GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO

A moderna literatura fantástica brasileira: Roberto de Sousa Causo

Paulo Soriano bota luz sobre uma das vozes contemporâneas da literatura fantástica do Brasil, Roberto de Sousa Causo.



Roberto de Sousa Causo

O escritor paulista Roberto de Sousa Causo é um dos principais expoentes da moderna ficção fantástica brasileira. Autor dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006), Anjo de Dor (2009), Glória Sombria: A Primeira Missão do Matador (2013), Mistério de Deus (2017) e Mestre das Marés (2018), é, igualmente, prolífico contista, como se constata dos volumes A Dança das Sombras (1999) e A Sombra dos Homens (2004), e de diversas antologias das quais participou. Seus contos apareceram em revistas e livros na Argentina, Brasil, Canadá, China, Cuba, Finlândia, França, Grécia, Portugal, República Tcheca, Rússia e, recentemente, Espanha.

Mas Causo já é conhecido do público galego. Em 2016, ele participou da antologia de ficção científica A Voz do Mundo, publicada pela Através Editora, com o conto Elocução Final. Segundo o talentoso ficcionista brasileiro, a história, originariamente escrita para a coletânea por mim e Valentim Fagim organizada, acabou se tornando o conto central para o arco narrativo que deu forma ao primeiro livro de sua interessante heroína (Shiroma, Matadora Ciborgue, 2017).

Causo completa 30 anos de carreira: a sua primeira história, o conto A Última Chance, apareceu na revista francesa Antarés-Science Fiction et Fantastique sans Frontières em 1989.

Como um dos pilares desta coluna consiste na divulgação da literatura fantástica latino-americana na Galiza, apraz-nos dar aos seus leitores uma obra fantástica de Roberto de Sousa Causo: O Laboratório do Dr. Frankenstein, conto natalino em que um homem arruinado tem um surpreendente encontro com o seu monstro interior:

O LABORATÓRIO DO DR. FRANKENSTEIN

Ele caminhava com o passo ajustado por anos de prática, pisando apenas nos dormentes. Era um homem alto, não tinha dificuldade em manter o passo de acordo com a distância entre um bloco de madeira e outro, mas de maneira mecânica, ausente como a de um morto-vivo. Seguia sempre a linha férrea. A expressão “cair na estrada” significava para ele, desde o início, seguir a ferrovia e a anonimidade, a invisibilidade desse mundo que cortava os espaços visíveis das cidades.

Não se lembrava desta cidade que vinha se configurando há alguns quilômetros, vislumbrada entre campinas, alagados, renques de eucalipto, plantações e pátios de fábricas, embora com certeza já tivesse passado por ela. Era a terceira vez que descia para o interior…

Pesadas nuvens escuras se chocavam sobre a cidade, com trovões e relâmpagos que explodiam como o troar de canhões. Raios partiam de uma a outra como se, ocultos pelos cúmulos nimbos, deuses irascíveis lutassem uns contra os outros, rosnando e rugindo. Ia anoitecer em breve, e não havia meio de escapar da chuva que o castigaria com a força de uma tempestade tropical.

A estrada de ferro corria diante de uma enorme construção monolítica, entrevista por trás de moitas de capim colonião e de cinco enormes palmeiras. Parecia abandonada, as dezenas de janelas voltadas para a ferrovia há muito estilhaçadas. Ele buscou com o olhar uma passagem na cerca de arame trançado.

*

Por trás da cerca havia um complexo de construções. A maior, mais alta, era antecedida por uma plataforma diante de trilhos paralelos. Dentro, um espaço abandonado de vários pisos vazados onde, há muito tempo, máquinas teriam se erguido como torres até roçarem o teto lá em cima. Agora, jaziam desmontadas em pilhas que formando quarteirões metálicos entre caminhos traçados nos seus intervalos. Ele, por alguma razão, não achou que seria um bom local para se abrigar.

Ao lado da primeira, havia outra construção, menor, que ele explorou ligeiramente – estava bem mais suja, cacos de vidro e de telhas de cerâmica por todo lado, restos de ocupação de mendigos como ele: montes de fezes escurecidas, trapos e calçados pelos cantos, papéis e sacos de lixo. Não gostaria de ficar ali.

Saiu, para ser saudado por nova salva de trovões – o cheiro de ozônio no ar parecendo especialmente adequado a este antigo local de máquinas e trabalhadores –, e olhou em torno.

Talvez tivesse sorte mais acima, para os lados do terreno voltados não para a ferrovia, mas para a rua que seguia em paralelo.

Nesse ponto a rua delimitava o fim de uma avenida com um largo canteiro central, ladeados de galpões e umas poucas casas – um trecho mais industrial da cidade? Mas não havia luzes demais, na fachada de algumas casas? Luzes coloridas.

Dentro do terreno, deparou-se com mais uma construção, simples e angulosa como as outras, um cubo fincado num rebaixo no terreno. Devagar ele se aproximou do prédio, notando a porta de metal. Como uma porta corrediça de loja, mas de quase cinco metros de altura, voltada para uma rampa de concreto. Tentou imaginar que maquinário precisaria de uma porta tão alta, para ser instalado ali. O que lhe importou, porém, era que estava entreaberta – e que a chuva já caía em gotas gordas e geladas, vindas daquelas nuvens marmóreas que se erguiam até as camadas mais frias da atmosfera.

Dentro, ao longo da parede mais longa, outra plataforma, onde operários haviam trabalhado em enormes transformadores elétricos, a julgar pelos isoladores vermelhos de porcelana espalhados por ali. Lembrou-se que já estivera em subestações de força como esta, sobreviventes da transição das marias-fumaças para as locomotivas elétricas, e vistas por todo o interior até Marília, no fim da linha. Por isso tomou o caminho lateral até uma escada estreita, que revelava um espaço mais recôndito, também despido de suas máquinas, restando apenas as linhas nuas e retas de um labirinto de paredes de tijolos à vista.

O animal que havia nele sentiu que essa toca, escura e enfiada sob o solo, seria o melhor lugar. Mas no mesmo instante em que a chuva engrossava lá fora, ele notou a água empoçando de uma infiltração junto ao rodapé das paredes.

Voltou ao salão principal, escolheu se encorujar contra o lado mais distante da entrada, por trás de uma barreira de isoladores vermelhos. Relâmpagos iluminaram seus passos.

*

Em pouco tempo desceu a noite, rasgada ocasionalmente pelos flashes poderosos dos raios. Trovões sacudiam o teto. Por duas vezes, cacos de vidro desceram da linha de janelas junto ao teto. Os deuses ainda batalhavam lá fora, os homens não eram os únicos responsáveis pelo vandalismo.

Na rua ali próxima, as luzes se acenderam nos postes. As janelas junto ao teto deixavam entrar a iluminação e o borrifo das gotas partidas ao atingirem o telhado, descendo em véus semitransparentes. Ele contemplou a sua agitação silenciosa lá em cima, até que seu olhar fosse lentamente atraído, arrastado, para o canto esquerdo da mesma parede em que se apoiava. Sentiu um calafrio descer por suas costas. O que havia ali?

Uma forma escura destacou-se das sombras.

*

Uma mulher negra, de olhos muito amendoados e pupilas muito escuras, fincadas nele. Em contraste, seus lábios eram pequenos, quase pueris, que se separaram para perguntar:

– Você veio da linha do trem, ou da cidade?

A voz era roufenha, coaxante. Parecia muito mais velha do que o seu rosto sugeria.

– Da linha – ele disse. Em seu peito, o coração já se aquietara. – E você?

– Da cidade. Eu moro aqui.

Ele se perguntou se ela queria dizer a cidade, ou o prédio. Certamente já estava se escondendo ali, quando ele chegou. Talvez não desejasse partilhar o abrigo com ninguém. Ele não queria encrenca. Uma gritaria nesse lugar, mesmo com a chuva forte e a trovoada, talvez chamasse a atenção de algum vigia.

– Eu tenho comida – disse, lembrando-se das salsichas na sua trouxa.

A mulher saiu por inteiro do seu canto, veio caminhando comicamente sobre os joelhos, agitando os braços para se equilibrar. Parou a dois metros dele, que teve que estender o braço para dar uma das salsichas a ela.

Um rapaz que trabalhava num supermercado em Campinas lhe havia dado dois pacotes de salsichas, agora reduzidas a um punhado, avisando de que tinha apenas dois dias para consumi-las. Ele não se lembrava se o prazo de validade havia vencido ou não. De qualquer forma, já havia comido lixo antes em suas andanças, e sobrevivera.

– Como se chama a cidade? – perguntou, depois que ele e a mulher tinham mastigado suas salsichas.

– Sumaré, perto de Campinas.

Ela estendeu a mão, para apanhar outra. Antes de mordê-la, perguntou, com um meio sorriso em sua boca de menina:

– Qual é a sua história?

– Minha história?… Quer dizer, por que estou nesta vida? – Ela assentiu com a cabeça. Por que não? Já havia contado a sua história, embriagado ou sóbrio, a tanta gente, acossando pessoas em pontos de ônibus, em bancos de praça. – Minha mulher e meu sócio me traíram, roubaram de mim o controle da minha empresa em São Paulo. Depois disso eu…

– Entrou na garrafa? – ela completou.

– E daí em diante perdi tudo, fui pra sarjeta. Resolvi não ficar na Capital. As ruas lá são violentas demais.

Pensou até em contar que nem se lembrava mais da última vez que havia se embriagado. De algum modo, ao longo do caminho, o alcoolismo ficara sobre os dormentes, caído à beira dos trilhos como cacos de vidro. Como todo o resto. A mulher, o negócio, os irmãos e os filhos.

Ao invés, perguntou:

– E você?

Ela apontou com a salsicha para a própria cabeça.

– Pra fugir das visões – disse.

Ele não soube o que pensar disso. Na vagabundagem havia gente de todo tipo, os traídos e os abandonados, os bêbados e os viciados, mas os loucos eram de longe os mais patéticos. Se bem que a solidão e a humilhação da mendicância tornavam todos um pouco loucos. Concentrou-se em comer.

– Sabe que dia é hoje? – a mulher insistiu, depois de um tempo.

– Não.

– Véspera de Natal – ela declarou, falando de boca cheia.

Havia riso, ironia em sua voz rouca? Sentiu que sim. Ele a alimentava, e era assim que ela agradecia?… Não lhe importava que fosse louca ou não – subitamente ele se enxergou levantando-se e se jogando sobre ela, cobrindo-a de golpes, até apagar com os punhos a sua ironia.

Mas controlou-se. Respirou fundo, inalando o odor rançoso dos dois. Perdeu a raiva, perdeu a fome. Retornou sua meia-salsicha ao saco plástico dentro de sua trouxa.

– Vai guardar pra ceia de Natal? – a mulher perguntou, quase rindo, sua voz soando como a de uma bruxa de desenho animado.

Ele ignorou-a, concentrando-se nas janelas iluminadas no alto. Podia ver reflexos vermelhos, azuis e amarelos nos vidros restantes, das luzes natalinas lá fora? Teve o impulso de sair, de enfrentar a chuva para apreciá-las, mas não. Havia deixado os trilhos mas ainda estava num território anônimo, invisível, em que não fazia sentido a alegria boba do Natal.

*

O sono veio e com ele a ausência de sentidos. Apenas a consciência distante reconhecendo que não sonhava com a esposa e os filhos, perguntando-se se ficaria feliz ou infeliz por sonhar com eles. Decidiu que era melhor não revê-los nem em sonho – não adiantava em nada reviver a fonte de suas aflições, um pesadelo não poderia ajudá-lo a sair de outro.

– Mentiroso – ouviu.

Desperto, virou-se para a mulher ao seu lado. Ela mantinha sua distância de segurança, mas havia afastado o cobertor sujo do corpo. Estava deitada de costas, braços e pernas afastados do corpo, mãos contraídas em punhos pequenos, olhos fechados.

– Mentiroso… – depois de uma longa expiração.

Falava dormindo? Falava com ele, acusando-o, mas sem despertar?

Novamente sentiu o impulso de levantar-se e agredi-la, pisar em sua garganta, esmagar sua boca de criança, de onde saía sua voz de bruxa velha… Cobriu o rosto com as mãos.

Fazia frio, agora. Podia sentir a umidade no ar. Podia ouvir a chuva atingindo os telhados e o chão lá fora, via a nuvem de gotículas descendo do teto. Um relâmpago explodiu, tingindo tudo de branco-azulado, emprestando formas fundidas em suas retinas, ao borrifo.

Arregalou os olhos.

O que vira ali – uma foto de casamento em três dimensões?… Ele e Cida, sua esposa, abraçados e sorrindo?

Enxugou as lágrimas no ombro do casaco sujo que vestia.

– A mentira… – ouviu da mulher deitada ao seu lado. Olhou para ela.

Seu peito subia e descia como se ela tivesse corrido uma maratona, mas o rosto mantinha-se impassível, os olhos fechados, a boca pequena delicadamente apertada contra os dentes, as narinas no nariz chato dilatando-se no ritmo da respiração.

Outro relâmpago explodiu, fazendo-o girar o rosto. Um raio pulsava no alto do recinto, entrara por uma janela e saíra por outra, do lado oposto, ou esteve ali por um segundo – uma ponte luminosa fazendo doer seus olhos, e seu coração pular no peito.

Então se apagou, reacendeu-se como uma esfera faiscante que pairou, subiu, encontrou a faixa iluminada das ruas, materializou outra imagem do borrifo – ele agarrando Cida pelos cabelos… Um pulso do raio-bola e a imagem modificou-se: Ele derrubando seu primeiro filho com um tapa.

Estendeu o braço direito para bloquear a imagem. Olhou para a mulher – não queria que ela visse o que ele via, testemunhasse sua vergonha. Louca ou não, ele não desejava que sua consciência enxergasse a verdade pairando no ar. Mas ela ainda tinha os olhos fechados, agora apertados, as pálpebras espremidas.

Um novo relâmpago ofuscou o raio-bola, desfez tudo – a visão, o teto, as paredes… Ele sentiu um choque sacudir seu cotovelo direito, o cheiro de tecido queimado. Baixou o braço, abriu bem os olhos apesar da dor – outra imagem, mais uma violência contra Cida – então fagulhas caíram do teto numa cascata. Um outro raio entrou e saiu pelas janelas, gerando tentáculos que pareceram por um segundo procurá-lo ansiosamente.

– Eu não sou um monstro! – gritou.

Mas agora não precisava das imagens incandescentes para lembrá-lo – não existira traição de sua mulher e deu sócio, Amauri. Apenas a tentativa dele de protegê-la e às crianças, da sua violência. Convencê-la a se separar dele, os acionistas a afastar o diretor bêbado da empresa. E a bebida não viera com a separação, com a perda do controle da firma, mas precedera tudo, motivara tudo, as fundações de sua autodestruição. E ele persistira com a mentira, a história criada para iludir-se, que ele insistia em repetir até para uma estranha como a mulher negra. A mentira…

Sentindo o ar estalar à sua volta, achou que ia morrer. Os raios o fariam em pedaços, queimariam toda a culpa. Teria enfim o seu castigo.

*

Havia se atirado de bruços ao lado da mendiga.

Ergueu lentamente o rosto, ainda vivo, e percebeu que a construção retornara à penumbra anterior. A mulher ainda ofegava, agora arqueando as costas até tirá-las do piso, a cada inspiração. Ele estendeu um braço trêmulo, ainda dolorido do choque, e sacudiu-a. Ela não respondeu ao toque.

Devagar ele se sentou. Apenas o ruído da chuva, o borrifo luminoso caindo em cortinas caóticas, indistintas. Então mais um raio explodiu e diante dele estava a figura pálida, serena, ereta de Cida, seus cabelos negros descendo pelos ombros, ocultando parte do seu rosto oval, o canto de um olho castanho.

Ele quis gritar, mas não o fez. Ao invés, murmurou:

– O quê?… Como?

– Não estou mais entre os vivos, Tiago – ela disse, com a mesma voz que ele conhecia, de que tinha tantas saudades. – Um acidente de carro, pouco mais de um ano depois que você foi embora.

Ele a encarava sentado, os joelhos contra o peito, os braços abraçando-os. Um fantasma, então?

– Você veio me buscar? – perguntou, a voz trêmula, quase inaudível.

– Não vim por vingança – ela disse. – Qualquer desejo de vingança que eu tivesse, ficou para trás há muito tempo. Mas também não vim te conceder meu perdão.

– O que você quer?

– Nossos filhos precisam de você, Tiago. Eles ficaram com os meus pais, que estão velhos. É hora de você voltar para as crianças.

– Não posso… – balbuciou, sem parar para pensar no que ela lhe dizia.

O fantasma de Cida se aproximou mais.

– Fique em pé – ela ordenou, e ele, assustado, obedeceu também sem refletir. – A sua vida desde que nos separamos tem sido apenas fuga e mentira. Chega!

– Eu nunca fui bom pra eles.

– Você não é um monstro. Não foi o que disse há pouco? Deixou a bebida…

Ele apontou a mulher inconsciente aos seus pés.

– Mas não a raiva. Há poucos momentos, eu me vi pisando na garganta desta coitada. Você não quer isso para os seus filhos.

– Houve um tempo em que não havia raiva em você – ela disse, sem se abalar. Era como se já soubesse de tudo o que se passava dentro dele. – Volte a esse tempo, refaça você mesmo a partir do que foi perdido, e do que ainda conserva…

– Não. Muita coisa aconteceu… Eu não posso remontar os restos da minha vida.

Cida se aproximou ainda mais. Carregava sua própria luz, havia um brilho diferente em seus olhos.

– Você não pode viver no limbo – disse. – Não enquanto seus filhos precisarem de você.

– Eles nunca vão me aceitar de volta. Não depois do que eu fiz…

– Você é tudo o que eles têm.

Agora ele a ouvia com atenção, refletia sobre o que ela lhe falava. Ela o tocou com sua mão pequena, e ele a sentiu, sentiu seu apelo. Mas ainda assim, como poderia? Agora que toda a verdade abafada por tanto tempo pela fantasia da traição vinha à tona? As imagens de sua violência doméstica, antes tão cuidadosamente apagadas, enterradas nos recessos mais distantes da memória, resgatadas com um fulgor elétrico para ocuparem outra vez o primeiro plano de sua vida, fazendo crepitar os nervos de sua consciência num tormento que, ele sabia, seria eterno. Melhor viver no limbo, na mendicância, melhor…

Não enquanto seus filhos precisarem de você.

– Eu não sei como voltar! – gemeu, enfim.

Diante dele, Cida sorriu pela primeira vez, e Tiago acreditou que ela talvez viesse a perdoá-lo. Um dia, quando ele também fosse um fantasma. Agora ela apontava além das paredes do abrigo, para a estrada de ferro.

– Os trilhos estão lá fora – disse. – Basta segui-los na direção de onde veio.

*

O fantasma de Cida havia partido. A mulher negra parou de ofegar. Tiago sacudiu-a até que acordasse. Ela não reagiu à sua voz, mas concedeu que ele a puxasse pelos braços até ficar em pé. Ele tomou-a pela mão e a levou até a saída, até a enorme porta de correr, por onde passaria um gigante. E dela para a rua.

Mais tarde tomaria o caminho inverso dos trilhos. Ainda nesta noite. A tempestade se fora, parte das nuvens se dissipara. Passava da meia-noite e não chovia mais. Não havia ninguém nas ruas. Mas as luzes coloridas e piscantes, refletidas no asfalto molhado, sugeriam a alegria de muitos encontros nos espaços protegidos das casas.

Queria ver as luzes de Natal, antes de voltar.

Seria o seu primeiro passo.

Respirou fundo. Sentira-se morto – mais morto do que Cida – até um momento atrás. Mas estava vivo agora. E pretendia continuar assim.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim.Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
Paulo Soriano

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