Milhadoiro, importante grupo folclórico galego e lusófono



milladoiro-1527672210-1x1780O “Mundo Lusófono” e os países que o integram, com a nossa língua internacional e oficial, não só destaca por ter importantes personalidades e vultos culturais, nomeadamente nos campos da literatura, da música, do cinema, do ensino, das ciências e das artes todas. Também destaca por ter pessoas coletivas, grupos musicais, folclóricos, de canção e dança popular, corais, orquestras e coletivos de música clássica, etc., que desenvolveram e desenvolvem um muito interessante labor cultural nos diferentes campos. Por esta razão, tomei recentemente a decisão, acho que acertada, de deixar de publicar durante uns meses depoimentos monográficos sobre literatos e artistas lusófonos, para dar cabida a pessoas coletivas importantes que, por sorte, também temos na Lusofonia. Em próximos artigos publicaremos trabalhos dedicados a grupos de cantares populares, corais, ranchos folclóricos e grupos de danças e de música. De Portugal vão ter um merecido espaço os famosos grupos Madredeus, Colheita Alegre, Maio Moço, Trovante, Ronda dos Quatro Caminhos e o grupo de cantares “Belaurora” dos Açores. Da Galiza, entre outros, A Roda, Faíscas do Xiabre, Fuxan os Ventos, A Quenlha, Berrogüetto, Luar na Lubre, Arco da Velha e Milhadoiro, ademais de corais como Ruada, Casablanca, Cantigas e Agarimos, Tojos e Flores, grupo de danças Castro Floxo de Seixalvo, Ballet Galego “Rei de Viana” e mesmo famosos grupos de gaitas como Os Dezas de Lalim ou Os Gaiteiros de Soutelo. Início esta minissérie com o depoimento dedicado ao grupo folclórico Milhadoiro, criado em 1979, pelo que cumpre agora 41 anos de vida. É este o número 51 da série de artigos dedicada à Lusofonia.

UMA PEQUENA HISTÓRIA

xurxo lobato

xurxo lobato

O famoso grupo folclórico de música galega e celta chamado “Milhadoiro” foi criado no outono de 1978, sendo da zona de Catoira a maioria de seus músicos. Deu-se a conhecer pela primeira vez com um concerto e uma atuação pública no Colégio dos PP. Salesianos de Corunha em 15 de maio de 1979.  Muitas vezes, em comparação com os Chieftains, este está entre os melhores grupos do mundo de música celta. Em 1978, Rodrigo Romaní e Antão Seoane lançaram um álbum sob o nome de “Milhadoiro”, em que foram acompanhados por José V. Ferreirós, então acreditado como artista convidado. O álbum recebeu o prémio da crítica do mesmo ano. Ferreirós, juntamente com Nando Casal e Moncho Garcia Rei, de seu grupo “Faiscas do Xiabre”, pediram a Romaní e Seoane como convidados no seu próximo álbum. A fusão dos dous grupos, com a adição do flautista José A. Mendez e a violinista Laura Quintilhám, constitui a base de Milhadoiro, que encheu a cena musical galega dos últimos anos do século XX. Para comemorar o 25º aniversário da banda, um álbum de compilação, XXV (25), foi lançado em 2005. Em 2006, Chis Thile cobriu a sua canção “O Santo de Pólvora” no seu álbum Como crescer uma mulher da terra.
milhadoiro-foto-rtve-esO grupo nas suas origens e primeiros anos de vida esteve formado pelos seguintes músicos: Rodrigo Romaní: Harpa Celta, Guitarras, Bouzouki, Ocarina e Voz (de 1978 a 2000); José V. Ferreirós: Gaita, Oboe, Uillean Pipes, Whistles, Mandolina (bandolim) e Bouzouki (bazouca) (desde 1978); Nando Casal: Gaita, Clarinete, Cromorno e Whistles (desde 1978); Antão Seoane: Guitarra, Acordeão e Teclados (de 1978 a 2013); José A. F. Méndez: Flauta Transversa e Flauta de Pico (de 1979 a 2013); Moncho Garcia Rei: Bodhram, Tamboril e Percussão (desde 1978) e Laura Quintilhám: Violino (de 1979 a 1980). De 1980 a 1993 o violinista foi Michel Canadá e de 1993 a 1997 Antão Seixo. De 2000 a 2009 integrou-se no grupo Roi Casal, sendo tocador de harpa, bouzouki, ocarina e percussão.
No momento atual integram o grupo os seguintes músicos: José V. Ferreirós, Nando Casal, Moncho Garcia Rei, Manu Conde (desde 2000, tocador de guitarras e bouzouki), Manu Ribeiro (desde 2013, tocador de acordeão e teclados) e o violinista Harry. C (desde 1998). O grupo foi premiado pela melhor música original na primeira edição dos “Goya”, pela banda sonora de “La mitad del cielo”, e em 1995 recebeu o prémio do Círculo de Escritores Cinematográficos na categoria de melhor música pela banda sonora do filme “El rey del rio”. Também recebeu as medalhas Castelão em 2004 e a da Galiza em 2012.

A seguir resenhamos uma pequena, embora importante, cronologia do grupo:
1978: Edita-se o disco Milhadoiro (Antão Seoane, Rodrigo Romaní e José V. Ferreirós).
1979: O considerado primeiro disco do grupo, o intitulado A Galiza de Maeloc. Milhadoiro começa a atuar nos festivais de Ortigueira e Lorient.
1980: O berro seco. Atuam no Festival de Edimburgo (Escócia).
1982: Milhadoiro III. A BBC grava na Galiza e na Escócia um episódio sobre a Galiza chamado Os celtas divertem-se, com a colaboração dos Milhadoiro.
1984: Saem os discos Solfafria, e Ris orangis (ao vivo, de Paris).
1985: Banda sonora do filme La mitad del cielo, de Manuel Gutiérrez Aragón.
1986: Galiza no país das marabillas. Ganham o prémio Goya pela banda sonora do filme La mitad del cielo.
1987: Banda sonora do filme Divinas palabras (de José L. García Sánchez), e banda sonora do filme La memoria fértil (de Domenech).milhadoiro-capa-cd-a-quinta-das-lagrimas
1989: Castellum Honosti. Colaboram com Paul Winter no disco Solstice Winter.
1990: Banda sonora da exposição Galiza no tempo.
1992: Menção honorífica da Indie Award (em Texas, EUA).
1993: Banda sonora de Os caminhos de Compostela, série de TVE-TVG.
1994: Edição de Iacobus Manus, gravado com a English Chamber Orchestra.
1995: Editam Gallaecia Fulgit e As fadas de estranho nome, a banda sonora de El rey del río (de Manuel Gutiérrez Aragón) e colaboram com o Liam O´Flynn no disco The Given Note.
1998: Travesias, obra para orquestra sinfónica.
1999: No confim dos verdes castros. Edita, também Água de maio.
2002: O ninho do sol, em que contam com as colaborações vocais de Laura Amado, Kathy Mattea e Faustino Santalices (recuperando a sua voz duma gravação de perto de 50 anos antes). Neste ano o grupo é formado por José Antão F. Méndez, José V. Ferreirós, Nando Casal, Antão Seoane, Moncho Garcia Rei, Harry C., Manu Conde e Roi Casal.

No seu último álbum, “A Quinta das Lágrimas” (editado em 2008), os Milhadoiro ligam, intimamente, a Galiza a Portugal. Há canções medievais galaico-portuguesas, há a Lenda e História de D. Pedro e Dª. Inês, o rei português e a rainha (coroada post mortem) galega!, há poesia de Luís Vaz de Camões (que ilustra essa História, no seu quarto canto de “Os Lusíadas”), há poesia de Fernando Pessoa (“Mar Português”, de A Mensagem, em que os Milhadoiro tocam para Mafalda Arnauth cantar, num fado que nos une ainda mais, a portugueses e a galegos) e há o “Venham Mais Cinco”, de José Afonso, declaração de amor e amizade à solidariedade entre os iguais, sejam do lado de cá e de lá desta fronteira fictícia (entre Portugal e Galiza) sejam de outra fronteira qualquer. José Afonso, que desde sempre, fez e desenhou o maior e mais indelével, musicalmente, entenda-se, traço de união entre os dous povos, Portugal e Galiza.

No seu último álbum, “A Quinta das Lágrimas” (editado em 2008), os Milhadoiro ligam, intimamente, a Galiza a Portugal.

Cruzando-se com inúmeros grupos e artistas de outras tradições irmãs, desde 1978, os Milhadoiro, cujo nome remete para a lenda e as práticas (atuais e não lendárias, apesar de a essa lenda se remeterem) dos Caminhos de Compostela, têm sido os principais embaixadores, ao lado dos Luar na Lubre, Berrogüetto e outros, de uma música que vive, sobretudo, das raízes que nos alimentam e ensinam e de umas antenas que nos iluminam novos caminhos, os de Compostela ou muitos outros.
Ao longo de mais de quarenta anos, os Milhadoiro, com o seu acervo de canções tradicionais e preservando de forma viva a forma de tocar instrumentos como a gaita galega, as pandeiretas, as flautas, as sanfonas e os pandeiros…, mas usando também os bouzoukis, os bodhrans e muitos outros instrumentos que a tradição galega recebeu, protegeu e acarinhou, são um dos maiores, se não o maior, exemplo de como uma tradição musical pode permanecer viva e atual em pleno Século XXI.

Rodrigo Romaní

Rodrigo Romaní

Para além dos temas tradicionais galegos e dos seus temas originais, e todos eles devedores da sua tradição galega (à mistura com algumas outras), os Milhadoiro também interpretam temas tradicionais com os quais se sentem, naturalmente, identificados, da música irlandesa, escocesa ou da Bretanha. Numa crença unitária e identitária, os Milhadoiro partilham a ideia, comum a outros povos, de que existe mesmo uma “irmandade celta” que une historicamente, culturalmente e musicalmente todos os povos denominados “celtas”. Muitos destes povos aspiram, desde há muitos séculos, à independência (a Escócia e a Irlanda ocupada pela Inglaterra são os mais óbvios mas também há fortes movimentos independentistas na Galiza ou, mais para norte, no Estado francês, na Bretanha).

Há mais de quarenta anos, Rodrigo Romaní, da primeira formação dos Milhadoiro, disse numa entrevista a uma publicação inglesa: “Nós queremos fazer o mesmo (pela música galega) que os Chieftains fizeram pela música irlandesa ou o Alan Stivell com a música bretã”. Ao fim deste tempo, deste tempo todo, podemos dizer que o conseguiram (ou ainda mais). São um exemplo e um espelho e um “caminho” a seguir (tal como os de Compostela).
Em 1999 a editora Ir Indo de Vigo publicou uma monografia sob o título de Milhadoiro: Muito mais que um grupo de música folk, da autoria de J. Manuel Estévez.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0. Milhadoiro em Concerto.
Duração: 72 minutos. Ano 2011.

1. Concerto completo em Leganés (Madrid).
Duração: 90 minutos. Ano 2015. Produtora: Telesur.

2. Milhadoiro em concerto (Narão, 2008).
Duração: 11 minutos. Ano 2008.

3. Cantos de pandeiro de Cabana e Corcoesto, por Milhadoiro.
Duração: 7 minutos. Ano 2014. Ponte Vedra: 14 de agosto de 2014.

4. Canção da Noite, por Milhadoiro.
Duração: 7 minutos. Ano 2016. Produtora: TVG (Luar).

5. Inês de Castro, por Milhadoiro.
Duração: 5 minutos. Ano 2010. Do disco “A Quinta das Lágrimas”.

6. Água de Maio, álbum de música celta de Milhadoiro.
Duração: 68 minutos. Ano 2017.

7. O bruxo da montanha, por Milhadoiro.
Duração: 4 minutos. Ano 2006. Do álbum “O ninho do Sol”.

DISCOGRAFIA BÁSICA DO GRUPO

A partir do segundo ano da sua criação o grupo Milhadoiro foi dando a lume numerosos e interessantes discos, muitos dos quais se podem encontrar em formato CD.
1979 – A Galiza de Maeloc.
1980 – O Berro Seco.
1982 – Milhadoiro 3.
1984 – Solfafria.
1986 – Galiza no país das Maravilhas.
1987 – Divinas Palabras.
1989 – Castellum Honesti.
1991 – Galiza no Tempo.
1993 – A Via Láctea.
1993 – A Geometria da Alma.milhadoiro-capa-livro-monografico-sobre-o-grupo
1994 – Iacobus Magnus.
1995 – Gallaecia Fulgit.
1995 – As Fadas de Estranho Nome (ao vivo).
1999 – No confim dos verdes castros.
1999 – Água de Maio.
2002 – O ninho do Sol.
2002 – Adobrica suite.
2005 – XXV (25).
2006 – Uma estrela como guia.
2008 – A Quinta das Lágrimas.
2016 – Milhadoiro em Ortigueira (CD + DVD).
2018 – Atlântico.

Também existem publicadas as bandas sonoras de Divinas Palabras (1987) e Tierra del Fuego, junto a Ángel Parra (2000).

UM PEQUENO MANIFESTO DO GRUPO

No seu momento, os membros do grupo Milhadoiro deram a conhecer um pequeno manifesto, que tenho por bem resenhar a seguir:
“Compartíamos e compartimos a paixão pela música e pelo nosso país galego, mas sendo conscientes de que o caminho, o emblemático caminho compostelano é via de dois sentidos e daí o nosso nome. Os milhadoiros que guiavam os passos dos peregrinos que se achegavam à Galiza, permitiram-nos abrir-nos às muitas influências que enriqueceram este canto da Europa.milhadoiro-capa-cd-o-berro-seco
Somos e sentimo-nos daqui na medida em que cremos conhecer e respeitamos o mosaico temporal-espacial rico e diverso em que vivemos. Não pretendemos proclamações com a música, tão só divertir e divertirmo-nos com este tesouro que são as melodias que esta terra nos legou, fruto de gerações anónimas de músicos tradicionais.
A nossa aspiração seria devolver o muito recebido em forma de música formosa e viva que nos ajude como país a manter um lugar de identificação coletivo que nos permita continuar a existir sob o irremediável manto da aldeia global.
Assim foi e continua a ser a nossa pequena história, a história que começou no outono de 1978 e que demos a conhecer pela primeira vez um 15 de maio de 1979 no Auditório dos Salesianos da Corunha”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada ao grupo folclórico galego Milhadoiro. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, discos, CDs e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino uma Audição Musical das mais famosas peças do grupo Milhadoiro, em que participem alunos e docentes. A escolha das peças musicais da audição podemos fazê-la dos seguintes discos do grupo: A Galiza de Maeloc (1979), O Berro Seco (1980), Água de Maio (1999) e A Quinta das Lágrimas (2008).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • Miro Moman

    Milhadoiro internacionalizou a música galega e abriu caminhos pelos que outros transitariam (incluída essa espanholada hegemónica hoje em dia na música galega).

    • Paulo O’Lema

      De facto, a cada vez que aparece uma reportagem daquelas sobre “música galega na atualidade”, os Milladoiro ainda costumam ser mencionados como o referente a ultrapassar, enquanto representantes da “música celta”,que,ao que parece, foi muito daninha para a música galega (ou essa é a conclusão que se tira dessas reportagens…).

      • Miro Moman

        Como já tenho assinalado com anterioridade, existem duas expressões que permitem à cultura galega existir no mundo sem falar castelhano nem pagar portagem em Madrid.

        1.- O reintegracionismo.

        2.- A música galega de raiz atlântica (celta o como se lhe quiser chamar, tanto faz, ao cabo, são simples etiquetas comerciais).

        Então, claro, obviamente, são ambas as duas perniciossíssimas e devem ser superadas.

        Como alternativas aceitáveis temos o isolacionismo e o hispano-tropicalismo musical, essas sim, expressões genuínas e válidas da cultura galega, posto que nos situam como variante regional inofensiva da cultura espanhola.

        O mesmo acontece com todos os referentes filosóficos, literários, etc. Estamos fechados num hispanismo profundamente reaccionário e anti-atlántico (anti-galego).

        • Paulo O’Lema

          Magnificamente explicado!