Os dous modelos verdadeiros de governança mundial



“Há dois conjuntos distintos de princípios. Os princípios do poder e do privilégio de um lado, os princípios da verdade e da justiça do outro. Buscar verdade e justiça implica diminuição do poder e do privilégio, buscar poder e privilégio sempre se dará às expensas da verdade e da justiça” (Chris Hedges.)

Mapa de Abraham Ortelius, ca. 1595.

Mapa de Abraham Ortelius, ca. 1595.

Em este jogo duplo de visões em favor duma organização futura mundial, temos de entender duas marcas profundas. Um grupo que, defendendo planeamentos de raiz aristotélica, acredita que a sociedade sempre terá de ser divida, também a sua vez, em dous: um grupo de elite científica – espiritual no cimo, senhores; outro de trabalho manual, operários – na base.
Sendo que a educação, como defendia Bertrand Russell (filho ele da poderosa família Russell), deveria ser ministrada como fazem os jesuítas: uma para o alunado normal, outra para aqueles que vão ser membros da ordem (reservando para estes uma educação mais elevada). Do mesmo jeito Russell advogava por uma educação separada para a formação duma elite cientista, outra para a manutenção duma massa laboral manual. Os cientistas elaborando a tónica social, os operários sustentando a pirâmide social.
H.G. Well, membro da supostamente socialista “Sociedade Fabiana”, em romance “A Moderna Utopia” propõe a uma elite nobre como governadora do mundo. Sendo, que desde seu ponto de vista, somente esta nobreza poderia ter a capacidade de combinar progresso social com estabilidade política.
Estes grupos em favor duma Elite dominante e um povo dominado, trabalham em todos os ramos da política (tanto esquerda como direita), da economia, da cultura, da religião… Criando na mente coletiva a egrégora da divisão social. Reservando para as linhagens nobres um papel predominante. Condenando ao resto de seres humanos a um papel de seviciais.
Sua ideia duma governança mundial sempre tem em base a um estado totalitário – conseguindo seu propósito bem seja, pelo controlo privado do estado, bem seja pela utilização do estado em favor dumas dinastias familiares, que entre si se percebem como iguais (socialismo Fabiano), mas que se diferenciam da base: simples trabalhadores, não instruídos nos mistérios reais da governança do mundo. Seu modelo pode ser realizado pela esquerda – socialismo Fabiano; pela direita – fascismo, estado conservador controlador; pela suposta democracia – estado laico, controlado nas sombras pelas organizações e sociedades ao serviço da Governança Aristocrática global…
Mesmo podem utilizar, em certos momentos, supostos grupos antiglobalização, para confrontar estados, que não controlam totalmente, em sua expansão global – como agora no caso do Presidente Trump, nos EEUU – no seu combate contra uma China em expansão global.
Outro grupo, que bebe nas fontes do ideal Pitagórico, Platónico, do cristianismo herdeiro da gnose, do judaísmo herdeiro dos essênios, nazaritas (dos quais surge as primeiras comunidades cristãs)… Da filosofia de Nicolau de Cusa, do verdadeiro governo mundial, herdeiro da Utopia de Thomas Moro. Lembremos, que em “Utopia” há forte critica a expulsão dos camponeses da Cidade, hoje expulsão dos excluídos da Comunidade Global.
Sendo sinais dos males sociais: bandos de ladrões; justiça cega e cruel; nobreza, hoje elite, ávida de riquezas e sempre pronta para a guerra; perseguições religiosas (como hoje no Oriente Meio); povo oprimido pelo trabalho incessante para manter o exército (como hoje nos EEUU ou Rússia), a corte, hoje parlamentos e poderes públicos, visionados como uma multidão de ociosos; a sede de dinheiro dos reis, dos nobres e dos grandes burgueses (hoje as elites do poder financeiro) era a causa da miséria da maioria (e segue a ser); aumento do abismo entre as classes sociais, o que transformava os juízes em carrascos e as penas em castigos pavorosos (hoje o abismo de rendas de cada classe a justiça dominada por lobbies de poder).

Na República Utopia não se podia prejudicar ninguém em nome da religião (hoje também acrescentar ideário político); a intolerância e o fanatismo eram punidos com o exílio e a servidão; o povo pode escolher suas crenças e os vários cultos podiam coexistir em harmonia ecuménica; desfrutava-se dos benefícios da paz; o parlamento zelava pelo bem do povo, pois descobrira que a propriedade individual e o dinheiro são incompatíveis com a felicidade (abolição da propriedade, direitos iguais – sem classe social. Dinheiro não como usura. Educação para todos).

Enquanto na República Utopia, outra ordem fez a comunhão fraterna. Em ela: não se podia prejudicar ninguém em nome da religião (hoje também acrescentar ideário político); a intolerância e o fanatismo eram punidos com o exílio e a servidão; o povo pode escolher suas crenças e os vários cultos podiam coexistir em harmonia ecuménica; desfrutava-se dos benefícios da paz; o parlamento zelava pelo bem do povo, pois descobrira que a propriedade individual e o dinheiro são incompatíveis com a felicidade (abolição da propriedade, direitos iguais – sem classe social. Dinheiro não como usura. Educação para todos).
Este grupo procura, uma sociedade em comunhão. Comunidade, sociedade comunista científica – espiritual. Uma sociedade cuja hierarquia, seja uma hierarquia de diversos conhecimentos, ao serviço de entregar esses conhecimentos, àqueles que demandam dos mesmos. Não utilizar esse conhecimento como reservatório para manter uma elite no comando, enquanto, os outros eram enganados, nos falsos conhecimentos dados unicamente para realização de seus trabalhos manuais: de seviciais, sustentadores do peso da pirâmide social.
Aqui então, neste modelo de Comunidade Fraterna, desenvolvendo a Ajuda Mútua, descrita por Piotr Kropotkin, a hierarquia é vista, como Educadora da sociedade, que ainda esta em fase de desenvolver seu conhecimento. Assim os mais evoluídos ajudam aqueles em evolução, em todo o entranhado social, tal como se realizava nas sociedades Cátaras do Languedoc (nos séculos XII e XIII). Experiencia ceifada pelo papado, como antes também foi ceifado o nobre ideal Priscilianista na Galiza (no século IV). Sendo que os cátaros se denominavam a si mesmos como os “Bons Hommes”. Cujos Mestres, numa sociedade comunal – de comunhão espiritual – comunismo elevado, eram instrutores e não controladores da sociedade (chamados de Perfeitos).
Os primeiros franciscanos, muitos influenciados pelas doutrinas de Fiori, também viveram em comunismo primitivo ou comunidade igualitaria. Renuncia à materialidade, mas faltos já da conhecimento espiritual profundo dos cátaros ou dos priscilianistas….
Pela contra nas Missões jesuítas da América do Sul, de meados do século XVII, seguiam um padrão de direção jesuíta (senhores) e trabalhadores indígenas, criando riqueza para companhia. Isso, a pesar que no seu aspeto positivo houve viabilidade económica e autossuficiência, em regime comunitário; boa administração, certa educação nas artes. Mas também imposição da fé crista, e geração de mais-valia, em favor da Companhia de Jesús, mesmo com horários de trabalho longos. Afinal utilizando os indígenas como geradores de rendas valiosas, centralizadas nos cofres da Companhia (não retribuídas a comunidade).
Estas duas visões do mundo, sempre em contraste e, em tempos de fricção, em confronto; seguem hoje em dia permeando o ideário global da humanidade. Ganhando, pelo de agora, muita mais força primeira da divisão social entre senhores e servos, na eufemística versão atual: entre governadores e governados. Alimentando o sistema, por meio do controle da dívida, que cria vassalagem permanente, e, da corrupção como forma de garantir o controlo, por trás da plateia. Sendo as Coorporaçoes Privadas – em Ocidente, e Estatais no Oriente, as encarregues de veiculazar o poder sistémico.
Sendo que esta primeira visão (poder reservado a uma Elite) facilita a consolidação do modelo de guerra atual – mantendo as castas Senhorial, Sacerdotal e Guerreira ou Militar, no topo da pirâmide. Enquanto na base os operários trabalham para manter o edifício da divisão de classe em pé. Utilizando a hierarquia aos povos para sua consolidação como único grupo com acesso a informação científico – espiritual de valia. Fomentado Adharma, anti Lei evolutiva. Criando centros geográficos evolutivos, para evitar a autodestruição involutiva.
Na segunda Senda – a da Comunidade Fraterna – da Ajuda Mútua: os estamentos dão-se em função da evolução livre de cada ser, sendo a hierarquia instrutora, daqueles que buscam sua formação evolutiva (utilizando o verdadeiro livre arbítrio). Permitindo o acesso a formação elevada de toda a cidadania. Mantendo a conexão com a Lei Natural ou Dharma.

Virados na obscura senda guerreira

Quando uma sociedade vive na psique da guerra: concorrência pelo carinho dos pais, no seio familiar; concorrência pelo trabalho, no mundo laboral; concorrência pela posição social, ou posição dentro dum determinado grupo – assumindo determinado rol – Sempre com a oculta intenção de garantir melhor a ansiada sobrevivência, e uma vez obtida, garantir os prazeres mundanos, fugindo da dor- Estamos a falar, então de individual e psíquica doença.

Mudar a psique global de guerra e o imaginário coletivo individual de medo ao diferente, que nos encaminha a competição bélica; pela psique nova da paz, que nos achega à ajuda mútua e a compreensão mútua, é o primeiro passo.

Concorrência no amor, pelos namorados e namoradas, no cerimonial de acasalamento… Sem dúvida estamos diante duma sociedade que caminha involutivamente – àquele lugar onde poder e privilégio, anulam verdade e justiça. Adharma, anti-lei, governa. Mudar a psique global de guerra e o imaginário coletivo individual de medo ao diferente, que nos encaminha a competição bélica; pela psique nova da paz, que nos achega à ajuda mútua e a compreensão mútua, é o primeiro passo na viragem do caminho em Adharma, para o caminho correto do Dharma.
Dado esse passo inicial poderíamos ate ser capazes de criar um clima de dialogo permanente e confiança (ultrapassando o modelo guerra – adversário – adversão ); para (entre todos e todas) criar um novo modelo mais igualitário na toma de decisões conjuntas.  Uma nova forma de governança mundial democrática e equitativa – que permiti-se às diversas sociedades avançar devagar (cada uma a seu ritmo) ate um novo patamar holístico de interconexão e mutua inter-dependência das partes.
Tendo por nexo de união daquelas partes num governo mundial representativo (não dos poderosos) senão dos poderes criados e avaliados pelos povos, através do dialogo permanente no seio das Nações Unidas. Governo da Confederação Mundial de Povos. Para isso preciso também seria  iniciar o dialogo inter-cultural e um dialogo ecuménico entre religiões (priorizando o seu aspeto etimológico do religar). Criando para tal fim, entre os setores mais conscientes e espiritualmente mais evoluídos das diversas sociedades, uma frente única científico-espiritualista, mas não elitista, senão de serviço a comunidade mundial. Unidade na diversidade cultural, politica e económica.
No individual, como no coletivo, também os diferentes ritmos evolutivos devem ser respeitados: dotando dum abano mais amplo de possibilidades formativas, a cada ser, para que ele possa eleger melhor sua opção de crescimento e realização vital.

Evitar ser divididos

Assim que se formos um bocadinho inteligentes, deveríamos evitar ser divididos; pois pela direita ou pela esquerda, eles conseguem seus objetivos. O confronto beneficia sua aposta pelo mundo de guerra, anti lei natural Adharma. Confrontando seres humanos em luta, por abaixo, pela sobrevivência (fomento do exército de desempregados para abaratar custo salarial). Confrontando visões religiosas, filosóficas, científicas… Para fomentar o problema, por meio da tese e da antítese; e para finalmente aparecer a solução: síntese, que interessa sempre aos de arriba.
Dai, precisamos criar um dialogo permanente na base, para fomentar experiências diretas de transição social – em procura de modelos de comunidade aberta, de indivíduos livres, agrupados em coletivos científico – espirituais, que possam aceder ao verdadeiro conhecimento, guardado ciosamente, por e para, as Elites que comandam o mundo. Pois é por meio deste conhecimento, para nós encoberto por véus negativos de existência (criandos nos diversos laboratórios da Engenharia Social), que sempre estas elites se situam na direção do mundo. Dado somente com este conhecimento pode ser construída uma organização social sustentável.
Manter pois o divino em nós, acender a chama do conhecimento superior, abrir nosso coração aos outros, para compartilhar nosso paraíso interno, quando nosso amor tiver vencido o nosso medo. Amor relizado com rigor, rigor realizado com amor – quando preciso for combater os demónios em nós e no mundo, que nos rodeia – pois eles são impulsos da destruição. Eis a base da unidade dentro da diversidade.

Esperava construir uma ponte arco-íris
Unindo o solo ao céu
E semear neste pequeno planeta anão
O sentimento do infinito. 

(Sri Aurobindo)

Em esse infinito, tu realizas o finito, limitado, mas não limitando-te. Não fazendo pequena a tua alma. Todos somos precisos, todos somos necessários.
Evitar que nos dividam e nos sacrifiquem em suas guerras, esse é o primeiro passo. Quando a humanidade for consciente dele, já não haverá Medios que possam manipulá-la. E todos caminharemos, sem prejuiços, ao encontro dos outros. O outro simplemente é um espelho, no qual contemplamos nossa interior, realmente. Quando no outro vemos a ira, é a ira que se agocha em nosso peito. Quando no outro vemos o amor, é o amor que levamos na nossa psique, livre nesta hora do pequenos medos… Ser valente é aceitar nossos medos. Primeiro sinal de que podemos remové-los.
Somente esses medos (ativados, quando convir, pela Elite guerreira governante) é que permitem ainda, a dia de hoje, sermos nós utilizados para suas guerras. Guerras criadas para salvaguardar seus interesses… Mudemos, com paciência, perseverança e inteligência esta realidade adversa. Podemos, claro que podemos! Firmemos a paz, de início, em nossa consciência.
Lembra a reflexão de Esopo: “Um pedaço de pão comido em paz é melhor que um banquete comido com ansiedade”. Eles geram essa ansiedade para no desconforto, em suas guerras utilizar-te. Assim que não existe maior rebeldia, hoje em dia, que negar-se viver alterado. Trabalhar a paz interior, caminho único para a fraternidade. Da Paz interior concretizada, a paz exterior emana!

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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