Silêncio



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Ivan Suarez, ilustraçom da BD Carvalho Calero coraçom de Terra.

Falar do silêncio sempre foi um tema complexo, pois dentro dos diferentes tipos há várias categorias. O silêncio pode ser concessivo ou ofensivo, prudente ou inecessário, sábio ou perigoso, mas em qualquer caso gera uma incerteza transitória. Quando alguém cala algo, nunca sabemos o que pensa e a sua opinião não contribui nada de nada ao ser de todos desconhecida. Contudo, “ Sean tus palabras mejores que tu silencio; de lo contrario , calla.” dizia Dionísio o Velho, porque as palavras imprópias, levantam muros de separação, barreiras para a convivência e contingências dentro de instituições de reconhecido prestígio. Neste caso quisera referir-me ao anúncio que faz a RAG (Real Academia Galega) de não prolongar a candidatura de Carvalho Calero um ano mais. Depois dum silêncio suspeitoso, as piores previsões fizeram-se realidade. Alguém poderia pensar que Carvalho Calero teve má sorte durante a sua vida, e que agora seguirá sendo um grande desconhecido entre os galegos. Penso que apesar de toda esta pandemia, que também paralizou o mundo das Letras Galegas, não pôde vencer ao homenageado do 2020. A poesia do autor foi musicada por alguns compositores sérios. A banda desenhada com a sua biografia foi tudo um marco e os esforços por dar a conhecer a sua obra tiveram muito êxito. As publicações não faltaram e as palestras e exposições estão em marcha. Faltou-nos restaurar o valor social que lhe faltava a Carvalho Calero, mas as suas teses galegas floresceram em Portugal; como defensor de que galego e português, são a mesma língua. Em resumo, o silêncio de o privar doutro ano de festejos e homenagens, é um erro. E ainda estão a tempo de retificar.

silencioHá outros silêncios de atualidade, que batem forte nos nossos ouvidos. Na nossa cidade há  alguns que já estão a preparar o famoso bono dos 50 € para hotelaria, com a finalidade de lho vender ao vezinho por 20 €. Pois o que não tem custo não se aprecia. O que sim se percebe é a improvisação do microgoverno local com os hoteleiros (que também estão divididos entre eles), pois a ordenança de terraças segue vivendo um silêncio administrativo intolerável. Fizeram algo assim com os livreiros e cada setor tem as suas características específicas. Pensam que de noite, todos os gatos são pardos e seguiremos numa “longa noite de pedra, sine die”. Um silêncio parecido às reuniões no Liceu dos partidos da oposição, que falam e falam guardando o que não pode ver a luz pública; isto é, as divisões que os une e a caducidade das ideologias que algum deles descreve e define. Mas o silêncio de maior interesse é aquele que acontece para não incomodar. Calar de amor. Se amamos, não somos quem de dizer palavras que possam ferir ou atacar a ninguém.  Esse silêncio outorga sempre a capacidade de criar uns níveis de confiança muito altos e chegaremos a transmitir esses mesmos valores, a aqueles que se relacionem connosco.

O silêncio também forma parte da música. Há momentos em que esse silêncio chega a encher todo o espaço sonoro que tanto nos agrada. Lembro a III Parte, cena IV, movimento nº 54 do oratório de Haendel intitulado “ O Mesias”, é o silêncio anterior ao amém final. Além de alongar o silêncio com um caldeirão, rompe o compasso e finaliza num adágio formando o acorde de Re maior completo, na sua primeira inversão. Inolvidável. Contudo não imagino despedir este relato sem dizer nada ou sem suscitar um debate pessoal. O silêncio sempre ocupa um espaço: um lugar na escrita, um tempo na música, uma cor na pintura, um equilíbrio na dança e no pior dos casos, uma ausência na comunicação, uma relação rota, uma amizade perdida num tempo que não voltará. Se agora, nestes tempos nos que nos podemos relacionar pouco, queremos escutar-nos a nós mesmos, é provável que botemos em falha a opinião dos demais. E isso será um bom sintoma de que transitamos por caminhos plurais, considerando e respeitando os demais.

José Luís Fernández Carnicero
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