Miguel Torga, escritor trasmontano que foi candidato ao Nobel



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O escritor português de Trás-os-Montes Miguel Torga integrou em 1965 a lista de autores propostos para o Prémio Nobel de Literatura, segundo a ata divulgada pela Academia Sueca. Os nomes propostos ao Nobel da Literatura são mantidos habitualmente em segredo durante 50 anos. Passados estes anos a Academia Sueca tornou pública a lista de escritores candidatos de 1965 e nela figura o nome de Miguel Torga, embora o galardão tenha sido atribuído ao escritor russo Mikhail Sholojov.
De acordo com os arquivos da Academia, que permitem pesquisas apenas até 1963, o nome de Miguel Torga foi proposto por cinco vezes entre 1959 e 1962. Sabe-se agora que também integrou a lista de 1965, sob proposta do professor Goran Hammarstrom, da universidade de Upsala.
Da biografia de Miguel Torga consta que em 1978 foi feita nova proposta de atribuição do Nobel por ocasião dos 50 anos de carreira literária do autor. Miguel Torga, pseudónimo do escritor e médico Adolfo Correia da Rocha, é considerado um dos nomes maiores da literatura portuguesa, autor de obras como Cântico do Homem (poesia) e A criação do mundo (prosa). O escritor faleceu aos 87 anos em 1995, três anos antes de José Saramago ter sido distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, o único nome das letras portuguesas a receber o galardão.
Da ata de candidatos ao Nobel da Literatura de 1965 fizeram parte escritores como Jorge Luis Borges, Marguerite Yourcenar, W. H. Auden, Vladimir Nabokov, Alberto Moravia e W. Somerset Maugham, que nunca venceram o prémio, assim como Samuel Beckett, premiado em 1969, e Pablo Neruda, que o recebeu em 1971. Dedico a Miguel Torga o presente depoimento, que faz o número 48 da série que estou a dedicar aos grandes vultos da Lusofonia.

Algúns dados biográficos e literários

miguel-torga-foto-de-jovemA brasileira Dilva Frazão escreveu no seu dia uma pequena e interessante biografia do escritor trasmontano, que coloco a seguir.
Miguel Torga (1907-1995) foi um escritor português, um dos mais importantes poetas do século XX. Destacou-se também como contista, ensaísta, romancista e dramaturgo, deixando mais de 50 obras publicadas. Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em São Martinho de Anta, Vila Real, Portugal, no dia 12 de agosto de 1907. De família humilde, com 10 anos foi para a cidade do Porto trabalhar na casa de familiares. Foi porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava a escadaria, etc. Em 1918 foi mandado para o seminário de Lamego, onde estudou Português, Geografia e História, Latim e os textos sagrados. Depois de um ano decidiu que não queria ser padre.
Em 1920, Miguel foi para o Brasil para trabalhar na fazenda de café, de um tio, em Minas Gerais. Após quatro anos foi matriculado no Ginásio, em Leopoldina. Em 1925 regressou a Portugal acompanhado do tio, que percebendo a inteligência do sobrinho se prontificou a custear seus estudos em Coimbra. Durante três anos cursou o Liceu e em 1928 matriculou-se na Faculdade de Medicina. Inicia sua vida literária e publica seus primeiros livros de poemas, Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931) e Abismo (1932). Em 1933 conclui a licenciatura.
Começou a exercer a profissão de médico em sua terra natal. Em 1934, publica A Terceira Voz, quando passa a usar o pseudônimo que o imortalizou. Escreveu uma vasta obra, em poesia, prosa, romance e teatro. Miguel Torga evitava agitação e publicidade, mantinha-se longe de movimentos políticos e literários, não dava autógrafos ou dedicatórias e não oferecia livros a ninguém, para que o leitor fosse livre para escolher. Sua obra reflete as apreensões, esperanças e angústias de seu tempo, traduz sua rebeldia contra as injustiças e sua revolta diante dos abusos do poder.
Merece a pena acrescentar esta singela biografia com a ampla informação que da figura de Torga faz a Infopédia da Porto Editora. Durante os estudos universitários, em Coimbra, travou conhecimento com o grupo de escritores que viria a fundar a Presença, chegando a publicar nas edições da revista o seu segundo volume de poesia, Rampa. Em 1930, depois de assinar, com Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca, uma carta de dissensão enviada à direção da publicação coimbrã, cofunda as efémeras revistas Sinal e Manifesto.

Foi porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava a escadaria, etc. Em 1918 foi mandado para o seminário de Lamego, onde estudou Português, Geografia e História, Latim e os textos sagrados. Depois de um ano decidiu que não queria ser padre.
Em 1920, Miguel foi para o Brasil para trabalhar na fazenda de café, de um tio, em Minas Gerais.

Não obstante a passagem pelo grupo presencista, no momento das suas primícias literárias, Miguel Torga assumirá, ao longo dos cerca de cinquenta títulos que publicou, frequentemente em edições de autor e à margem de políticas editoriais, uma postura de independência relativamente a qualquer movimento literário. Os seus textos poéticos, numa primeira fase, abordaram temas bucólicos, a angústia da morte, a revolta, temas sociais como a justiça e a liberdade, o amor, e deixaram transparecer uma aliança íntima e permanente entre o homem e a terra.
Na poesia, depois de algumas coletâneas ainda imbuídas de certo dramatismo retórico editadas no início dos anos trinta, a publicação dos volumes onde ostenta já o pseudónimo Miguel Torga, segundo Pilar Vásquez Cuesta, tal como comenta na Revista de Ocidente, em agosto de 1968, esta invenção pseudonímica simboliza, pela analogia com a urze, a obrigação de constância, firmeza e beleza que o artista deve manter, por mais adversas que sejam as estruturas pessoais e históricas em que se move, ao mesmo tempo que “a escolha do nome Miguel responde ao propósito de acrescentar um novo elo lusitano a toda uma cadeia espanhola (Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno) de pensamento combativo e rebelde”, como Lamentação (1934), O Outro Livro de Job (1936), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Penas do Purgatório (1954), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962) ou Poemas Ibéricos (1965), firmam uma poesia que é “fundamentalmente a busca da fidelidade no Terrestre, a busca da aliança sem mácula do homem com o Terrestre; a busca da inteireza do homem no Terrestre”, como bem sinala Sophia de Mello Breyner Andersen, no Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 10, dedicado a Miguel Torga, em maio de 1988, na sua página 72.miguel-torga-capa-livro-fotobiografia
Ancorada no húmus natal, essa poesia dá também conta de uma “ambição de absoluto” que, para Torga, deve “permanecer como simples acicate, pura aspiração, porque o homem tem de realizar-se no relativo, a sua felicidade possível está no relativo, logo na contradição, na luita, numa esperança desesperada”, não renegando “essa condição dramática de homem, besta e espírito, egoísmo e entrega generosa”, segundo comenta no mesmo Boletim Jacinto de Prado Coelho.
Na prosa, obras como Bichos, Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha marcaram, até aos nossos dias, sucessivas gerações de leitores que aí se deslumbraram com uma fusão entre o homem, o mundo animal e o mundo natural, vaziada numa prosa “a um tempo sortílega e enxuta, despegada do efémero, agarrada ao concreto”, segundo indicou no seu dia no seu depoimento “Miguel Torga e a Respiração do Mundo”, David Mourão-Ferreira.
No domínio narrativo, a sua bibliografia contém ainda os seis volumes da ficção de inspiração autobiográfica Criação do Mundo e os dezasseis volumes do Diário, onde compaginam textos de vários géneros, desde os poemas e da reflexão cultural e ideológica, ao testemunho subjetivo de acontecimentos históricos, a notas tomadas nas inúmeras digressões pelo país. A sua bibliografia conta ainda com algumas páginas de intervenção cívica ou de ensaísmo como Fogo Preso ou Traço de União, bem como quatro títulos de teatro.
Prevalecendo em qualquer dos géneros que cultivou “uma obsessão metafísica da liberdade” (a expressão é de Jesús Herrero, em Miguel Torga, Poeta Ibérico), atestada biograficamente, durante a longa ditadura salazarista, por uma rebeldia que lhe valeu a apreensão e interdição de várias obras, bem como a proibição de saída do país e o levantamento de obstáculos ao exercício da sua atividade profissional, para David Mourão-Ferreira (Saudação a Miguel Torga), “O que há […] de absolutamente invulgar, porventura único, no caso de Miguel Torga é a circunstância de ele ser, cumulativamente, quer como poeta, quer como prosador, um indivíduo inconfundível, um telúrico padrão e um cívico expoente da própria Pátria, um artístico paradigma da língua em que se exprime, um predestinado legatário de valores culturais em permanente abalo sísmico, um atento recetor e um sensível transmissor dos inúmeros problemas, quantos deles talvez indissolúveis, do Homem de todos os quadrantes, ora considerado na moldura dos condicionalismos que o cerceiam, ora ainda mais frequentemente entendido sob specie aeternitatis”.
É nesta medida que Fernão de Magalhães Gonçalves (em Ser e Ler Torga) considera o modo como a obra de Torga “é progressivamente estruturada por três discursos ou níveis de sentido que evoluem através de fenómenos de divergência e de convergência numa suscitação dialética que põe a nu o movimento das elementares componentes dramáticas da natureza humana: o apelo da transcendência (discurso teológico), o fascínio telúrico (discurso cósmico) e o imperativo da liberdade (discurso sociológico) “.
Naquele que ainda é um dos mais profundos estudos sobre Miguel Torga, Eduardo Lourenço refere-se, percorrendo os vários níveis da sua matéria poética (incidindo particularmente na relação com o presencismo, na problemática religiosa e no sentimento telúrico que a percorre), a um “desespero humanista” que, partindo da “espécie de indecisão e luita que nela se trava entre um conteúdo que devia fazer explodir a forma e todavia se consegue moldar nela”, “é humanista por ser filho da intenção mil vezes expressa na obra de Miguel Torga de confinar a realidade humana unicamente no Homem e na sua aventura cósmica, embora a presença mesma desse desespero testemunhe que essa intenção não encontra no espírito total do poeta uma estrada luminosa e larga. Como a todos os lugares reais ou ideais em que o homem busca a salvação, conduz a este humanismo […] a porta estreita de uma agonia pessoal”, segundo a reflexão de Eduardo Lourenço em “O Desespero Humanista em Miguel Torga”, depoimento de Tempo e Poesia (Porto, editorial Inova, 1974, p. 123).
Proposto várias vezes para o Nobel da Literatura, a sua obra e a sua personalidade constituíram um referente cultural a nível nacional e internacional, tendo recebido, em vida, os Prémios Montaigne (1981), Camões (1989), Vida Literária (da Associação Portuguesa de Escritores, em 1992), o Prémio de Literatura Écureuil (do Salão do Livro de Bordéus, em 1991) e o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários, em 1994.

Proposto várias vezes para o Nobel da Literatura, a sua obra e a sua personalidade constituíram um referente cultural a nível nacional e internacional, tendo recebido, em vida, os Prémios Montaigne (1981), Camões (1989), Vida Literária (da Associação Portuguesa de Escritores, em 1992), o Prémio de Literatura Écureuil (do Salão do Livro de Bordéus, em 1991) e o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários, em 1994.

Miguel Torga teve seus livros traduzidos para diversas línguas. Foi por várias vezes candidato ao Prémio Nobel de Literatura, tal como já comentámos. Recebeu vários prémios, ademais dos antes mencionados, e entre eles, Prémio do Diário de Notícias (1969), Prémio Internacional de Poesia de Knokke-Heist (1976), Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S. (1981), Prémio Camões (1989), Prémio Personalidade do Ano (1991), Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1992) e o Prémio da Crítica, consagrando a sua obra (1993).
Miguel Torga faleceu em Coimbra, Portugal, no dia 17 de janeiro de 1995.
Nota: Para informar-se mais sobre a vida e obra de Torga podem consultar-se as 4 ligações seguintes: a da wikipedia, a do portaldaliteratura.com a do espaço Miguel Torga e também no site escritores.org

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. O meu Portugal: Biografia de Miguel Torga.
Duração: 11 minutos. Ano 2012.

2. A vida e obra de Miguel Torga.
Duração: 12 minutos. Ano 2013. RTP2

3. Miguel Torga.
Duração: 7 minutos. Ano 2018.

4. A terra antes do céu: Miguel Torga.
Duração: 15 minutos. Ano 2011.

5. Miguel Torga: Natal.
Duração: 8 minutos. Ano 2013.

6. Miguel Torga o meu Portugal.
Duração: 50 minutos. Ano 2020. RTP2

7. Trás-os-Montes: O reino maravilhoso, Miguel Torga.
Duração: 17 minutos. Ano 2018.

8. O escritor português M. Torga e a região de Trás-os-Montes. Em castelhano.
Duração: 109 minutos. Ano 2019. Produtora: Instituto Cervantes.

9. Cântico de Amor.
Duração: 3 minutos. Ano 2011.

10. Ode à Poesia, por Miguel Torga.
Duração: 3 minutos. Ano 2012.

11. M. Torga: Viagem, Poema de bom dia.
Duração: 1 minuto. Ano 2018.

12. Ariane, por Miguel Torga.
Duração: 3 minutos. Ano 2011. Recita: Inês Nogueira.

13. S. Leonardo da Galafura, por M. Torga.
Duração: 2 minutos. Ano 2013.

14. Adeus, por Miguel Torga.
Duração: 2 minutos. Ano 2009.

A OBRA LITERÁRIA DE MIGUEL TORGA

Miguel Torga tem uma interessante obra literária em língua portuguesa.
Poesia
Ansiedade (1928)
Rampa (1930)
Tributo (1931)
Abismo (1932)
O outro livro de Job (1936)
Lamentação (1943)
Libertação (1944)
Odes (1946)
Nihil sibi (1948)
Cântico do homem (1950)
Orfeu rebelde (1958)
Poemas ibéricos (1965

Autobiografia e ensaio
A criação do mundo (5 vols., 1937-1981)

Romances
O senhor ventura (1943)
Vindima (1945)

Relatos e Contos
Bichos (1940)
Contos da montanha (1941)
Rua (1942)
Novos contos da montanha (1944)
Pedras lavradas (1951)

Teatro
Terra firme (1941)
Mar (1941)
Sinfonia (1947)
O paraíso, de ensaios como Portugal (1950)
Traço de união (1955)

UM ROTEIRO PELAS TERRAS DE TORGA

Miguel Torga com Sophia de Melo

Miguel Torga com Sophia de Melo

Com motivo dum roteiro realizado pelas terras trasmontanas de Miguel Torga os dias 1 e 2 de junho de 2007, publiquei em 8 de junho desse ano um depoimento sobre a formosa experiência vital em que, entre outros, participámos Isaac Estraviz e mais eu. Coloco a seguir o texto do mesmo.
“Dentro do projeto Letras na Corrente, subsidiado pelo programa europeu Interreg, e organizado cooperativamente pela Conselharia de Cultura da Junta da Galiza e a Delegação Regional Norte do Ministério da Cultura de Portugal, os passados dias 1 e 2 do presente mês de junho de 2007, participámos num roteiro pelas terras, caminhos, encantos e recantos do grande escritor galego-português Miguel Torga. No mesmo participaram 50 pessoas, a maioria galegas e representantes de entidades culturais, como a AGAL e a ASPGP. Entre elas há que destacar Isaac Estraviz, Manuela Ribeira e José Mª Palmeiro, do Conselho Galego da Cultura, ademais do Subdiretor Geral, o ourensano Fernández Naval.

Em junho de 2007, participámos num roteiro pelas terras, caminhos, encantos e recantos do grande escritor galego-português Miguel Torga. No mesmo participaram 50 pessoas, a maioria galegas e representantes de entidades culturais, como a AGAL e a ASPGP. Entre elas há que destacar Isaac Estraviz, Manuela Ribeira e José Mª Palmeiro, do Conselho Galego da Cultura, ademais do Subdiretor Geral, o ourensano Fernández Naval.

Tínhamos experiência deste tipo de atividades por ter participado já em junho do passado ano de 2006 no roteiro de António Nobre, em Leça de Palmeira, Matosinhos, Porto e outras terras do poeta autor de Só. Também tínhamos conhecimento do bem que sempre sabem organizar estas atividades os nossos irmãos portugueses. De forma perfeita, com grande criatividade e ordenação. Esta vez saíram para as terras de Trás-os-Montes dous microbuses. Um de Ourense, com uma dúzia de pessoas, sob a direção dos funcionários de cultura Maside e Bardás, esplêndidos no seu cometido, e outro de Compostela com algumas pessoas mais de terras compostelanas, pontevedresas e viguesas.
Por volta das 12 horas portuguesas chegámos a Vila Real, onde no seu excelente e moderno teatro pudemos desfrutar visionando a magna exposição ali instalada comemorativa do centenário do nascimento de Miguel Torga, pseudónimo literário de Adolpho Rocha. Que tinha nascido na localidade de S. Martinho de Anta o dia 12 de agosto de 1907. À porta do teatro estavam à nossa espera o Dr. Sequeira, Helena Gil (Delegada Regional do Ministério da Cultura) e Mª Hercília Agarez, encarregada de dirigir o roteiro-jeira, por ser uma grande especialista sobre a figura de Torga. Aproveitámos também para visitar aquele magno auditório, de cujo funcionamento deveriam tomar boa nota os gestores do de Ourense. Depois do almoço todos juntos já na cidade, visitámos o jardim romântico, dedicado à figura do escritor Camilo Castelo Branco. Arredor de cuja estátua recitámos vários poemas. E desfrutámos também com os muitos grupos de crianças coordenados pelas suas mestras. Que os levaram de passeio escolar para comemorar o Dia internacional da Criança. Mais tarde visitámos o formoso Paço de Mateus, os seus jardins e as suas fontes.
O roteiro pela tarde completou-se com duas visitas excelentes e formosíssimas. A primeira ao grande santuário pétreo e romano de Panóias, onde nos inteiramos de que o grande especialista sobre este lugar histórico é o ourensano Rodríguez Colmenero. E, posteriormente, visitámos um dos mais belos e impressionantes recantos torguianos, S. Leonardo de Galafura. Dedicado ao poeta, é um miradoiro sobre o rio Douro e as vinhas em socalcos dos famosos caldos durienses. Ademais de estelas com formosos poemas torguianos, colocados em lugares estratégicos e na capela, pode olhar-se um dos mais belos bosques de êrvedos e muitos rosmaninhos. A vista sobre o rio é impressionante e, depois de escuitar o recitar de poemas, pudemos dar-nos conta da lógica inspiração poética daquela paragem singular.
Pela noite, depois dum excelente jantar no lugar da hospedagem, participámos de uma tertúlia e dum maravilhoso recital de poemas do escritor com acompanhamento de guitarra. O ato teve lugar na nova Biblioteca Municipal, que nos impressionou, e da que confessamos ter uma sã inveja, pois não temos uma assim em Ourense. O escritor e responsável municipal da cultura em Vila Real, grande amigo nosso e grande amante da cidade das Burgas (levava na sua solapa o pin com o escudo de Ourense), António Pires Cabral, pronunciou uma excelente palestra sobre Torga, ilustrada com fotografias e textos. E manteve a tertúlia e o debate posterior, em que soubemos de muitos detalhes do escritor galaico-trasmontano.miguel-torga-foto-da-rtp

Depois da visita ao local do Grémio Literário de Vila Real, que coordena o conferencista, e onde se conservam as publicações dos escritores da área e sobre temas vila-realenses, fomos para o hotel.
Formoso foi também o roteiro no seu segundo dia. Na aldeia de Torga, S. Martinho de Anta, visitámos a casa natal de Miguel Torga, a escola primária em que estudou, a capela da Sra. do Amparo ou da Azinheira e a tumba onde está soterrado no cemitério, ao lado de uma torga ou urze de flores brancas. Como as que há na nossa aldeia da Corna e na aldeia de Torguedo do nosso concelho de Pinhor. Depois de comer na mesma localidade, acompanhados do presidente da Câmara municipal de Sabrosa, visitámos a formosa localidade de Pinhão, ao lado mesmo do Douro. Onde, junto com o último recital, fomos convidados para um saboroso vinho do Porto. Os ourensanos ainda prolongámos o roteiro até a cidade de Peso de Régua, ao lado do rio, onde os seus vizinhos são alcunhados pelo nome de “Galegos”. Especialmente por parte dos cidadãos próximos de Lamego. Às sete da tarde voltámos para o “Portugal do Norte”. Depois de visitar a formosa “Galiza Sul”.
Acertadamente, a doutora Helena Gil, que leva como apelido o da nossa esposa, escreve ao final do seu depoimento: “Este é o nosso contributo para um mais profundo relacionamento entre a Galiza e o Norte de Portugal. Sejam bem-vindos!”
Em outubro ver-nos-emos na Galiza, com um roteiro pelas terras que banha o rio Lima”.

A PALAVRA DE MIGUEL TORGA

Apresento a seguir uma antologia das suas mais lindas frases e pensamentos:
-“Recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade”.
-“Agora, o remédio é partir discretamente, sem palavras, sem lágrimas, sem gestos. De que servem lamentos e protestos, contra o destino?”.
-“Só havia três coisas sagradas na vida: a infância, o amor e a doença. Tudo se podia atraiçoar no mundo, menos uma criança, o ser que nos ama e um enfermo. Em todos esses casos a pessoa está indefesa”.
-“A vida afectiva é a única que vale a pena. A outra apenas serve para organizar na consciência o processo da inutilidade de tudo”.
-“A maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez de começar pela vida”.
-“Mais um ano. Mais um palmo a separar-me dos outros, já que a vida não passa de um progressivo distanciamento de tudo e de todos, que a morte remata”.
-“O que é bonito neste mundo, e anima, é ver que na vindima de cada sonho fica a cepa a sonhar outra aventura. E que a doçura que não se prova se transfigura noutra doçura muito mais pura e muito mais nova”.
-“Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria matar a sede com água salgada”.
-“Não tens preço na terra dos humanos, nem o tempo te rói. És a essência dos anos, o que vem e o que foi”.
-“Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam”.
-“Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem”.
-“É um fenômeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Miguel Torga, escritor trasmontano de Portugal, que no seu dia foi candidato ao Prémio Nobel de Literatura. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que intervenham alunos e docentes. Da listagem de obras de Torga podemos escolher para ler uma entre as seguintes: Bichos (1940), Contos da montanha (1941), Novos contos da montanha (1944) ou Vindima (1945).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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