AS AULAS NO CINEMA

MIA COUTO, IMPORTANTE LITERATO DE MOÇAMBIQUE



Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 129 da série geral, a um grande literato de Moçambique, com uma obra muito extensa nos campos literários da poesia, os romances, os contos, as crónicas e mesmo na literatura para crianças. Chamado António Emílio Leite Couto, utiliza o pseudónimo para os seus escritos de “Mia Couto”. Com este depoimento, a ele dedicado, completo o número dezassete da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

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António Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu a 5 de Julho de 1955 na cidade da Beira, cidade capital da província de Sofala em Moçambique, onde fez os estudos primários. É filho de uma família de emigrantes portugueses. O pai, Fernando Couto, natural de Rio Tinto, foi jornalista e poeta, pertencendo a círculos intelectuais, tipo cineclubes, onde se faziam debates. Chegou a escrever dous livros que demonstraram preocupação social em relação à situação de conflito existente em Moçambique. Mia Couto publicou os seus primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura, a poesia, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. Em 1972 deixou a Beira e foi para Lourenço Marques (hoje Maputo) para estudar medicina. A partir de 1974, com a revolução dos cravos do 25 de abril, enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM), de 1976 a 1979; da revista semanal Tempo, de 1979 a 1981, e do jornal Notícias, de 1981 a 1985. Em 1985 abandonou a carreira

Reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em biologia, especializando-se na área de ecologia, sendo atualmente professor da cadeira de Ecologia em diversas faculdades desta universidade. Como biólogo tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. É diretor da empresa Impacto, Lda. Avaliações de Impacto Ambiental. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca.

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Mia Couto é um “escritor da terra”, escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a própria natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular perceção e interpretação da beleza interna das cousas. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, entende-se como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida um pouco surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos, o mundo vivo das histórias. Mia Couto é um excelente contador de histórias. É o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras, como sócio correspondente, eleito em 1998, sendo o sexto ocupante da cadeira nº 5, que tem por patrono a Francisco de Sousa.

Atualmente é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal, e considerado no seu país como um dos escritores mais importantes. As suas obras são traduzidas e publicadas em 24 países. Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro e o cinema. Tem recebido vários prémios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da sua obra literária. Em muitos dos seus livros tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Em 2013 foi homenageado com o Prémio Camões, com o apoio de Portugal e Brasil, que lhe foi entregue a 10 de junho deste ano no Palácio de Queluz, pelas mãos dos então presidentes português Cavaco Silva, e brasileira, Dilma Rousseff.

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É, comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado pelo júri da Feira do Livro de Zimbabué como um dos dez melhores livros africanos do século XX, com o que ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995. Em 1999, o autor recebeu o prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007 o prémio União Latina de Literaturas Românicas.

Como biólogo, dirige as Avaliações de Impacto Ambiental, uma empresa que faz estudos de impacto ambiental em Moçambique. Tal como comentámos, tem realizado pesquisas em diversas áreas, concentrando-se na gestão das zonas costeiras. Além disso, é professor da cadeira de ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Bela reflexão do escritor moçambicano Mia Couto.

     Duração: 8 minutos. Ano 2009.

     Ver aqui.

  1. Entrevista com o escritor Mia Couto no Bom para todos.

     Duração: 70 minutos. Ano 2019.

     

  1. Palestra do escritor mia Couto na UnB.

     Duração: 63 minutos. Ano 2019.

     

  1. Mia Couto: Sangue Latino.

     Duração: 24 minutos. Ano 2019.

     

  1. Tirando de letra: Mia Couto.

     Duração: 22 minutos. Ano 2019.

     

  1. Mia Couto, a favor da Agenda 2030.

     Duração: 9 minutos. Ano 2018.

     Ver aqui.

  1. Lili entrevista a Mia Couto.

     Duração: 12 minutos. Ano 2019.

     

  1. Mia Couto: A língua, a literatura e a vida em Moçambique.

     Duração: 22 minutos. Ano 2019.

     Ver aqui.

Nota: Existe uma muito interessante página web oficial de Mia Couto. Pode entrar nela aqui.

A EXTENSA OBRA LITERÁRIA DE MIA COUTO

Mia Couto tem uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crónicas, e é considerado como um dos escritores mais importante de Moçambique, junto com Craveirinha (ao qual já dedicamos um depoimento da série lusófona). As suas obras foram publicadas em mais de 22 países, e traduzidas em alemão, francês, castelhano, catalão, inglês e italiano.

Em muitas das suas obras dá um contributo significativo recriando a nossa língua portuguesa internacional. Estilisticamente, a sua escrita está influenciada pelo realismo mágico, um movimento popular nas literaturas latino-americanas modernas. Porém, por ser africana a sua literatura, o termo “mágico” não aplica, sendo classificada como Realismo Animista. O seu uso da linguagem faz lembrar o escritor João Guimarães Rosa (de que tanto gostava o nosso Paz Andrade), mas também é influenciado pelo grande escritor brasileiro Jorge Amado, a quem no seu dia também dedicámos um nosso depoimento da série. Mia Couto é conhecido por criar provérbios, às vezes conhecidos como “improvérbios”, nas suas obras de ficção, assim como enigmas, lendas, e metáforas, dando uma dimensão poética sobretudo. E escreveu tanto para adultos como para crianças.

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No campo da poesia, estreou-se no prelo com o livro Raiz de Orvalho, publicado em 1983. Esta obra revela o mesmo comportamento literário de estreita relação com a tradição e memória cultural africanas que evidenciam a orientação regionalista, marcante em toda a sua criação literária. A poesia “Sotaque da terra” aborda sentimentos impostos por condições históricas diretamente ligados à realidade do povo africano: a língua, a terra e a tradição. Em 1999, a editora Caminho de Lisboa, que publicou em Portugal a maioria das suas obras, relançou Raiz de Orvalho e outros poemas, que em 2001 teve a sua terceira edição. E, em 2011, a mesma editora deu ao prelo o seu segundo livro de poesia Tradutor de Chuvas.

Em meados dos anos oitenta Mia Couto estreou-se nos contos e numa nova maneira de falar, ou falinventar, português, que continua a ser o seu “ex-libris”. Entre seus livros de contos destacam Cada homem é uma raça (Caminho, 1990, e nona edição em 2005); Estórias abensonhadas (Caminho, 1994, e sétima edição em 2003); Contos de nascer da Terra (Caminho, 1997, e quinta edição em 2002) e O fio das Missangas (Caminho, 2004, e quarta edição em 2004).

Publicou também em livros algumas das suas crónicas, que continuam a ser coluna num dos semanários publicados na capital moçambicana Maputo. Entre eles, Cronicando (1988, e sétima edição em 2003) e O País de Queixa Andar (2003). Em 2009, a Caminho publicou-lhe o intitulado E se Obama fosse Africano? E outras Interinvenções.

Os seus romances são realmente lindos e interessantes. Terra Sonâmbula (Caminho, 1992, e oitava edição em 2004), está considerado como um dos doze melhores livros africanos do século XX. Outros dos seus romances foram: Mar me quer (com o qual contribuiu para o pavilhão moçambicano da exposição de Lisboa de 1998, com oitava edição pela Caminho em 2004); Vinte e Zinco (Caminho, 1999); O último voo do Flamingo (Caminho, 2000, e quarta edição em 2004, e prémio Mário António de ficção em 2001); Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra (Caminho, 2002), romance que foi levado às telas do cinema por José Carlos Oliveira; e a trilogia As Areias do Imperador (3 livros publicados entre 2015 e 2017).

Mia Couto recebeu pela sua obra numerosos prémios, todos eles muito merecidos. Entre eles, temos que destacar os seguintes: Nacional de Ficção da Associação de Escritores Moçambicanos (1995), Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra (1999), Mário António, por O último voo do flamingo (2001), União Latina de Literaturas Românicas (2007), Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura (2007), Eduardo Lourenço (2012), Camões (2013) e Neustadt International Prize for Literature (2014).

Convém assinalar que Mia Couto é sócio correspondente, eleito em 1998, da Academia Brasileira de Letras do Rio de Janeiro, ocupando a cadeira número 5, da qual foi primeiro patrono Francisco de Sousa. Para os que defendemos a Lusofonia é um verdadeiro orgulho contar com um escritor tão importante, autor de numerosos e interessantes livros, como Mia Couto.

UM LINDO POEMA DE MIA COUTO

Para Ti

    Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo.

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre.

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

Mia Couto, do poemário Raiz de Orvalho e Outros Poemas.

 

 

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Mia Couto, um literato moçambicano enormemente prolífico, com uma obra muito extensa, que foi traduzida para numerosos idiomas. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. A editora brasileira Companhia das Letras chegou a publicar-lhe entre 2003 e 2013 mais de quinze livros. E antes a também brasileira editora Nova Fronteira. Em Portugal é a Caminho de Lisboa quem editou a maioria dos seus livros.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que participem estudantes e docentes. Da ampla produção literária de Mia Couto podemos escolher para ler por todos, pelo seu interesse, alguma das suas seguintes obras: Raiz de orvalho e outros poemas (poesia, ed. Caminho, 1999); Contos do nascer da Terra (conto, ed. Caminho, 1999); O País do Queixa Andar (crónicas, ed. Ndjira de Maputo, 2003); Terra sonâmbula (romance, ed. Caminho, 1992) ou O beijo da palavrinha (literatura infantil, ed. Caminho, 2008).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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    Grande escritor e grande difusão