AGAL HOJE

Miguel Anxo Varela: “Penso que a fonética continua a desfazer as fronteiras”



Miguel Anxo Varela nasceu em Ferrol e fai parte de uma família felizmente pouco pragmática. Criou Luanho, um lugar onde o impossível era real. Morou em Barcelona e Málaga que lhe forneceu lições sobre o fenómeno linguístico e anseia residir no Porto onde o seu galego eclodiu. Tem uma visão muito otimista e uma muito pessimista sobre a nossa língua em 2040. Além de galego, humano.

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Miguel Anxo nasceu numa família de artistas. Fala-nos desse clã familiar e como tem influenciado no teu devir como pessoa.

Não podo imaginar a minha infância doutro modo. No caso meu e no do meu irmão Xurxo, a arte, a música e mesmo a poesia, cultura, política, etc, sempre estiveram ao nosso dispor e em vez de ocultar ou proibir, os nossos pais promoviam o acesso. Conhecemos também de pequenos muitos poetas, músicos, escritores, pintores… escutávamos muita música de cantores de toda a parte, também muita música portuguesa e brasileira.
Também aprendemos que a arte é complicada e nem sempre dá para manter a casa. Mas ainda assim, tanto meu irmão como eu decidimos dedicar-nos respetivamente à música e às artes plásticas. Mesmo casei com ũa pintora. Seguramente faltou-nos ũa visão mais pragmática, mas talvez não ter essa visão pragmática fixo-nos gozar muito mais da vida.

Nasceste em Ferrol, uma cidade com menos presença que outras da nossa língua mas que também tem dado e dá ativistas entusiastas. Como foi a tua biografia linguística na infância?

Falava castelhano quase sempre. Ferrol é ũa cidade onde o galego é ũa rareza sobretudo no centro, onde eu vivia. Fum conhecendo o galego graças aos meus pais, que tinham ũa atitude aberta e positiva cara a língua. Isso e mais morarmos em Moeche ou Bemantes ou a Ilha de Arouça nos verãos, alguns familiares que sempre falavam galego… ajudou-nos a ir criando ũa consciência da língua desde muito cedo e sempre relacionando o galego com a cultura e a arte.

Na adolescência começas a estudar o galego e tomas contacto com as diferentes sensibilidades ao respeito criando mesmo um novo sentir na utopia de Luanho. Lembras com nitidez aqueles tempos?

Lembro, sim. Aqueles tempos, junto aos universitários, para mim foram de descoberta de muitas das cousas importantes. Tanto polas experiências vitais (amizades e amores) como mesmo intelectualmente: arte, ciências, filosofia, línguas…
O conjunto de novos conhecimentos e habelências junto ao desenvolvimento das minhas inquietudes políticas, sociais, filosóficas, criativas, etc, foi-me levando de jeito natural a juntar tudo nũa ucronia em que a Galiza (ou polo menos ũa porção dela) acadara a independência em tempos medievais. Com os anos não só não abandonei aquilo, senão que cada cousa que investigava e via que no nosso mundo não chegara a ter um «final feliz», em Luanho chegara à perfeição ou, quando menos, ũa perfeição segundo eu via no momento.

A experiência de estar na Catalunha mostrou-me o importante que é a perceção social da língua para que a normalização seja certa

Moraste e trabalhaste em muitos locais, um deles Barcelona. Em que medida te marcou?

Ali pudemos experimentar o que é a imersão linguística. Eu cheguei mesmo a escrever com bastante soltura e falar, só ouvindo o idioma na rua e nos meios. Respeito ao galego, a experiência de estar na Catalunha mostrou-me o importante que é a perceção social da língua para que a normalização seja certa.
Anos depois, morar em Málaga ensinou-me que as línguas padrão não existem, mas só dialetos locais que por vezes podem ter ũa força enorme e até ser motivo de orgulho para as pessoas que os falam.

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Uma cidade onde gostavas de morar e onde parte da tua família mora ou vai morar é o Porto.  Que te deu  e dá o contacto com essa cidade no plano linguístico?

No Porto mora meu irmão e rumam para ali minha mulher e os filhos em breve. Mas nas visitas cada vez mais frequentes que fazemos à cidade, o achegamento ao norte de Portugal e ao português real, vivo, deu-me ũa nova perspetiva. Basicamente agora entendo melhor o que significa, na verdade, a unidade da língua de que os reintegracionistas adoitamos falar de um ponto de vista só teórico a maior parte das vezes.
Ainda que haja diferenças notórias entre as nossas falas, a maior parte delas não são realmente linguísticas mas culturais e sobretudo políticas, ou causadas por esta. Penso que a fonética continua a desfazer as fronteiras. Mas é preciso para os galegos chegarmos a um estado de naturalidade com os sons propriamente galegos que normalmente não temos. A fonética do galego é rica e bebe na mesma fonte que a do português, algo que eles percebem perfeitamente, mas só se cuidarmos o som, a música da língua, esforçando-nos em estudar e recuperar na fala quotidiana a perfeita diferença entre vogais abertas e fechadas, o ele lateral, etc. Nada mais dizer «Olá», um português pensará que somos espanhol-falantes se o dizemos à castelhana, com ele neutralizado e vogais iguais. Eu dei-me conta de que o «olá» dos portuenses soava quase igual que o do meu avô (de Vilarmaior, perto da Corunha) quando eu era pequeno. O galego, quanto mais galego é, mais português. Eis a unidade: exige um esforço de investigação da autenticidade pola nossa parte. O mais rechamante deste tema é que até mesmo os mais rejos isolacionistas admitem que escutar e estudar português «ajuda o galego». Como podem dizer tal de um ponto de vista que afirma que elas são línguas diferentes? Para mim é um mistério que só dou explicado pola dissonância cognitiva.

… e no plano das identidades?

Quando decidimos seriamente nos deslocar ao Porto, comecei a recuperar o meu reintegracionismo como ponte para chegar ao português padrão da maneira mais natural possível. Depois, a partir de um comentário no Youtube, entrei num grupo de Whatsapp chamado «O Mundo Fala Galego» onde nós partilhamos espaço com brasileiros, portugueses, angolanos… Além disso, começamos a viajar ao Porto amiúde, polo que tivem mais contacto com o português real.

O mais curioso foi experimentar a sensação de que quanto melhor conhecia o português mais estava a aperfeiçoar o galego e não a estudar ũa língua nova, menos ainda ũa língua estrangeira.
Nesse tempo também descobrim a situação verdadeira do galego na atualidade. Nós estivéramos fora da Galiza vários anos, coincidindo com a chegada de Feijoó. De fora a perceção era que o galego «xunteiro» tinha aceitação e prestígio crescentes, ainda que o reintegracionismo estivesse a aumentar. Mas a realidade era bem diferente: quotas de perda de falantes altíssimas e um rejeitamento social maior. Após criar e estender como língua litúrgica e administrativa a língua “xunteira”, a própria Xunta renegava dela!
Fiquei surpreso com a pergunta, porque eu mesmo cheguei a essa conclusão: estudar português despertou em mim, paradoxalmente, ũa identidade galega profunda, e com ela uma consciência da necessidade dum trabalho ativo maior a prol do galego.

Com toda a tua experiência vital, quais achas que seriam os passos mais certos que deveria dar a estratégia lusófona para ganhar mais consenso social?

Penso que deveríamos «sair do armário» e usar o galego-português com normalidade, sem pensar em como vamos ser julgados.
A ortografia portuguesa aplicada ao galego tem um potencial imenso. É atrativa, moderna, achega-nos à lusofonia de forma totalmente natural e tem um grau de diferenciação mui necessário para que a nossa língua tenha ũa personalidade própria que psicologicamente justifique a sua existência. O galego-castelhano é um absurdo: o castelhano é melhor como castelhano do que um híbrido. Muitas expressões realmente populares no galego que a norma RAG-ILG esquecia ou mesmo condenava, têm suporte na norma portuguesa desde há séculos…
Penso que se insistimos e começamos a utilizar o galego reintegrado com absoluta normalidade vai ter muita melhor aceitação do que tivera no passado e começaremos a termos simpatias totalmente inesperadas. Eu levo uns meses a responder e escrever sempre em galego-português nas redes sociais, em Wallapop, em AirBNB, em Whatsapp, Blablacar, e mesmo ao dar apontamentos nas aulas de secundário… e o rechamante para mim é que isso seja aceite sem sequer fazer menção à escolha normativa no 99% dos casos.
Penso que o galego reintegracionista pode apresentar-se como ũa opção integrada na modernidade, a juventude, ũa rica cultura cheia de literatura, música, cinema… mesmo os trash-memes brasileiros… a que podemos aceder só com mudarmos a escrita à castelhana pola escrita à portuguesa sem deixar de ser os mais peritos na nossa língua.

Deveríamos «sair do armário» e usar o galego-português com normalidade

Imagina o ano 2040, não falta lá muito, e diz-nos como gostarias que fosse a  “fotografia linguística” da Galiza? E será assim?

Do que eu gostaria? Aprova-se o texto da Constituição da República Federal da Galiza que declara o galego-português como única língua veicular de uso obrigatório na Galiza, conservando o castelhano a co-oficialidade.
Após a aprovação da lei do binormativismo em 2022 o enfoque raguiano foi progressivamente desbotado e as novas políticas linguísticas com apoio nas novas tecnologias e a abundância de materiais didáticos portugueses e brasileiros, as escolas Semente, as campanhas de prestigiação, etc, foram conseguindo entre 2022 e 2040 aumentar o número de galegofalantes. Deste jeito, no ano 2040 a proporção entre galego e castelhano como primeira língua é de 75% e 25%  respetivamente, e a imersão linguística um facto em todos os âmbitos.
A Academia da Língua Galego-Portuguesa (antigamente AGLP e RAG por separado) junto das outras academias da língua portuguesa assina o Novo Acordo Ortográfico, que por primeira vez reconhece as três sub-normas principais: a brasileira, a portuguesa e a galega.
Após a última reunião da CPLP, a variedade galega, que polo momento não era reconhecida como portuguesa a efeitos legais em vários países da Lusofonia, recebe agora pleno reconhecimento como variedade do português, polo que a titulação B2 ou C1 de galego-português serve, sem cursos de adaptação, para trabalhar em qualquer país membro da CPLP.
Os possuidores dos antigos cursos CELGA (até 2025) podem fazer um curso de adaptação gratuito nos Concelhos de mais de 20000 habitantes.
Como penso que vai ser na verdade? O governo da Región Noroeste aprova um decreto de proteção do «galleguiño», dialeto castelhano de uso folclórico nas «reservas galicianas».
Ao mesmo tempo aprova-se uma lei para censurar todo o uso do dialeto galiciano em público na região fora dos usos folclóricos, facultando os grupos paramilitares de «Galicia monolíngüe» para deter «con los medios y la intensidad que sea precisa» os terroristas que persistam no uso anti constitucional deste dialecto «que provoca una merma y afeamiento del castellano de nuestra querida tierrilla galiciana».

Conhecendo Miguel Anxo Varela Diaz

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Um sítio web: www.estraviz.org

Não é uma web de lezer, não serve para ver filmes ou jogar, mas o dicionário Estraviz online é espetacularmente rico, amplo e muito útil. Eu consulto-o continuamente.

Um invento: A arte. Se falamos de inventos físicos, palpáveis, não saberia dizer bem. Há muitos mui bons e importantes.

Uma música: «Mania de Você» na versão de Rita Lee com Milton Nascimento.

Um livro: À Boleia Pela Galáxia. Uma «trilogia» de cinco ou seis livros que é para mim a bíblia do «frikismo».

Um facto histórico: A Revolução Russa. Um dos factos históricos mais transcendentais da humanidade em vários âmbitos à vez.

Um prato na mesa: Tortilha de patacas com cebola. Um prato tradicional, singelo, humilde, mas que pode ser ũa delícia absoluta se está bem preparado.

Um desporto: O atletismo. Pola sua beleza e porque transmite ũa ideia de nobreza e companheirismo como essência mesma do desporto.

Um filme: «As aventuras de Picasso» de Tage Danielsson. Uma comédia que dá para comentar durante dias.

Uma maravilha:  O Parque do Passatempo de Betanços. Hoje em horas baixas. Mas se outro país qualquer tivesse isto seria um tesouro nacional e nunca teria sido desleixado.

Além de galego: Humano, da Federação Unida de Planetas (a de Star Trek).

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Mais uma excelente entrevista

  • E. Vazquez Souza

    genial…