UM QUEIPO NO LAR

O ano de Carvalho Calero



Tenho que reconhecer que me sinto contenta por contemplar a força com que começa o ano de Dom Ricardo.

Não é para menos. Indiscutivelmente foi a grande figura das letras galegas do século XX. A sua honestidade , quer intelectual, quer material deixa um ronsel de cultura e de orgulho para quem nascemos nesta Terra, quem a queremos e quem cremos que é uma Terra tão digna como  outra terra qualquer, com uma história, e uma cultura notável e merecedora de  ser conhecida, acarinhada e divulgada.

Vem a memoria a poesia de Alvaro de Campos ( Fernado Pessoa) que toma força outra-volta neste caso:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…

Porque Dom Ricardo , desde sua “aldeia” desde a sua imposta reclusão,superou todas as barreiras,todas as traves que a vida lhe foi impondo. Brilhante estudante na Universidade foi coo-fundador do partido Galeguista e um dos redatores do primeiro Estatuto de Autonomia. Ele mesmo tem confessado que ele só tinha um partido o Partido Galeguista que nunca deixaria de ser daquele que nunca seria de outro. Isto escutei-lho eu, a caminho do aeroporto de Santiago. Íamos para Barcelona para participarmos do I Encontro de Movimentos de Renovação Pedágogica (1983). Este magno evento organizado por Marta Mata (Rosa Sensat, Escolas d’Estiu,) e o Ministro Maravall, deu-nos a oportunidade de um convívio naquela cidade, por mais de uma semana onde tivemos a oportunidade de ver a um Dom Ricardo distendido, alegre, profundo e altamente considerado polos organizadores do evento,pois em Catalunya já sabiam da grande figura que ele representava. Ali, em Barcelona, fizerámos-lhe uma homenagem por parte dos/as galegas assistentes ao Congresso, que se celebrou no Restaurante Can Cullereta.

A sua vida foi uma continua luta. Mas uma luta superada. Não digo eu que isenta de sofrimento, pois há que ter muita força interior para sobreviver na batalha permanente de por o rigor por cima da superficialidade, o compromisso por cima das conveniências a honestidade por cima das lisonjas que tantas vezes lhe foram oferecidas.

Mas ele nos mostra como a ração vence a estultícia, quando está bem fundamentada. A ciência ao serviço da nação diz Pilar Garcia-Negro, O Cativeiro de Fingoi diz Ramon Reimundez, Dom Ricardo de Fingoi (de Lugo) diz Xulio Xiz a frente do colectivo Egeria, De Ferrol para o Mundo diz o Concelho de Ferrol, que nunca esqueceu que ele era um de seus filhos mais ilustres…

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Ontem (15 de janeiro) assistimos a uma emotiva mostra no Colegio Fingoi acerca da sua estadia nesse Centro Educativo. Organizada polo Coletivo Egeria. Pilocha tocou a nossa fibra mais sensível recitando a sua poesia Como pudemos Viver do livro póstumo Reticencias.  O dia 14 de janeiro, a Conferência de Ramon Reimundez organizada pola Asociacion Lugo Patrimonio e está prevista a próxima semana a de Pilar Garcia Negro sobre o ilustre personagem.

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A AGAL está também a organizar diversas atividades que achegaram o grande galego ao público em geral, e , ainda ADEGA-Lugo, tem prevista uma andaina , para o dia 9 de fevereiro, dentro das suas atividades anuais de Roteiros, sobre a sua vida em Lugo. Este  será realizado em colaboração com a Escola de Línguas . Polo tanto a vida obra e altura do pessoeiro será dignamente exaltada e respeitada. Temos esse compromisso iniludível.

Quero manifestar a minha alegria e a minha simpatia com todas estas atividades. Porque nos permite comprovar como a dignidade supera os atrancos que a vida e as mesquinhezes humanas criam a nossa volta. Se calhar para por a prova a nossa grandeza. Neste caso a grandeza de Dom Ricardo. Foi posta a prova e superou-a. Também quero sinalizar como  nunca cultivou o ressentimento nem deitou lenha nos lumes que contra ele se armaram. Tenho-o comprovado pessoalmente. Ir eu onda ele enfada por ter escutado infundados e observar como diminuía com sua conversa as más intenções e relativizava as maledicências. Isso sempre me admirou. Quem conhece a luta pola normalização do galego e , mais tarde, pola normativa sabe que as espadas voavam em todas as direções. Como aquela foi uma luta polo poder e não uma luta filológica. Mas como eu aprendi dele a no me fazer má-fé, exercitei-me em ver as cousas “do outro lado do muro” . Isso faz bem ao espírito.

Dom Ricardo teve amizades de quase todas as tendências ideológicas.  Inclusivamente das que podiam parecer contrarias à sua . “De maneira que”.. (esta era uma dica frequente nele) o seu saber nunca foi enclaustrado nem limitado por uma ideologia. Isso deu-lhe amplitude de miras. Como todo bom pedagogo. Esta sua faceta mereceria ser estudada com detenimento. Já o fará José Paz Rodriguez especialista na matéria. A Revista do Ensino,(nº 18-22, 1986) é de  Homenagem a Ricardo Carvalho Calero .

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 Para ensinar precisa-se duma boa dose de empatia e isso não lhe faltou. Mália a sua aparente “distancia” que nascia mais da sua profunda sabedoria que da falta de compreensão do outro. Pretendeu que os saberes das pessoas fossem fundamentados e para isso precisa-se disciplina e rigor científico. Essa foi outra das suas caraterísticas: disciplina e rigor cientifico. A metodologia cientifica é imprescindível para a investigação, e isso vale o mesmo para as “ciências” e as “letras”. Nos atos na sua honra a que estamos assistindo escutamos frequentemente como esse é um lugar comum: o seu saber global, multidisciplinar e rigoroso.

Uma vez enfadou-se comigo. Por não ter eu apresentado um trabalho para o Congresso Internacional sobre Rosalia em que ele estava no Comité Organizador (Uma Rosa de Cem Folhas). Eu disse que eu era de Ciências e que por isso não tinha considerado a possibilidade de o fazer. Bateu com o pé no chão e respostou -me: “Precisamente por isso. São necessárias todas as vozes”. Mas já tinha passado o tempo de o fazer. E agora não vale chorar polo leite vertido. Andando o tempo apresentei um trabalho para um congresso em Rio de Janeiro sobre Rosalia Ambientalista. Pensava no meu amigo e professor (está pendente de sair publicado no BAGLP).

Caro Professor e amigo. Muito temos apreendido com o teu exemplo!. Tu foste dos imprescindíveis que ficarás na história grande da Galiza.

(Transcrevo parte da sua poesia que eu encontro dramática e esclarecedora da sua dor e paixom perante os anos escuros da longa postguerra e ditadura Franquista)

COMO PUDEMOS VIVER

(Reticências, 1990)

Como pudemos viver

Os olhos múltiplos e insones de Medusa

fixos em nós a espreita.

As bocas das metralhetas

apontando-nos. A censura

postal-fatídico agoireiro-

lendo as nossas entranhas.

Os sacristãos passando lista

às portas das igrejas. Nos cafés,

os contertulios anotando

as nossas reações perante

as noticias do rádio.

Clitemnestra na cama.

Na escola, os nossos filhos

aprendendo a condenar-nos

a desprezar-nos,

a denunciar-nos, a falarem na língua

 com que insultados fomos

e julgados réprobos,

 e na qual foi estendida

a acta que nos levou

ao paredom, ao cárcere, ao desterro.

A língua com que nos indultarom

para nos re inserir

arrependidos,

no mundo que quigéramos

substituir. Muitos morreram,mas

nom falo agora desses mortos; falo

dos que tiveromque viver morrendo

entre os seus matadores,

lendo a imprensa

que de lama os enchera,

saudando,

as insignias contra as quais militaram.

Como pudemos viver?

E mais vivêmos,

e comêmos, dormimos

engendramos

 crianças, se havia que comer , se havia

leito para dormir ou para amar.

E é assim que, como o homem

sossegado bondoso e cortés, pode

converter-se em malvado,

besta cruel; e a mulher terna

e fina

em silvante e ouveante alimanha….

……..

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • Paulo Fernandes Mirás

    Os de Fingoi -ou deveria dizer Fingoy?- não respeitaram a mudança do seu apelido. Seguem, como Ferrín e mais algum da RAG, a ignorar deliberadamente o que foi uma escolha mais do que justificada por parte de quem não só diserta a doutrina, mas do que aplica os saberes que lhe são concedidos com o método da ciência e a paciência do tempo. Um docente, como todo ser humano, nunca deixa de aprender até a morte. Outros seres, sobreumanos -como o senhor Carvalho-, não somente aprendem, mas aplicam o aprendido sem temor a erro e de cada erro aprendem para melhorar.

    Cumpria a muitos tecnocratas de alto púlpito e de sorriso postiço aprender do docente já falecido. Pois, ainda morto, seria capaz de dar muitas leições. Vemo-nos no roteiro por Lugo.

    • Adela Figueroa

      Não te faças mão sangue. Não faz bem