Nara Vidal: “Falamos de literatura masculina? Falamos de literatura feita por homens? Não”



A terceira entrevista da Série Sociedade brasileira de escritoras e escritores vivos é com Nara Vidal, que começou 2022 envolvida em vários projetos e muitas realizações, entre elas o lançamento de um livro em Portugal, no segundo semestre.

nara_vidal_divulgacaoPor isso, atenção livrarias e espaços culturais galegos, portugueses e de toda Lusofonia, Nara Vidal está aguardando convites para mostrar seu trabalho e todo seu talento.

Nara Vidal nasceu em Minas Gerais. É escritora, professora, editora e tradutora. Tem livros publicados para crianças e jovens, além de contos e romance. Foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2021, ganhadora do Prêmio APCA, em 2020 e do Prêmio Oceanos, em 2019. É colunista da Tribuna de Minas e colaboradora do Jornal Rascunho e da Revista 451.

Você saiu de Guarani, uma cidade no interior de Minas Gerais e hoje é uma escritora premiada, editora da Revista Capitolina e de uma livraria, tudo isso na Inglaterra. Por favor, fale um pouco sobre essa trajetória.
Desde criança eu pensava em sair de onde estava. Não porque fosse infeliz. Pelo contrário: tive uma infância muito feliz, mas acho que sempre tive uma melancolia em mim, um desejo de me movimentar. Minha amiga astróloga diria que é porque sou libra com ascendente em gêmeos. De fato, não sou muito de querer ficar num lugar só por muito tempo. Agora, por exemplo, em retrospecto, 25 anos da minha vida foram no Brasil, 25 estão sendo na Inglaterra e venho me organizando para outros 25 em Portugal. Nunca se sabe se vai ser possível, mas desejo e sonho são aquelas ingenuidades que eu abraço sem qualquer reserva. O trajeto Minas-Londres foi, portanto, bastante natural pra mim. Eu sabia que ia acabar me mudando do Brasil e o desejo era vir para Londres. Também estudei Shakespeare e fazia, como ainda faz, sentido estar aqui, onde nasceram e moram os meus filhos e o pai deles, que é uma pessoa que me dá imenso suporte para que eu possa, inclusive, me movimentar, escrever. Também acho que vamos acumulando lugares e afetos. Por isso Brasil, Inglaterra e Portugal estão tão indissociáveis na minha cabeça. Onde estão os afetos é onde fazemos nossa casa e esses amores, muitas vezes, estão espalhados em vários lugares.

Pode nos contar como foi a Residência literária da Fundação Dom Luís I. É a primeira brasileira a participar? O período em Portugal foi criativo?
A residência foi completamente surreal. Digo isso no sentido de eu poder fazer o que eu quisesse num período de 2 meses, num formato que é de imenso privilégio, desde a acomodação até a localização. Estou acostumada a escrever e a trabalhar com o caos em volta. Não posso esperar por um momento de paz para escrever. Às vezes, passa um dia inteiro e não tive sossego. Então, quando comecei a residência, entrei em pânico. Não sabia muito bem o que fazer com toda aquela liberdade, aquele tempo meu, aquele espaço pra mim, a luz e o mar, Lisboa logo ali. Foi transformador. Além do mais, um aspecto inteligente e generoso do programa dessa residência é exatamente a autonomia do escritor. Tinha dias que eu, aparentemente, não fazia nada. Mas há um entendimento que pessoas que trabalham com criação, ficção precisam de ócio, precisam de tempo para pensar. Ou seja, executar, mostrar resultados, isso tudo é muito relativo e nem sempre funciona em termos criativos.

Quando comecei a residência, entrei em pânico. Não sabia muito bem o que fazer com toda aquela liberdade, aquele tempo meu, aquele espaço pra mim, a luz e o mar, Lisboa logo ali. Foi transformador.

A obra “Mapas para desaparecer” começa com uma mãe perdendo a filha no dia do aniversário. Alguma coincidência ou referência com a menina britânica Madeleine McCann? (Desaparecida em Portugal, em 2007 durante as férias de verão). Me lembro de um documentário sobre esse caso onde a Sra. Kate McCann desabafa dizendo que “ela gostaria de sumir” ou “acordar de toda aquela situação”.
No conto “Castanheira”, a menina não desaparece no dia do aniversário. Mas a narrativa começa a partir da preparação da festa de aniversário da filha que ficou. Esse conto teria sido um romance. A minha ideia era escrever uma narrativa longa, mas não consegui. É doído demais e ter que viver com aquela personagem, aquela mãe naquelas condições estava me deixando arrasada. Reduzi o tempo da experiência, da convivência com aquela mãe e concluí o conto. Não fiz uma associação direta ao caso da Madeleine McCann, que desapareceu em Portugal. Mas, quem sabe, talvez algo inconsciente que não consigo acessar esteja aí na narrativa daquela história, não sei. De qualquer maneira as duas histórias são trágicas pela ruptura que é permeada pela esperança de um reencontro cada vez mais improvável. É tudo muito dramático e sofrido.

A literatura brasileira produzida pelas mulheres está tendo maior visibilidade atualmente?
Sim! E ainda bem. A questão é que, finalmente, as pessoas começam a se dar conta que rótulos como literatura feminina, literatura escrita por mulheres, são denominações suspeitas e que devemos rejeitar. Há um exercício bem simples pra isso: falamos literatura masculina? Falamos literatura feita por homens? Não. Então, não queremos cotas ou concessões. Dito isso, o espaço tem sido conquistado e não é hora de descansar. Enquanto existir orgulho machista, enquanto houver discurso de homens e mulheres que minimizam ou subestimam o feminismo – que é uma questão política e social de todos, não só de um grupo – então estamos atrasados e com trabalho a fazer. Sinto ainda um cuidado, uma atenção e um admiração entre colegas escritoras que se ajudam, se apoiam. Isso é cada vez mais importante. É uma teia que se espalha e de maneira profunda.

Há um exercício bem simples pra isso: falamos literatura masculina? Falamos literatura feita por homens? Não. Então, não queremos cotas ou concessões. Dito isso, o espaço tem sido conquistado e não é hora de descansar.

Loucos são os outros?
É o que eu digo para a minha psicanalista. Ela sempre discorda e aponta de volta pra mim.
“A Loucura dos Outros”, um livro de 2016, foi uma tentativa minha de propor uma escrita oposta, até, ao primeiro livro, Lugar Comum, que tinha um ar nostálgico e com caraterísticas de crônicas. Foi um livro traçado a partir de observações do universo feminino e as discrepâncias sociais e patriarcais que são naturalizadas e repetidas sem, muitas vezes, qualquer reflexão a respeito. Tenho um livro que vai sair em Portugal este ano e que é uma coleção de contos. Quando leio A Loucura dos Outros para selecionar os trabalhos que vão compor o livro, sinto, com pesar, a contemporaneidade dos temas tratados em algumas das histórias.

Seus livros e histórias “flertam” com o cinema, misturando fato com ficção e personagens femininas fortes. Algum projeto de adaptação para o cinema ou séries?
Seria incrível! Mas, infelizmente, nenhuma proposta concreta. Só vontade e sonho, por enquanto.

Quais são os novos projetos que serão lançados?
nara_vidal_evaEste ano é agitado. Uma nova edição de Sorte sai pela Faria e Silva, agora em abril. Também em abril, meu romance novo, Eva, sai pela Editora Todavia, com lançamento em São Paulo dia 8 de abril. Além disso, para o segundo semestre, um projeto de um livro de não ficção sobre 14 personagens femininas de Shakespeare, sai pela Editora Relicário. E tem ainda a edição de Sorte que sai no México.

Como os europeus podem comprar na Capitolina Books e que obras encontrarão disponíveis?
A livraria – se é que posso chamar assim – é esse canto da minha estante na minha casa onde disponibilizo alguns títulos de editoras que são menos conhecidas e que não gozam de oportunidades de tradução de seus livros. É uma alternativa à literatura das grandes editoras que estão sempre visíveis e presentes nas livrarias. É uma maneira de fazer o ar se renovar, ainda que de maneira ínfima. Quem se interessar em comprar algum título é só entrar em contato pelo site capitolinabooks.com
Alguma previsão de lançamento de seus livros na Galiza? (ou em outros países?)
Este ano lanço meu primeiro livro em Portugal. Ainda não posso dar detalhes, mas é uma alegria. Sei da relativa – para ser elegante – resistência de Portugal a livros brasileiros, mas como o Brasil abraça tantos escritores portugueses, me sinto tranquila em explorar esse lado da língua.
Há ainda uma publicação prevista para o México, do romance Sorte
Na Galiza, não. Mas adoraria. Quem sabe um dia.

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Instagram – @_naravidal
Facebook – nara.hallam


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