CARTAS MEXICAS

De novo ventos de guerra



Como já afirmamos em anteriores artigos, Trump cedera ao poder de Wall Street, desiludido aqueles que sonham “enfrentar aos vigaristas”. Por sua parte chegou agora a vez de ceder ao complexo militar industrial (e ao poder neocom na sombra), acabando por afundar, no nível global, os sonhos daqueles que achavam a paz com a Rússia possível. Ao ficar sua presidência definitivamente no controlo da “Elite financeira global” também ficam pó as ânsias daqueles que ainda apostavam no ressurgimento do “Estado Nação”. Com o lançamento de 59 mísseis Tomahawk, tendo como alvo a base aérea de Shayrat na Síria, Trump definitivamente deixa claro sua intenção de não ceder um milímetro, no plano geoestratégico imperial, desenhado já há mais duma década, com o relatório da criação dum “Meio Oriente Alargado”. Sendo facil ressumir que o maior corredor de transito de energia, drogas, armas e trafico de pessoas do mundo, não pode deixar de estar baixo o comando dos EEUU, a risco de estes perderem a supremacia.

Assim que de novo estamos prontos a assistir a um pulso global pela hegemonia planetária, entre os diferentes atores em liça, nos inícios deste novo século XXI.

Dentro dos três tabuleiros hegemónicos onde se joga esta partida: 1º Militar, 2º Económico 3º Cultural – Controlo do Imaginário coletivo global; os EEUU, de momento todavia exercem supremacia em todos os campos de jogo. Muitos poderiam argumentar certamente que a China já ultrapassou aos EEUU, no segundo tabuleiro. No entanto (e a pesar do Brexit) considerar os EEUU como um pais isolado fica como miragem duma realidade mais profunda, onde o Império Ocidental (comandado por Washington) ainda permanece no controlo do organograma económico. Se a China ousar criar alem dum grande banco de investimento (vital para sua expansão comercial), se arriscar a travar uma luta maior implementando agencias próprias de qualificação global, em concorrência com as ocidentais e, mesmo potenciar o centro financeiro mundial de Shangai, como relevo da City Londrinense o de Tókio… Aí sim poderíamos estar a falar dessa hipótese. Mas China, mesmo está a preferir não entrar ainda em essa escada de tensão, deixando que Londres e Wall Street sigam a controlar por meio dos seus mais de 700 megabancos, perto do 80% das mais de 40 transnacionais, através de diversos fundos de investimento. Encaixando-se perfeitamente dentro da arquitetura global, onde Wall Street e a City Londrina administram os ativos globais, os paraísos fiscais capturam resultados e Beijing puja a alça pela sua capacidade produtiva, no marco mundial.

No entanto e a pesares de ainda estar a comandar o Orbe, o Império Ocidental teme o poder em ascensão chinês ao ponto de achar como melhor alternativa neutralizar o poder militar da Rússia. Herdeiros do velho axioma britânico de cercar Rússia nas suas fronteiras (contenção), os EEUU tentaram impedir por todos os meios, que o velho sonho hegemónico de Moscovo duma Eurásia capitaneada pelo império russo. tome sutilmente forma. Por outro lado Washington sabe que controlando Rússia, China fica embutida dentro de si própria.

Washington sabe que controlando Rússia, China fica embutida dentro de si própria

A maiores obedecendo ao poder demográfico da Ásia onde dous países como Índia e China, ocupam 1/3 da fatia da população global, é lógico observar como a paciência chinesa por recuperar o pódio hegemónico económico perdido no fim do século XIX contrasta como com a impaciência ocidental por definitivamente fechar uma globalização centralizada no atrelamento de todas as riquezas mundiais, em forma de dívida, a um hipotético Banco Global dominado pelos grandes bancos privados do Ocidente (ao modo da Reserva Federal, o Banco da Inglaterra ou o Banco Central Europeu).

Dentro desta tessitura a entrada em estrondo do “Tio Sam” dentro do cenário sírio, com a desculpa das armas químicas, parece relato construído em longa data.

Pela contra, a Federação Russa viu-se obrigada a sua intervenção direta na Síria, a risco de perder o pouco peso que já exercia na zona, deixando a seus velhos aliados como o Irão (e suas ramificações no Líbano, como Hizbula) em posição muito delicada de cair Bashar Al-Asaad (algo, na altura, iminente de não ser a intervenção de Moscovo).

O problema é que essa intervenção russa, sem a sua contraparte americana, estava a mudar o tabuleiro do meio oriente de maneira drástica: tentando mesmo Ancara a não fazer ascos a uma aliança com Moscovo. A assinatura, em março deste ano, de contratos de cooperação entre China e a Arábia Saudita por mais de 60 mil milhões de dólares complicava todavia mais as coisas. EEUU tinha de novo que situar seu poder de militar na zona, a risco de perder o privilegio de ser o controlador único da “balança universal”. Aquele que reparte as cartas do baralho durante a partida. Israel, como convem ao seu interesse, aplaude a decisão militar de Trump.

O problema agora é saber se esta entrada desajustada terá o acomodo devido que evite a III Guerra mundial, precipitando um acordo à longa entre Estados Unidos e Rússia, que isole militarmente China (com em seu dia se fez com a China para quebrar a expansão da URSS) ou, se pela contra a afirmação da aliança sino-russa, junto ao Irão, será cada vez mais decida, sólida e mesmo ouse por em xeque o poder hegemónico norte-americano. Caso segundo a guerra global está mesmo no prelo fabricando-se.

O problema agora é saber se esta entrada desajustada terá o acomodo devido que evite a III Guerra mundial

Em este ambiente pré-belico, dous bandos ficam definidos. E curiosamente, muitas pessoas ao longo do planeta correm a alinhar-se baixo uma ou outra bandeira, sem dar-se conta que ambas plataformas obedecem aos ditados da Velha Ordem Mundial. A OWO (Old Word Order) que desde a chegada de Portugal ao Japão, e da Espanha às Antilhas (junto com a circum-navegação de Magalhães) vem comandando os destinos da humanidade; herdeiros dos velhos modelos de dominação, que remontam mesmo ao Império Babilónico.

Por um lado, os EEUU, herdeiros do velha forma de dominação britânica (que já em finais da século XVII, entregou o poder real aos banqueiros privados, deixando que eles controlassem a moeda do reino). Por outro, a Rússia, herdeira de Bizâncio, e finalmente China, herdeira da visão imperial, infestada de filosofia confucionista. Sem ter em conta atores menores, como Irão xiita herdeiro da tradição milenar persa, a Turquia em mãos dos irmãos muçulmanos (que pretendem ser o grande califado do novo poder sunita) e a monarquia saudita, que sonha liderar um islão global, uma vez extirpado definitivamente o “cancro” xiita (com agenda de interesses momentâneos comum a de Israel).

Assim que realmente estamos a assistir a um possível confronto global, entre a visão dominadora do poder financeiro ocidental e o poder estatal sino-russo; junto às aspirações regionais de diversos atores autoritários, convidados forçosamente. Aqui é precisamente onde se debate a humanidade. Tomando alguns partido pelo que consideram o mal menor, outros mais ingénuos, acreditando em supostas alternativas libertadoras. Falta um importante conhecimento que remonta à noite dos tempos: a luta entre as verdadeiras ânsias libertadoras da humanidade (em procura da nova alvorada, que canta de forma gloriosa nosso hino galego, na frase: “.. os tempos são chegados”) contra àqueles que tiraram imensos benefícios submetendo a ferro à todas as populações do mundo (e forçando-as, com alegria, a penetrar na noite escura de pedra, da que falara Celso Emilio Ferreiro, no seu insigne poema).

Para não remontar-nos no tempo, simplesmente falaremos da tentativa do “amor-sabedoria” criar um centro geográfico de luz, na América do Norte, libertando Estados Unidos do jugo negro inglês, ao tempo que a revolução francesa proveria dum outro polo de luz na Europa, capaz de pôr em xeque a velha ordem tirânica no velho continente. Com o tempo ambos dous polos em perfeita harmonia impulsionariam um novo movimento pendular que mudaria o velho domínio repressor no mundo, nascendo a um tempo a nova sociedade fraterna e universal, onde todos os povos e raças, poderiam livremente viver em unidade amorosa, dentro da diversidade.

Os impulsos ególatras de Napoleão arruinariam a tentativa europeia. O poder nunca derrotado dos banqueiros globais nos EEUU, arruinariam definitivamente a tentativa americana, com a criação da FED em 1913. As revoluções da América do Sul, com Bolívar e San Martín à cabeça, completariam a marcha ascensional do movimento libertador internacional.

A esperança depositada na revolução russa morreu após a repressão da Revolta de Kronstadt. O suposto novo poder vermelho tomou o pior do czarismo e com elo da decadente Bizâncio (hoje de novo resgatada por Putin) do imperador Teodósio, transformando o mantra bizantino: um estado, uma igreja, um credo… Na versão soviética dum estado, um partido, um credo (político, criado pelo único partido), em contra da autogestão, ajuda mútua e democracia direta da cidade de Kronstadt, na ilha de Kotlin, no golfo da Finlândia.

Os impulsos ególatras de Napoleão arruinariam a tentativa europeia. O poder nunca derrotado dos banqueiros globais nos EEUU, arruinariam definitivamente a tentativa americana

Em aquela época tomar partido e lutar mesmo era necessário. Lembremos como Krisnha anima a Arjuna no “Bhagavad Gita”, ciente a divindade como era da necessidade de travar a ascensão guerreira dos poderes escuros. Ao jeito que Lugh luta contra as forças do mal, chefiadas pelo seu próprio avo.

Em todas as mitologias temos estes exemplos, e mesmo em Efésios 6:12 podemos ler: “Porquanto, nossa luta não é contra seres humanos, e sim contra principados e potestades, contra os dominadores deste sistema mundial em trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais”Acrescentando para maior compreensão em Efésios 6:13: “Por esse motivo, vesti toda a armadura de Deus, a fim de que possais resistir firmemente no dia mau e, havendo batalhado até o final, permanecereis inabaláveis, sem retroceder”…

Assim a esperança da humanidade parecia finalmente enterrada e o poder da OWO, Velha Ordem Mundial, definitivamente consolidado.

Mas novamente o mundo voltou a sorrir, quando Gandhi deixou de ser um belicista convicto, após ler o maior dos legados de Tolstoi à humanidade, seu: “O reino de Deus está dentro de vós”. Tolstoi que fora profético com os bolcheviques, advertindo-os de sua deriva totalitária, mesmo antes da revolução ter dado inicio e mesmo antes do bolchevismo sequer tomar corpo, agora levantava de novo seu vo na figura do Mahatma Gandhi. A partires desse momento a humanidade sabia que a rebelião podia tomar carizes não violentos. Infelizmente Gandhi foi assassinado antes de seu grande sonho, duma sociedade fraterna sem castas, serem levando à frente. Seu legado no entanto permanece junto ao de tantos mestres indianos como Tagore, Sri Aurobindo, Ramakrisha, Krisnamurti, Osho e tantos outros. De Osho precisamente destacamos uma frase tão necessária em tempos tão desafortunados como os atuais: “..é preciso uma certa escuridão para ver as estrelas“. A qual acrescentamos àquela outra famosa do sábio tibetano Dugpa Rinpoché: “…é precisamente quando a noite ficar mais escura, que está a abrolhar a alvorada“.

Gandhi deixou de ser um belicista convicto, após ler o maior dos legados de Tolstoi à humanidade, seu: “O reino de Deus está dentro de vós”

O movimento pacifista tornou possível a revolta de Luther King e este movimento segue a ser a ferramenta mais eficaz dos povos para derrotar o poder agressivo e opressor da OWO.

Por isso seu combate ao pacifismo desde todas as frentes tem sido um dos maiores logros da Velha Ordem Mundial: confundir a gente utilizando slogans nascidos do coração amoroso universal, como uma Nova Ordem Global para uma nova humanidade, junto com a utilização dos meios de comunicação de massa para o entorpecimento das mentes dos povos (no ócio corrosivo), tem sido outras das tantas armas utilizadas pela OWO, que lhe permitiram ocultar, por meios de véus virtuais negros e negativos, a realidade do poder imparável da união pacifica dos povos.

Não nos deixemos enganar: esta velha guerra de baixa intensidade atual ou a futura temível guerra global, são guerras dentro da OWO pela disputa hegemónica das suas próprias elites. Nada têm a ganhar os povos apoiando-as. O grande desafio das populações globais, em esta entrada de século, é precisamente a criação duma rede global de amor e a restauração do maltratado, difamado e caluniado movimento pacifista internacional. Somente com essa unidade na base poderemos ganhar a batalha contra a morte!

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
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