Nacho Muñoz: “É estranho que nom estejamos mais próximos de Portugal”

O produtor musical viguês reside no Porto desde há quase dous anos, onde continua os seus projetos de experimentaçom sonora



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Versátil e eclético, Nacho Muñoz (Vigo, 1969) é compositor, artista sonoro, pianista, músico eletrónico e produtor musical para projetos próprios –madamme cell, IGMIG– ou alheios –Mercedes Peón, Uxía Senlle, Eclética Ensemble–. O viguês tem 25 anos de trajetória às suas costas, onde também contam estudos de música clássica, jazz, eletrónica, sistemas generativos ou composiçom contemporânea.

Há quase dous anos que reside no Porto, a partir de onde continua a trabalhar nos múltiplos projetos musicais e artísticos na vibrante cena musical portuguesa ao mesmo tempo que nom perde o fio dos seus trabalhos na Galiza. Especializado na experimentaçom e criaçom de espaços sonoros, Muñoz acaba de apresentar o mapa emocional do bairro portuense de Miraflor, umha extensom da sua linha de investigaçom Parkour Sonoro que também conta com ramificações na Galiza.

Entre todos os projetos e vias artísticas abertas, que te levou ao Porto? Que estás a fazer ali?

[ri] Realmente nom me levou nada em específico. Simplesmente eu gosto de mudar cada certo tempo e vou mudando, cada três anos ou assim. Normalmente movo-me pola Galiza, mas também estivem algum tempo em Londres, Praga, Bruxelas… Ultimamente estava em Vigo e a cousa estava decaída, entom pensei em mudar. Já vivera no Porto há dez anos e decidim repetir, porque está muito bem. A minha família está em Vigo e para mim o Porto é umha extensom mais da Galiza, claramente, umha metrópole gigante do eixo Galiza-Norte de Portugal. Nem sequer tenho carro, tenho totalmente assumido que apanho um autocarro e em duas horas estou em Vigo. Permite-me também continuar a trabalhar nos projetos com bandas que tenho na Galiza e, ao mesmo tempo, desenvolver a minha série de projetos.

“Para mim o Porto é umha extensom mais da Galiza, umha metrópole gigante”

Quais som esses projetos próprios?

Agora mesmo tenho vários, mas o principal é Parkour Sonoro. É um projeto em que trabalho com o espaço sonoro das cidades e lugares em que estás, polo que me permite desenvolvê-lo em qualquer sítio. Também estou tentando juntar gente e fazer um documentário no Porto relacionado com isto. De facto, vou começar a fazê-lo com umha cineasta portuguesa chamada Patrícia Barbosa. Ela é fotógrafa e trabalha no Espaço MIRA. Conhecim-na de casualidade e agora estamos apresentando a ideia aqui, a várias convocatórias, mas por agora sem resultado. De todos os modos, já comecei o trabalho, tenho mapeado o Porto, muitas localizações estudadas…. Está bastante avançado, e este mês começarei a gravar aqui com a Patrícia. A ideia é fazer um filme sonoro.

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O Porto é umha cidade adequada para este tipo de projetos?

Uff, é incrível. É umha cidade com muitas zonas com muito trânsito e quantidade de espaços diferentes, muitíssimos contrastes. Tem zonas muito barulhentas e outras pouco ruidosas: para o Parkour Sonoro isso é genial. Eu saio todos os dias pescar e quase sempre trago algo.

Como foi a aterragem na cidade?

Bom, eu cheguei sem conhecer ninguém e mesmo uns dias antes de vires conhecim umha moça que vivia no Porto. Isso facilitou-me conectar com todo o mundo. Nom estou muito certo de se eles sabem o que é o galego, penso que às vezes o confundem com o espanhol, mas para nós é um privilégio. Tenho colegas espanhóis e o idioma é-lhes muito mais complicado. Para nós o pior é o sotaque, é a complicaçom que temos se queres falar perfeitamente, mas entendemos tudo bem.

“Nom estou muito certo de se eles sabem o que é o galego, penso que às vezes o confundem com o espanhol, mas para nós é um privilégio. Tenho colegas espanhóis e o idioma é-lhes muito mais complicado”

Depois… o Porto é umha cidade que a nível cultural é grande, mas muito familiar. Integras-te rápido e com as redes sociais… Há muita gente organizando cousas, e é muito fácil conectar com todo o pessoal. Afinal conhecem-me e já me chamam para fazer cousas. Estou bastante integrado.

Nada a ver com a Galiza?

A Galiza… eu sempre alucino, porque é um sítio que nom somos nem três milhons de pessoas e alucinas com a quantidade de movidas que há para quase nom termos apoio. Há muitíssimas cousas. No Porto está tudo mais concentrado. Eu por exemplo levo muito tempo a trabalhar na Galiza e para mim é como umha regiom quase cidade com muito espaço verde. A Corunha é como um bairro, Ourense outro bairro, Vigo outro bairro… E como músico estamos todo o dia a mover-nos, porque o nosso trabalho reparte-se por todo o território. A Galiza é umha unidade rururbana, mesmo também chegando ao Porto. Vejo que nom há nenhum sítio na Galiza comparável ao Porto, mas se tu imaginas toda a Galiza como umha unidade… sim que se aproxima do que vemos no Porto. Há umha dinâmica com muitíssimas cousas. Tenho colegas alemães que vivem no Porto e quando vou à Galiza sempre perguntam ‘que há na Galiza?’ Alucinam. Festivais de cinema, festivais de música… Se considerares só Vigo, há quatro cousas, mas em conjunto há muitíssima atividade. Essa é a minha perceçom polo meu trabalho, que é muito sensível para este tipo de cousas. Moves-te muito e é muito deslocalizado.

“Como músico estamos todo o dia a mover-nos porque o nosso trabalho reparte-se por todo o território. A Galiza e para mim é como umha unidade rururbana, mesmo também chegando ao Porto. A Corunha é como um bairro, Ourense outro bairro, Vigo outro bairro…”

Achas que se estám a construir sinergias entre esta vida cultural na Galiza e a de Portugal?

Hum… Eu sem conhecer tudo o que há… Há muitas cousas, e do que conheço tenho a sensaçom de que sim há festivais na Galiza que cada vez trazem mais gente portuguesa. Em geral vês um movimento concreto, cousas isoladas. Nom vejo nada contínuo, nem institucionalmente nenhumha ajuda, nem por um lado nem por outro. Aqui por Portugal olham muito para o Brasil também. Está o ambiente tropical, o tropicalismo. Muitíssima gente compila cousas de Angola, Cabo Verde… Na Galiza temos sobretudo o Licéu Mutante, que traz gente de todo o mundo.

Há umha mina sem explorar aí?

Sim, sim, totalmente. O artístico está aí, mas também contam as instituições. Som administrações diferentes. Em Portugal ademais tem muita importância Lisboa, e a regiom norte tem pouca capacidade de autonomia. E nós, na Galiza, estamos igual, dependendo sempre. E isso tampouco facilita. Fam falta infraestruturas. E dentro da própria Galiza acontece o mesmo, entre a costa e o interior, já sem falar do Porto. Penso que deveria haver mais fluxo entre os dous lados da raia. Ou seja, a língua é um privilégio e logo quando vás por aí… Nom sei, a paisagem, a forma de ser -sobretudo no rural-… temos umhas conexões brutais. É bastante estranho que nom estejamos mais próximos.

“Penso que deveria haver mais fluxo entre os dous lados da raia. Ou seja, a língua é um privilégio e logo quando vais por ai… Nom sei, a paisagem, a forma de ser -sobretudo no rural… temos umhas conexões brutais. É bastante estranho que nom estejamos mais próximos”

Recentemente apresentaste no Mira Forum o mapa emocional de Miraflor, umha iniciativa similar ao mapa emocional de Sam Pedro. Em que consiste?

O mapa foi umha experiência que começamos em Valadares, no espaço de experimentaçom alg-a Lab. Fizemos o primeiro protótipo com umha moça da Polónia e logo fizemos o mapa de Sam Pedro. Depois, aqui, eu conheci umha moça de Viseu e a partir dela conheci o Espaço Mira, que som um coletivo que utiliza uns armazéns em Campanhã, reformaram-os e estám a trabalhar muito com programaçom local para oferecer atividades culturais. Eu apresentei-lhes o projeto e gostárom dele para fazê-lo em Miraflor, que é a rua onde está o próprio espaço, um sítio com muita história. Apresentamos o projeto na Câmara do Porto, ao programa de projetos Cultura em Expansão, e foi aprovado. Apresentamos isto no Natal, junto com a Orquestra Experimental que fiz para complementar o mapa. É um laboratório de criaçom sonora coletiva, com gente de Campanhã. Começamos a ensaiar e organizamos um concerto, estivo muito bem. O projeto da orquestra vai conjunto com o do mapa, porque a ideia é que criar um ponto de partida para trabalhar um determinado território, um laboratório urbano, incluindo experiências a partir da música ou outras cousas como arquitetura, pintura… O mapa é o centro, o contentor, para outras experiências coletivas, trabalhando sempre a partir do e no território.

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O som tem um potencial enorme, nom?

Sim, sim. O som transporta muitas cousas. Transporta memórias, sensações. O som é um espaço super vivo, quando trabalha a nível sonoro dás-te conta que nom te relacionas com ele igual que com o espaço. Decatas-te que a cidade é sensível, como umha espécie de organismo que está vivo, e habitamos um território dum jeito mais orgânico. O som é algo muito físico, muito da pele. Entom, claro, umha relaçom com a cidade ou com o espaço em que estejas chega a ser muito especial, aproxima-te muito da cidade.

E no rural?

Também. O rural emite sons diferentes. Está a teoria dos nichos acústicos, que sustém que tudo tem a sua própria frequência para que nom se disfarcem entre eles. A mim, interessam-me mais os ruídos que emitem os humanos e as máquinas. No rural também fizem cousas interessantes, mas é mais difícil. Na cidade há mais diversidade de sons que no rural.

Quais som os teus próximos projetos além do Parkour Sonoro?

Agora mesmo o Parkour Sonoro já é umha espécie de linha de trabalho de investigaçom a partir da qual surgem cousas e tiro diferentes formatos desse tema. Agora no Porto também gravei umha sessom no Conservatório com um piano. Há dez anos fizera o mesmo. Fora muito divertido. Andava polo Porto e de súbito passei por um sítio que nunca passara. Escuitei um som de piano, entrei e era o Conservatório. Aí já se me ocorreu no momento a ideia, assim que cheguei e fizem a proposta. Inventei no momento que queria gravar um álbum [ri]. Falei com o diretor, fizem um pequeno escrito formal. ‘Sou Nacho, da Galiza… Gostaria muito de utilizar um piano livre…’ [ri]. Fum provar e foi bem. Ali alucinavam porque eles têm pianos ótimos e eu queria utilizar um piano vertical, e nom os pianos de cauda de 150.000 euros [ri]. E nom, eu queria o vertical para meter cousas. Pensariam ‘este homem…’. E foi genial. Estivem a gravar e a preparar, mas o próprio dia que cheguei ali e coloquei os micros alucinei… porque estavam a levar o piano dali: estavam de mudança! Finalmente conseguim que o piano que utilizava eu fosse o último que tiraram dali. Gravei com a gente a fazer barulho e a mudança ao meu redor. E com o resultado saiu Bachelor in Human: Music, art and poetry (Non Ou Edicións).

E nos projetos atuais?

Este ano o mesmo. Cheguei a um acordo com o Conservatório e o diretor para fazer duas sessões em fevereiro e agosto, mês e algo. Tenho bastante material gravado e tenho outro projeto, que irei tirando com calma. Tenho pensado lançar um disco de piano só. Depois tenho outro projeto mais de eletrónica que levo fazendo anos e modificando cada certo tempo. Chama-se N4ch0 ou Bailarico Noise. É umha mistura de música eletrónica em direto, noise com baile. Também estou agora com Gui, que é um tipo de Cabo Verde com que estou a produzir, ajudando-lhe a gravar uns temas que tem. Ele já gravara um álbum que está incrível, e agora estou ajudando-lhe a gravar o segundo volume. Estamos no processo. É umha espécie de música africana dos oitenta. Ele canta incrível, cá chamam-lhe o Michael Jackson do Porto. Tem boa voz e temas super bailáveis, simples, de guitarra africana e eu fago a eletrónica. Está muito bem, mas ainda estamos a começar.

Aqui Cabo Verde tem bastante presença de gente a fazer cousas, mas sobretudo é Brasil. Notas a presença brasileira. Por exemplo há dez anos eu notava mais a presença negra, nom sei se era polo sítio em que vivia, mas sentia mais a presença africana. Agora empurra mais o Brasil e menos África, mas é umha perceçom. Também é certo que muita gente na altura estava no Porto e foi para Lisboa. Há dez anos havia pouco trabalho… Agora também, talvez, mas acho que muitos africanos voltaram de novo para Lisboa.

IGMIG

Como definirias a cena musical contemporânea dali?

Vejo claramente que há muita gente nova, e isso marca muito. A gente nova junta-se e fai cousas. É o primeiro que notas. Ademais, ao ter universidades chega bastante gente de fora de Portugal e de outros pontos de Portugal. Gente com ideias novas. Há também boas escolas a nível artístico e isso ajuda. Há gente a fazer cousas e, à diferença da Galiza, aqui tudo está mais misturado. Fam aberturas de rua com galerias de arte, música, projetos de desenho, arte, performances… Tudo o mundo faz de tudo.

Interessa a Galiza em Portugal?

Algumha gente conhece a Galiza, mas penso que estám abertos para outros sítios. A Europa, o tropicalismo e mesmo há muitos artistas a fazer cousas muito relacionadas com o Porto, a própria cidade. Aqui também está a entrar a globalizaçom à bruta mas ainda ficam muitas cousas daqui, muito localismo. Ficam muitas cousas por descobrir. Porém, sim que há cousas com a Galiza, sobretudo, se calhar, na poesia. Eu estivem há dias com o Tiago Alves –da revista Palavra Comúm– e sim que há sinergias na poesia ou na literatura. Há muitos escritores que conhecem obras de autores galegos e ao contrário. – Há umha relaçom, polo idioma… Sim, penso que nesse ponto sim que há, mesmo de pessoas portuguesas que traduzem poetas galegas e cousas assim.

Pensas voltar algumha vez à Galiza?

Eu estou muito bem cá, ao lado da família, porque está em Vigo… Estou bem cá. Nom tenho intençom de voltar à Galiza nem a nenhum lado, porque o Porto está mudando muito rápido, o Porto muda rapidíssimo. Eu vivo na zona histórica, num sítio genial chamado Rosa Imunda, que é umha espécie de casa rural no meio do Porto, sé dumha associaçom cultural onde cabem movimentos antifascistas, antirracistas, antidespejos… Estám muito centrados nesses temas. E aqui estamos, resistindo.


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