Natalia Poncela: “Não podemos assumir toda experiência artística apenas como um ato diletante”



Natalia Poncela é historiadora e crítica de arte. Na sua última obra Nem tudo é arte? [email protected] de olhar (Através, 2018) apresenta um debate sobre o seu campo de trabalho. Como é arte, quando é arte e onde é arte? Vozes, opiniões e conversas nascem nas páginas do livro da mão de pessoas que não pertencem ao círculo do mercado da arte, da teoria ou da crítica da arte.

Natalia Poncela

Perante as obras de arte plásticas e visuais contemporâneas talvez a reação mais habitual seja a exclamação cética do género de: “Mas… isto é arte? Eu também sou capaz de o fazer”. Como reconhecermos um objeto como artístico? Em que se diferencia das ocorrências duma prática amadora? Ou tudo é arte?

Para poder reconhecer um objeto, uma ação ou um som dentro da esfera artística deveríamos começar por perguntarmos quem legitima e enuncia que é, e que não é, uma obra de arte. Porque… nem tudo é arte? Pois não. Desta volta, afirmo. Nem tudo é arte.

A depender dos momento históricos, das culturas em que tenha lugar essa pintura, essa escultura, essa ação, essa instalação, essa imagem em movimento, esse elemento sonoro… os indicadores da artisticidade são diferentes. Na historia da arte contemporânea, podemos dar com uma arte que apresenta a realidade para a resignificar, podemos achegarmos a uma arte que procura o subconsciente ou que responde ferida a um contexto adverso, etc.

Este livro mantém o seu horizonte na incerteza, jamais na certeza. É assim. O foco marca os distintos modos e as diferentes modas em que emerge essa etiqueta de arte contemporânea.

O subtítulo do teu livro, [email protected] de olhar, evoca o grande John Berger e reivindica o relativismo: não existe um olhar objetivo nem definitivo. Porém, numa sociedade carregada de estímulos visuais é provável que não contemplemos com muita calma o que temos perante os olhos, que não nos apercebamos do que lá está. Como podemos construir um olhar próprio?

Efetivamente, não existe um olhar objetivo nem definitivo. A nossa olhada é, entre muitos outros adjetivos, cultural. Mas, como construir um olhar próprio? É isso possível? Se calhar, deconstruindo o que já temos, aquele que assumimos como próprio embora seja um olhar herdado, assumido e inquestionável.

As artes ocupam um espaço mínimo no ensino. Com uma perspetiva historicista, os programas de estudo mal chegam ao século XX. Existem, em consequência, chaves para entendermos o mundo contemporâneo que estejamos a perder? Noutras palavras, que é que pode brindar-nos a arte?

Com certeza, a arte ocupa um espaço mínimo no ensino formal. Eu diria que ocupa um espaço decorativo, jamais fulcral.

A arte propõe-nos outros modos de olhar para o mundo. Não podemos assumir toda experiência artística apenas como um ato diletante. Pode e, mesmo é, muitas outras hipóteses: conhecimento, elemento metafórico, instrumento de intervenção e transformação identitária, etc.

Nem tudo é arte capa

A infinita capacidade de reproduzir o objeto artístico, que se viu multiplicada nas últimas décadas, faz com que a obra perca o seu caráter único. Isto é banalização da obra de arte ou, ao contrário, contribui para uma necessária democratização e divulgação da arte?

A reprodutibilidade técnica atravessa a barreira aurática que protege a obra de arte da sua confortável unicidade. Quando essa vontade é iconoclasta, desmitifica o valor aurático da obra de arte, e propõe novos horizontes do facto artístico. O problema não é que uma obra de arte se difunda nos médios de comunicação, nas redes sociais, mas que se banalize, que vazie o seu conteúdo, que apenas ocupe um espaço ornamental.

Uma das palavras mais frequentes na crítica das artes contemporâneas, e mais intrigante, é a de legitimação: quem legitima uma produção? Ou, doutra maneira, se a qualidade é decidida por alguém (galerista, curador(a), crí[email protected], quem for), as pessoas só podemos passar por diante das obras de arte e olhar para elas. Porém, a arte feminista, por exemplo, conseguiu sair do espaço [email protected] especialistas, fazer parte de cartazes e manifestações porque podia ser associada a conceitos que as mulheres e o ativismo de género necessitavam. A arte com perspetiva social em sentido amplo está a contornar os legitimadores habituais?

A arte existe fora da arte. Estou a pensar nas pedagogias coletivas, nas práticas artísticas colaborativas, nos modos de intervenção na esfera pública. Embora o sistema artístico seja capaz de assumir e legitimar, instrumentalizar, rentabilizar e subverter conteúdos destas práticas artísticas no seu próprio benefício. Assim, surgem novas nomenclaturas, novas regras de jogo para inseri-la no espaço museístico, no mercado artístico.


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  • abanhos

    Bem interessante