GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO

Narrativa milenar de terror: O Rei Saul e o Espectro de Samuel



Neste espaço, já tivemos a oportunidade de publicar uma narrativa espectral da Antiguidade Clássica: A Casa Mal-assombrada, do escritor romano Plínio, o Jovem.

Mas não apenas no mundo pagão proliferavam as histórias tenebrosas.

Há muito de terror, horror e fantasia nas Sagradas Escrituras, malgrado muita gente não saiba disto.

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Uma das passagens mais sombrias e fantasmagóricas da Bíblia é o encontro do espectro do profeta Samuel com o desesperado rei Saul, em plena encarniçada luta contra os filisteus, narrado no primeiro Livro de Samuel, que remonta ao século X a.C., e cuja autoria é atribuída a Natã e Gade.

Para os antigos israelitas, assim como para outros povos do Oriente Médio, a exemplo dos Mesopotâmicos, o destino dos mortos era algo taciturno e desolador. Os que morriam eram recolhidos ao Xeol, a região dos mortos, situada no ventre da terra, tal qual o Hades dos gregos. Era uma região subterrânea profunda, escura, a terra do esquecimento (Salmos 88:12), onde os defuntos, semiconscientes, jazeriam para todo o sempre, sem esperança de ressureição: assim como a nuvem se desfaz e passa, quem desce ao Xeol jamais tornará à superfície, diz o livro de Jó (7:9).

O historiador Geza Vermes esclarece que, no pensamento judaico, desde os tempos mais remotos até o século II da Era Comum, “considerava-se que todos os humanos de eras passadas tinham herdado uma subsistência diminuída e triste numa terra de escuridão e tristeza, na qual entravam através do túmulo”.

O Deus hebraico é o deus dos vivos. Javé ignora completamente os que já desceram às sombrias regiões abissais; por isso, os mortos não podem invocá-lo para atenuar a sua triste e condição. De sua feita, aos vivos era proibido perturbar o desolado repouso dos mortos, sob pena de pagar com a própria vida (Dt 18:9-12).

Mas, ignorando o cânone divino, o aflito rei Saul, com a ajuda de uma necromante, invoca, dos lúgubres abismos, o espírito do iracundo Samuel. E o seu terrível vaticínio não tarda a se cumprir.

Eis a nossa paráfrase para a espectral narrativa bíblica:

O REI SAUL E O ESPECTRO DE SAMUEL

 

O profeta Samuel já havia morrido. Israel inteiro tinha chorado por ele. Sepultaram-no em sua cidade natal, Ramá. E Saul tinha desterrado, de seu reino, os necromantes e adivinhos.

Os filisteus se agruparam e acamparam em Suném. O rei Saul reuniu também todo o exército de Israel, firmando um acampamento em Gilboa.

Porém, Saul vislumbrou o acampamento dos filisteus e o seu coração estremeceu. Consultou ao Senhor, mas este não lhe respondeu, quer por intermédio do oráculo dos sacerdotes, quer pela voz profetas.

Disse, então, Saul aos seus servos:

— Procureis, para mim, uma necromante. Irei a ela e farei uma consulta.

— Em Em-Dor há uma dessas mulheres — respondeu-lhe um dos servos.

Assim, Saul se disfarçou, vestindo roupas comuns. Secundado por dois dos seus, chegou de noite à casa da mulher.

— Eu te peço que exerças, em meu favor, os seus poderes de necromante — disse Saul à necromante. — E que, emergindo das regiões das sombras, onde habitam os mortos, apresente-se, diante de mim, a pessoa que eu te indicar.

— Tu bens sabes o que fez o rei Saul: exterminou da terra os necromantes e os adivinhos. Por que, então, armas um laço à minha vida? Para me fazeres morrer?

— Assim como vive o Senhor, eu te asseguro que nenhum castigo te sobrevirá por isto — respondeu Saul, jurando pelo Senhor.

— Quem, pois, farei subir, das regiões inferiores, perante ti? — perguntou-lhe a mulher.

— Fazei subir Samuel — respondeu ele.

Reconhecendo Saul naquele que lhe falava, a mulher deu um grito de desespero.

— Por que me engaste? — disse a mulher a Saul. — Bem sei que tu não és outro senão o rei Saul.

—Nada temas — disse-lhe o rei. — Mas… O que estás vendo?

— Vejo um espectro que se eleva das entranhas da terra.

— Qual é a sua aparência? — ele perguntou.

— Vejo que vem subindo um ancião. Ele está envolto numa capa.

Saul entendeu que era Samuel quem ascendia. Inclinou-se, então, mergulhando a face na terra, prostrado numa reverência servil.

— Por que me incomodas, fazendo-me subir? — perguntou Samuel.

— Estou muito angustiado — respondeu Saul. — Os filisteus guerreiam contra mim. Deus tem-me evitado. Já não mais me responde. Nem por meio dos profetas, nem por sonhos. Por isto, eu te invoquei, para que me instruas no que devo fazer.

— Por que motivo perguntas justamente a mim — respondeu Samuel —, quando o próprio Senhor te repele, e se fez inimigo teu? O Senhor fez contigo o que já dissera por meu intermédio: arrebatou-te o reino para entregá-lo ao teu próximo, a Davi. E assim o fez porque não deste ouvido à voz do Senhor: não executaste o furor da ira de Deus contra Ameleque. Por isto, hoje, o Senhor fará com que se realize o que ele disse, e amanhã tu e os teus filhos estarão comigo no Xeol. Até mesmo o acampamento de Israel o Senhor entregará aos Filisteus.

Imediatamente, Saul caiu estendido por terra. Estava apavorado pelas palavras proferidas por Samuel.

*

Os filisteus lutavam contra Israel, cujos homens puseram-se em fuga diante dos inimigos, e caíam mortos no monte Gilboa.

Os filisteus perseguiram Saul e seus filhos. E morreram nas mãos dos inimigos Jônatas, Abinadabe e Malquisua, filhos de Saul.

A luta intensificou-se contra Saul. Os arqueiros o alcançaram, ferindo-o gravemente.

Disse, então, Saul a seu escudeiro:

—Puxa a tua espada e atravessa-me o corpo com ela, para que não venham os incircuncisos, traspassem-me e escarneçam de mim.

O escudeiro, porém, não quis cumprir a ordem. Estava apavorado.

Saul, pois, tomou a espada e lançou-se sobre ela.

O escudeiro, vendo que Saul tinha morrido, arrojou-se sobre a própria espada e morreu junto ao rei.

Assim morreram juntamente, naquele dia, Saul, os seus três filhos, o seu escudeiro e todos os seus homens.

Já no Extremo Oriente, milenares histórias de terror, povoadas por fantasmas e outras entidades sobrenaturais radicalmente malévolas, chegaram aos nossos dias graças aos registros de brilhantes escritores como Gan Bao, Pu Sognling e, mais recentemente, Koizumi Yakumo.  Muito em breve, daremos, nesta página, uma mostra do pungente horror oriental.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim.Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
Paulo Soriano


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