AS AULAS NO CINEMA

O MESTRE AUTORITÁRIO E ANTIMODELO

Filme: Tortura do desejo)



Atualmente, fala-se muito sobre a atuação do mestre em sala de aula. A postura do professor pode acarretar consequências positivas ou negativas sobre seus alunos, tudo isso porque ainda existem mestres que se impõem sobre seus alunos de forma autoritarista. Porém, muitas vezes eles não sabem que as consequências sobre os alunos são muito negativas, porque a maioria deles acaba que abominando o professor e, consequentemente, a matéria e a escola na qual estuda.

O docente, quando admite uma postura autoritária, acaba que fazendo com que o aluno rompa totalmente a capacidade de interação, criação, edificação do próprio conhecimento, de poder levantar e esclarecer dúvidas, assim como toda a autonomia que ele possa ter, mas que acaba se fechando devido à autoridade do mestre. O aluno torna-se um espectador e comparece às aulas como se estivesse vendo televisão. Fica nesta situação e pode, na maioria das ocasiões, aprender muito pouco ou, em alguns casos, cousa nenhuma. O mestre deve ter autoridade em sua sala de aula, mas não ser autoritário. Ambas as palavras possuem significados distintos. O mestre precisa ter estabilidade ao falar com seus alunos, mas também simplicidade em suas palavras.
O aluno, para que possa ter um pleno desenvolvimento de suas capacidades intelectuais, deve ser levado a opinar sobre um tema, criar situações, arquitetar hipóteses, acudir sua opinião, enfim, precisa ter autonomia aceitável, para que não saia de casa com dúvidas. Porém, o mestre não pode permitir que o aluno realize em sala de aula o que ele bem entender. A consequência que a postura do mestre autoritário traz para seus alunos é de insegurança, timidez e indisciplina. Por isso, o professor deve ter consciência de seu trabalho em sala de aula no desígnio de formar cidadãos participativos e criativos.

Muito acertadamente a pedagoga brasileira Jussara de Barros escreveu sobre o tema um belo depoimento, que merece a pena reproduzir: «O professor autoritário ameaça, acusa, e aponta os erros.

Ao longo da história da educação vimos que as práticas autoritárias estiveram presentes por muito tempo. Os resquícios do militarismo internacional, as políticas na era do nazismo e do fascismo impuseram momentos de terror que não terminaram com a Segunda Guerra Mundial. As práticas autoritárias, de imposição da ordem que fere o outro, permaneceram às escondidas por vários anos, principalmente no âmbito das instituições de ensino. O uso da palmatória, a prática de colocar o aluno ajoelhado sobre grãos de milho e feijão e as orelhas de burro são grandes exemplos das práticas autoritárias. Contudo, com o processo democrático, as conquistas da educação tomaram novas direções. O autoritarismo perdeu espaço para o diálogo, para as práticas docentes voltadas à boa formação do sujeito, para a aquisição de valores éticos e morais, para a construção do exercício da cidadania. O professor deixou de ser o detentor do saber, o autoritário e poderoso que dava as instruções, que disseminava os conteúdos escolares, passando a ser o mediador do processo de ensino-aprendizagem, levando práticas inovadoras, pautadas na troca de conhecimentos. Falar em autoestima é cousa da modernidade. Nas décadas anteriores ao período militar os estudantes sofriam as sanções do Estado, da família e da escola, eram tidos como anarquistas, baderneiros, aqueles que se voltavam contra os líderes. Com isso, não eram respeitados em suas ambições enquanto jovens, mas duramente criticados e punidos.Com as mudanças no modelo educacional, a concepção construtivista e sociointeracionista colocadas em prática nas últimas décadas, a escola passou a ser o local onde o sujeito conquista sua identidade, deixa de ser filho do fulano, mas passa a ser um elemento importante para o grupo. Além disso, essas mudanças sociais tornaram as práticas docentes mais produtivas, mais abertas e voltadas para os interesses dos alunos, da comunidade, pondo em prática discussões acerca de temas políticos, problemas da sociedade, meio ambiente, sexualidade, levando o professor a ser o grande instrutor das dinâmicas da sala. As relações entre professor aluno ficaram abertas, onde cada um expõe as informações que trazem acerca dos temas abordados, fazendo-se do espaço da sala de aula o verdadeiro ambiente da circulação do conhecimento. O professor não precisa mais gritar pelo silêncio ou castigar os indisciplinados. Pelo contrário, sua prática docente exerce as práticas dos bons valores morais, do respeito ao próximo, dos direitos e deveres a serem cumpridos. Conquista através da amizade e do diálogo um espaço que antes não existia na relação professor aluno, afastando a indisciplina, aproximando do saber. E nada de pensar que o limite não faz parte desse processo. Pelo contrário, este deixou de aparecer pela lei do mais forte, passando a vir como forma de combinados entre o grupo, como regras a serem cumpridas e respeitadas, perdendo o seu caráter de imposição, que antes fazia os mais críticos não as aceitarem. Hoje, obtêm-se bons resultados em razão do exercício da liberdade consciente, apontando que esta é a melhor forma de se atingir os objetivos do trabalho pedagógico. Com isso, mobiliza-se o grupo pelo desejo de vencer as etapas e conquistar o sucesso».

Um dos melhores filmes que apresenta como protagonista um mestre antimodelo e autoritário, foi realizado em 1944 pelo realizador sueco Alf Sjöberg, com roteiro do mais importante cineasta sueco Ingmar Bergman. Sob o título de Tortura do desejo, é o filme que escolhi para o presente depoimento da série As Aulas no Cinema.

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FICHA TÉCNICA DO FILME:

    Título original: Hets (Tortura do desejo).

Diretor: Alf Sjöberg (Suécia, 1944, 101 min., preto e branco).

Roteiro: Ingmar Bergman. Produtora: Svensk Filmindustri.

Fotografia: Martin Bodin. Música: Hilding Rosenberg.

Prémio: Grande Prémio do Festival de Cannes (1946).

Nota: Pode ser visto entrando em: http://www.filmesdetv.com/hets.html

Atores: Stig Järrel (Calígula)Alf Kjellin (Jan-Erik Widgren)Mai Zetterling (Bertha Olsson), Olof Winnerstrand (O Diretor)Gösta Cederlund (Pippi)Hugo Björne (Dr. Nilsson)Olav Riégo (Sr. Widgren)Märta Arbin (Sra. Widgren), Jan Molander (Pettersson) e Stig Olin.

Argumento: Um professor de latim sádico, apelidado pelos alunos de Calígula, rege suas aulas como um tirano. Mostra-se particularmente rígido com Jan-Erik Widgren. Numa noite ao retornar para casa, Widgren encontra uma moça chorando, Bertha. Decide ajudá-la e reconduzi-la para casa. Mas esta aproximação irá desencadear uma série de eventos cada vez mais nebulosos e ameaçadores.

Comentário por Jorge Rocha: «À partida este filme apresentado na Cinemateca interessou-me porque se tratava do primeiro argumento de Ingmar Bergman para cinema. Mas, para além dessa curiosidade de cinefilia pura, “Tortura” constituiu uma bela descoberta não só pelo tema – o da relação de poder entre pessoas colocadas em posições sociais desiguais – mas também pela maravilhosa fotografia de Martin Bodin. Temos como protagonista o finalista Widgren a enamorar-se da empregada da tabacaria junto à escola, sem saber da opressão nela exercida pelo mesmo professor que aterroriza a sua turma.

Porque é que se tortura alguém até ao ponto de se o levar a morrer de causas ambíguas (de excesso de álcool ou de desespero?)? Será plausível que o torturador seja um monstro a conta com as suas próprias assombrações?

    No contexto em que o filme foi rodado, o do final da Segunda Guerra Mundial, as leituras possíveis são múltiplas ou não fosse esse um tempo de medo à solta por toda a Europa! E em que os fracos morriam sem remissão só porque a força bruta sobre eles exercida não conhece travão! Bergman esboça aqui temas que abordará nos seus filmes posteriores…».

 

tortura-do-desejo-foto3    UM FILME IMPORTANTE E SURPREENDENTE:

    Óscar Álvarez, no seu interessante blogue dedicado ao cinema mundial e aos filmes mais destacados e surpreendentes, analisa muito bem o filme sueco de Alf Sjöberg. Tomamos como base o seu comentário sobre o mesmo. Nos princípios dos anos 40, época em que se encontra trabalhando como roteirista, o jovem Ingmar Bergman recupera um relato que tinha escrito sobre o seu último ano de secundário e o transforma no que vai ser o seu primeiro roteiro original, intitulado Tortura (Hets), uma história crítica com o sistema educativo sueco. A estupenda adaptação dirigida por Sjöberg, um dos mais prestigiosos cineastas suecos do momento, dá-lhe também a Bergman a possibilidade de colocar-se pela primeira vez atrás da câmara, ao encarregar-se-lhe a direção da última cena do filme, embora não apareça nos créditos. O próprio Bergman, no seu livro Imagens (Bilder, 1990), conta-nos a evolução dum roteiro que originalmente versava sobre os difíceis anos da adolescência e o rígido ensino do colégio em que estudou (um dos estudantes que aparece no filme, muito em segundo plano, apelida-se Bergman) até converter-se num filme muito mais rico e complexo. Sjöberg conserva os elementos originais, embora a crítica ao sistema educativo apareça suavizada nas figuras de um dos professores e do diretor da escola, no entanto leva a história para o drama psicológico e criminal, centrando-a no relacionamento tripartido das personagens principais: o estudante Jan-Erik, o sádico professor de latim a que alcunham de Calígula e a empregada da tabacaria Bertha, que mantém uma relação amorosa com o estudante e uma estranha e doentia submissão sexual perante o professor, da qual é incapaz de se libertar e que terminará tragicamente.

Com elementos naturalistas e uma estética devedora do expressionismo alemão, que lembra também o cinema de Renoir e de Fritz Lang, com toques de cinema negro e inclusive de terror, Tortura torna-se um esplêndido e surpreendente filme a recuperar, dominado pelo grande ator que é Stig Järrel dando vida a um professor que desfruta com o tirânico domínio que exerce sobre os demais, embora não seja na realidade mais que um doente solitário e inseguro de si mesmo que precisa da violência para se fazer respeitar. A sua presença, aparecendo no ecrã ou representado como uma sombra ameaçante, outorga ao filme os seus melhores momentos.

AS CARATERÍSTICAS DUM BOM DOCENTE:

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    O filme de Sjöberg apresenta de forma meridiana um antimodelo de professor e o que nunca deve fazer um docente. A pedagoga Gabriela Mistral no seu dia escreveu um lindo poema em prosa sobre o que deve ser um mestre-a, que já comentámos num depoimento anterior. Pela sua parte, o nosso melhor pedagogo, Manuel Bartolomé Cossío, considerava acertadamente que o mestre era a verdadeira «alma da escola», e comentava também as qualidades que devia reunir. O meu admirado Tagore tinha muito claro qual devia ser o modelo de mestre. Numa palestra que proferiu na Escola Normal de Tóquio, numa das suas viagens ao país nipónico, dirigindo-se aos futuros mestres, diz-lhes estas lindas palavras, que falam por si mesmas: «Sei que alguns dos que me escuitam estão estudando para serem mestres. Essa é também a minha vocação, embora não me preparassem para isso. Eu tenho uma escola onde tentamos inculcar às crianças a ciência melhor e os mais altos ideais da vida. Hei de confessar que eu fui um malandro e que deixei de ir à escola quando tinha treze anos; com o qual o meu exemplo não é bom para seguir; embora depois tratasse de recuperar o tempo perdido e me pusesse a esta tarefa de ensinar às minhas crianças de Bolpur (Santiniketon). Para ser mestre de crianças é completamente necessário ser como uma criança, esquecer o que sabemos e que temos chegado ao termo dos conhecimentos. Se quisermos ser um verdadeiro guia de crianças, não há que pensar em que se tem mais idade, nem que se sabe mais, nem nada do género; há que ser um irmão mais velho, disposto a caminhar com as crianças pela mesma senda do saber elevado e da aspiração. E o único conselho que posso dar-vos nesta ocasião, se tendes que dedicar-vos a ensinar aos filhos do homem, é este: que cultiveis a alma da criança eterna».

Num formoso artigo publicado no Brasil em 2008 por Rodrigo de Rosso Krug e Hugo Norberto Krug, assinalam-se as caraterísticas essenciais para ser um bom docente. As quais resenhamos a seguir, pelo seu grande interesse:

-Ter boa didática, utilizando métodos adequados e motivadores.

-Ter domínio do conteúdo do que ensina e da sua disciplina.

-Ser respeitador, pois os alunos são seres humanos importantes.

-Ser criativo, fomentando a criatividade nas diferentes expressões que existem

-Gostar do que faz. Para ser mestre é fundamental que gostes deste ofício.

-Ser educador. Antes que instruir o importante é educar as crianças.

-Ser planejador. O mestre deve saber programar e planejar o seu ensino e as atividades a realizar.

-Ser atualizado. O mestre deve conhecer os novos avanços na educação e estar atualizado lendo.

-Ser profissional. Para mestre não serve qualquer um e tem que adquirir prestígio no seu trabalho.

-Ser orientador. Saber orientar os alunos e os pais, tanto na orientação escolar, como vocacional.

-Ser justo. Para isto deve ter bons valores éticos.

-Ser dinâmico. A alegria tem que ser uma das melhores virtudes do mestre.

-Ser incentivador: Saber utilizar as melhores estratégias motivadoras, para provocar o interesse.

-Ser exigente. Porém, ter flexibilidade, não autoritarismo.

-Ser persistente. Não desanimar nunca. Os mestres inovadores têm que ter esta virtude.

-Ser amigo. Para os alunos, ademais dos pais, os docentes devem ser seus melhores amigos.

-Ter cultura geral. O verdadeiro mestre tem que estar atualizado e ler sempre e muito.

-Ser comunicativo. Sem comunicação não há educação. Dominar as técnicas comunicativas

-Ser compreensivo. Cada aluno é um mundo, com o seu temperamento específico.

-Ser interessado. Preocupar-se, sem agoniar-se pelo que se faz, pelo seu trabalho diário.

-Ser inteligente. Uma das qualidades mais importantes que deve reunir um docente.

-Ser eficiente. Atingir bons resultados com seu esforço e nunca decair.

-Ser atencioso. Em primeiro lugar para as crianças e depois para os pais.

-Ser honesto. Não se pode ser bom mestre se não se tem honestidade. O mestre predica com o exemplo.

-Ser objetivo. Procurar sempre isolar todo o tipo de subjetividade, pois não se deve prejudicar o aluno.

-Ser consciente. Os inconscientes, os que não sabem refletir sobre o que fazem e o que se passa, não servem para ser mestres.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

    Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo do filme antes resenhado.

Organizamos no nosso estabelecimento de ensino um Certame Literário, no qual participem os escolares com os seus textos livres, redações, poemas, fábulas, contos, artigos, depoimentos, a escolher por eles. O tema do mesmo deve ser: «O que eu penso que deve ser um bom mestre-a». Depois, um júri de alunos e docentes escolhe aqueles trabalhos que considere mais acertados, mais lindos e criativos. Com eles pode editar-se ou policopiar-se um caderno ou monografia.

Desenvolvemos um Livro-fórum, depois de escolher entre todos um livro para ler, cujo conteúdo seja o de modelos positivos de docentes, mestres ou educadores. Entre eles podem servir os seguintes: Pedagogia do bom senso, de Freinet (São Paulo, 1996); Pedagogia da esperança, de Paulo Freire (1992), ou Carta a uma mestra, pelos alunos da Escola de Barbiana de Lorenzo Milani (1967).

 

 

 

 

 

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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