formas no padrom lusitano. O problema é que nestes casos sempre me lembro dxs aprendentes galegxs que se encontram numha etapa de aprendizagem e que ainda nom dominam nem tenhem interiorizadas as divergências que existem entre os diferentes padrons: esta “mistura” de escolhas (que, certamente, ultrapassa o ámbito verbal) dá pé a inúmeras dúvidas entre a gente. E, já agora, as divergências nom se limitam às conjugaçons verbais quando isoladas, porquanto aparecem também nos pronomes átonos que vam em posiçom enclítica (figem-no e fi-lo, pujo-o e pô-lo, etc.). Em suma: as dificuldades podem ser importantes para quem está a aprender.
            Enfim, nom pretendo encerrar o debate aqui, que é manifestamente complexo, mas queria deixar esta reflexom.
            Um abraço, Celso. Fica bem!
            Carlos

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Carlos (não sei qual Carlos, mas anyway),
            Bom, a minha posição sempre (longe de pretensos dogmatismos lusitanistas que às vezes se me atribuem) foi que o principal para o galego, agora, é adoptar plenamente a ortografia comum, que é o veículo para sermos (reconhecidos como) parte da lusofonia e da lusografia. Ninguém dirá a um falante dialetal de espanhol, por exemplo, que “asina” em lugar de “así” não é espanhol; mas se o escrevesse “acina” ou “assina” duvidaria de que língua era.

            Por outras palavras: se a Galiza quer reclamar o seu lugar e reconhecimento na lusofonia, a única opção ortográfica viável é assumir plenamente a ortografia portuguesa internacional. Repare-se que “ortografia” não significa aqui como se representa exatamente cada palavra, mas as convenções (convenções) básicas para representarmos palavras abstratas com variadas formas fonéticas. É elementar.

            A partir daí, poderá-se explicar que aqui “canção” soa “cançom”, e que aqui os verbos têm tipicamente essa nasalação final, etc. E poderá discutir-se em que registos se devem representar esses traços e em quais (por acaso) não. Ou poderá reclamar-se que até em registos científicos, supostamente “neutrais” (mas não de classe, nunca, sabemo-lo) as publicações aceitem os galeguismos “vivim”, etc.

            Mas sem essa convergência ortográfica inicial (incluindo a supressão do “mh”), o resto da lusofonia nunca reconhecerá o galego. Será algo assim como “uma outra língua muito semelhante, que utiliza quase a nossa ortografia”, mas não será essa “mesma língua” que até xs (contraditóriox) proponentes do “-om” continuam a proclamar.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Pois… é com o que os venho eu mais ou menos malhando por estas partes…

            é uma estratégia muito concreta e pragmática, e também muito menos custosa em energia tempo e capital, porque pode no mais principal ser desenvolvida individualmente… 😉

            e nem precisa de um Sanhedrin ou de uns notáveis sisudos rompendo a cabeça para desenhar um modelo completo históricista perfeito… vale com o Português atual, bem no ronsel do Acordo, bem optando pelo Brasileiro por tamanho ou pelo Português por proximidade, ou algum africano se no futuro viesse a ser motor… ou por simpatia, conhecimento com algum dos sistemas ou numa mistura (um modo de AO caseiro e galego) -lá eles com os seus jogos de normas e nacionalismos pacatos…

            Na realidade apenas precisamos de uma série de acordos morfológicos (basicamente na conjugação verbal), que mesmo podem se tratar como variantes comuns de uso local e de recolha de léxico…

          • Elias Torres

            Obrigado, Celso. Cousa de ver e falar. O simbolismo não é mh em si; é a representação da velar.
            De todos os modos, volto ao meu rego: acordo sobre inventário de formas, seja qual for a opção dentro do universo reintegracionista, se possível. E, como indiquei, na morfologia verbal é onde encontro um conjunto a preservar. As soluções, penso eu, tenhem que tender umha ponte, audaz e decidida, que poda ser caminhada desde um lado, as pessoas na Galiza que entendam ser este o caminho, e o outro, o dos outros mundos da língua comum. Cito Novoneira, em versos ao utro propósito (sem entrarmos, plis, na qualidade linguística), com um abraço: “seica somos pra esto e señámolo pois
            mais sin tender pontes en demasía longas
            unha ponte ha chegar xusto dunha beira autra na que se reconoza a cara dun home”